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DIAL P FOR POPCORN

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TOY STORY 3 (2010)

«O nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade» - C. Chaplin

Se a frase de Chaplin é, por si só, verdadeira, sê-lo-á muito mais quando falamos dos argumentistas e realizadores da Pixar. Que grupo de homens de expecional talento e de ainda mais extraordinário sentido de contar histórias. E histórias que não são só para crianças, que abordam assuntos do quotidiano, problemas da vida adulta.


E quando eu pensava que "Up!" tinha encerrado um ciclo fabuloso de grandes filmes em sucessão ("Ratatouille" em 2007, "Wall-E" em 2008 e "Up!" em 2009 - que ainda por cima não foi o primeiro destes ciclos para Pixar, que já tinha tido um semelhante anteriormente - "Monsters, Inc." em 2001, "Finding Nemo" em 2003 e "The Incredibles" em 2004 - e que teria chegado imaculado até aos dias de hoje não fosse o fracasso de "Cars" em 2006), eis que a Pixar saca do chapéu mais uma obra-prima, surpreendendo-me principalmente porque não achava possível dar novo ar a uma franchise cuja história me parecia, até ver, satisfatoriamente encerrada. Contudo, é óbvio que John Lasseter e a Pixar a ela voltariam, uma última vez.



Como muitos, já tinha dado como certo que "Inception" seria o recipiente do título de Melhor Argumento Original do ano. Depois de ver este "Toy Story 3", acho que vai ser uma luta renhida. Além da brilhante (e já característica) forma de revelar o enredo da história, muito simplificada, sem grandes reviravoltas, sem criar grandes tensões no desenvolvimento das personagens, com uma reduzidíssima quantidade de diálogo e bastante acção. As cenas mais interessantes do filme processam-se de facto a grande velocidade e sem recorrer a muito diálogo, residindo a sua essência nas expressões das personagens e no grande trunfo que a saga Toy Story tem sabido manter e aproveitar: a nossa familiaridade com as personagens. Personagens que conhecemos há década e meia atrás, personagens que abandonámos há onze anos, mas que, não sei como (sem dúvida um dos trunfos deste argumento) nos parecem tão frescas e tão vivas como em 1999, mas rejuvenescidos, amadurecidos, evoluídos. O que é impressionante. Mesmo a apresentação de novas personagens parece-nos tão natural e tão desafiante que não admira o sucesso que o estúdio de facto tem. É que tudo parece tão fácil e tão simples num filme deles. E depois claro, todas as personagens foram alvo de uma caracterização na mouche, conferindo-lhes uma personalidade que poucos julgariam identificar-se com o aspecto exterior (veja-se o exemplo do Ken) e uma originalidade que só pode ter a marca Pixar.


E para este filme a Pixar guardou o que melhor aprendeu a fazer com as experiências passadas de "Wall-E", "Ratatouille" e "Up!" - vários verdadeiros "socos no estômago", momentos dramáticos que nos reviram as entranhas e nos fazem sentir o pior dentro de cada um de nós. Começamos por encarar a dura realidade: Andy tem que abandonar os seus brinquedos. Quem nesse momento não começou a pensar nos seus antigos brinquedos e onde os tem arrumados e não se sentiu mal por os ter esquecido. Depois, o que fazer com eles: mais cenas enternecedoras - e ver a união que se criou, perante os nossos olhos, entre aqueles brinquedos, é desconcertante. Andy escolhe o sótão em vez do lixo, mas num acaso do destino (como não podia deixar de ser, obviamente), os brinquedos acabam todos numa creche. Sunnyside aparenta ser o paraíso e todos os brinquedos, excluindo o sempre desconfiado (mas bem intencionado) Woody, se sentem maravilhados com tudo o que vêem.  Depois de sermos introduzidos às novas personagens, novo soco no estômago: elas não são tão boazinhas como parecem e os nossos brinquedos sofrem cruelmente nas mãos das crianças mais novas (enquanto os outros brinquedos novos a que fomos apresentados se divertem na outra sala, a das crianças da pré-escola, mais velhas. Woody consegue fugir mas, como seria (de novo) de esperar, parte em auxílio dos seus companheiros. Após uma incrível cena de fuga, o impensável acontece (e novo momento fulcral no filme, de uma intensidade dramática incrível - de vir lágrimas aos olhos): os nossos brinquedos vão ter um fim antecipado num aterro sanitário. 


O que se seguiu foi... indescritível (é inacreditável como a saga Toy Story mexe tanto com as nossas emoções, explorando um ponto que nos é a todos comum, que é do mais inerente do nosso ser: a compaixão por aqueles brinquedos, pois todos os tivemos e, de uma forma ou outra, os fomos abandonando). Os brinquedos safam-se e terminam assim a sua jornada, num lugar onde finalmente se sentem pertenças de alguém, de novo. E eu, que não era um apaixonado pela saga, fiquei irremediavelmente perdido de amores. E saí do cinema numa sensação de extasia e alegria tal que jurei chegar a casa e também eu pegar de novo, uma última vez, nos meus antigos brinquedos. E assim fiz. Este rol de cenas, bastante provocador e, claro, manipulativo, serve como uma espécie de janela ao nosso passado, isto é, permite-nos ver o nosso passado, as nossas memórias de infância, com olhos de adulto (claro que só será assim para quem foi crescendo acompanhando os filmes Toy Story, como é o meu caso). E isso é algo deste filme que eu vou guardar para sempre com carinho.


E, por muito difícil que tenha sido para Andy abandonar estes seus brinquedos (tendo-nos presenteado com uma introdução, nas suas palavras, a cada um deles), não nos será menos a nós. Quinze anos volvidos, a história de brinquedos mais famosa de sempre chega a um fim. E nós... temos que  nos sentir simplesmente honrados por termos sido escolhidos para vivenciar tão grande aventura.

Nota: A-

Certamente quem viu o filme vai perceber a piada deste vídeo:

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