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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

GANGSTER SQUAD (2013)


Comecei a antevisão a este filme bem antes da sua chegada a Portugal. Era impossível ficar indiferente perante um elenco tão bem cotado. A juntar a isto, o facto de estarmos perante uma história verídica que ocorreu nos tempos loucos de uma Los Angeles em completa ebulição. Uma sociedade que se começou a descobrir nos primeiros anos após a Segunda Grande Guerra, deu espaço ao crescimento de novos e ambiciosos criminosos. 


Mickey Cohen (Sean Penn) é o rosto e a força motriz deste filme. Um criminoso sem escrúpulos, líder absoluto de um poderoso gang que, paulatinamente, vai conquistando a Costa Oeste, é idolatrado pelos seus súbditos e respeitado por alguns dos mais importantes homens da justiça de LA. Sem conseguir ficar indiferente perante a passividade e a cumplicidade de alguns dos seus colegas e temendo um futuro negro para a sua cidade, o detective John O'Mara (Josh Brolin) decide reunir um grupo de leais e corajosos polícias, nos quais se incluem Jerry Wooters (Ryan Gosling) e Conway Keeler (Giovanni Ribisi), que se dispõe a abdicar de tudo para destruir o império de Mickey Cohen e acabar com o submundo do crime e da corrupção.


É uma história/argumento ambicioso. E em alguns dos seus aspectos técnicos, Gangster Squad consegue atingir os objectivos a que se propôs. Vemos cenários trabalhos com cuidado, numa tentativa de representar de forma fiel e natural o principio dos Anos 50. Temos, também, personagens bem caracterizadas e perfeitamente enquadradas no espaço temporal do filme. Mas fica a faltar qualquer coisa. Há algumas falhas clamorosas na realização e na montagem do filme (em especial nas cenas de acção, feitas de forma um tanto ou quanto atabalhoada) e Ruben Fleischer poderia, claramente, ter aproveitado melhor a matéria prima que tinha em mãos. No entanto, é um filme divertido, que consegue entreter durante os seus 113 minutos. No final, valeu o dinheiro do bilhete.

Nota Final 
(6,5/10)


Trailer



Informação Adicional
Realização: Ruben Fleischer
Argumento: Will Beall, Paul Lieberman
Ano: 2013
Duração: 113 minutos

DRIVE (2011)



AVISO: Se não viram o filme ainda... Parem de ler aqui e vão vê-lo. Todos os outros: prossigam.




"I give you a five-minute window, anything happens in that five minutes and I'm yours no matter what. [...] I don't carry a gun... I drive."

Um homem no meio da escuridão atende um telefone no seu quarto de hotel. Ele está sozinho e sozinho ele ficará, apesar das muitas pessoas que vão entrar e sair da sua vida ao longo do filme. É conhecido como o Driver, porque é isso que ele faz. De dia, é um duplo para cenas de acção (as habituais stunts) e mecânico. De noite, é o condutor de um veículo de fuga que ajuda vários tipos de actividades ilegais. Ele não é um criminal - ele só conduz. É assim, ao som de "Nightcall" de Kavinsky, uma das poucas canções que consta na brilhante banda sonora retro, sintética de Cliff Martinez, que o Driver liga o carro, carrega no acelerador e avança, nunca mais olhando para trás.  "DRIVE" começa em cima e nunca desacelera, presenteando-nos com uma hipnótica, íntima, épica homenagem aos filmes de acção e violência metropolitanos de Michael Mann e William Friedkin (entre outros) dos anos 80 e à vida nocturna da cidade de Los Angeles. Carregado de adrenalina e testosterona "Drive" é uma verdadeira prenda para cinéfilos que há muito tempo aprenderam a amar os thrillers noir de Hollywood tal como Refn deve ter amado um dia.



Outro detalhe que me deleitou imenso foi a caracterização do nosso protagonista. Nunca sabemos o nome dele, nem dados sobre a sua família ou a sua história - só sabemos que é conhecido por Driver. E isso basta. Tudo aquilo que é preciso saber sobre a personagem está na sua obsessão por palitos, na sua escolha arrojada de vestuário de trabalho (um casaco branco com um escorpião dourado no seu dorso) e sobretudo nos olhos do actor que o interpreta. Ryan Gosling tem uma característica distintiva que instantaneamente nos atrai nele e que faz dele uma das estrelas mais excitantes da sua geração - é a plenitude, o mistério nos seus olhos. Em Gosling, Nicolas Winding Refn encontrou o parceiro perfeito para complementar o seu estilo: ninguém poderia interpretar este personagem tão cool, de expressão facial vazia, impenetrável, que poucas palavras diz, como Gosling o faz. É difícil dizer o que vai nos seus olhos azuis - o que o faz simultaneamente intrigante e intimidante. Nas poucas vezes que o Driver deixa transparecer a sua humanidade, quando Irene e Benicio (o filho de Irene) se encontram em perigo, é desconcertante vê-lo, periclitante, baixar a guarda e a arriscar-se por eles. Uma maravilhosa interpretação, a sua melhor este ano.


Para contrastar com o enigmático Driver, temos um grupo riquíssimo de actores secundários que dão ressonância emocional a um filme já de si poderoso à custa do seu estilo e da sua confiança, fazendo-nos preocupar com as pessoas que entram e saem da vida dele. Isto deve-se em absoluto ao calibre e talento do grupo de actores envolvidos, capazes de dar voz, sensibilidade e criar, de parcos momentos no ecrã, uma personagem completa, com uma história de vida sobre a qual adoraríamos saber mais se houvesse tempo. Carey Mulligan interpreta eficientemente a sua vizinha Irene, mulher casada e mãe de Benicio e empregada de mesa que vira o alvo improvável dos afectos do nosso protagonista, que se vê envolvido num negócio complicado com o marido de Irene, "Standard" (fantástico Oscar Isaac), acabado de sair da prisão. A outra ligação de Driver com o mundo do crime é Shannon (um esplêndido Bryan Cranston, que possui uma química brutal com Gosling), o seu chefe e agente, que o apresenta a duas figuras poderosas: o barulhento e rude dono de uma pizzaria, Nino (Ron Perlman) e o seu irmão Benny Rose (Albert Brooks), um homem pequeno mas ameaçador que esconde um talento para a violência brutal por detrás da sua cara feliz e satisfeita. É estranhamente excitante - mas nada divertido - vê-lo em acção. Christina Hendricks (que interpreta uma colaboradora de Nino, Blanche), finalmente, é particularmente divertida de observar na sua pequena cena.






Trabalhando a partir de uma história muito simplista baseada no romance de James Sallis de 2005 com o mesmo nome e adaptado para o grande ecrã pelo argumentista Hossein Amini (nomeado para Óscar por "The Wings of the Dove"), Nicolas Winding Refn aproveita a oportunidade para impressionar com o seu luxuoso, selvagem, arriscado sentido visual, a sua construção a passo rápido e os seus incríveis instintos, mais controlado e disciplinado aqui do que em "Valhalla Rising", o seu último filme, mas também infinitamente mais inspirado e electrizante aqui. O trabalho de Newton Thomas Sigel atrás da câmara também deve ser valorizado, oferecendo ao filme uma fotografia densa, rica, estilizada e cuidada que fica impregnada na mente muito depois do filme terminar. A cena do elevador é um excelente exemplo do quão exímio foi o trabalho de ambos. Fotografia icónica ao serviço da narrativa, mostrando a colisão entre os dois mundos em que Driver está envolvido e os riscos a subir em flecha. Crédito deve ser dado também a Cliff Martinez e às equipas de som, por extraordinariamente mostrar-nos as situações em torno do Driver como se lá estivéssemos.


Viciante, intenso, belo, genial e acima de tudo satisfatório, "Drive" é uma experiência verdadeiramente única, que satisfaz a sede do espectador por adrenalina e sangue e emoção e nos deixa no fim a mente - e o pulso - a mil por minuto. E tudo o que eu conseguia pensar era em ver o filme de novo. Depois de obviamente o ter feito, uma consideração ficou clara na minha consciência: acho que encontrámos a obsessão cinematográfica desta geração. E acredito que "Pulp Fiction" e Quentin Tarantino (para mim, o último revolucionário moderno a criar tanto impacto na cultura pop do seu tempo) não podiam estar mais satisfeitos com o seu sucessor.



Nota Final:
A-

Informação Adicional:
Realização: Nicolas Winding Refn
Argumento: Hossein Amini
Elenco: Ryan Gosling, Albert Brooks, Carey Mulligan, Ron Perlman, Bryan Cranston, Christina Hendricks, Oscar Isaac
Música: Cliff Martinez
Fotografia: Newton Thomas Sigel


THE IDES OF MARCH (2011)



"Get out, now. Or otherwise you end up being a jaded, cynical asshole, just like me."

Mesmo falhando na sua análise crítica às maquinações e jogadas de bastidores por detrás de uma campanha política, deixando tudo muito no ar, numa área cinzenta que não compromete nem provoca grande fricção, "THE IDES OF MARCH" é, ainda assim, um thriller político de inequívoca qualidade, sabendo ser inteligente e sagaz na forma como intersecta a vida pessoal, a vida familiar, a vida profissional e a vida política deste grupo de indivíduos sem complicar muito, como procura momentos de tensão e aparente ameaça sem sair forçado e conseguindo capturar o interesse do espectador e a sua atenção para as respostas que tenta encontrar, metaforicamente, para o panorama político-social ficcional - e o actual, real.


Baseado na peça "Farragut North" de Beau Willimon (por sua vez livremente inspirada na campanha falhada de Howard Dean em 2004), que a estreou off-Broadway em 2008 em altura de grande esperança para o povo americano, com a vitória de Obama fresca na memória, "THE IDES OF MARCH" surge agora três anos depois, quando a desilusão e o desapontamento com a governação de Obama cresce dia após dia e numa altura em que a crise económica ameaça ser notícia por mais algum tempo, parecendo aparecer na altura ideal para explorar assuntos tão coloridos como políticas de bastidores, tácticas de corrupção, manipulação e jogo sujo que mancham a campanha até do mais nobre e leal dos candidatos. Com um olhar cínico e desaprovador, Clooney e o seu fiel colaborador Heslov juntam-se para adaptar o texto original de Willimon, conferindo-lhe uma voz mais específica, mais contemporânea, mais pró-activa e moralista. O resultado não é fabuloso e tão pouco subtil, mas funciona. Apesar de algumas situações em que Clooney parece projectar o seu idealismo e activismo político na fachada do seu protagonista, transformando a cena em algo mais ou menos aplausível, ingénuo e irrealista, o argumento é especialmente incandescente nas cenas de maior tensão, absorvente e criminalmente divertido quando os políticos entram em confronto.


A história abre com um pequeno monólogo de Stephen Meyers (Ryan Gosling), que afirma: “I’m not a Christian. I’m not an atheist. I’m not a Muslim. I’m not Jewish. I believe in the American constitution.” Uma pequena hesitação da sua parte parece-nos querer levar a alguma revelação ou segredo escondido, mas nada. Momentos depois apercebemo-nos que Stephen está apenas a testar o som da sala onde o governador Mike Morris (George Clooney), seu patrão e candidato à presidência dos Estados Unidos da América, irá discursar mais tarde e assim este pequeno exercício de retórica acaba de fazer todo o sentido. Estamos nas primárias no estado de Ohio, onde Mike Morris procura vencer e ultrapassar o seu competidor directo, o senador Pullman (Michael Mantell), cuja campanha está a ser organizada por Tom Duffy (Paul Giamatti), rival pessoal do organizador de campanha de Morris, Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), na corrida pelo voto democrático. Para Mike Morris trabalha também a interna Molly Stearns (Evan Rachel Wood) que procura dar os seus primeiros passos no mundo obscuro da política.

O elenco do filme acaba mesmo por ser o seu ponto forte, com um soberbo Ryan Gosling a aguentar-se no frente-a-frente com George Clooney, Paul Giamatti e Philip Seymour Hoffman. Gosling, que está a ter um ano enorme (com "Crazy, Stupid, Love" e "Drive"), tem aqui a sua interpretação mais rigorosa, mais clara e definida. O argumento não ajuda, no entanto, a pintar um retrato fiel e completo de Stephen, nunca permitindo penetrar fundo na sua personalidade e na sua psique, deixando-nos com um retrato superficial e desonesto de um personagem a quem é pedido para ser simultaneamente cínico e honrado, justo, convicto. A pessoa que merece ressalva do restante elenco é, sem dúvida, Evan Rachel Wood, a igualar o nível de brilho que nos mostrou recentemente em "Mildred Pierce" e no longínquo "thirteen" (que lhe devia ter garantido a sua primeira nomeação para os Óscares). Desde cedo a personagem mais promissora da trama, Wood não nos desilude, aproximando-se do espectador com o seu jeito despreocupado mas afectuoso, dando humanidade e vida a esta personagem emocionalmente ressonante mas que é ridiculamente descartada por Clooney e Cª por capricho da narrativa. Um último elogio para Seymour Hoffman, que habitualmente me faz ranger os dentes à custa da forma muito emotiva e aberta (à falta de melhor palavra) como aborda as suas personagens, conferindo-lhes uma personalidade impulsiva e intempestiva que nem sempre é o que é necessário. Está muito bem e cumpre a sua função. Se há alguém que é nomeado deste filme, é ele. Tirando o elenco, o filme está muito bem servido de banda sonora (uma vez mais, não há como errar com o sublime Alexandre Desplat) e de realização. Se com "Good Night and Good Luck" me surpreendeu, aqui George Clooney deixou-me boquiaberto. Uma realização de luxo, a revelar que o actor realmente tem inúmeros talentos e recursos ao seu dispor.


Um filme que resolve terminar como começou, sem nos dar grandes respostas nem revelações e à espera que  as peças tenham todas encaixado, acaba por nos deixar um grande amargo de boca em vez de nos procurar questionar e fazer reflectir. Eloquente mas inconsequente, ambicioso mas vaidoso, "THE IDES OF MARCH" compõe uma intriga curiosa e atraente que não resiste, infelizmente, à sua mania de superioridade e dono da razão (a ponto de para o fim o cínico quase parecer irónico) e opta por não se comprometer, ao alcançar uma conclusão amoral de que todos temos que nos adaptar e sobreviver para podermos subir na vida, precisamente o tipo de mensagem cliché e limitada que o próprio filme tanto procura desconstruir. É uma pena que o filme acabe por ser uma espécie de embuste, por tanto prometer expor e por tão pouco se conseguir retirar de pertinente. 


Nota Final:
B/B+

Informação Adicional:

Realização: George Clooney
Argumento: George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon
Elenco: George Clooney, Ryan Gosling, Evan Rachel Wood, Philip Seymour Hoffman, Marisa Tomei, Paul Giamatti
Fotografia: Phedon Papamichael
Banda Sonora: Alexandre Desplat
Ano: 2011 

Trailer:

Uma lista de 11 para o dia 11/11/11

Como saberão, esta sexta-feira é dia de palíndromo (um palíndromo imperfeito, mas ainda assim). Às 11:11 horas deste dia 11/11/11, assistimos a um fenómeno que só ocorrerá novamente daqui a cem anos. Uns dizem que esse momento leva a grandes decisões e mudanças na vida, dado o misticismo em volta da dada e superstições populares, para outros é apenas mais um minuto do seu dia.  Posso dizer que a essa hora estava bem ferrado no sono.

De qualquer forma, referi isto por que razão, perguntam-me vocês. Pois bem, em resposta ao curioso desafio do Nathaniel Rogers no seu The Film Experience, aqui estão as minhas onze coisas favoritas de hoje. Ou, já que é de cinema que se fala nesse site e neste, os meus onze actores (e actrizes) favoritos de hoje em dia. Claro que se excluem aqui as grandes glórias como Meryl Streep, Al Pacino, Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Julianne Moore, Michael Caine, Robert DeNiro, Daniel Day-Lewis, Brad Pitt, George Clooney, Judi Dench, Emma Thompson, Anjelica Huston, Sissy Spacek, entre outros. Estamos a falar de actores e actrizes que não são (ainda) lista-A em Hollywood apesar da grande maioria deles estar bem lá perto (e Kate Winslet, quer se queira quer não, não gosta de ser considerada como lista-A).


Cate Blanchett | Christian Bale | Ewan McGregor


 James McAvoy | Kate Winslet| Marion Cotillard


 Michael Fassbender | Michelle Williams | Nicole Kidman


Ryan Gosling | Tilda Swinton


Quais são os vossos? (Ou, se preferirem, vão ao The Film Experience deixar outra lista; há lá várias listas curiosíssimas).

CRAZY, STUPID, LOVE. (2011)


"I'm going to help you rediscover your manhood. Do you have any idea where you could have lost it?"

Um filme que faz jus ao seu título. Cenas completamente estúpidas, momentos loucos e a emoção dos diversos amores do filme constroem mais um filme de domingo à tarde. Não justifica o bilhete de cinema que paguei para o ver, mas também não defrauda por completo. As poucas expectativas que tinha para o filme de Glenn Ficarra e John Requa era a sua nota sobrevalorizada do imdb.com (7,8). De resto, já sabia para o que ia e não fiquei totalmente desiludido. Houve momentos (sim, aqueles entediantes clichés cinematográficos deram-me cabo do juizo) em que me apeteceu levantar e mandar o filme passear. Mas, paradoxalmente, houve também meia dúzia de momentos surpreendentes e irracionalmente divertidos. Ri a bom rir, a ponto de esquecer os piores momentos do filme.


Emily Weaver (Julianne Moore) decide divorciar-se do derrotado e conformado Cal Weaver (Steve Carell), que descuidou o amor e o romance do seu casamento e se vê fora do seu lar com o peso da traição da sua esposa (segundo Emily, mais do que justa) com o seu colega de trabalho David Lindhagen (Kevin Bacon). Derrotado, vencido pela dor, começa a frequentar um bar onde as suas mágoas não passam despercebidas a um bem sucedido e sedutor Ryan Gosling, que, no meu entender, demonstrou algum desconforto num papel e numa personagem pouco habitual no seu currículo. Ryan Gosling é Jacob Palmer, um jovem que conquista uma mulher diferente todas as noites e que decide ajudar Cal a sentir-se um homem novo, a mudar a sua imagem e a ultrapassar a dor da separação. Nesta história, cabe ainda a jovem Hanna (Emma Stone), uma estudante de direito, empenhada e esforçada, que vive na ilusão de um casamento de sonho com o milionário Richard (Josh Groban).


Um elenco de óptima qualidade, que garante sólidas interpretações num filme com momentos demasiado maus. Esta montanha russa de emoções e de qualidade, forçam-me a cotar o filme com um C+, uma nota que não reflete a boa edição do filme. Vale a pena ver Crazy, Stupid, Love? Sim, mas só num domingo à tarde, em casa e sem que tenha de pagar para o ver.


Nota Final:
C+


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Glenn Ficarra, John Requa
Argumento: Dan Fogelman
Ano: 2011
Duração: 118 minutos

ÚLTIMA HORA: Trailer e Poster de THE IDES OF MARCH




Um dos grandes candidatos aos Óscares deste ano e pronto para abrir o Festival de Veneza (passando depois pelo TIFF e por Telluride), "THE IDES OF MARCH" é realizado por George Clooney (que realizou anteriormente o criticamente aclamado "Good Night and Good Luck") e conta com um elenco impressionante - Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, Evan Rachel Wood e Paul Giamatti. Baseado na peça de teatro "Farragut North", que por sua vez havia sido baseada nas primárias da corrida presidencial de Howard Dean em 2004, "The Ides of March" vê o idealista Steven Myers (Gosling) ter de enfrentar o melhor e o pior quando a sua vida pessoal e a sua vida profissional colidem, enquanto ele navega as águas tempestuosas de uma campanha política quando descobre que o seu candidato, o Governador Mike Morris (Clooney), não é assim tão inocente.





Um trailer que promete e - sobretudo - mais um filme que vem contribuir para que este ano seja realmente o Ano do Gosling ("Crazy, Stupid Love"; "Drive"; "The Ides of March").

ÚLTIMA HORA: Trailer de 'CRAZY, STUPID, LOVE'


Lá chegaremos à nossa antevisão de 2011 e nessa altura colocarei os trailers que já andam por aí a circular. Contudo, este eu não podia deixar passar. Imediatamente me deixou convencido que vai ser dos destaques do ano (já para não falar do fabuloso elenco). Glenn Ficarra e John Requa realizam "Crazy, Stupid, Love", que conta com Emma Stone, Ryan Gosling, Marisa Tomei, Julianne Moore, Steve Carell e Kevin Bacon nos principais papéis e fala, de uma maneira muito geral, da nossa abordagem às relações. Falaremos dele mais tarde, mas por ora fica cá o trailer:



BLUE VALENTINE (2010)



 "Tell me how I should be. Just tell me. I'll do it."


Há quem diga que o maior desafio que podemos enfrentar nesta vida é amar uma pessoa. Depois de ver BLUE VALENTINE, eu diria que concordo em absoluto. Retratando um romance trágico digno dos maiores épicos de outras eras do cinema, o filme com que Derek Cianfrance se estreia como realizador não podia ser uma experiência mais pessoal e introspectiva, uma imagem cruel, arrasadora mas honesta e inflamada dos altos e baixos de uma relação. A relação falhada destes dois jovens serve de pano de fundo a algo muito maior que uma história, a algo pelo qual todos temos que eventualmente passar na vida: aprender a lidar com o amor de uma pessoa. E enquanto Dean e Cindy tentam remendar a sua união na tela, nós, meros espectadores, ficamos com o coração nas mãos - conseguirão eles recuperar a sua felicidade juntos?


O filme abre com Dean (Ryan Gosling), de aspecto descuidado, com um cigarro e uma cerveja na mão, a brincar com a filha Frankie (Faith Vladyka). De repente surge-nos a sua mulher, Cindy (Michelle Williams), atarefada, preocupada, irritadiça, bonita mas desarranjada. A relação de ambos, nota-se, encontra-se em estado de deterioração. As mágoas guardadas de há muitos anos atrás começam a deixar sinais visíveis de saturação e tudo parece ser motivo para discórdia e discussão. Os dois já não fazem bem um ao outro, são corrosivos, destrutivos, quando estão juntos. O realismo conferido à situação é impressionante, conseguindo Cianfrance fazer-nos perguntar como é possível que estes dois um dia se tenham apaixonado verdadeiramente um pelo outro.  Pois bem, o filme decide responder-nos e salta vários anos no passado, a uma altura em que Dean, um jovem zé-ninguém, bem-disposto e divertido, charmoso e bem-parecido, começava a sua vida despreocupadamente e se interessa por uma rapariga bonita, inteligente e cheia de vivacidade e alma chamada Cindy. A química entre os dois é explosiva (como se comprova pelas enternecedoras cenas de conquista) e complementam-se na perfeição: Dean, que nunca conheceu verdadeiros valores familiares, obtém de Cindy estabilidade e companhia. Cindy, cujos pais não se amavam realmente, fica encantada com a estabilidade emocional e o estado de espírito positivo e apaixonante de Dean. O filme alterna entre a realidade presente, em que vemos Dean e Cindy derrotados pelas circunstâncias da vida, e o momento no passado em que a sua relação se iniciou, em que os conhecemos mais livres, mais jovens e despreocupados, com a vida toda pela frente, como se procurasse perceber o que é que correu mal.


Ao contrário de muitos filmes que abordam este tema, é nos pequenos detalhes, neste mosaico de momentos que constroem a manta que é uma relação, que Derek Cianfrance e os outros dois argumentistas fazem o filme destacar-se. Seis anos volvidos desde o momento que se conheceram, é óbvio para o espectador que Cindy está física e mentalmente exausta e que só milagrosamente ainda suporta a companhia de Dean. E é igualmente claro que Dean é relativamente indiferente a tudo isto: desde que ele possa viver o dia-a-dia dele em paz e sossego, beber cerveja todo o dia e ser amado pela mulher e pela filha, para ele está tudo bem. Ele é basicamente um miúdo preso num corpo de gente grande e é por isso que Cindy fica tão irritada com ele. Isto é particularmente fácil de perceber na cena passada no motel barato onde Dean e Cindy decidem passar uma noite. Dean praticamente implora por sexo. Cindy afasta-o com uma gélida indiferença e rude falta de afecto que demonstra indubitavelmente o quanto ela não o quer e ele a repulsa.


Cindy sabe que Dean estará sempre ao lado dela e da sua filha, para a qual ele é um bom pai. Cindy sabe disso e agradece-lhe. Só que a vida trocou as voltas a Cindy e o seu controlo sobre ela fugiu-lhe. E Cindy foi acumulando a sua raiva e frustração até não poder mais. Cindy nunca quis casar-se. Cindy não queria ter tido uma filha tão cedo. O romance entre Cindy e Dean não era suposto ter progredido assim. Mas foi assim que as coisas se passaram. E é por isso que a falta de ambição, a despreocupação e o desperdício do potencial de Dean - e o facto de ter de ser ela a suportar a família - tanto incomodam Cindy. Para Dean, casar-se com Cindy foi o alcançar do seu máximo potencial. O casamento e a família era o grande plano de Dean e, estando isto atingido, ele desistiu de tentar, pura e simplesmente. A vida, para ele, podia ser vivida sem o mínimo entusiasmo e planeamento. A missão dele está cumprida. Daí ele não perceber a insatisfação e descontentamento de Cindy - afinal, ele ama-a - não é isso suficiente para que ela o ame de volta?


Que o equilíbrio delicado entre os dois protagonistas desta história funcione tão bem é prova do enorme talento dos seus dois intérpretes. Ryan Gosling é, sem margem para dúvida, o maior actor da sua geração. Imerso profundamente no personagem, conserva todos os elementos fundadores da sua personalidade ao longo das duas partes distintas da história, conferindo no entanto características diferentes aos dois estados de Dean. O primeiro Dean é um ser-humano completo. O Dean mais velho é uma sombra, um fragmento do seu "eu" passado, um homem de coração partido, destruído pela vida e pela dificuldade em manter uma relação que desde o início se revelou imensamente complicada de gerir e pela qual fez tudo. A sua dor é palpável e o seu sofrimento ao sentir a indiferença da mulher, mesmo ele dando tudo por ela, é de partir o coração. Ainda para mais porque as suas cenas com a filha, por contraste, mostram-no muito diferente, irradiando carinho e alegria. Já Michelle Williams ficou com o papel mais complicado dos dois. Ela é muito mais reactiva, um reflexo mais rígido e impávido que contrasta com a extroversão e paixão que caracterizam a sua cara-metade. Todavia, é naqueles momentos de raiva silenciosa em que parece querer libertar-se das suas frustrações e desatar aos gritos que Cindy se revela. Ela é pura e simplesmente uma mulher que não escolheu a vida que lhe coube - e que, pudesse ela voltar atrás, tudo faria para dela fugir. Está a suportar e a esconder sentimentos há tempo demais. É uma pessoa desesperada, sem esperança, sem rumo. E que não gosta de estar assim. Que este conflito de alma nos seja passado de forma imensamente convincente é um testemunho à grande qualidade desta surpreendente actriz.


Como disse no início, BLUE VALENTINE parece ser um relato extremamente detalhado e pessoal. Talvez seja. Talvez o segredo da realização brilhante de Derek Cianfrance esteja na experiência de ter passado por aquela situação. Seja como for, valeu a pena os doze anos que ele levou a conseguir produzir, realizar e lançar o filme. Esta experiência visceral, dolorosa, que nos analisa a alma e testa os nossos sentimentos, que nos faz chorar e rir ao sofrer com o destino destas personagens, merece o tempo de espera que teve. Cianfrance parece arrancar-nos as entranhas, sem piedade nem dó, lançando-nos num turbilhão de emoções. Acompanhando cada momento excepcional na vida a dois deste casal, Cianfrance deixa-nos ver com os nossos olhos como as coisas acontecem a longo termo. BLUE VALENTINE é a história de uma relação como tantas outras. Algumas acabam bem, algumas acabam mal. Pelo caminho, ficam alegrias, dramas, tristezas, discussões, tudo pontos de paragem no caminho que é a vida. Quando começamos um romance, nunca sabemos o que verdadeiramente nos espera - e em BLUE VALENTINE, vemos Cindy e Dean agarrarem-se o máximo que conseguiram ao deles - e o quanto custou a Cindy deixá-lo ir.

Um dia conheces o amor da tua vida e vives feliz para sempre. Era bom que fosse assim tão fácil.




Nota Final:
A-

Informação Adicional:
Realização: Derek Cianfrance
Argumento: Derek Cianfrance, Joey Curtis, Cami Delavigne
Elenco: Ryan Gosling, Michelle Williams, John Doman, Mike Vogel, Faith Vladyka, Ben Shenkman
Fotografia: Andrij Parekh
Ano: 2010

Trailer: