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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

Porque nunca é demais lembrarmo-nos de IN THE BEDROOM (2001)




Esta crítica, por assim dizer, faz parte da rubrica "O Cinema dos Anos 2000" do Keyzer Soze's Place, na qual participo ao lado de outros porreiríssimos bloggers. Espreitem tudo AQUI. Ao Samuel agradeço o convite, aos bloggers a que me junto agradeço a companhia e, sobretudo, os múltiplos ensinamentos que retiro de cada um dos seus textos.



Através de uma história aparentemente inofensiva, Todd Field cria um drama cruel, onde as revelações são lentas, as emoções turbulentas e não há grande catarse ou final feliz – só feridas abertas, bem vincadas e vidas arrasadas, transformadas de um dia para o outro no seguimento de uma enorme tragédia. Uma tragédia bem familiar e por isso mais temível ainda, que poderia acontecer a qualquer um de nós. Uma situação tão confrontante, que catalisa e impulsiona o filme, mexendo com ele de forma bela e complexa, que transparece o ecrã e nos faz também nós sentir a mudança. Uma mudança permanente, definitiva. 


IN THE BEDROOM fala de amor e saudade, de luto e remorso, de ódio, rancor e vingança. No fundo, o filme fala sobre sobrevivência. Não de um ponto de vista primitivo, real, mas sim em relação à forma de estar no mundo, como se a vida destas personagens dependesse disso, da necessidade em voltar a um normal que conheciam anteriormente e ao qual não há ponto de retorno. Esta é a história deste casal, de Matt e Ruth e da penosa e dolorosa adaptação que a sua relação e o seu mundo vão ter que sofrer. Duas brilhantes interpretações de Sissy Spacek e Tom Wilkinson, que connosco partilham tudo o que sentem e pensam. Emoções tão profundas e internalizadas e ao mesmo tempo tão facilmente acessíveis, mal escondidas por debaixo da superfície aparentemente estoica e firme, duas personagens imperfeitas e reais, gente boa, trabalhadora e gentil, simplesmente a viver a sua vida dia após dia. 


Um dos dramas mais fascinantes do início do século XXI e seguramente um dos melhores da década, IN THE BEDROOM reúne todas as qualidades do cinema independente norte americano – excelente elenco, com muitos actores talentosos subaproveitados pela indústria (como a fabulosa Marisa Tomei), bons valores de produção e um argumento desafiador, fugindo às fórmulas convencionais, tudo a baixo custo – e tem em Field um timoneiro com uma seriedade e certeza pouco comuns num realizador-argumentista à frente do seu primeiro filme. Um caso sério de sucesso, confirmado pela aclamação crítica, pela receita de bilheteira surpreendentemente estrondosa (36 milhões de lucro só nos Estados Unidos da América!) e as cinco nomeações aos Óscares, de visualização obrigatória.


*Uma adenda ao texto: sim, eu teria votado nos três actores (Spacek, Wilkinson, Tomei) nos Óscares. São enormes, cada um deles. E a Sissy Spacek come o cenário, a tela, tudo. Genial.

THE HELP (2011)




"You is kind. You is smart. You is important."



Quando penso que "THE HELP" podia ter sido o típico filme inspirador e emocional sobre a luta entre raças na véspera do movimento dos direitos civis, que se podia ter contentado em ser um filme inofensivo, bonito e optimista sobre a vida das criadas de raça negra no Mississipi dos anos 60, aquele género de filme que põe o género feminino todo de lágrima ao olho e de coração cheio e o público masculino à beira de um ataque de nervos, tal o sentimentalismo ao qual não consegue escapar, dou um suspiro de alívio. O livro de Kathryn Stockett está longe de ser perfeito (aliás, tendo em conta as reacções bastante díspares que obteve da crítica, nem sequer se pode dizer que o filme reúne consenso) e o pedido à Disney que apostasse no inexperiente Tate Taylor podia ter corrido terrivelmente mal. Felizmente, tudo se conjugou na perfeição para nos proporcionar um dos melhores filmes deste Verão, que agrada a todos, que faz pensar sem ser rigoroso na análise que faz à sociedade (nem Taylor deixa, cobrindo o filme de uma fotografia colorida, bonita e superficial que se sobrepõe à necessidade que poderíamos ter de abordar assuntos sérios, revelando uma falta de panache impressionante - mas que se percebe) e que, acima de tudo, nos presenteou com aquele que terá forçosamente de ser o melhor elenco do ano e uma das melhores interpretações femininas do ano.


Que o filme traga em si tanta faísca, tanto poder, tanta pujança deve-se em grande parte à cintilante interpretação de Viola Davis, que alcançou proeminência há três anos com um papel secundário em "Doubt" e que lhe deu a sua primeira nomeação para os Óscares da Academia. Com uma introdução daquelas e vinda esta de uma grande senhora do teatro, era de esperar que quando chegasse a sua hora de brilhar, Viola Davis entrasse com tudo. E assim foi. A sua Aibileen é a força motriz do filme, íntegra e impassiva, fazendo-nos ao mesmo tempo admirar a sua personagem e preocuparmo-nos com o seu destino. Aibileen Clark é uma ama e empregada doméstica de raça negra que já cuidou de mais de dezassete crianças de famílias brancas mas que tragicamente ainda não superou a perda do seu próprio - e único - filho. A sua vida nunca mais é a mesma quando ela aceita o desafio de Eugenia "Skeeter" Phelan (Emma Stone, a emprestar autenticidade e cor a uma personagem algo banal e estereotipada) - uma recém-graduada de Ole Miss que pretende deixar a sua marca no mundo do jornalismo e que não compreende os preconceitos dos da sua espécie para com as mulheres que de facto os criaram - de relatar o seu dia-a-dia enquanto criada das famílias brancas de Jackson, Mississipi. A ela se junta a sua melhor amiga e confidente Minny Jackson (a revelação, Octavia Spencer) que, no desespero do desemprego após confrontar a sua patroa Hilly Holbrook (uma firme e cruel Bryce Dallas Howard), vê a esperança corresponder-lhe ao arranjar trabalho junto de Celia Foote (uma incandescente e hilariante - mas de coração limpo - Jessica Chastain), uma bombástica loura que foi rejeitada, algo inexplicavelmente, pela restante alta sociedade. A estas mulheres se juntam ainda Sissy Spacek, Allison Janney e Cicely Tyson em papéis menores mas todos importantes no desenrolar da história - o filme é especialmente sagaz em conferir vitalidade e frescura a todas estas mulheres, de modo a que nenhuma acaba por parecer uma caricatura barata.


Embora a interpretação de Viola Davis não nos encha de gargalhadas como cada vez que a igualmente genial Octavia Spencer abre a boca, é-lhe permitido aqui "abrir o livro", pese a expressão: histérica, calma, temerosa, divertida, irada, ela percorre toda a palete de emoções e transforma a história de Aibileen e da sua amizade com Minny e Skeeter em algo mais, como se a sua vida e o relato de Aibileen por vezes se fundissem e se tornasse difícil compreender se o que Davis nos deixava antever das suas expressões, da sua luminosa face, das palavras que pronunciava é fruto da profundidade da sua caracterização ou são mesmo resultado das mágoas bem reais que Davis conheceu quando era mais nova.


Um retrato íntimo, caloroso, empático e emotivo de uma mulher demasiado destemida para o seu tempo, uma mulher de coração cheio de alma e amor, trazida à vida por uma actriz que é uma verdadeira força da natureza, ladeada por um elenco de imenso talento e qualidade do qual se destaca a tremendamente versátil Jessica Chastain (que está a ter um 2011 épico) e a extraordinária comediante que é Octavia Spencer, que rouba todas as cenas em que surge, "THE HELP" não procura fazer-nos pensar nem busca culpados ou vítimas. Só se preocupa em contar a verdade. Um filme longe de ser perfeito, ainda assim merece ser visualizado, mais não seja pela imagem valente e corajosa que projecta de mulheres que mesmo subjugadas nos mostram que lá por não terem nascido da raça certa não quer dizer que a sua dignidade não seja igualmente importante. 
Nota Final:
B/B+

Informação Adicional:
Realização: Tate Taylor
Argumento: Tate Taylor
Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Bryce Dallas Howard, Allison Janney, Sissy Spacek, Cicely Tyson, Ahna O'Reilly
Banda Sonora: Thomas Newman
Fotografia: Stephen Goldblatt
Ano: 2011