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DIAL P FOR POPCORN

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Maratona Meryl Streep: SOPHIE'S CHOICE (1982)

Este artigo faz parte da nossa semana temporada especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.


E estamos de volta com a nossa maratona, espero que com o pé a fundo no acelerador até ao final. Depois de pegarmos nos anos 70 da sua filmografia, passamos à década de 80, onde Meryl Streep foi profílica como talvez nenhuma outra estrela de Hollywood. Nesse período de dez anos ela viria a coleccionar seis nomeações para os Óscares, todas na categoria de Actriz Principal e, mais importante que isso, consolidar-se-ia como a melhor actriz que apareceu no mundo desde Bette Davis e Katharine Hepburn. Mas falaremos disso mais em pormenor no artigo que foca todos os títulos. Vamos agora à crítica dos quatro filmes seleccionados desta década. Este é o primeiro:

SOPHIE'S CHOICE (Pakula, 1982)


"Don't make me choose! I can't!"


Há uma cena em "Sophie's Choice", quase a chegar ao fim, em que ela conta finalmente a escolha terrível que tem que fazer. Essa cena surge em analepse no meio de uma diálogo entre Sophie (Meryl Streep) e Stingo (Peter MacNicol) e é precedida e é sucedida pela mesma cara de Sophie. Fria, amoral, sem reacção, como se lhe tivessem tirado a vida. Este é um exemplo claro do extraordinário trabalho da actriz na composição da personagem, pois é a única cena em todo o filme que me lembro em que Sophie não demonstra alegria e satisfação. 


O filme de Alan J. Pakula revolve em torno de três personagens principais: Sophie, uma mulher polaca e Católica que havia sido capturada pelos Nazis e colocada num campo de concentração, onde os Nazis lhe roubaram os seus dois filhos, Nazis estes que depois lhe permitiram miraculosamente imigrar para os Estados Unidos; Nathan (Kevin Kline), um homem Judeu charmoso e cheio de vida mas secretamente problemático e perturbado mentalmente, que acolhe Sophie na sua casa e com quem mantém uma relação no mínimo turbulenta; e Stingo, um adolescente saloio vindo do Sul que chega a Brooklyn com a ambição de se tornar um escritor conhecido. A história desenvolve-se a partir da amizade improvável que se cria entre os três personagens, da tumultuosa relação entre Nathan e Sophie e da crescente admiração que Stingo ganha à vida, aos seus dois melhores amigos e em particular a Sophie. 

 
O filme introduz-nos na vida de um ingénuo e pacato rapaz do Sul que, pouco conhecendo da vida real, trava conhecimento com uma pessoa tão impressionante quanto experienciada como Sophie e como imediatamente fica embeiçado por ela e pelo mundo que ela - e o seu amante Nathan, genial, excêntrico, louco - decidem abraçar, onde não há lugar para tristezas, onde todos os momentos são para serem vividos e onde todas as alegrias devem ser celebradas. Ao mesmo tempo, o filme, narrado por Stingo, vai-nos revelando, através do seu outro narrador contido dentro da história, Sophie, como é que esta pessoa foi tão fulcral no seu crescimento de um adolescente sonhador para um adulto responsável e realista. No decorrer do filme, as aspirações algo idióticas do jovem rapaz são substituídas por longos flashbacks de confissões da vida passada de Sophie, no tempo da II Guerra Mundial  (flashbacks estes que vão surgindo após calorosas discussões entre Nathan e Sophie que invariavelmente culminam com a fuga do primeiro, abandonando-a com Stingo) e vamos percebendo o quão grande é a fachada que Sophie usa para esconder o que de mal fez (e lhe fizeram) no passado.


Ficamos então a conhecer do horror que Sophie viveu, das escolhas terríveis que teve que fazer e de uma em particular que a assombra para o resto da vida e que ela não consegue perdoar a si própria. Não me vou alongar mais nisto porque arruína o prazer de ver o filme a quem não o viu, só dizer que é um filme que progride de forma exemplar para o grande clímax final que nos mostra, sem julgamentos, a outra face de Sophie.

Um filme repleto de boas interpretações, em particular de Meryl Streep, claro está, no papel da sua vida (muitos outros se seguiram, mas este é invariavelmente aquele que toda a gente vai recordar daqui a muitos anos) e que lhe valeu merecidamente o seu segundo Óscar em 1983, acompanhado por uma realização muito capaz e um argumento que é uma fidelíssima adaptação do apaixonante romance com o mesmo nome. "Sophie's Choice" é, no fim de contas, mais do que um relato portentoso da maturidade de um jovem quando face a face com problemáticas adultas e a aquisição de responsabilidades e a destruição do ideal de vida a que aspirava, um retrato apaixonado, subtil, inflamado, absorvente de uma mulher demasiado complexa para tentar ser rotulada levianamente, de uma mulher que já viu tanta maldade, tanta má fé, tanta desonra, tanto ódio, tanta tristeza, tanta tortura e tanta morte que a única forma que ela tem de viver a vida é mesmo na corda bamba, sem apego às coisas, bebendo, de festa em festa, fazendo amor, dia após dia, bloqueando o passado horroroso que a teima em perseguir. De partir o coração.


Nota:
B+

Trailer:



Informação Adicional:

Realização: Alan J. Pakula
Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Peter MacNicol
Argumento: Alan J. Pakula
Fotografia: Nestor Almendros
Banda Sonora: Marvin Hamlisch