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DIAL P FOR POPCORN

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HOPE SPRINGS (2012)


Deve ser um prazer ter uma intérprete como Meryl Streep a protagonizar uma comédia. A actriz, profissional consumada, exímia no drama e na comédia, eleva qualquer material em que põe as mãos e transforma o que poderia ser uma comédia mediana em algo acima da média. Em "HOPE SPRINGS", mais uma vez a magia de Streep é palpável. Não está, desta vez, sozinha - encontra um oponente à altura em Tommy Lee Jones, rejuvenescido depois de um marasmo de carreira nos últimos anos. O filme é, basicamente, a colaboração dos dois. Tudo o resto é acessório. O realizador David Frankel teve uma decisão simples a tomar: deixá-los fazer o seu trabalho.


O filme começa com a constatação que a vida deste casal está por um fio. Kay (Streep) e Arnold (Jones) são um casal suburbano com problemas no casamento, como tantos outros. A convivência é estarrecedora, com poucas trocas de palavras e apenas gestos rotineiros pelo meio do seu dia-a-dia. E assim avança o tempo. Até que Kay, farta de se sentir solitária e menosprezada, finalmente se presta a dizer basta e sacrifica a sua vida pacata por um acto absolutamente radical - que poderá todavia mudar de uma vez por todas o seu casamento. É nesta primeira metade que é possível apreciar o quanto o talento de ambos os actores contribui para melhorar o filme: a raiva interna de Arnold por ser incapaz de acompanhar o novo estado de espírito de Kay e, ao mesmo tempo, o desespero de Kay por querer simultaneamente que o marido reaja e por estar cansada de esperar que este mude e a deixe de ignorar. Uma cena particularmente tocante ocorre quando o terapeuta - interpretado com uma classe e tranquilidade admiráveis por Steve Carell - lhes propõe um cenário sexual bastante distante do que é hábito do casal. O olhar enternecedor de Meryl, ao ver que Arnold a rejeita, transforma-se de repente num ar de autocomiseração, tristeza e vergonha que é impossível não querer saltar para a tela e, naquele momento, abraçá-la e dizer que tudo vai ficar bem.


Os dois protagonistas merecem elogios pela familiaridade e vulgaridade com que interpretam Kay e Arnold. Streep em particular é impressionante na forma como de novo (já cansa dizer isto) desaparece no papel desta comum e frágil mulher que só deseja voltar a ser amada pelo marido como antes. Perfeita na simbiose com Jones, cujo trabalho na segunda metade do filme é notável, ao ter que deixar a sua zona de conforto e divertir-se um pouco (algo incomum na maioria da filmografia de Tommy Lee Jones), pois para ganhar Kay de volta, Arnold vai ter de arriscar em situações que nunca julgou ser capaz de concretizar.


As sessões com o terapeuta (Carell) são indubitavelmente os momentos mais fortes do filme, particularmente nas primeiras sessões quando demasiadas verdades são lançadas para o ar e nenhum dos dois membros do casal está preparado para encarar a dura realidade que estão há demasiado tempo sem contactarem intimamente um com o outro. Altos e baixos, momentos de felicidade e melancolia, vão-nos informando do quanto este casal mudou com os anos. É nestes momentos que o filme larga o rótulo de comédia romântica e se torna algo mais. Não compensa por algumas partes do filme bem mais ridículas (todas as cenas com Elizabeth Shue são escusadas; e creio que só não foram editadas no final porque Shue é ainda um nome de respeito em Hollywood) mas seguramente que lá estão para nos lembrar, pelo menos numa apreciação geral, que o filme tenta fugir à maioria das convenções - e em parte o consegue. Uma nota ao terrível acompanhamento musical do filme, que rivaliza com "Chéri" na banda sonora mais inadequada que eu me lembro de ouvir num filme. É especialmente confrangedor ver cenas de aparente tristeza acompanhadas por música alegre e esperançosa. Amadorismo.


Incrivelmente especial e honesto, vincando com convicção as apreciações que tem a tecer sobre as dificuldades de um casamento, da intimidade e da sexualidade na flor da meia-idade, com duas interpretações gigantes de Jones e Streep, "HOPE SPRINGS" torna-se muito mais que uma simples comédia romântica. É um filme obrigatório para todos quantos pretendem completar a sua formação cinéfila de 2012. É um dos pequenos grandes filmes do ano. Sem ninguém (friso: ninguém) esperar que o fosse ser.


Nota:
B/B+ (8/10)

Informação Adicional:
Realização: David Frankel
Argumento: Vanessa Taylor
Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carell, Elisabeth Shue, Jean Smart
Ano: 2012
Música: Theodore Shapiro

LINCOLN (2012)



Como retratar o homem sem sacrificar a lenda? Como pegar numa personagem que parece ao mesmo tempo tão familiar e desconhecida? Sobejamente elogiado pelos historiadores, emulado por tudo quanto é político moderno, amado pelo povo e ainda hoje considerado dos melhores - senão o melhor - presidente de sempre dos Estados Unidos da América. Como pegar em Lincoln e mostrar um homem diferente daquele que todos nos habituamos a conhecer? Pois bem, é simples. É dá-lo a Daniel Day-Lewis, o actor com mais versatilidade, carisma e talento do mundo. Aquele superior trabalho de caracterização ajuda a desaparecer na personagem, mas é a mudança de voz, a internalização, a solenidade, o peculiar sentido de humor e a gentileza de alma que ajudam Day-Lewis a verdadeiramente transformar-se em Abraham Lincoln - o homem, não a lenda. 


"Lincoln" vive sobretudo desta interpretação magnífica e reverente de Day-Lewis, que decide abordar o lendário advogado e político tornado Presidente pelo povo americano em 1861 através da sua figura pacata e simples, bondosa e amável, estimada por todos. E o filme realmente funciona assim que Day-Lewis floreia os belíssimos discursos e diálogos preparados com rigor e importância pelo inexcedível Tony Kushner, a real estrela da película. O seu argumento, pese uma ou outra linha de diálogo mais tormentosa e alguma desesperante e interminável necessidade de expor as situações na primeira hora, é um espectáculo. Dinâmico, dá cor e vida à política e passa uma lição importante sem parecer enfadonho e, sobretudo, arrogante e académico, como se estivesse em cima de um pedestal. Tal como faz na sua peça vencedora de Pulitzer posteriormente adaptada pelo próprio para minissérie da HBO realizada por Mike Nichols - "Angels in America", Kushner transmite-nos a verdade, o que é realmente pertinente e acima de tudo que a política é feita por pessoas e que a humanidade ultrapassa sempre o indivíduo. As cenas na Casa dos Representantes são especialmente inspiradas e apaixonantes.


Day-Lewis não é, contudo, o único actor a admirar no filme. Encabeça um enorme elenco, composto por grandes actores, de Jared Harris a Lee Pace, de David Costabile a Hal Holbrook, todos a trabalhar a alto nível e é brilhantemente auxiliado por interpretações igualmente espantosas de Sally Field (uma surpresa, de volta aos grandes papéis), David Strathairn (desde 2005 a trabalhar de forma variada e prolífica) e Tommy Lee Jones (igual a si mesmo, mas com uma faísca que há muito não se via - e em 2012 apareceu a dobrar, com isto e "Hope Springs").


Infelizmente, "Lincoln" é relativamente maçudo na primeira hora, com algumas cenas que não compensam de todo o investimento na história geral da película (uma segunda hora dinâmica e consistente perde valor com aquela interminável "introdução"), alguns actores estão claramente a mais (Joseph Gordon-Levitt é quem me salta logo à cabeça), a palete de cores de Kaminski é muito taciturna e cinzenta e até John Williams parece mais aborrecido que o habitual, com uma banda sonora reciclada e cansada. Steven Spielberg, apesar de merecer palmas pelo auto-controlo exercido (o quanto não sofreu "War Horse" de demasiado Spielberg), não consegue oferecer ao filme a magia de que outrora dispunha e deixa, mais vezes do que devia, o filme fugir para uma amálgama de melodrama absolutamente inapropriada. É uma pena que o filme alterne mais vezes do que devia a mediana com momentos de puro génio, mas é assim. Quando o elenco surge em conjunto no Congresso ou interage com Day-Lewis, o tempo voa e o filme brilha. É pena que viva de cenas, de momentos. Se todo o filme fosse composto com mais cuidado, melhor editado - e sim até o argumento merecia um polimento - teria saído bem melhor. Que esteja a receber os elogios que tem recebido só mostra que a lenda de Lincoln ainda importa a muitos americanos.



Nota:
B (7/10)

Realização: Steven Spielberg
Argumento: Tony Kushner
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, Lee Pace, David Costabile, David Strathairn, James Spader, John Hawkes, Jared Harris, Hal Holbrook, Joseph Gordon-Levitt, Tim Blake Nelson, Bruce McGill, Michael Stuhlbarg, Walton Goggins, Adam Driver, Jackie Earle Haley
Fotografia: Janusz Kaminski
Música: John Williams
Ano: 2012