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DIAL P FOR POPCORN

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EAT PRAY LOVE (2010)


"Attraversiamo". Esta palavra, que é como Liz (Roberts) se auto-define, no final do filme, e que usa para convidar Felipe (Bardem) para com ela atravessar o Pacífico e voltar a Nova Iorque com ela, já havia sido utilizada no início do filme numa cena sem qualquer interesse nem sentido, apenas para ilustrar o quão bonita é a língua italiana.


Infelizmente, "Eat Pray Love" também funciona assim - pega em cenas vindas do nada, atribuindo-lhes depois um significado desmesurado mais à frente no filme, como se fossem "eventos chave" que servirão de aprendizagem para Liz. Sem qualquer profundidade e cheio de futilidade, descreve-nos Itália através da comida e da união familiar, descreve-nos a Índia através da devoção religiosa e da contemplação meditativa e descreve-nos Bali como um eterno paraíso perdido entre as ilhas de Java indonesianas. Pelo meio, tenta manipular-nos com os eternos clichés sentimentalistas dos filmes tipicamente femininos - exactamente como o realizador Ryan Murphy faz na sua série televisiva "Glee" (embora aí a história seja parte menos fundamental que os números musicais, logo não importa muito para os fãs) -, tenta sensibilizar-nos para a experiência que Liz Gilbert vai tendo e tenta provocar em nós a vontade de também nós nos perdermos numa viagem destas. O que fica, duas horas e meia depois, é muito pouco.


Bom, o primeiro passo de Murphy foi conseguido: fazer-me identificar com a protagonista, com a sua auto-análise, fazer-me até concordar que uma mudança radical na sua vida é necessária, mesmo quando ela tem pura e simplesmente a vida que sempre quis, o marido que sempre quis e até a profissão que muitos desejariam ter. Mencionam-se discussões, menciona-se falta de entendimento entre os dois membros do casal, mas isso o filme nunca nos mostra. Ou porque está a querer ser condescendente connosco, ou porque acha que não interessa para nada (não sei, mas talvez me interessasse mais isso do que ver 30 minutos de comida italiana a ser-me atirada para a cara - não sei, talvez ajudasse a construir uma melhor caracterização da personagem principal, talvez desse para perceber o que correu tão mal na vida). Claro que no livro o assunto deve ter sido explorado muito melhor, mas isto é um filme e não é suposto eu ter que ler no subtexto (já nem digo entrelinhas, que este diálogo insípido não tem) coisas que Murphy devia ter-nos contado.


O problema de Murphy (passando agora para o segundo passo) foi não ter antevisto que ao não aprofundar a caracterização de Liz, tornou o personagem desagradável, insuportável e até mesmo detestável em certos momentos (então ela e os homens que lhe surgem, enfim). Julia Roberts trabalhou bem acima do material que lhe foi dado, isso é certo, conseguindo converter esta personalidade horrorosa que o argumento de Murphy lhe conferiu em desespero frântico e desejo de mudar de vida. Well done, cara Julia. Mas este problema de Murphy já não é de agora, como quem acompanha "Glee" e vê Lea Michele não ter pernas para andar com a terrível falta de personalidade da sua personagem, Rachel.


Vamos ao terceiro problema, que para mim é o pior. As personagens secundárias. Nenhuma (e friso o nenhuma), à excepção do texano Richard (Jenkins, numa interpretação cuidada, dedicada e sobretudo subtilmente complicada - isto é, com várias camadas de complexidade) que Liz encontra na Índia, contribui para ampliar a história. O marido Stephen (Crudrup) é puramente unidimensional e inacreditável; a melhor amiga Delia (Davis) de pouco mais serve - parece inicialmente servir de suporte mas não é em dois minutos de tempo de ecrã que conseguimos comprová-lo; David (Franco) é capaz de ser a pior personagem do filme; e Felipe (Bardem, com um brasileiro bacoco e terrível) é usado de todas as piores maneiras possíveis - será possível que alguém assim exista? Duvido muito. Já nem pego nas outras personagens secundárias estrangeiras, porque só servem para provar ao público a bipolaridade (queira-se dizer dualidade, vá) da protagonista.

Único real ponto positivo: a banda sonora. Dario Marianelli é um génio, já se sabe.

Depois de tudo considerado, penso que foi uma óptima oportunidade perdida. Senti-me definitivamente conectado com Liz, senti vontade de partir em viagem pelo mundo como ela e de facto admito que viajar com ela teria sido fabuloso - longe de fabuloso foi ver três horas de filme sobre isso. Que desperdício.



Nota:
B-/C+

Informação Adicional:
Ano: 2010
Realizador: Ryan Murphy
Argumento: Ryan Murphy, Jennifer Salt
Elenco: Julia Roberts, Javier Bardem, Viola Davis, Mike O'Malley, James Franco, Billy Crudrup, Richard Jenkins
Fotografia: Robert Richardson
Banda Sonora: Dario Marianelli