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DIAL P FOR POPCORN

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THE DARK KNIGHT RISES (2012)




Sempre apreciei o franco extremismo que vem com a avaliação do trabalho de Christopher Nolan, porque simplesmente não me lembro de em tempos recentes um realizador conseguir elicitar tanto ódio como admiração por parte do grande público e dos críticos, o que faz da sua obra um caso de estudo bastante fascinante de analisar. Para ajudar ainda mais a situação, a Academia tem também uma relação bastante conflituosa com o realizador, sendo capaz de atribuir aos seus filmes um número substancial de nomeações, sendo capaz até de o nomear pela sua capacidade de escrita, mas ignorando-o sempre na nomeação que, no fundo, mais (lhe) interessa: a de melhor realizador. "The Dark Knight Rises", a última peça na trilogia de Nolan sobre Batman, o Cavaleiro das Trevas, vem adicionar mais contexto à discussão.

Para ser mais fácil explicitar a minha análise, organizei as minhas considerações por tópicos:

1. É de longe o filme mais fraco de Christopher Nolan (a par de "Insomnia"), o menos consistente, o que tem o pior argumento e o mais longo, tanto a nível da real duração do filme como da percepção do espectador. "Batman Begins" tem-se transformado, com os anos, no meu favorito pessoal da trilogia, muito devido ao espectacular primeiro acto do filme (e à mais sensacional origem de um super-herói alguma vez projectada na tela); contudo, admito que "The Dark Knight" é o melhor filme dos três e por isso concordo também que lhe tenha dado a melhor nota de entre os três. 


2. A ambição de Nolan é, para mim, o principal problema. A forma épica e ostentosa como aborda os seus filmes, qual David Lean ou D.W. Griffith (ele que é um confesso fã de ambos) e a necessidade quase messiânica de incluir missivas político-sociais nos seus argumentos (que não tem nada de mal, isto se Nolan não passasse o filme todo a pôr em conflito ideias contraditórias) acaba sempre por servir-lhe mais de handicap como de ponto a favor. Acaba assim por negligenciar o essencial na narrativa, que é o desenvolvimento das personagens (algo que Dickens faz tão bem em "A Tale of Two Cities", que serviu de base à temática do filme), é a organização do fio narrativo, a ideia de continuidade, de evolução no espaço e no tempo, noções básicas de que Nolan abdicou em detrimento do seu já habitual estilo errático de expor informação e complicar o enredo (o filme tem partes literalmente incompreensíveis). 


3. A narrativa é sofrível em vários momentos, uma gigante confusão estrutural, sem grande coesão do princípio ao fim, com sequências consideráveis em que nada se passa e depois segmentos loucos em que nem tempo há para respirar entre os diálogos. Outro problema permanente no filme é a forma como usa e abusa dos traumas e tragédias pessoais das personagens para fazer girar a narrativa, mas depois esquece-se de lhes conferir ressonância emocional, fazendo com que algumas personagens pareçam incompletas e com traços de personalidade confusos (de repente lembro-me da bipolaridade das reacções de Miranda Tate em vários momentos do filme ou do intenso dramatismo em torno da relação de Alfred e Bruce Wayne - com todas as interacções das duas personagens a acabar com um (ou ambos) quase em lágrimas). A temática da "dor" (em contraponto com "caos" de "The Dark Knight" e "medo" de "Batman Begins") deveria estar omnipresente no filme, mas Nolan nunca deixa a câmara tempo suficiente nalgumas cenas para podermos contemplar a atmosfera e a sensação de desespero, de desconsolo, de sofrimento, o que é uma pena porque a alegoria de ter Bane como vilão mestre da derradeira película da trilogia, o único que consegue igualar Batman a nível físico e intelectual (não é por acaso que ele é "the man who broke the Bat") e explorar a sua vulnerabilidade física bem como as suas fraquezas e medos soa no final como uma oportunidade ultimamente  desperdiçada. 


4. Dos três filmes, é o que tem o melhor e mais nivelado elenco - não tem uma Katie Holmes, mas também não tem um Heath Ledger que sobressaiam, para o bem ou para o mal. Contém a melhor interpretação de Christian Bale e de Michael Caine da trilogia, incorpora bastante bem as personagens de Joseph Gordon-Levitt e Anne Hathaway, cuja Selina Kyle é facilmente a melhor interpretação do filme. Tom Hardy cumpre o seu papel, muito exigente a nível físico (basicamente a sua interpretação reside no que ele consegue fazer passar com os seus olhos). É só uma pena que pouco tenha sido feito com Marion Cotillard. A personagem e a actriz mereciam mais.

5. No seguimento do ponto 2: Lee Smith é um milagreiro. Que a edição de "The Dark Knight Rises" seja, mesmo com a intervenção salvadora de Smith, medíocre e apenas relativamente consistente explica na perfeição o problema-base de Christopher Nolan na génese deste filme. Não se pode querer falar de tudo, abordar ideias contraditórias, ser infinitamente detalhado e depois querer trocar exposição por acção. É nisto que depois dá - não se sabe bem onde começar e onde acabar de cortar. Hans Zimmer é, também ele, um milagreiro. A banda sonora é, aliás, das poucas coisas que realmente funciona em pleno no filme. Os valores de produção são também de qualidade inegável, com efeitos especiais incisivos e delicados, que ajudam a aumentar o realismo da trama e, assim, o suspense e o drama.

6. O filme demora a encontrar o seu ritmo, mas quando o encontra, não pára de crescer, compensando as hesitações e inconsistências com um majestoso terceiro acto - a roçar o sublime, mas que ainda assim aproveita o sentimentalismo para fazer avançar a história - e que acaba por encerrar a trilogia em nota alta de execução (ainda assim, aquele epílogo ainda me fez revirar os olhos várias vezes, mesmo se me agrada a ideia final que Nolan deixa de Batman ser mais um símbolo que um homem!).



Bruce cai ao poço em "Begins" / Bruce trepa o poço em "Rises" - o primeiro acto e o último ano da trilogia, numa das muitas conexões entre as três películas

Que Nolan tenha conseguido terminar esta trilogia magnífica de forma tão satisfatória para os fãs diz muito do calibre do realizador. A este filme falta muita coisa e claro que peca em comparação com os seus dois predecessores. Contudo, criar uma visão moderna, semi-apocalíptica de anarquia e caos a controlar a humanidade num mundo fantástico como é o de Gotham City e suceder na exploração do mito de Batman/Bruce Wayne como controverso símbolo de justiça e igualdade, um playboy milionário que controla o poder e a riqueza da sua cidade que vive uma vida dupla como um radical anti-herói individualista com imperativos morais que o colocam muitas vezes na corda bamba entre o mal e o bem, conseguindo ser coerente e fazer intersecções entre os três filmes de forma orgânica e familiar e ao longo da trilogia nunca abdicar do seu estilo irreverente como contador de histórias e estética tendenciosamente obscura, crua, realista é um feito inacreditável e quase impensável para um realizador com uma década de carreira. Agradeço-lhe imenso por ter reposto Batman no lugar de destaque que merece, no panteão dos super-heróis. E mal posso esperar para ver o que este excitante realizador fará no futuro.


Nota:
B/B-

Informação Adicional:
Ano: 2012
Realizador: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan, Jonathan Nolan (história de David S. Goyer)
Elenco: Christian Bale, Morgan Freeman, Michael Caine, Marion Cotillard, Anne Hathaway, Tom Hardy, Gary Oldman, Joseph Gordon-Levitt
Banda Sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Wally Pfister



A Morte da 7ª Arte (Versão Nolan)

"O Dial P For Popcorn tem o prazer de vos apresentar o nosso mais recente colaborador! Axel Ferreira, nosso colega e amigo, aceitou o convite para a elaboração de uma crónica quinzenal. Com uma visão peculiar e distinta da realidade cinematográfica, A Morte da 7.ª Arte deixa apenas uma promessa: Ninguém a poderá evitar."


O Som e a Fúria


Debaixo dos meus dedos acumulo as palavras dos longos segredos de um mundo que os grita e ninguém ouve. Seria de esperar algo mais que o martírio continuo de ver o brilho de uma parede ser tanto ou mais interessante do que ver algo com luz e imagem mas sem forma ou eco. Não ver seria ainda melhor. Se um dia alguém se inspirou na expectativa de fazer alguma coisa, não disse nem mais uma palavra, e apenas fez, foi considerado lunático e de certeza arrogante. Quando chegamos à conclusão que nada é valorizável para além da morte, pensamos que nada interessa. Se nada interessa não se vive. Mas, qual montanha que vem atrás de um velho lunático que andou às voltas num deserto e que falava com árvores em chamas, aparece a felicidade e pensamos fazer de nós um riso alegre. A vontade deixou de existir, o estímulo é constante, o tempo para pensar é nenhum, a definição já está dada, não fosse sempre o normal a maioria. Se fosse feliz como um macaco não me aperceberia que ser um homem que pensa que ser feliz como um macaco é bom é tão espectacular como o próprio macaco. Ao pé disto, o facto de a única tipa que aparece no filme do Tintim ser uma representação um pouco abjecta de uma cantora de ópera que só serve para partir cristal nem sequer interessa.

Para que falar mais se o discurso já se esgotou? Para criar um novo, dizer algo mais. Faulkner já disse algo parecido ao seguinte, fomos criados num mundo de adultos demasiado velhos para perceberem que são lunáticos. Se querem construir algo por cima disto não venham a pensar que o que existe neste momento é normal ou que sequer faz algum sentido. Não faz sentido eu não conseguir ir ao cinema porque não há lá um único filme que não tenha sido pago a peso de ouro para defecar diamantes. Não faz sentido o Faulkner ficar sentado na prateleira e o Paulo Coelho e outros inomináveis venderem como as camisolas da lacoste dos ciganos em dia de feira. Faria mais sentido que os próprios ciganos os vendessem como sendo uma óbvia imitação rasca de má qualidade, em vez de serem mais baratos tinham o dom de ser culturalmente inócuos e legíveis sem existirem dificuldades de interpretação ou aparecimento de dores de cabeça do viajante literário. Continua sem fazer sentido que as pessoas menos talentosas e que menos sabem de música sejam as que mais vendem, sem nunca terem composto um único compasso. Na feira também vendem screeners das próximas estreias esperadas, e pouco será dizer que se um filme estiver a ser vendido ao monte, a dois euros a peça ao lado das meias (ligeiramente mais caras), não haverá maneira nenhuma de poder ser bom. Explicar mais que isto era inútil. Mas o exercício verdadeiro vem a seguir, pensem no melhor filme que já viram a ser vendido por este método. Agora comparem este a todos os outros aos quais se pode equiparar ou que até consigam comparar sem parecer um insulto completo. Peguem nisto tudo e vão conseguir uma óptima lista de toda a inutilidade e lixo, concentremo-nos agora no que está acima disso.

Desde o início, os primórdios do cinema, havia uma obsessão constante de tornar o que se via realidade. Por isso nasceu o filme falado, o cinema a cores, os efeitos especiais, o que chama CG ou seja lá o que for. Agora há um movimento inverso, a percepção de que a realidade cinematográfica também é um factor limitante. Não estou a falar sobre a ficção científica ou desse tipo de não realidade, mas na ideia de sermos convencidos que aquele cenário é uma realidade para os personagens (ao contrário de uma obra de teatro, em que o cenário não é credível nem o pretende ser). Isso é algo que levou o cinema para o pior caminho possível, e será esta, sem sombra de dúvida, a raiz de todos os problemas. Dizermos que o cinema nos tem que levar para outro mundo completamente credível. Forma-se aqui a exigência fundamental deste tipo de projecto, é preciso uma enorme montanha de dinheiro para fazer com que tal seja possível. O raciocínio seguinte é muito simples, como não há poços sem fundo, o que pagamos para o fazer tem que ser retribuído de alguma maneira. A ambição constante de querer mais e melhor cinema, de querer fazer imagem e som como se faz a imagem e o som quando vemos e ouvimos levou a que se conseguisse o completo contrário, o comprometimento da ideia, para fazer algo que fosse mais agradável e que cativasse o maior número de pessoas, para poderem pagar tal coisa. Quando se abdica do essencial para agradar ao mundo, perde-se a identidade, perde-se a ideia, perde-se por completo a relevância. Porque nada feito para agradar poderá ser bom, pela simples razão de que a única maneira de fazer algo que agrade a toda a gente é fazer algo tão inócuo que não contrarie ninguém, algo tão pouco surpreendente que não possa chocar ninguém, algo tão simples que não confunda ninguém (porque ainda há os que fingem que confundem), algo tão animado que não adormeça ninguém, ou seja, algo tão igual ao que as pessoas estão habituadas que nem vale a pena existir. A existência de uma identidade sem uma ideia basal que seja nova pode ser avaliada como o que agora os críticos gostam muito de dizer “é um grande filme dentro do seu género”. Primeiro, a ideia de que um filme pode ser bom, mesmo que seja uma repetição quase integral daquilo que já foi feito, é uma ideia estranhíssima para mim. Ainda mais que isso, a incapacidade de o filme ter algo de novo e a incapacidade de o crítico o dizer são ambos crimes contra a cultura, um por desperdiçar dinheiro, outro por recomendar um desperdício de vida. Seguidamente e em segundo lugar, foi esta ideia de que a repetição de uma fórmula de sucesso consegue ser muito rentável que levou o cinema à desgraça de se fazerem filmes com o único objectivo de serem vendidos, sem importar a arte ou a originalidade que supostamente a rentabilidade ia sustentando. A demolição da última barreira surgiu agora, depois de já ter aparecido o bendito Spielberg e o remake constante chamado Blockbuster, depois de já terem feito tudo o que era possível com o mesmo diálogo, as mesmas piadas e os mesmos clichés mil vezes, apareceu um homem que até começou com um filme razoável, mas que agora se tornou o salva-vidas de toda a gente que gosta de filmes que fazem muito dinheiro mas acha que até tem um gosto cinematográfico requintado e gosta de intelectualizar a ideia do bom cinema. Este homem é Nolan, e resume-se numa frase: “é muito bom naquilo que faz, mas o que ele faz são filmes completamente banais”. E carregando já o crucifixo às costas, a verdade é que por muito prazer que vos dê ver filmes deste homem, ele não tem o dom de ser relevante, não faz coisas que sejam novas ou que já não tenham sido feitas mil vezes melhor antes. Seja um Thriller ou uma história sobre super heróis, a maior parte do que está lá são sequências de acção mil vezes repetidas, argumentos e diálogos canonicamente guiados, e alguma pseudo-actividade ligeiramente intelectual, que nalguns momentos parece transparecer, mas até o Matrix enganou melhor com essa léria toda da pseudo-filosofia humana (não me interessa se o rapaz é travesti ou não, só por transcender a sua existência de homem não se transforma em metafísica). O meu único pedido é que se sabem o que é bom façam ganhar dinheiro a quem faça coisas boas. Se um homem faz coisas más deixa de as fazer a partir do momento que deixa de ganhar dinheiro por elas. Se um homem ganhar o prémio Nobel comprem um livro dele e leiam, se virem um bom filme comprem o DVD, deixem o hedonismo da idiotice para depois de morrerem.


Axel Ferreira

Personagens do Cinema - The Joker


Apareceu no cinema em 1966 com Cesar Romero e teve o seu ponto alto 42 anos depois com a prestação lendária de Heath Ledger. Durante 42 anos, vários foram os que tentaram dar a Joker a merecida homenagem, tentando fazer dele um inimigo à altura do invencível Batman. No entanto, nem o próprio Jack Nicholson conseguiu.

Mas quando Christopher Nolan iniciou o projecto "O Cavaleiro das Trevas", imaginou um Joker que surpreendeu o mundo não só pela prestação fantástica de Heath Ledger, como também pelas suas ideias completamente esquizofrénicas! "O Cavaleiro das Trevas" é o filme que é, teve o reconhecimento e a aceitação que teve, porque nesse filme existe um actor e uma personagem que marcam um filme. Pela primeira vez num filme de Batman, este não foi a estrela. Este não foi a atracção e não foi de Christian Bale que se esperou a diferença.



Admito que "O Cavaleiro das Trevas" não foi um filme pelo qual tenha morrido de amores. Gostei, supreendeu-me, entreteu-me. Saí do cinema muito contente com os 5€ que gastei e sei reconhecer que é um filmaço! No entanto, sempre fui contra Christopher Nolan fazer filmes sobre o Batman. Sei que, por vezes, é necessário trazer dinheiro (e nisso, Nolan é mestre!) às empresas cinematográficas para se poder fazer filmes com o orçamento de Inception. Embora Christopher Nolan não faça nada mal e tudo aquilo em que toca transforma em ouro, prefiro vê-lo noutros projectos.


No entanto, nunca ninguem como Nolan conseguiu dar a emoção e o encanto que este deu aos filmes do Batman. É, na nova geração de realizadores que apareceram nesta ultima década, o melhor. Lamento a morte de Heath Ledger. Infelizmente não esteve entre nós para ver o seu esforço e dedicação devidamente reconhecidos. O papel de uma vida, que lhe valeu o Oscar depois da sua morte.

O Cinema Numa Cena

Bem-vindos a mais uma rubrica semanal aqui no Dial P for Popcorn - "O Cinema Numa Cena" tenta mostrar as nuances de uma interpretação fora-de-série numa cena pivotal do seu filme. Estamos na quinta interpretação que analisamos e, continuando nesta década, vamos pegar em Heath Ledger como The Joker em "The Dark Knight" (2008).



Aliás, não sei como não comecei esta rubrica por ele. Adoro a interpretação. Considero-a uma das melhores interpretações da década e um dos raros exemplos de total imersão dentro do personagem. Heath Ledger estudou The Joker e conferiu-lhe uma voz peculiar, tiques curiosíssimos e todo um poder e uma presença que a antiga reencarnação da personagem, no "Batman" (1989) de Tim Burton, falhou em demonstrar. Tudo isto é obra de Ledger, um fantástico actor, algo que é passível de comprovarmos se virmos trabalhos anteriores em "I'm Not There" (2007), "Candy" (2006), "Brokeback Mountain" (2005) e "Monster's Ball" (2001). Nem precisamos de ir buscar exemplos mais rebuscados como "The Brothers Grimm" ou "10 Things I Hate About You". Digo, desde já, que até nem é a minha interpretação favorita de Ledger. Essa é a de "Brokeback Mountain". Ennis Del Mar é uma personagem completamente formada e com uma identidade e essência próprias, fruto da enorme performance de Ledger. Mas esta, de The Dark Knight, é a que mais se destaca. E percebe-se porquê. Pena que o tenhamos perdido tão cedo, pois este seria, muito provavelmente, o maior actor da sua geração e seria com certeza vencedor de vários prémios ao longo da sua carreira.



Fica a excelente cena em que ele interrompe uma festa e ameaça Rachel Dawes:

(com melhor qualidade de imagem aqui)
Deixo aqui o link de mais duas cenas: Cena 1; Cena 2 (com um dos melhores monólogos de sempre)

E aconselho vivamente o filme, como é óbvio. É um Nolan.

P.S. - Peço desde já desculpa por estar a antecipar alguns posts que seriam supostamente da semana que vem mas como vou estar uma semana fora, em princípio sem computador, vou colocar até Sábado o máximo que eu puder. Fica o aviso.

INCEPTION (2010)



Peço desculpa pelo LONGO comprimento do artigo mas acabei por juntar a Antevisão e a Crítica e deu nisto. Não volta a suceder.


Foi há dez anos (em Outubro de 2000) que um até então desconhecido realizador chamado Christopher Nolan estreou o seu segundo filme, chamado "Memento". Nunca adivinharia ele que esse viria a ser o filme que lhe daria a hipótese de voos mais altos, mas foi. O filme ganhou a admiração dos críticos e do público, conseguiu-lhe a nomeação para Melhor Argumento Original nos Óscares e terá estado muito próximo de ser nomeado para Melhor Filme e Melhor Realizador. Um filme de pequena dimensão, com algumas mas poucas ambições, sobre um homem com perda de memória a curto-prazo, protagonizado por um Guy Pearce em claro declínio de carreira. Foi, ainda, por volta dessa altura que começou a escrever o argumento para este seu novo filme, "Inception".


Entretanto, teve que se entregar a novos projectos, mantendo-se contudo sempre dentro do mesmo género, o thriller. Optou por se dedicar ao remake do filme nórdico de 1997 "Insomnia", conseguindo ultrapassar alguns dos pontos fracos que o seu antecessor possuía e alcançando boas prestações por parte de Al Pacino e Robin Williams. Seguiu-se a recuperação, milagrosa diriam alguns, da franchise de super-heróis mais querida de sempre, com "Batman Begins" em 2005, um filme extraordinário e que veio, em certa medida, complementar a virada no estilo de filmes de super-herói que já tinha começado com Sam Raimi e o seu Spider-Man, novamente pegando num actor mal usado, Christian Bale e conseguindo uma interpretação fenomenal e provando que, com o material e a direcção adequados, os blockbusters podem ter qualidade e agradarem ao público. Entre o primeiro e o segundo Batman ele escolheu "The Prestige" para realizar, um filme sobre a rivalidade entre dois mágicos em que Nolan usa em seu detrimento a ilusão sem nunca nos menosprezar enquanto audiência. Depois eis que chega "The Dark Knight", a sequela ao seu "Batman Begins". Desde a escolha perfeita para vilão (uma que muitos questionaram veementemente - Heath Ledger como The Joker, uma das melhores interpretações de sempre), passando por um argumento impenetrável do seu irmão Jonathan e de David S. Goyer, pela impressionante fotografia de Wally Pfister (que devia ter ganho um Óscar com todo o mérito), pelo belo elenco que ele conseguiu juntar (a troca, mesmo que forçada, de Katie Holmes por Maggie Gylenhaal fez uma diferença colossal e a adição de Aaron Eckhart e Heath Ledger a um elenco que já continha os nomes de Bale, Caine, Oldman e Freeman só trouxe ainda mais qualidade) e chegando até à genial banda sonora de Zimmer e Newton Howard, excluída pela Academia (no que raio estavam a pensar?) mas agraciada com um Grammy, o filme foi um sucesso enorme, com largos elogios tanto da crítica como do público. Conseguiu 8 nomeações para Óscar (venceu 2), mas não conseguiu as que mais merecia (Melhor Argumento Adaptado, Melhor Banda Sonora, Melhor Filme e Melhor Realizador). A terceira parte da saga já está marcada para continuar em 2012.

Eis que chegamos pois a 2010 e a este seu novo filme... "INCEPTION".



Um argumento que levou dez anos a escrever, um filme que inicialmente se pensava ser uma espécie de filme de reserva, para ocupar tempo antes de se voltar a entregar ao "seu" Batman, uma história que foi mantida em sigilo absoluto até ao dia da estreia e mesmo assim um filme que mesmo que se fôssemos contar a alguém o final da história, eles continuariam a não perceber nada. É assim este "Inception". São duas horas e meia do mais alucinante que há, com um enredo multifacetado e repleto de camadas de complexidade, ao qual devemos dedicar a nossa máxima atenção e concentração com pena de perdermos o fio à meada.



Não se pense, contudo, que é um corte com o que ele tinha vindo a fazer. Não. Chris Nolan mantém-se no seu género predilecto, o thriller, só que decide criar um subgénero dentro do seu próprio género - segundo a sua definição, este filme relata, muito simplesmente, um crime, um assalto, que decorre na arquitectura da mente, do sonho. Não podia ter caracterizado melhor. Não é bem ficção científica mas é quase. É talvez o filme dele que mais penetra nesse género. E é também talvez o filme dele mais incompreendido de todos.



Em "Inception", conseguimos vislumbrar partes dos seus filmes anteriores, desde a grandiosidade dedicada às cenas de acção de "The Dark Knight" até o fascínio com a mente e a ilusão de "Memento" e "The Prestige". Além do mais, "Inception" mantém-se dentro das duas premissas principais dos seus antecessores: Nolan adora fazer filmes sobre anti-heróis, homens desesperados, derrotados pela vida e sobre os momentos que os levam ao extremo (aqui, mais uma vez, não é excepção, pois é a morte de Mal, a mulher de Cobb, que o corrói por dentro), sobre o renascimento dos indivíduos (Bruce Wayne vira Batman, Harvey Dent vira Two-Face, Leonard de Memento renasce a cada alguns minutos, os dois protagonistas de Prestige, Alfred e Robert, também se debruçam sobre o renascimento contínuo e o renascimento é o tema principal de "Inception", pois na mente é tudo possível, como uma personagem do filme bem colocou, "It's just... pure creation") e sobre a dualidade dos homens, isto é, as personagens nos seus filmes são sempre reflexos umas das outras (como o Batman e os seus rivais - Two-Face e Rhas Al Ghoul são antíteses de Batman no sentido em que representam o que Bruce Wayne seria se decidisse optar pelo mal em vez do bem; The Joker é também um oposto a Batman na essência em que enquanto o primeiro é maléfico mas não tem qualquer plano ou agenda ou regra, o segundo defende a prevalência do bem mas é pautado por regras e planificações) - aqui em "Inception", o Cobb é atormentado pela sua própria projecção da sua mulher Mal, que funciona como a sua antítese, o seu oposto, o seu rival, digamos.


O enredo do filme envolve assim, uma equipa de ladrões de sonhos, contratados por grandes empresas, que penetram nas mentes das pessoas e roubam as suas ideias. Uma equipa tão invulgar quanto esta necessita de vários membros talentosos e especialistas no que fazem: temos então Cobb (DiCaprio), que é "The Extractor", quem rouba a ideia; Arthur (Gordon-Levitt), bastante bem descrito por Eames como sem imaginação, oco, que é o "The Point Man", responsável pela logística e braço-direito de Cobb; Ariadne (Page), que é "The Architect", o criador do mundo do sonho (será coincidência esta personagem ter o nome de Ariadne, que é a mulher na mitologia grega que ajudou Teseus a fugir do labirinto do Minotauro?); Eames (Hardy), "The Forger", capaz de se transformar no sonho por razões puramente estratégicas; e finalmente Yussuf (Rao), "The Chemist", que é quem produz o sedativo para os pôr a dormir. Além destes nomes, o elenco inclui ainda o Michael Caine, num papel pequeno, de mero conselheiro; Cillian Murphy é Robert Fischer, o alvo ("The Mark") da equipa, numa interpretação bastante interessante; Marion Cotillard, que é Mal, a falecida mulher de Cobb ("The Shade") e que vai surgindo durante a missão como projecção da mente de Cobb, de longe a personagem que mais me chamou a atenção no filme; e Ken Watanabe, que é Saito, o cliente ("The Tourist"). Esta equipa parte para um último trabalho, o trabalho que iria redimir o foragido Cobb e permitir-lhe juntar-se à sua família. Este último trabalho, no entanto, é diferente de todos os outros, pois o que lhes é pedido é a implantação (daí "inception" - mais um título horrivelmente traduzido para português) de uma ideia e não a extracção, que é a sua especialidade.



O filme é incrivelmente complexo a início de perceber (a primeira meia-hora é de alguma confusão) mas felizmente com um pouco de concentração e com a entrada de Ariadne em cena (e com a reunião da equipa) tudo fica mais facilitado, pois Nolan usa-a para nos introduzir ao mundo dele - ela funciona como a voz do público, sendo através do seu treino por Cobb e Arthur e pelo seu diálogo com os restantes membros da equipa que ficamos a perceber como funciona a actividade deles e como é que eles conseguem operar dentro do sonho. Além do mais, o filme é exuberante o suficiente para nos manter fascinados com o que se está a passar, portanto concentração não deverá ser um problema.

É-nos (e a Ariadne) então depois explicado que os sonhos têm vários níveis, com sonhos dentro de sonhos e por aí em diante, cada vez mais complexos (introduzindo aqui uma interessante perspectiva da flexibilidade do tempo, com 5 minutos a durar 1 hora de sonho no nível um, 1 dia de sonho no nível dois e 1 semana no nível três - as cenas com os três níveis de sonho em intersecção são bestiais) e que dentro do mundo dos sonhos existem projecções do subconsciente que funcionam como os anticorpos no sistema imunitário, atacando os invasores se detectados.



O principal ponto forte de "Inception" é fugir ao que poderia ser uma armadilha fácil, focar-se mais na acção do que nas personagens, mas a verdade é que Nolan, qual mestre que é, prefere dar atenção às caracterizações (pouco detalhadas, é verdade) das suas personagens (há que dizer aqui, contudo, que há algumas personagens bem menos trabalhadas que outras) e prefere trazer-nos para o mundo dentro do cérebro delas do que no sonho do alvo da equipa. Assim, percebemos como cada um reage às situações e entendemos porquê. Simpatizamos com o sofrimento de DiCaprio e as constantes perturbações que o assomam. Entre outras coisas. A acção serve meramente para dar lugar às interacções entre as pessoas, que é afinal o propósito deste filme, funcionando como labirinto onde cada uma das personagens se perde nos seus demónios e nas suas qualidades. 


As três interpretações mais fortes do filme, além da de DiCaprio (se bem que já chega de personagens traumatizados pelas mulheres psicologicamente perturbadas, sim?), são a de Marion Cotillard (que eu amo indefinidamente a partir de agora) como Mal, a esposa, capaz de provocar tanta intriga e comoção a partir de duas-três cenas (e mesmo enquanto ela não está no ecrã, é quase omnipresente, sempre como a sombra, como o demónio, como a cruz que Cobb tem de suportar), a de Joseph Gordon-Levitt, que teve a sorte (ou não) de participar na melhor cena de acção do filme, a gravidade zero, e a de Tom Hardy, que vai dando um ar humorístico e irónico no que seria pelo contrário um filme extremamente pesado. Finalmente, há que dizer coisas boas também de Ellen Page, muito diferente do habitual aqui mas com a mesma graça de sempre, e de Cilian Murphy, que consegue ser bastante expressivo em poucos momentos e com pouquíssimo diálogo.


All in all, o filme consegue manter-nos on the edge of our seat durante as duas horas e meia, é de uma beleza e riqueza visual (e auditiva) como poucos há, aguentando sempre o ritmo e a dinâmica da acção muito elevado, contribuindo muito para isso a fortíssima banda sonora de Hans Zimmer (do melhor que ele já fez - será que me cheira a Óscar #2?) e a soberba fotografia de Wally Pfister (Óscar, anyone?) - a sequência final do filme é de uma tremenda qualidade, mexendo imenso comigo a nível emocional, enquanto a acção decorria a um ritmo alucinante.



Gosto particularmente deste pormenor para o qual me chamaram à atenção na banda sonora. De génio, realmente.


Fazer um filme que altere a linearidade do tempo e do espaço e que consiga explorar tão bem a dicotomia fina entre a percepção e a realidade, entre o que é o sonho e o que é verdadeiro, expondo as nossas concepções e noções de realidade e imaginação a paradoxos, brincando com a ilusão da mente humana e a natureza insidiosa das ideias (como muito bem disse Pete Hammond na sua crítica na Variety), não é para todos. Fazer da mente, do sonho, um puzzle metafísico, metafórico, não é para todos. Nolan conseguiu-o. Terminando quase como comecei... "It's just... pure creation". A ideia mais original de sempre? Talvez.


Nota: A-



Top Filme - Christopher Nolan


Estreou esta semana Inception, o novo filme de Christopher Nolan.

Antes da review deste filme, coloco aqui o meu Top sobre os filmes que já vi deste realizador:

1.º - Memento
2.º - The Prestige
3.º - The Dark Knight
4.º - Batman Begins
5.º - Insomnia


Memento será muito provavelmente o seu melhor filme de sempre, independentemente dos filmes que venha a fazer (e neste ponto, espero sinceramente estar errado, porque seria muito bom sinal!). Durante a próxima semana tentarei ver Inception e assim que poder, faço aqui a minha review. Sintam-se à vontade para discordar do Top ;)