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DIAL P FOR POPCORN

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Retrospectiva Óscares: 2006

Como sabem, a rubrica semanal "Retrospectiva dos Óscares" vai servir para fazer um pequeno balanço das cerimónias, do ano mais recente (2009) para trás, avaliando os seus pontos bons e as coisas mais fracas. Esta semana pegamos em 2006, portanto na cerimónia que teve lugar a 25 de Fevereiro de 2007.


2006

A Surpresa: a surpresa, essa, foi mesmo nos nomeados. Filmes de grande nome que foram deixados de fora da luta pela maioria das categorias, como "The Painted Veil" e "The Fountain", um dos favoritos dos críticos "Bobby" e um dos favoritos do público, o filme de estreia de Reitman, "Thank You For Smoking", todos foram ignorados. O choque foi mesmo no aparecimento, no dia do anúncio dos nomeados, de "Letters from Iwo Jima" na lista dos cinco candidatos a Melhor Filme, enquanto um filme que era tido como certo, "Dreamgirls", não constava (situação algo semelhante à de "The Dark Knight" em 2008). Além disso, muitas outras surpresas apareceram noutras categorias - a que mais me apetece relevar é a ausência de "Volver" para Melhor Filme Estrangeiro, que até hoje não consigo entender.


A Inclusão / A Exclusão: parece-me claramente que a inclusão mais significativa foi aquela que eu referi já acima, com "Letters from Iwo Jima", o filme complementar a "Flags of Our Fathers" do ano anterior, realizados ambos por Clint Eastwood, que não era suposto ter surgido na corrida, sendo falado maioritariamente em língua estrangeira e, apesar da crítica ter gostado bem mais deste do que do predecessor, os prémios que antecederam os Óscares não lhe tinham sido favoráveis, daí que foi com algum choque que as pessoas encararam a sua nomeação sobre um dos favoritos, "Dreamgirls", que tinha ganho vários prémios e conseguiu, mesmo assim, 8 nomeações e 2 vitórias.


A Vitória Mais Merecida: não há como fugir a isto: todo o mundo ficou satisfeito de ver finalmente Martin Scorcese levantar o troféu de Melhor Realizador. Para tal circunstância, até os produtores do evento trouxeram a cavalaria pesada para apresentar o momento: George Lucas, Steven Spielberg e Francis Ford Coppola vieram entregar o prémio ao amigo. E se muita gente acha que talvez não tenha sido o filme pelo qual ele mais merecia (alguns acham que devia ter ganho em 2004 por "The Aviator", quando Eastwood lhe roubou o prémio por "Million Dollar Baby", alguns até mais cedo... é capaz de ser, com o terceiro (futuramente, espero eu) de Meryl Streep, o Óscar mais devido de sempre) toda a gente concorda: it's about time!

A Vitória Mais Surpreendente: a maioria das categorias estavam decididas desde o início da corrida a sério aos Óscares, mas não há como entender como é que "Cars", sendo ainda assim um dos filmes mais fracos da Pixar, tenha perdido o Óscar para "Happy Feet" depois de ter ganho todos os precursores. Mas o filme sobre os pinguins dançantes lá conseguiu.

A Vitória Mais Significativa: a Academia podia ter escolhido outro vencedor, mas o facto que ela escolheu "An Inconvenient Truth" de Guggenheim, estrelado por Al Gore, simboliza qual a posição que toma no duelo Bush-Gore e, acima de tudo, funciona como um passo em frente dado pela indústria na luta por um meio ambiente melhor, como Gore bem frisou no discurso.


A Categoria Mais Renhida: se formos a ver as categorias com melhor qualidade de nomeados, essas serão a de Fotografia e a de Actriz. Helen Mirren tinha que ganhar (sabíamos disso desde o início) mas isso não invalida que ela seja, na minha opinião, a mais fraca das cinco nomeadas, pois na categoria estava uma impecável Kate Winslet em "Little Children", uma extraordinária Judi Dench em "Notes on a Scandal", uma transcendente Penélope Cruz em "Volver" e uma lendária Meryl Streep em "The Devil Wears Prada". Na de fotografia, excluindo talvez "The Black Dahlia", temos também quatro belíssimos nomeados: Pfister por "The Prestige", Lubezki por "Children of Men", Pope por "The Illusionist" e o vencedor, Navarro por "Pan's Labirynth". Se pegarmos na categoria mais renhida propriamente dita, essa é a de Actor Secundário, que falaremos mais abaixo em O Duelo da Noite.

A Desgraça: que esta semana também é O Pesadelo, pois não há assim grande coisa com que discorde, foi para mim a categoria de Melhor Filme Animado. Horrorosa. E é o melhor que lhe posso chamar. Dois filmes fraquíssimos ("Cars" e "Happy Feet") de estúdios com ofertas tipicamente mais interessantes, com a agravante da ausência da Walt Disney Pictures da corrida, nomeado normalmente certo e com o melhor filme, "Monster House", a não ser sequer tido em conta na corrida. Ganhou "Happy Feet", o que piora ainda mais a situação.


O Desnecessário e O Imerecido: não há assim nada que seja propriamente imerecido mas um segundo Óscar a Gustavo Santaolalla, à 2ª nomeação, mesmo que seja até compreensível, soa a algo desnecessário, se considerarmos que temos na categoria quatro outros nomeados extraordinários (Desplat, Navarrete, Glass e Newman) sem vitórias ainda. Também podemos falar da vitória de "The Departed" em Melhor Argumento Adaptado que, sem dúvida correcta, podia ter ido para "Borat", premiando a originalidade louca de Sascha Baron Cohen e companhia.

O Duelo da Noite: há dois com algum significado. O primeiro, Melhor Filme Animado, já foi falado acima, com "Happy Feet" a surpreender e a sobrepor-se a "Cars" na luta pelo prémio mais cobiçado (ficou "Cars" com a consolação de uma grande receita de bilheteira, a aclamação nos Annie Awards e mais prestígio para a Pixar). O segundo teve lugar na categoria de Melhor Actor Secundário. Eddie Murphy ("Dreamgirls") limpou uma boa parte dos prémios, deixando o resto maioritariamente para Alan Arkin ("Little Miss Sunshine"), tornando-se os dois candidatos principais à estatueta. Murphy tinha, à partida, a vantagem, mas o momento era todo de Arkin, que muitos pensavam já merecer ter ganho um Óscar. E na hora da verdade, foi mesmo o veterano que triunfou. Consolação para Murphy? Não houve nenhuma, a não ser que contemos as 2 vitórias de "Dreamgirls", incluindo uma para a colega Jennifer Hudson como Actriz Secundária.


Crítica Final: Uma boa noite em termos de vencedores (os quatro vencedores como Actores não são as minhas escolhas pessoais - essas seriam Streep, Gosling, Sheen e Blanchett - mas tendo em conta os nomeados e tendo em conta como foi a corrida para a cerimónia, agradeço aos Céus terem sido estes), interessante apresentador, uma cerimónia algo aborrecida, com o declínio agravado que se sabe dos últimos anos. Nota: B


Revisão da Década: Melhores Bandas Sonoras (Parte 2)

E cá temos então a Parte 2 (do #12 ao #1):

12. Gustavo Santaolalla, "Brokeback Mountain" (também por "Los Diarios de Motocicleta")


Continuo a achar inacreditável como Santaolalla deixou uma impressão tão marcada no panorama musical do cinema em tão pouco tempo (bastou 2004-2006). O compositor alia o evocativo, o exótico, o sonoro, o estonteante com a pacatez, a paz, a subtileza e o contemplativo tão bem que não é difícil de perceber como conseguiu 2 nomeações e 2 vitórias nos Óscares.




11. Thomas Newman, "Wall-E" (também por "Angels in America")



É um deleitoso prazer ouvir esta banda sonora, porque é essencialmente Thomas Newman a divertir-se, coisa que não fazia desde provavelmente "American Beauty" (como é possível não ter ganho este Óscar?) Mantenho a minha opinião: "Define Dancing" é das melhores peças musicais não só da década, como de sempre. E há que juntar aqui um bónus: este é também o homem que compôs a música para "Angels in America", o mini-filme da HBO com enorme sucesso, baseado nas peças de Tony Kutchner. Angelical.




10. Jon Brion, "Eternal Sunshine of the Spotless Mind"


Não sei porque mas consigo mais facilmente associar esta banda sonora a um filme da Pixar do que à obra-prima de Michael Gondry. Possivelmente porque estas músicas, se ouvidas fora de contexto, parecem estar como pano de fundo da minha infância (certamente este sentimento ser-vos-á familiar; ouçam-na de olhos fechados e comprovem). Mas é de facto a este filme sobre uma trágica história de amor que ela pertence. E consegue fazer o impensável: fornecer-nos mais informações ainda que o belíssimo argumento de Kaufman. A música preenche-nos o subconsciente enquanto vemos o filme, fazendo com que a dada altura do filme as personagens nos pareçam tão familiares que sentimos com elas o que elas sentem. Ela faz-nos importar com eles. Mágica.




9. Michael Giacchino, "Up!" (também por "Ratatouille")


Qualquer uma das duas é extraordinária. Mas eu tinha que mencionar primeiro "Up!" porque o trecho "Married Life" e a cena no qual ele está inserido é das melhores cenas do cinema desta década. Tão frágil mas forte é a restante banda sonora que claramente merece menção aqui tão alto. E a banda sonora de "Ratatouille", tão parisiense, tão chique, tão sofisticada, tão diferente da de "Up!", realmente, também merece o seu devido destaque.




8. Michael Galasso, "In The Mood For Love"


Romântica, encantadora, evocativa e sedutora, a banda sonora criada por Galasso com valsas e solos de piano e violino prodigiosos, é vertiginosa, magnífica, simplesmente linda.




7. Dario Marianelli, "Atonement"


O ano de 2007 é justamente o ano com melhor música desta década, na minha opinião (como se verá, terei mais duas bandas sonoras deste ano acima desta) mas foi esta a escolha da Academia na hora de entregar o prémio. Dario Marianelli criou uma obra-prima que arrepia, que nos hipnotiza, que nos prende ao ecrã em cada momento, para assistir à queda do amor clássico de Robbie e Cecillia e ao profundo sofrimento interior de Briony. Espectacular.




6. Clint Mansell, "Requiem for a Dream"


Contém o tema mais utilizado de todos os tempos pelos mídia e pelas artes, mas mesmo assim a banda sonora de Mansell, francamente inventiva, para o clássico de Aronofsky é muito mais que isso. Minimalista e subtil, é certo, mas surpreendente e perturbante ao mesmo tempo. Fantástica.


5. Yann Tiersen, "Le Fabuleux Destin d'Amélie"


Se há banda sonora que mais me faça sonhar, ainda não encontrei. A proclamação de amor que a banda sonora de "Amélie" faz ao mundo é o perfeito par para o filme fabuloso de Jeunet, pois é leve, doce, graciosa, aérea, jubilante. Captura a magia de Paris e em simultâneo explora simultaneamente a dor de um coração partido e o idílico início de um amor.


4. Hans Zimmer e James Newton Howard, "The Dark Knight"


Esta banda sonora arrasta-se até muito depois do filme acabar. Persegue-nos. É provocadora, sombria, assustadora, complexa, explosiva. Sobe e desce nos momentos certos e estimula os nossos sentidos para o que estamos a experienciar na tela. Parece mesmo que enquanto no ecrã, perante os nosso próprios olhos, a interpretação magistral de Heath Ledger/The Joker espalhava anarquia no mundo de Gotham, Zimmer e Newton Howard faziam o mesmo perante os nossos ouvidos.


3. Alexandre Desplat, "Birth"


Já sei que falei dele mais abaixo, mas esta banda sonora dele é tão irrepreensivelmente perfeita que tinha de ser mencionada só por si. Elegante, vibrante, comovente, transcendente diria até, alia os temas do filme (morte e renascimento) de forma tão imaculadamente perfeita que não dá como não cedermos a esta banda sonora.

2. Jonny Greenwood, "There Will Be Blood"

Intemporal. É como vai ser considerado dentro de alguns anos este filme e a banda sonora que o acompanha. Jonny Greenwood, guitarrista dos Radiohead, realizou um trabalho portentoso, singular, inspirado, cheio de qualidade e providenciou um excelente acompanhamento para a trama muito low-brow e delicada que é "There Will Be Blood". Não há momento em que eu pense do filme que não me lembre do som da faixa "Future Markets".




1. Nick Cave e Warren Ellis, "The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford"


Inventiva, dolorosa, inolvidável, petrificante, de cortar a respiração. A banda sonora de Cave e Ellis para este filmeé um portento de subcontexto, pois reflecte tanta profundidade de sentimento e provoca tal emanação de estados emotivos que é impossível compreender toda a sua complexidade numa só audição. Requer múltiplas audições para apreciar cada som, cada batida, cada instrumento. Toca-nos no coração. Uma elegia, um triste lamento, uma última canção antes de perecer.



Revisão da Década: Melhores Bandas Sonoras (Parte 1)

Não é uma rubrica per se, até porque não sei se vou fazer mais do género - este post ainda vem na continuação da Revisão da Década que eu andava a fazer no antigo blogue, em que falei dos meus Melhores Filmes da Década (aqui), nos Melhores Actores (aqui) e Melhores Actrizes (aqui). Talvez ainda pegue em realizadores (se bem que estava a pensar falar deles na rubrica "Pessoas da Década". E até porque ainda não tinha falado de música aqui no blogue novo, decidi que era altura.

Aviso desde já também que nisto só entram Bandas Sonoras Originais (daí a exclusão de algumas como "The Boat That Rocked" e "(500) Days of Summer").

Então cá vão, por ordem ascendente, as minhas 25 bandas sonoras favoritas dos anos 2000.

Nesta parte 1, vamos do #25 ao #13:


25. Alexandre Desplat, "The Painted Veil" (também por "Fantastic Mr. Fox", que não consegui colocar aqui na lista)


Quieta e emotiva, delicada e penetrante, a banda sonora de Desplat para a obra-prima de encanto visual de John Curran é belíssima. E o solo de piano de Lang é absolutamente celestial.

   


25. Thomas Newman, "Revolutionary Road" (também por "Road to Perdition")

Trabalho inestimável nos dois casos, bastante parecido nalguns aspectos, mas no geral a impressão que fica é de excelência. Potente, tocante e melodramática o quanto baste.




23. Elliot Goldenthal, "Frida"


Fresca, leve e com bastante musicalidade, a banda sonora de Elliot Goldenthal, premiada com o Óscar em 2002, é de sonho.

   


22. Air, "The Virgin Suicides"


Sofia Coppola disse que desde sempre soube que queria esta banda sonora feita pelos Air. O soft rock retro da banda combinou na perfeição com o tom dramático subtil do filme.




21. Michael Brook e Eddie Vedder, "Into The Wild"


Se Eddie Vedder dá um toque de sofisticação especial à banda sonora com as suas canções originais, como "Society", é Michael Brook que lhe dá alma com o seu toque mais rural, mais rústico, mais rude.




20. Howard Shore, trilogia "Lord of The Rings"


Imperial. Monumental. Poderosa. Fortíssima. Digna dos filmes a que pertence.




19. Clint Mansell, "The Fountain"


Divinal é a palavra que se pretende. Clint Mansell é um visionário, tal como o realizador com quem mais colabora, Darren Aronofsky. E esta banda sonora, efervescente e lustruosa iguala a beleza transcendente que transparece no ecrã.




18. Nick Cave e Warren Ellis, "The Proposition" (também por "The Road")


Porque são ambos dois filmes de John Hilcoat, ambos sombrios, deprimentes e opressivos e porque a ambos a banda sonora de Cave e Ellis dá uma importante ajuda. São o complemento ideal para digerar algumas das cenas mais viscerais.




17. Terrence Blanchard, "25th Hour"


Uma banda sonora meditativa, que se eleva nos momentos-chave, acompanhando a nossa corrente de emoções, desde a irritação, a frustração, a impotência, o incómodo, a rendição e a pena.




16. Michael Andrews, "Me and You and Everyone We Know"


Dizer que esta banda sonora é um dos principais motivos por o filme ser tão acarinhado é pouco. A simbiose de instrumentos criada por Michael Andrews é sublime, com cor e graciosidade para dar e vender.




15. Alberto Iglesias, "Volver"


As bandas sonoras dos filmes de Almodovar devem saber acompanhar bem a forma de fazer filmes do realizador. A música serve para nos fazer interiorizar melhor cada fala, cada cena, cada momento. E se há filme em que o compositor serviu na perfeição os preceitos de Almodovar, é em "Volver". Iglesias, um longo colaborador de Almodovar, pega no complexo melodrama familiar que o realizador espanhol idealizou e contruiu a partir daí uma banda sonora intricada, detalhada, complexa, como o próprio Almodovar gostaria.




14. Phillip Glass, "The Fog of War" (também por "The Hours")


As partituras de Glass são sempre muito ricas, seja para assuntos mais vivos como para assuntos mais depressivos - a de "The Hours", singela, silenciosa, sepulcral por vezes, tão diferente desta. Agora falo desta banda sonora para um documentário que eu só vi inicialmente para ouvir a banda sonora dele. Banda sonora fascinante, viva, furiosa, raivosa, com múltiplos clímaxes, bastante poderosa.




13. Carter Burwell e Karen O, "Where The Wild Things Are"


Ainda acho hoje um roubo sacrilegioso esta banda sonora não ter tido uma nomeação. Incrível a força como junta a alegria e a fantasia das crianças com uma imagem mais pálida, mais triste do mundo dos adultos. Harmoniosa, melodiosa e vibrante, mas também leve e melancólica.