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DIAL P FOR POPCORN

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THE IDES OF MARCH (2011)



"Get out, now. Or otherwise you end up being a jaded, cynical asshole, just like me."

Mesmo falhando na sua análise crítica às maquinações e jogadas de bastidores por detrás de uma campanha política, deixando tudo muito no ar, numa área cinzenta que não compromete nem provoca grande fricção, "THE IDES OF MARCH" é, ainda assim, um thriller político de inequívoca qualidade, sabendo ser inteligente e sagaz na forma como intersecta a vida pessoal, a vida familiar, a vida profissional e a vida política deste grupo de indivíduos sem complicar muito, como procura momentos de tensão e aparente ameaça sem sair forçado e conseguindo capturar o interesse do espectador e a sua atenção para as respostas que tenta encontrar, metaforicamente, para o panorama político-social ficcional - e o actual, real.


Baseado na peça "Farragut North" de Beau Willimon (por sua vez livremente inspirada na campanha falhada de Howard Dean em 2004), que a estreou off-Broadway em 2008 em altura de grande esperança para o povo americano, com a vitória de Obama fresca na memória, "THE IDES OF MARCH" surge agora três anos depois, quando a desilusão e o desapontamento com a governação de Obama cresce dia após dia e numa altura em que a crise económica ameaça ser notícia por mais algum tempo, parecendo aparecer na altura ideal para explorar assuntos tão coloridos como políticas de bastidores, tácticas de corrupção, manipulação e jogo sujo que mancham a campanha até do mais nobre e leal dos candidatos. Com um olhar cínico e desaprovador, Clooney e o seu fiel colaborador Heslov juntam-se para adaptar o texto original de Willimon, conferindo-lhe uma voz mais específica, mais contemporânea, mais pró-activa e moralista. O resultado não é fabuloso e tão pouco subtil, mas funciona. Apesar de algumas situações em que Clooney parece projectar o seu idealismo e activismo político na fachada do seu protagonista, transformando a cena em algo mais ou menos aplausível, ingénuo e irrealista, o argumento é especialmente incandescente nas cenas de maior tensão, absorvente e criminalmente divertido quando os políticos entram em confronto.


A história abre com um pequeno monólogo de Stephen Meyers (Ryan Gosling), que afirma: “I’m not a Christian. I’m not an atheist. I’m not a Muslim. I’m not Jewish. I believe in the American constitution.” Uma pequena hesitação da sua parte parece-nos querer levar a alguma revelação ou segredo escondido, mas nada. Momentos depois apercebemo-nos que Stephen está apenas a testar o som da sala onde o governador Mike Morris (George Clooney), seu patrão e candidato à presidência dos Estados Unidos da América, irá discursar mais tarde e assim este pequeno exercício de retórica acaba de fazer todo o sentido. Estamos nas primárias no estado de Ohio, onde Mike Morris procura vencer e ultrapassar o seu competidor directo, o senador Pullman (Michael Mantell), cuja campanha está a ser organizada por Tom Duffy (Paul Giamatti), rival pessoal do organizador de campanha de Morris, Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), na corrida pelo voto democrático. Para Mike Morris trabalha também a interna Molly Stearns (Evan Rachel Wood) que procura dar os seus primeiros passos no mundo obscuro da política.

O elenco do filme acaba mesmo por ser o seu ponto forte, com um soberbo Ryan Gosling a aguentar-se no frente-a-frente com George Clooney, Paul Giamatti e Philip Seymour Hoffman. Gosling, que está a ter um ano enorme (com "Crazy, Stupid, Love" e "Drive"), tem aqui a sua interpretação mais rigorosa, mais clara e definida. O argumento não ajuda, no entanto, a pintar um retrato fiel e completo de Stephen, nunca permitindo penetrar fundo na sua personalidade e na sua psique, deixando-nos com um retrato superficial e desonesto de um personagem a quem é pedido para ser simultaneamente cínico e honrado, justo, convicto. A pessoa que merece ressalva do restante elenco é, sem dúvida, Evan Rachel Wood, a igualar o nível de brilho que nos mostrou recentemente em "Mildred Pierce" e no longínquo "thirteen" (que lhe devia ter garantido a sua primeira nomeação para os Óscares). Desde cedo a personagem mais promissora da trama, Wood não nos desilude, aproximando-se do espectador com o seu jeito despreocupado mas afectuoso, dando humanidade e vida a esta personagem emocionalmente ressonante mas que é ridiculamente descartada por Clooney e Cª por capricho da narrativa. Um último elogio para Seymour Hoffman, que habitualmente me faz ranger os dentes à custa da forma muito emotiva e aberta (à falta de melhor palavra) como aborda as suas personagens, conferindo-lhes uma personalidade impulsiva e intempestiva que nem sempre é o que é necessário. Está muito bem e cumpre a sua função. Se há alguém que é nomeado deste filme, é ele. Tirando o elenco, o filme está muito bem servido de banda sonora (uma vez mais, não há como errar com o sublime Alexandre Desplat) e de realização. Se com "Good Night and Good Luck" me surpreendeu, aqui George Clooney deixou-me boquiaberto. Uma realização de luxo, a revelar que o actor realmente tem inúmeros talentos e recursos ao seu dispor.


Um filme que resolve terminar como começou, sem nos dar grandes respostas nem revelações e à espera que  as peças tenham todas encaixado, acaba por nos deixar um grande amargo de boca em vez de nos procurar questionar e fazer reflectir. Eloquente mas inconsequente, ambicioso mas vaidoso, "THE IDES OF MARCH" compõe uma intriga curiosa e atraente que não resiste, infelizmente, à sua mania de superioridade e dono da razão (a ponto de para o fim o cínico quase parecer irónico) e opta por não se comprometer, ao alcançar uma conclusão amoral de que todos temos que nos adaptar e sobreviver para podermos subir na vida, precisamente o tipo de mensagem cliché e limitada que o próprio filme tanto procura desconstruir. É uma pena que o filme acabe por ser uma espécie de embuste, por tanto prometer expor e por tão pouco se conseguir retirar de pertinente. 


Nota Final:
B/B+

Informação Adicional:

Realização: George Clooney
Argumento: George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon
Elenco: George Clooney, Ryan Gosling, Evan Rachel Wood, Philip Seymour Hoffman, Marisa Tomei, Paul Giamatti
Fotografia: Phedon Papamichael
Banda Sonora: Alexandre Desplat
Ano: 2011 

Trailer:

De olhos postos em Veneza

Antes de mais, queria pedir desculpa pela minha ausência relativamente prolongada das lides do blogue. Penso contudo que não ficaram mal abandonados porque o Samuel esteve por cá e continuou com o nosso mês especial de celebração do nosso primeiro aniversário com a excelência do costume. Cabe-me a mim continuar agora, que ele também tirou uns dias para descansar.

A época balnear está praticamente a acabar e, com ela, a quietude e os projectos cinematográficos de largo orçamento que populam os nossos Verões - habitualmente uma mistura de comédias e filmes de acção e de super-heróis - esvaem-se da nossa mente para dar lugar àquela que é, afinal, todos os anos a nossa razão de acompanhar a corrida aos Óscares: a silly season, ou, se quisermos, a época dos festivais. Veneza, Telluride, Toronto e Nova Iorque estão aí à porta e todos prontos para iniciar campanhas, desvendar obras-primas, destruir esperanças e sonhos e, acima de tudo, proporcionar uma primeira visualização dos grandes títulos dos candidatos deste ano.

Confesso que este ano decidi deixar para bem mais tarde do que o costume as minhas primeiras previsões aos Óscares. Está a ser um ano difícil de desvendar e, ao contrário do que me é habitual, não tenho mais do que uma ou duas certezas por categoria. São dúvidas a mais para estar a vislumbrar sem ter visto os filmes e são demasiados projectos de prestígio inegável para me estar a multiplicar em contas e raciocínios sem fim. Decidi esperar pelo final de Veneza e Telluride e antes do início de Toronto para acertar os meus cálculos e redigir as minhas primeiras impressões ao que poderá ser a corrida deste ano.


Do que 2011 já nos trouxe, penso que só quatro filmes, até agora, se poderão considerar verdadeiros candidatos a nomeações nas principais corridas: o madrugador e envolvente "Jane Eyre" de Cary Fukunaga, a brilhante ressurgência de Woody Allen com "Midnight in Paris", a nova tese experimental de Terrence Malick - e vencedor da Palma de Ouro do mais recente Festival de Cannes, "The Tree of Life" e a improvável história de sucesso que Tate Taylor tem em "The Help". Obviamente que fãs dedicados dirão que "Bridesmaids", "Harry Potter and the Deathly Hallows: Part II", "Rise of the Planet of the Apes" ou "Super 8" têm argumentos para competir em Dezembro. Sendo realistas, penso que a sua melhor hipótese é uma ou outra nomeação em categorias técnicas. Pouco mais. O que temos depois, de resto, são muitas suposições. Não custa a ninguém dizer que Clint Eastwood, Alexander Payne, David Cronenberg, George Clooney, Steven Spielberg, Stephen Daldry, David Fincher e Roman Polanski, entre outros, serão nomes a temer na corrida deste ano. O que é difícil é que cada um dos filmes destes magníficos realizadores atinja o sucesso que deles é esperado. Comprovar as expectativas é o que todos eles desejam - mas a época de festivais não costuma ser sinónimo de felicidade para todos.


É por isso, então, que todos os olhos estão a partir de hoje postos em Veneza, nas belas praias do Lido, no festival mais antigo do Mundo, onde reina o glamour e o charme de Hollywood sem se esquecer que o importante é o Cinema. Amanhã (hoje, aliás, já passa da meia-noite em território português), dia 31 de Agosto, o Festival de Veneza abre com o seu maior trunfo: a estreia mundial de "The Ides of March", produzido, escrito e realizado por George Clooney, que também protagoniza ao lado de Ryan Gosling e secundado por um elenco impressionante onde se contam os nomes de Marisa Tomei, Philip Seymour Hoffman e Paul Giammati, entre outros. Se o filme for tão bom quanto as expectativas que projecta, será indubitavelmente um dos nomes a marcar presença entre os nomeados para os Óscares deste ano. Frederick Wiseman tem o seu documentário "Crazy Horse" a estrear também no primeiro dia de festival.

Catherine Deneuve na passadeira vermelha antes de "Black Swan", o filme de abertura de 2010


Na quinta-feira, 1 de Setembro, será a vez de Roman Polanski desfilar na carpete vermelha com Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reilly para a estreia mundial de "Carnage". Também a presença de Madonna será sem dúvida marcante, ela que vem a Veneza apresentar o seu novo filme, "W. E.", baseado na história de amor entre o Príncipe Edward e Wallis Simpson, protagonizado por Abbie Cornish, James D'Arcy e Andrea Riseborough. A interpretação desta última tem gerado grande entusiasmo nos bastidores de Hollywood e muitos garantem que uma nomeação para Actriz Secundária é garantida.

Darren Aronofsky, o presidente do Júri da edição de 2011, na estreia mundial de "Black Swan" em 2010


A sexta-feira (2 de Setembro) traz-nos outro dos títulos mais antecipados do ano: Keira Knightley, Viggo Mortensen e Michael Fassbender virão abrilhantar a carpete vermelha e promover a estreia mundial do novo filme do enorme David Cronenberg, que aborda a relação peculiar entre Carl Jung e Sigmund Freud em "A Dangerous Method". Outro grande destaque do dia vai para a exibição integral da mini-série da HBO protagonizada por Kate Winslet e realizada por Todd Haynes: "Mildred Pierce". É também na sexta-feira que o português "Palácios de Pena" de Abrantes e Schmidt faz a sua estreia em Veneza, no mesmo dia em que Philippe Garrel vem mostrar o seu "Un Eté Bruliant" e Ross McElwee vem apresentar o seu mais recente filme, "Photographic Memory".

O dia 3 de Setembro, sábado, traz-nos a estreia do novo filme dos realizadores de "Persepolis", "Chicken with Plums", protagonizado por Mathieu Amalric e Maria de Medeiros, o filme que Giorgos Lanthimos escolheu para suceder a "Dogtooth", "Alps", o documentário "Sal", de James Franco, sobre o ídolo gay adolescente dos anos 50, Sal Mineo e "La Follie Almayer" de Chantal Akerman. Porém, o grande destaque do dia é a estreia do primeiro de dois filmes que Steven Soderbergh tem em contenção este ano, o filme de acção com toques apocalípticos "Contagion", com um elenco de requinte composto por Kate Winslet, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Matt Damon, Lawrence Fishburne e Marion Cotillard. Será um óptimo dia para os paparazzi, obviamente, com tantas estrelas de Hollywood a passar pela Biennale.

Nicholas Hoult na estreia mundial de "A Single Man" em 2009


O dia de domingo, 4 de Setembro, vem com um filme de potencial absolutamente explosivo que não será, todavia, do agrado de todos. Michael Fassbender volta à carpete vermelha, juntando-se desta vez a Carey Mulligan e a Steve McQueen na estreia mundial de "Shame", que aborda a relação tempestuosa entre dois irmãos, um deles viciado em sexo. Outros destaques do dia: a estreia de "Wilde Salome" de Al Pacino, que realiza e protagoniza a película ao lado de Jessica Chastain (que continua a aparecer em todo o lado este ano) e "We Can't Go Home Again" de Nicholas Ray.

A primeira semana de festival fecha na segunda-feira, dia 5 de Setembro, com a estreia mundial de "Tinker, Taylor, Soldier, Spy", uma das grandes incógnitas do ano, de quem se espera tudo. Um elenco bestial, de Tom Hardy a Gary Oldman, de Colin Firth a John Hurt, dirigido pelo sueco Thomas Alfredson ("Let the Right One In") e adaptado de um romance de John Le Carré, o potencial deste filme é inegável. Será que tal se vai traduzir em ouro... ou vai-se desfazer em cinzas? É também na segunda-feira que Todd Solondz volta a Veneza (onde foi feliz em 2009 com "Life During Wartime") para a estreia do seu "Dark Horse" e que Jonathan Demme surge com o seu documentário "I'm Carolyn Parker".

Da segunda semana falaremos precisamente na próxima segunda, em que analisaremos quais os filmes que colocaram a crítica e a imprensa especializada que se deslocou a Veneza em estado de ebulição e quais aqueles que os fizeram entrar num quadro profundo de depressão e começaremos a avaliar, mais a sério, as hipóteses destes filmes em estreia na primeira semana na caça aos Óscares. De relembrar que a segunda semana traz mais candidatos e de diversos tipos, desde o novo filme de Andrea Arnold, "Wuthering Heights", à procura de alcançar o mesmo sucesso que obteve com "Fish Tank", o novo Alexander Sukurov, "Faust" e novas películas de Mary Harron, William Friedkin, Abel Ferrara, Pietro Marcello, entre outros e ainda o português "Cisne", de Teresa Villaverde. Promete.

Vencedor da Copa Volpi em 2009, "Lebanon"

Veneza pode não ter o estatuto de festival propício a campanha para os Óscares (esse é, invariavelmente, Toronto), mas compensa largamente a sua falta de pedigree com uma mostra de fazer inveja a meio mundo. Nos últimos anos emergiu sempre um grande candidato aos prémios da Academia de Veneza - "Black Swan" em 2010, "A Single Man" em 2009, "The Hurt Locker" e "The Wrestler" em 2008 (depois da estreia em Veneza o filme de Kathryn Bigelow viria a ser comprado para distribuição em 2009), "Atonement" e "Michael Clayton" em 2007, "The Queen" em 2006, "Brokeback Mountain" e "Good Night and Good Luck" em 2005, "Vera Drake" em 2004, entre outros exemplos. Outros títulos de destaque no certame italiano dos últimos anos são, por exemplo, "Rachel Getting Married", "Burn After Reading", "Shirin", "Ponyo", "35 Shots of Rum", "Les Plages d'Agnès", "White Material", "The Road", "Soul Kitchen", "Lola", "The Informant!", "Somewhere", "Meek's Cutoff", "The Town", "Machete", "The Constant Gardener", "Cinderella Man", "Corpse Bride", "I'm Not There", "In the Valley of Elah", "The Darjeeling Unlimited", "Lust, Caution", "REC", "Children of Men", "The Fountain", "The Devil Wears Prada", "Inland Empire" e "Lebanon". 

Como se vê, muitos bons filmes têm surgido em Veneza ao longo dos anos. Quais serão os destaques deste ano?

ÚLTIMA HORA: Trailer e Poster de THE IDES OF MARCH




Um dos grandes candidatos aos Óscares deste ano e pronto para abrir o Festival de Veneza (passando depois pelo TIFF e por Telluride), "THE IDES OF MARCH" é realizado por George Clooney (que realizou anteriormente o criticamente aclamado "Good Night and Good Luck") e conta com um elenco impressionante - Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, Evan Rachel Wood e Paul Giamatti. Baseado na peça de teatro "Farragut North", que por sua vez havia sido baseada nas primárias da corrida presidencial de Howard Dean em 2004, "The Ides of March" vê o idealista Steven Myers (Gosling) ter de enfrentar o melhor e o pior quando a sua vida pessoal e a sua vida profissional colidem, enquanto ele navega as águas tempestuosas de uma campanha política quando descobre que o seu candidato, o Governador Mike Morris (Clooney), não é assim tão inocente.





Um trailer que promete e - sobretudo - mais um filme que vem contribuir para que este ano seja realmente o Ano do Gosling ("Crazy, Stupid Love"; "Drive"; "The Ides of March").