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DIAL P FOR POPCORN

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THE DARK KNIGHT RISES (2012)




Sempre apreciei o franco extremismo que vem com a avaliação do trabalho de Christopher Nolan, porque simplesmente não me lembro de em tempos recentes um realizador conseguir elicitar tanto ódio como admiração por parte do grande público e dos críticos, o que faz da sua obra um caso de estudo bastante fascinante de analisar. Para ajudar ainda mais a situação, a Academia tem também uma relação bastante conflituosa com o realizador, sendo capaz de atribuir aos seus filmes um número substancial de nomeações, sendo capaz até de o nomear pela sua capacidade de escrita, mas ignorando-o sempre na nomeação que, no fundo, mais (lhe) interessa: a de melhor realizador. "The Dark Knight Rises", a última peça na trilogia de Nolan sobre Batman, o Cavaleiro das Trevas, vem adicionar mais contexto à discussão.

Para ser mais fácil explicitar a minha análise, organizei as minhas considerações por tópicos:

1. É de longe o filme mais fraco de Christopher Nolan (a par de "Insomnia"), o menos consistente, o que tem o pior argumento e o mais longo, tanto a nível da real duração do filme como da percepção do espectador. "Batman Begins" tem-se transformado, com os anos, no meu favorito pessoal da trilogia, muito devido ao espectacular primeiro acto do filme (e à mais sensacional origem de um super-herói alguma vez projectada na tela); contudo, admito que "The Dark Knight" é o melhor filme dos três e por isso concordo também que lhe tenha dado a melhor nota de entre os três. 


2. A ambição de Nolan é, para mim, o principal problema. A forma épica e ostentosa como aborda os seus filmes, qual David Lean ou D.W. Griffith (ele que é um confesso fã de ambos) e a necessidade quase messiânica de incluir missivas político-sociais nos seus argumentos (que não tem nada de mal, isto se Nolan não passasse o filme todo a pôr em conflito ideias contraditórias) acaba sempre por servir-lhe mais de handicap como de ponto a favor. Acaba assim por negligenciar o essencial na narrativa, que é o desenvolvimento das personagens (algo que Dickens faz tão bem em "A Tale of Two Cities", que serviu de base à temática do filme), é a organização do fio narrativo, a ideia de continuidade, de evolução no espaço e no tempo, noções básicas de que Nolan abdicou em detrimento do seu já habitual estilo errático de expor informação e complicar o enredo (o filme tem partes literalmente incompreensíveis). 


3. A narrativa é sofrível em vários momentos, uma gigante confusão estrutural, sem grande coesão do princípio ao fim, com sequências consideráveis em que nada se passa e depois segmentos loucos em que nem tempo há para respirar entre os diálogos. Outro problema permanente no filme é a forma como usa e abusa dos traumas e tragédias pessoais das personagens para fazer girar a narrativa, mas depois esquece-se de lhes conferir ressonância emocional, fazendo com que algumas personagens pareçam incompletas e com traços de personalidade confusos (de repente lembro-me da bipolaridade das reacções de Miranda Tate em vários momentos do filme ou do intenso dramatismo em torno da relação de Alfred e Bruce Wayne - com todas as interacções das duas personagens a acabar com um (ou ambos) quase em lágrimas). A temática da "dor" (em contraponto com "caos" de "The Dark Knight" e "medo" de "Batman Begins") deveria estar omnipresente no filme, mas Nolan nunca deixa a câmara tempo suficiente nalgumas cenas para podermos contemplar a atmosfera e a sensação de desespero, de desconsolo, de sofrimento, o que é uma pena porque a alegoria de ter Bane como vilão mestre da derradeira película da trilogia, o único que consegue igualar Batman a nível físico e intelectual (não é por acaso que ele é "the man who broke the Bat") e explorar a sua vulnerabilidade física bem como as suas fraquezas e medos soa no final como uma oportunidade ultimamente  desperdiçada. 


4. Dos três filmes, é o que tem o melhor e mais nivelado elenco - não tem uma Katie Holmes, mas também não tem um Heath Ledger que sobressaiam, para o bem ou para o mal. Contém a melhor interpretação de Christian Bale e de Michael Caine da trilogia, incorpora bastante bem as personagens de Joseph Gordon-Levitt e Anne Hathaway, cuja Selina Kyle é facilmente a melhor interpretação do filme. Tom Hardy cumpre o seu papel, muito exigente a nível físico (basicamente a sua interpretação reside no que ele consegue fazer passar com os seus olhos). É só uma pena que pouco tenha sido feito com Marion Cotillard. A personagem e a actriz mereciam mais.

5. No seguimento do ponto 2: Lee Smith é um milagreiro. Que a edição de "The Dark Knight Rises" seja, mesmo com a intervenção salvadora de Smith, medíocre e apenas relativamente consistente explica na perfeição o problema-base de Christopher Nolan na génese deste filme. Não se pode querer falar de tudo, abordar ideias contraditórias, ser infinitamente detalhado e depois querer trocar exposição por acção. É nisto que depois dá - não se sabe bem onde começar e onde acabar de cortar. Hans Zimmer é, também ele, um milagreiro. A banda sonora é, aliás, das poucas coisas que realmente funciona em pleno no filme. Os valores de produção são também de qualidade inegável, com efeitos especiais incisivos e delicados, que ajudam a aumentar o realismo da trama e, assim, o suspense e o drama.

6. O filme demora a encontrar o seu ritmo, mas quando o encontra, não pára de crescer, compensando as hesitações e inconsistências com um majestoso terceiro acto - a roçar o sublime, mas que ainda assim aproveita o sentimentalismo para fazer avançar a história - e que acaba por encerrar a trilogia em nota alta de execução (ainda assim, aquele epílogo ainda me fez revirar os olhos várias vezes, mesmo se me agrada a ideia final que Nolan deixa de Batman ser mais um símbolo que um homem!).



Bruce cai ao poço em "Begins" / Bruce trepa o poço em "Rises" - o primeiro acto e o último ano da trilogia, numa das muitas conexões entre as três películas

Que Nolan tenha conseguido terminar esta trilogia magnífica de forma tão satisfatória para os fãs diz muito do calibre do realizador. A este filme falta muita coisa e claro que peca em comparação com os seus dois predecessores. Contudo, criar uma visão moderna, semi-apocalíptica de anarquia e caos a controlar a humanidade num mundo fantástico como é o de Gotham City e suceder na exploração do mito de Batman/Bruce Wayne como controverso símbolo de justiça e igualdade, um playboy milionário que controla o poder e a riqueza da sua cidade que vive uma vida dupla como um radical anti-herói individualista com imperativos morais que o colocam muitas vezes na corda bamba entre o mal e o bem, conseguindo ser coerente e fazer intersecções entre os três filmes de forma orgânica e familiar e ao longo da trilogia nunca abdicar do seu estilo irreverente como contador de histórias e estética tendenciosamente obscura, crua, realista é um feito inacreditável e quase impensável para um realizador com uma década de carreira. Agradeço-lhe imenso por ter reposto Batman no lugar de destaque que merece, no panteão dos super-heróis. E mal posso esperar para ver o que este excitante realizador fará no futuro.


Nota:
B/B-

Informação Adicional:
Ano: 2012
Realizador: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan, Jonathan Nolan (história de David S. Goyer)
Elenco: Christian Bale, Morgan Freeman, Michael Caine, Marion Cotillard, Anne Hathaway, Tom Hardy, Gary Oldman, Joseph Gordon-Levitt
Banda Sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Wally Pfister



Crazy, Stupid, Trailers - Parte II

Como prometido, cá está o artigo gigante de comentário sobre os vários trailers que foram lançados no último mês. A parte 1 já foi publicada; abaixo vem a parte 2.


CRAZY, STUPID, LOVE



Já cá tinha colocado o trailer mas como não tinha colocado o poster na altura... Cá estão ambos de novo. Porque nunca é demais perder a vista em tanto talento junto. Quer dizer, juntar Marisa Tomei, Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore e Emma Stone no mesmo filme? Fogo. "Crazy, Stupid, Love" estreia esta semana nos Estados Unidos.




THE DARK KNIGHT RISES








Quem também dispensa apresentações é este teaser que saiu esta semana para aquele que será sem sombra de dúvida um dos grandes títulos de 2012: o fim da trilogia Batman da era de Christopher Nolan, "The Dark Knight Rises". Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy e Anne Hathaway são os nomes sonantes que se juntam aos regressados Christian Bale, Michael Caine, Gary Oldman e Morgan Freeman, com Jonathan Nolan a juntar-se de novo ao irmão na escrita do argumento a partir de uma história engendrada por David S. Goyer, uma vez mais. Deve chegar até nós no Verão de 2012.



THE DEVIL'S DOUBLE






Ando há anos a dizer que Dominic Cooper é dos maiores talentos a sair do Reino Unido na última década. Infelizmente, tirando uma ou outra excepção ("An Education"), ele não tem mostrado grande coisa nesse sentido. Parece que finalmente isso vai mudar com "The Devil's Double", no qual ele conseguiu críticas radiosas para a sua interpretação de um civil iraquiano que tem que passar por duplo do filho do infame ditador Saddam Hussein. Estreia esta semana nos cinemas norte-americanos.

DREAM HOUSE




Um dos meus filmes mais antecipados do ano passado, "Dream House" viu-se adiado para este ano. Jim Sheridan, responsável por um dos meus filmes favoritos da década passada ("In America") e por uma das melhores adaptações americanas de um original estrangeiro - embora eu não o tenha achado ("Brothers"), traz desta vez Naomi Watts, Daniel Craig e Rachel Weisz nos principais papéis, num thriller cheio de suspense sobre uma família que se muda para uma casa onde terríveis assassinatos foram cometidos e onde se tornam, de repente, o próximo alvo do assassino. Estreia marcada para 30 de Setembro nos cinemas americanos.



DRIVE






Não há como explicar o quão expectante e alucinado este trailer me deixou. Nicolas Winding Refn, que ganhou (como se recordarão) o prémio do Realizador no Festival de Cannes deste ano, para surpresa de muita gente (não minha, que tinha acompanhado o buzz e as críticas que o filme recebeu por terras francesas), traz-nos Ryan Gosling, Albert Brooks e Carey Mulligan nos principais papéis (também com Christina Hendricks, Ron Perlman e Oscar Isaacs) deste filme que promete ser cheio de acção e adrenalina. Ryan Gosling, particularmente, parece estar a cobrir todas as bases este ano: acção ("Drive"), drama ("The Ides of March"), comédia ("Crazy, Stupid, Love"). E com esta colaboração cheia de sucesso já assinou para mais dois filmes com Refn, "Only God Forgives" e "Logan's Run", ambos para 2012, o que, a juntar à nova colaboração com Derek Cianfrance ("Blue Valentine", no qual Gosling teve a melhor interpretação do ano, masculina ou feminina) - "The Place Beyond the Pines", deve garantir que pelo final de 2012 o mundo inteiro o venere a 100%. Sem estreia marcada para Portugal.




THE FUTURE







"Me, You and Everyone We Know" foi uma das grandes surpresas da década passada, que eu só descobri já estava a década a terminar. Desde logo me comprometi a prestar atenção quando a fabulosa argumentista/realizadora/actriz Miranda July voltasse a fazer um filme. E eis que chega este ano este "The Future", na qual dois trintões enfrentam pela primeira vez a sua mortalidade e tentam ultrapassar uma profunda crise de identidade agora que estão próximos da meia-idade. Hamish Linklater co-protagoniza. Mal posso esperar. Obteve críticas brilhantes em Sundance. Estreou a 13 de Julho nos Estados Unidos.


THE GRANDMASTERS







Três frases: Wong Kar-Wai. Tony Leung. Ziyi Zhang. É preciso mais? Só mesmo Wong Kar-Wai para me deixar entusiasmado por um puro filme de acção sobre a origem do kung fu. O filme é uma biografia de Yip Man, o homem que treinou Bruce Lee e um dos primeiros mestres de artes marciais. O teaser trailer é uma sequência espantosa de luta à chuva. Estou mais do que convencido. "The Grand Master" (ou "The Grandmasters", como já vi noutros sítios) chegará em princípio ainda este ano ao mercado norte-americano.



HAYWIRE







Como eu disse acima, "Contagion" não é o único Soderbergh deste ano. "Haywire" é o outro e claramente rivaliza em potencial e categoria de elenco com o primeiro. Se o primeiro está carregado de vencedores e nomeados para os Óscares, o segundo está cheio de gente porreiríssima e cheia de talento: Michael Fassbender, Ewan McGregor, Bill Paxton, Michael Douglas, Antonio Banderas, Channing Tatum e Michael Angarano, além da lutadora Gina Carano como protagonista desta película de acção e suspense. Se eu tivesse de apostar, este seria o "Traffic" e "Contagion" seria o "Erin Brokovich", se estivéssemos em 2000. É esperar para ver. Para já, estou bastante impressionado com ambos os projectos.



HIGHER GROUND







A estreia de Vera Farmiga como realizadora não podia ter sido mais auspiciosa, com a actriz a conseguir críticas interessantíssimas para o seu primeiro filme, "Higher Ground", no qual ela interpreta Corinne, uma mulher que encontra a paz e a espiritualidade junto de uma comunidade religiosa que a ajuda a recuperar de um acidente horrível. Além de me ter deixado curioso, o elenco parece excelente e Farmiga parece brilhante. Mal posso esperar. Chega aos cinemas a 26 de Agosto.



HUGO





Quando Martin Scorcese faz um filme, somos obrigados a ficar atentos. Infelizmente, quando este filme ganha um trailer que mais parece promover a obra mais recente de Robert Zemeckis do que propriamente um Scorcese... É de desconfiar da qualidade da película. Chloe Moretz e Asa Butterfield protagonizam "The Adventures of Hugo Cabret", título recentemente - e infamemente - encurtado para "Hugo", uma aventura familiar que decerto (espero eu) terá por detrás uma profundidade inesperada e alguma recompensa para os fãs da filmografia do Marty. É que vamos em dois filmes seguidos que me desapontaram. Esperemos que não cheguemos aos três, Martin. Esperemos que não se chegue aos três. Ainda para mais porque "Silence" parecia tão melhor projecto que este para ser adiado.


IMMORTALS



Tarsem Singh é considerado, por muitos, um realizador visionário, com forte poderio visual. Eu nunca concordei muito com tal afirmação e este trailer para o seu novo filme, "Immortals", não me ajuda a melhorar a minha opinião. Parece uma cópia do estilo de "300" e a narrativa também não me fascina. Ainda assim, estou pronto a dar-lhe uma hipótese. Se chegar ao nível de entretenimento de "300" (que não é um mau filme, mas também não é nada de especial), já me dou por satisfeito. Ter Henry Cavill como protagonista - que eu considero ter demasiado talento para o nível baixo de estrelato que possui - é sempre bom indício. O filme estreia a 11 de Novembro nos cinemas mundiais.



THE IRON LADY



Na corrida ao Óscar, Meryl Streep tem que ser sempre tida em conta, a cada novo trabalho que aceita. É já habitual e talvez por isso a Academia nunca sinta necessidade de a premiar devidamente. De qualquer forma, ela está de volta em 2011 com o que se espera ser mais uma interpretação arrebatadora, no papel da famosa primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher. O único ponto fraco do filme, na minha opinião, é a realização de Phyllida Lloyd ("Mamma Mia!"), que pode fazer tudo correr muito mal. Ainda assim, estou expectante. "The Iron Lady" chega distribuído pela The Weinstein Company no terceiro trimestre deste ano aos cinema.


LA PIEL QUE HABITO



O mundo do cinema fica sempre mais rico quando os grandes autores saem do seu casulo e lançam novos filmes. Este ano, ao lado de von Trier, de Haneke, dos irmãos Dardenne, vem um novo Pedro Almodovar, que conseguiu críticas mistas, muito divisivas, em Cannes. Antonio Banderas e Pedro reúnem-se muitos anos depois da sua última colaboração, o extraordinário "La Ley del Deseo", num thriller sobre um cirurgião plástico que jura vingar a violação da sua filha. Como para qualquer Almodovar, nem é preciso perguntar, alinho obviamente.

E desta parte, que trailers vos chamam a atenção?