Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

Previsões Óscares 2013 (I): Actriz


Com a peculiar possibilidade que surgiu na imprensa esta passada semana de Meryl Streep estar a planear competir na categoria de melhor actriz secundária aos próximos Óscares por "August: Osage County" (filme, relembre-se, baseado na peça premiada com um Pulitzer de Tracy Letts, na qual a sua personagem, Violet Weston, é claramente uma co-protagonista), lembrei-me que já era tempo de começar a alinhavar qualquer coisa no que a previsões diz respeito. Então cá estão as minhas primeiras previsões aos Óscares de 2013, começando pela categoria de melhor actriz.

MELHOR ACTRIZ


Dos filmes já vistos, um concorrente firme já surgiu: Cate Blanchett em "Blue Jasmine" de Woody Allen conquistou as tão ambicionadas críticas brilhantes que uma interpretação como a sua precisava para vincar a sua posição na corrida. Será uma montanha complicada de trepar, uma vez que só por uma vez o grande Woody Allen conseguiu uma nomeação para uma actriz principal dos seus dramas (a lendária Geraldine Page, por "Interiors"; adenda: eu tive de corrigir para dramas, porque não tinha incluído, como bem me apontaram, a vitória de Diane Keaton por "Annie Hall"; o meu ponto de vista era que em dramas, o velho Woody não tem tanto sucesso na Academia). Outros concorrentes já conhecidos e com alguma - apesar de mínima - hipótese na corrida são a Berenice Bejo por "Le Passé" de Ashgar Farhadi ("A Separation") e a Julie Delpy pela terceira parte da trilogia de Richard Linklater, "Before Midnight". Ambos os filmes parecem mais destinados a nomeações na categoria de melhor argumento original do que aqui, embora se a competição encurtar, os seus nomes provavelmente virão à baila com os críticos e aí, tudo pode acontecer. Em Cannes também a tipicamente excelente Marion Cotillard obteve boas críticas pela sua prestação em "The Immigrant" de James Gray; contudo, apesar da personagem parecer conter traços que a Academia noutro filme festejaria de bom grado, Gray, Phoenix e a própria Cotillard não parecem merecer uma simpatia global capaz de lhe conseguir essa nomeação (se não conseguiu o ano passado por "Rust and Bone", dificilmente o fará este ano). [adenda: esqueci-me de mencionar aqui Adele Exarchopoulos de "Blue is the Warmest  Color" que vários críticos americanos consideram uma fortíssima possibilidade a nomeação]


Diria que as suas hipóteses são mínimas porque com a queda da folha chegam os pesos pesados. À cabeça está Amy Adams, aparentemente transcendente (ainda mais?) em "American Hustle" de David O. Russell. Diz quem sabe que o papel é fantástico, que ela é extraordinária nele, que mostra uma faceta desconhecida do público e da crítica até agora e que será, possivelmente, o melhor O. Russell até agora. Expectativas no alto. Estamos a falar de uma actriz quadruplamente nomeada. Depois temos a situação Meryl Streep. Se a nomeação vier como actriz secundária, a categoria basicamente estará ganha. Mas irá a Academia aceitar esta situação a bem? Veremos. De "August: Osage County" também temos outra candidata de peso: Julia Roberts, de volta aos grandes papéis. Será que a crítica, o público e a Academia se vão voltar a juntar num festival we-love-Julia como em 2000? Os Weinstein parecem estar a apostar grande neste filme. As outras duas grandes jogadas no seu baralho passam pela narrativa "a Judi Dench nunca venceu um Óscar de actriz principal e pode ser esta a sua última oportunidade" - a septuagenária protagoniza o novo filme de Stephen Frears, "Philomena", e parece fabulosa nele - e "a Nicole Kidman é a Grace Kelly". Não há dúvida que no caso desta última parece uma jogada de risco - por cada "The Hours" se faz um "Cold Mountain", não é verdade? A qual dos lados do espectro irá "Grace of Monaco" pertencer? A mesma pergunta se faz sobre Naomi Watts em "Diana", ainda por cima tendo em conta a distribuidora que comprou os direitos do filme e o facto do buzz em Cannes ser inexistente, sendo que seria à partida uma venda fácil.


Provavelmente também não será sensato descartar das contas as duas principais candidatas ao troféu o ano passado, de volta à competição este ano, Jennifer Lawrence em "Serena" da Oscarizada Suzanne Bier ("In a Better World") e Jessica Chastain em "The Disappearance of Eleanor Rigby", um filme bipartido, que conta a história da perspectiva do membro masculino e do membro feminino do casal, o que garantirá à partida alguma curiosidade adicional sobre o projecto. Da faixa etária mais jovem ouvem-se boas coisas sobre a prestação de Brie Larson em "Short Term 12" e de Greta Gerwig em "Frances Ha" de Noah Baumbach, mas será algo sensacional se alguma das duas chegar a fase avançada da corrida. O mesmo diria de Shailene Woodley por "The Spectacular Now" de James Ponsoldt e Felicity Jones no segundo filme de Ralph Fiennes, "The Invisible Woman" (se Vanessa Redgrave foi esquecida por "Coriolanus", que real chance tem Jones?) 


E finalmente falta falarmos de três antigas vencedoras da categoria, de regresso para tentarem mais um prémio: Kate Winslet em "Labor Day" de Jason Reitman é sempre uma aposta segura se o filme tiver boas críticas, Sandra Bullock tenta vencer os críticos mais acérrimos da sua interpretação vencedora em 2009 emparelhando com o reputado visionário Alfonso Cuarón em "Gravity" e a amada Emma Thompson interpreta P.L. Travers, a opinionada escritora de Mary Poppins, em "Saving Mr. Banks", um dos - diz-se - grandes candidatos a mais nomeações no dia do anúncio. 

Por esta altura, então, como ficamos?

Previsão das nomeadas:
Amy Adams, "American Hustle"
Judi Dench, "Philomena"
Meryl Streep ou Julia Roberts, "August: Osage County"
Emma Thompson, "Saving Mr. Banks"
Kate Winslet, "Labor Day"

Três mulheres, três histórias... Always THE HOURS (2002)


Quão raro é o privilégio de sermos presenteados com um filme que não só reúne três das mais importantes e inspiradoras actrizes da actualidade como lhes dá papéis dignos do seu talento e valor, um filme que não reduz as suas personagens femininas a clichés, a reflexos dos seus pares masculinos ou as trata como figuras reactivas, existindo apenas para completar a caracterização do protagonista masculino, fazendo delas o centro, o prato principal em torno do qual toda a narrativa gira – e os homens, em “The Hours”, são pouco mais que a sobremesa dessa ementa. 

Para começar: “The Hours” junta o génio (génio, não talento, como bem distingue Penelope Cruz em “Vicky Cristina Barcelona”, outro bom exemplo que poderia constar desta rubrica) individual de Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman (premiada com um Óscar precisamente por esta interpretação) a um elenco composto por Claire Danes, Miranda Richardson, Allison Janney e Toni Collette e ainda Ed Harris, Stephen Dillane, John C. Reilly e Jeff Daniels. São duas horas basicamente a assistir todas estas fabulosas actrizes a trocarem cenas entre si, duas horas de depressão, opressão e repressão enquanto estas actrizes e as suas personagens “vivem”, debaixo da alçada da magnífica banda sonora de Philip Glass, com um sentido de urgência no mundano, de assombração por detrás da fachada destas mulheres (aliás, continuem a ler o artigo com isto a tocar no fundo).


Virginia: [escreve] “Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself”


Laura: [lê] “Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself”


Clarissa: Sally, I think I’ll buy the flowers myself.

Um dia na vida de uma mulher – e toda a sua vida nesse dia. É assim que Virginia Woolf (Kidman) abre a sua obra-prima, “Mrs Dalloway”. Numa das muitas líricas e inteligentes sobreposições e paralelismos, a entediada e problemática Virginia Woolf surge-nos em 1921 a escrever aquele que viria a ser o seu mais aclamado romance; em 1951, a belíssima e delicada dona de casa Laura Brown (Moore) embarca na leitura do livro, procurando nele explicações para a sua própria vida, perdida de significado; e em 2001 a nervosa e preocupada Clarissa Vaughn (Streep) encarna a personagem que Woolf narrava oitenta anos antes, preparando uma festa para o seu ex-compaheiro enquanto lida com mais um dos seus conflitos existenciais. Arte criada, experienciada e vivenciada. Michael Cunningham era brilhante.

Três personagens tão diferentes e tão semelhantes entre si. Todas aprisionadas numa vida que não queriam ter. Para Laura Brown, a sua casa é a sua prisão. Quanto não lhe apetecia fugir! Para Virginia Woolf, não é a casa que é a sua prisão, é a sua vida. Da sua casa – como de praticamente tudo o resto – Virginia não se deixa aproximar, preferindo a solidão. Para Clarissa Vaughn, a prisão é ela própria, vivendo no constante medo de deixar os outros entrar e ver o que passa pela sua mente, tentando manter sempre as aparências de que tudo está bem.


A frenética e nervosa energia de Clarissa conta-nos tudo o que precisamos saber sobre a sua implosão interna, quase a ponto de deixar-se-ir, de deixar a sua raiva soltar-se. A cena em que se descai em lágrimas na cozinha é uma excelente forma de mostrar como mesmo a pessoa que nos parece a mais forte e independente, a que toma conta de todos, pode ser a que mais precisa de ajuda. Apanhada desprevenida por uma mescla de emoções, os seus falhanços vêm ao de cima e Clarissa vem-se abaixo. Com Laura Brown sucede exactamente o contrário. Por nunca ter definido a sua personalidade, Laura vê-se sem voz. Enquanto que em Clarissa é nas suas expressões que revela o que não quer, Laura é na voz. Do tom mais decidido ao quase suspiro, com múltiplas reticências, Laura mostra-nos o quão despersonalizada é. Uma personagem propositadamente vaga, ausente, perdida num espaço onde só existe ela e mais ninguém. Finalmente, Virginia. Um poço de fúria, de angústia, de revolta, tudo nos seus olhos. Feroz, determinada e complicada, Virginia não consegue estar satisfeita com a vida que tem. Ela é mesmo o que é – sem tirar nem por – e talvez por isso seja a mais incompreendida das três, arrumada para canto com a desculpa de uma doença mental que ninguém sabe muito bem como diagnosticar.

Muitos preferem ver “The Hours” como um filme que aborda três mulheres à beira do desespero, duas delas tentando mesmo o suicídio e por isso descartam-no como um desvaneio deprimente de um escritor com mania de lírico. Para mim, ao entrecruzar os três ângulos narrativos em paralelo em vez de em sequência, colocando o autor, o alter ego e o leitor no mesmo plano e forçando-nos a partilhar do fragmentado e imperfeito mundo destas três infelizes mulheres, “The Hours” mostra-nos como só o amor e o tempo são ambivalentes, complexos e intemporais. Tudo o resto, como as conexões, a humanidade, a felicidade, se esvai. “Always the love. Always the hours.”


Em Sundance começou a corrida aos Óscares de 2014


Há minutos foram revelados os vencedores da edição de 2013 do Festival de Sundance, certame que decorre nas planícies do Utah no princípio de cada ano e que se dedica especialmente a filmes alternativos, independentes, com o objectivo de lhes trazer maior visibilidade. 


Com "Fruitvale" de Ryan Coogler (adquirido dias após a sua exibição pela titã The Weinstein Company, peritos da corrida aos Óscares) a vencer não só o Grande Prémio do Júri - Drama (sucedendo a "Beasts of the Southern Wild" e juntando-se a vencedores ilustres deste troféu como "Winter's Bone" ou "Precious") como o Prémio da Audiência - Drama (sucedendo a "The Sessions", sendo que "Precious" também venceu este prémio no seu ano), parece-me que temos aqui o primeiro candidato à corrida aos Óscares de 2014. Protagonizado por Michael B. Jordan ("Parenthood", "The Wire", "Friday Night Lights") e Octavia Spencer (vencedora do Óscar por "The Help"), "Fruitvale" conta a história verídica das últimas horas de vida de Oscar Grant.


Tendo em conta as críticas (vão clicando e vendo, se quiserem: Indiewire; Shadow and Act; Twitch; The Hollywood Reporter; Collider; Thompson on Hollywood) não me restam grandes dúvidas: contem com este filme para os prémios de fim de ano (até Tom Rothman o disse na entrega do prémio do júri). 

De Sundance fico com vários outros filmes na retina para acompanhar ao longo do ano (de "Prince Avalanche" de David Gordon Green a "The Spectacular Now") e, essencialmente, com esta senhora (não me importam as críticas, estou morto por ver):



Os restantes vencedores AQUI.

THE PAPERBOY (2012)



Estreou em Portugal na última semana de 2012, depois de uma muito badalada estreia mundial na edição de 2012 do Festival de Cannes. The Paperboy, com o brilhante título português "Um Rapaz do Sul", é fogo de vista. Uma capa. Um conjunto de nomes que luzem, mas que não são ouro. Mas tudo isto se explica se olharmos para o homem que decidiu pegar e adaptar o bem sucedido livro de Peter Dexter. Ele mesmo, Lee Daniels, o homem por detrás daquela nódoa negra do cinema chamada Precious. The Paperboy não é tão mau quanto o foi Precious (fazer pior seria crime), mas é dos filmes mais insípidos e incompetentes de 2012.


Paperboy é um filme sobre uma amarga história de amor. Fiquei com curiosidade de pegar no livro, pois acredito que, por detrás deste mau filme, está um livro com conteúdo e interesse. Ward (Matthew McConaughey) é jornalista do Miami Times e decide investigar o assassínio de um famoso polícia na sua terra natal. Determinado a provar a inocência de Hillary Van Wetter (John Cusack), o seu regresso a casa coloca Charlotte Bless (Nicole Kidman) na vida de Jack (Zac Efron), o seu irreverente irmão mais novo, que rapidamente se envolve na investigação de Ward para se aproximar desta mulher fatal.


A história é interessante e, até, rebuscada. Trabalho de Peter Dexter, só. Os erros de Lee Daniels começam logo pela escolha do protagonista. Zac Efron não passa de um azeitolas de olhos azuis. E se o objectivo era fazer dele um b-side de Robert Pattinson (demonstrar que, também Zac, é mais do que um sex symbol das miúdas apaixonadas por posters de parede), mais valia ter ficado quieto. Foi mau para ele. Foi mau para Zac Efron. E foi péssimo para Nicole Kidman, que se viu enrolada no meio desta confusão de ideias e intenções, pior que uma barata tonta, a desfilar vestidos XXS e perucas ressequidas. Salva-se um homem, no meio deste naufrágio. John Cusack. Um papel interessantíssimo enquanto vilão (surpreendentemente bom, inesperadamente refrescante), que traz qualidade, intensidade e acção, a um filme que se arrasta forçado ao longo de todas as cenas. Há ainda um satisfatório Matthew McConaughey (do qual não sou especial adepto) e uma banda sonora consistente e apropriada. E é tudo.



Nota Final: 
C-


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Lee Daniels
Argumento: Peter Dexter
Duração: 107 minutos
Ano: 2012

Moore. Harris. Kidman. Owen. HBO em 2012.

Vamos ter batalha aguerrida pelos Emmys na categoria de telefilme este ano, com a HBO a trazer-nos televisão prestigiante uma vez mais aos nossos ecrãs em 2012: 


Nicole Kidman e Clive Owen são Martha Gellhorn e Ernest Hemingway em "Hemingway & Gellhorn", realizado por Philip Kaufman. A eles se junta um elenco composto por Parker Posey, Robert Duvall, David Strathairn, Tony Shalhoub, Connie Nielsen e Molly Parker, entre outros.




Já Julianne Moore encarna Sarah Palin no novo telefilme de Jay Roach ("Recount"), "Game Change", que acompanha os altos e baixos da campanha eleitoral de 2008. Mas Julianne Moore não é a única grande estrela do elenco, pois em "Game Change" também participam nomes como Ed Harris (como o Senador John McCain), Woody Harrelson, Sarah Paulson, Ron Livingston e Peter MacNicol.



E não esqueçamos ainda isto, acabado de estrear na HBO:



Caso para dizer: a HBO mima-nos demais. E agora pergunto: quem das duas enormes actrizes vocês acreditam que leve o Emmy para casa, seguindo os passos de Kate Winslet?

Uma lista de 11 para o dia 11/11/11

Como saberão, esta sexta-feira é dia de palíndromo (um palíndromo imperfeito, mas ainda assim). Às 11:11 horas deste dia 11/11/11, assistimos a um fenómeno que só ocorrerá novamente daqui a cem anos. Uns dizem que esse momento leva a grandes decisões e mudanças na vida, dado o misticismo em volta da dada e superstições populares, para outros é apenas mais um minuto do seu dia.  Posso dizer que a essa hora estava bem ferrado no sono.

De qualquer forma, referi isto por que razão, perguntam-me vocês. Pois bem, em resposta ao curioso desafio do Nathaniel Rogers no seu The Film Experience, aqui estão as minhas onze coisas favoritas de hoje. Ou, já que é de cinema que se fala nesse site e neste, os meus onze actores (e actrizes) favoritos de hoje em dia. Claro que se excluem aqui as grandes glórias como Meryl Streep, Al Pacino, Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Julianne Moore, Michael Caine, Robert DeNiro, Daniel Day-Lewis, Brad Pitt, George Clooney, Judi Dench, Emma Thompson, Anjelica Huston, Sissy Spacek, entre outros. Estamos a falar de actores e actrizes que não são (ainda) lista-A em Hollywood apesar da grande maioria deles estar bem lá perto (e Kate Winslet, quer se queira quer não, não gosta de ser considerada como lista-A).


Cate Blanchett | Christian Bale | Ewan McGregor


 James McAvoy | Kate Winslet| Marion Cotillard


 Michael Fassbender | Michelle Williams | Nicole Kidman


Ryan Gosling | Tilda Swinton


Quais são os vossos? (Ou, se preferirem, vão ao The Film Experience deixar outra lista; há lá várias listas curiosíssimas).

THE OTHERS (2001)



Diz-se por aí, pela boca de alguns iluminados da arte do cinema, que o Terror é o parente pobre desta arte. Na minha opinião, é fácil fazer um filme no qual se coloque o rótulo de terror. É mais fácil fazê-lo do que fazer comédia. Ou drama. Ou policiais. É fácil arranjar meia dúzias de designers com qualidade, aos quais se juntam efeitos sonoros e de (pouca) luz, cortar algumas cabeças, amputar algumas pernas, fazer sangue e colocar gente a aparecer de repente no ecrã do cinema. No entanto isto não é sinónimo de qualidade. Assusta, mete medo ao espectador, catalisa o contacto humano entre um par romântico. Mas não chega. Não chega para se chamar cinema e muito menos arte. Enquanto na comédia há muitas coisas más e que se distinguem a anos luz daquilo que é bom (ou muito bom), no terror há uma espécie de mínimos olímpicos que se conseguem obter sem grande esforço. A partir daí é que a história é outra e é isso que torna o Cinema de Terror numa parte tão respeitada quanto as outras.


The Others
é um claro exemplo de como o cinema de terror pode ter uma história por detrás de todo o suspense e mistério. Não é o meu género favorito, por mera questão de gostos, mas não gosto de a desprezar ou desvalorizar. Por isso fiquei feliz por poder incluir uma das mais importantes obras de Amenábar na selecção de filmes para analisar durante este mês. Nicole Kidman, que sem ter um pingo de sal consegue ser uma actriz surpreendente em praticamente todos os filmes em que participa (e eu evito vê-los, pois não suporto a palidez do seu olhar mortiço) é sem dúvida a grande valia e pedra basilar para a construção do argumento deste filme.


Grace Stewart
(Nicole Kidman) vive com os seus dois filhos, Anne e Nicholas, numa isolada mansão situada numa província perdida da Inglaterra. Como as suas crianças são alérgicas ao sol, Grace é obrigada a criar zonas de escuridão em toda a casa, de modo a que estas possam circular sem problemas. A chegada de Bertha Mills (Fionnula Flanagan) que se oferece para ajudar Grace nas lidas da casa, juntamente com o jardineiro Edmund e a jovem Lydia, marca o início de um conjunto de misteriosos acontecimentos que levam à constante insegurança de Grace e das suas crianças. Anne, a mais velha, irrita com frequência a sua mãe, não só pelos constantes relatos de vozes e visões que assegura ter, como também pela insolência com que reage aos castigos que lhe são impostos. Com o passar do tempo, a personagem de Bertha torna-se cada vez mais misteriosa e os acontecimentos sucedem-se a um ritmo vertiginoso.

Com um final completamente imprevisível e inesperado, The Others transformou-se numa agradável surpresa. É o terror como ele devia sempre ser feito.

Nota Final:
B+/A-


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Alejandro Amenábar
Argumento: Alejandro Amenábar
Ano: 2001
Duração: 101 minutos

MOULIN ROUGE! (2001)


"Spectacular! Spectacular!"




Dez anos depois, é inacreditável o quanto ainda me diz "Moulin Rouge!". O festival de luz, cor e espectáculo de Baz Luhrmann continua a ser, mesmo volvida uma década, um dos filmes mais satisfatórios e impressionantes de sempre. Desde o momento em que a música começa e a visão de Luhrmann de Paris entra no ecrã, um feitiço parece que me trespassa e me encanta e fico como que vidrado, a apreciar o dom visual do talentoso realizador. Não dá para desviar o olhar por um segundo - sob pena de perder vários momentos de magia.


O filme narra o romance épico de Satine (Nicole Kidman) e Christian (Ewan McGregor), com traços típicos de uma tragicomédia que vai da tristeza ao êxtase num segundo - tudo isto acompanhado, claro, pelas estilizadas adaptações das maiores baladas do século passado. Christian é um jovem e sonhador escritor que chega à bela Paris em busca de inspiração para o seu próximo romance e que trava uma curiosa amizade com o anão Toulouse-Lautrec (John Leguizamo) que o convence a alinhar no seu esquema de montar um espectáculo "cheio de luz, música e brilho" para Satine, a bela dançarina que é o atrativo principal do clube burlesco Moulin Rouge, propriedade do excêntrico e entusiasmante Harold Zidler (Jim Broadbent). Combinam então que Christian se deve encontrar com Satine e fazer-se passar pelo rico Duque de Worchester que, como previsto, iria financiar o espectáculo que faria dela uma estrela. Desfeita a confusão, o grupo tem que convencer o verdadeiro Duque de Worchester - que quer "pagar" pelos afectos de Satine - a alinhar na sua ideia. O que ninguém sabe, na verdade, é que Satine carrega um pesado segredo que poderá mudar o rumo de toda esta história.


Uma electrificante e inspirada banda sonora, que conta com adaptações de êxitos musicais como "Diamonds Are a Girl's Best Friend" numa estonteante sequência de dança, ou como a mistura efusiva e polvorosa de Paul McCartney, Eagles e Beatles em "Elephant Love Medley" na mais apaixonante cena de toda a película, ou sobretudo, com o arrebatador dueto final "Come What May", numa espécie de rendição final de Satine e Christian, cujo amor irá para sempre perdurar, não importa o que aconteça, em conjunto com a brilhante fotografia de Donald McAlpine - que merece todos os prémios que (não) ganhou - e a frenética edição de Jill Bilcock, que complementa na perfeição o tom histriónico e exagerado e risqué do filme, a mil à hora. Todas as interpretações merecem clara nota de destaque, mas sem dúvida que Nicole Kidman está muito acima das restantes. Ela desaparece completamente dentro de Satine, numa das interpretações mais surpreendentes dos últimos tempos, digna do Óscar que também (não) ganhou. Frágil, delicada e sensível, mas ao mesmo tempo tão forte e decidida, Satine é uma criação inolvidável de uma das maiores actrizes de sempre.

Retratando de forma gloriosa e até poética o que Paris tem de mais romântico e idílico, combinado com números musicais e de dança dignos de uma poderosa alucinação, repleta de eroticismo, cor e comédia, "Moulin Rouge!" é um filme que é impossível esquecer, quer se esteja a ver pela primeira vez ou pela centésima, é tocante, é emocionante, é um turbilhão de emoções fantástico de se vivenciar e experimentar. Nunca mais somos os mesmos - tal como aconteceu a Christian quando foi apresentado ao Moulin Rouge. 


Nota:
A

Ficha Técnica:
Realização. Baz Luhrmann
Argumento: Craig Pearce, Baz Luhrmann
Banda Sonora: Craig Armstrong
Fotografia: Donald McAlpine
Ano: 2001
 




O Cinema Numa Cena


Bem-vindos a mais uma rubrica semanal aqui no Dial P for Popcorn - "O Cinema Numa Cena" tenta mostrar as nuances de uma interpretação fora-de-série numa cena pivotal do seu filme. 

Da última vez que fizemos esta rubrica, pegámos numa cena não para avaliar as interpretações como tem sido costume, mas para demonstrar o brilhante trabalho dos técnicos, em comunhão com o realizador.

Desta vez, voltamos a pegar numa cena dessas. "The Hours", o filme de 2002 de Stephen Daldry com Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep nos principais papéis, fecha em grande, muito graças à brilhante cena final que compõe tudo aquilo que há de bom no filme: a sublime banda sonora de Philip Glass, a tríade de actrizes a interporem-se (o efeito dual e trial da história é o ponto alto tanto do livro como da película) e as últimas palavras de Virginia Woolf (da excelente escrita de David Hare):

"Always the years between us, always the years. Always the love. Always... the hours."


 


O filme nunca chega, infelizmente, a igualar a qualidade deste final.