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DIAL P FOR POPCORN

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Quando a Academia acerta (IV)


Uma rubrica destinada a provar que apesar de algumas decisões questionáveis da Academia, o Óscar é, por mérito próprio, o prémio mais cobiçado pelo mundo do cinema. E quando a Academia acerta... Merece palmas também.



Melhor Actor Secundário, 1972 | Joel Grey - "CABARET"

Perante uma categoria preenchida com grandes actores (entre eles Robert Duvall, Al Pacino e James Caan por "The Godfather"), foi refrescante ver o vibrante e extraordinário Joel Grey receber o Óscar pela sua inesquecível e inimitável interpretação do mestre de cerimónias em "Cabaret" (esta não seria a única surpresa que o filme conseguiria na cerimónia; também Bob Fosse - merecidamente - levaria o Óscar perante Francis Ford Coppola).

Provavelmente terá vencido porque Pacino e Duvall repartiram votos do contingente de "Godfather" mas ainda bem por isso: Grey merecia juntar o Óscar ao seu Tony (conseguido pelo mesmo papel na Broadway) e mais que isso Grey e Minnelli mereceram ambos os seus troféus - as suas interpretações, juntas, são o que dão alma ao filme.

Dois exemplos:





Se eu puder escolher...


Podem ser estes os três números a serem entoados nos Óscares deste ano? Já que já se limitaram na escolha só com "Dreamgirls", "Chicago" e "Les Misérables"... (sim porque a década não teve mais nenhum musical de renome - o que será que são "Moulin Rouge!", "Hedwig and the Angry Inch", "Nine", "Once", "Walk the Line", "Ray", "Les Chansons d'Amour", "Hairspray", "Dancer in the Dark", "Mamma Mia!", entre outros?). Enfim. Já sei que vamos levar com "All that Jazz", "Listen" (tudo para ter a Beyoncé a cantar ao vivo) e "I Dreamed a Dream". Já não chega a foleirada que é terem a Adele lá para cantar "Skyfall" (falta de respeito aos outros nomeados - podiam-na pôr ao menos a cantar um medley de músicas do James Bond, pagava para ouvir a rendição dela da "Diamonds are Forever").




O terceiro só no YouTube: AQUI (mas é bastante óbvio)

SINGIN' IN THE RAIN (1952)



Nunca consigo explicar muito bem o que SINGIN' IN THE RAIN me faz sentir quando o vejo. Longe de ser um filme perfeito, a obra-prima de Donen e Kelly é, mesmo nos dias de hoje, tão infecciosamente alegre e excitante como era há sessenta anos atrás. É uma experiência única e poderosa e uma que, mesmo depois de várias visualizações, nunca perde magia - o puro sentimento de felicidade está sempre lá. Não há dúvidas sobre a razão pela qual este filme é largamente considerado o maior musical de sempre e está na grande maioria das listas de filmes mais amados do cinema. É assim tão bom.


SINGIN' IN THE RAIN é um dos meus filmes favoritos para me recuperar depois de um dia exaustivo ou num dia em que esteja mais melancólico ou aborrecido. Nunca me deixa de espantar o quão simplista, divertido, feliz e refrescante é este filme e sempre que o vejo acabo por cantar e trautear as suas canções por horas a fio, desde a clássica "Singin' in the Rain" à mais animada "Good Morning" ou a ridícula "Moses Supposes" (não esquecer o incrível número de comédia física e improviso que O'Connor protagoniza - "Make'em Laugh" - numa classe própria de excelência).


Apesar de leve e confortável, SINGIN' IN THE RAIN é um produto muito original, colorido, enérgico e brilhante. A maioria da minha confessa admiração vai para os três protagonistas - o estonteante Gene Kelly,  o irreal Donald O'Connor e a formidável Debbie Reynolds, na altura com apenas de 19 anos mas a aguentar-se com classe frente a dois gigantes da indústria (a miúda canta, dança e representa como poucos).  Eles cantam e dançam e dão um espectáculo extraordinário - algumas daquelas coreografias são demasiado fantásticas, ainda para mais em 1952 e sem duplos - e fazem-no parecer tão fácil e simples. Jean Hagen completa o sensacional elenco da película com a sua Lina Lamont (nomeada ao Óscar) e apesar desta personagem ser um pouco unidimensional (ela não consegue dançar, não consegue cantar, não consegue representar e ainda por cima é uma daquelas estrelas arrogantes e insuportáveis e idiotas), Hagen envolve-a em muito mais numa performance bastante inspirada. O resto parte de uma história incrivelmente modesta mas muito inteligente sobre pessoas que fazem filmes e o seu imenso amor e orgulho em fazê-lo, mesmo que isso signifique abdicar de velha glória e adaptar-se para pertencer a uma nova era numa indústria sempre em evolução e que vinha-se apercebendo do potencial do som no cinema. É no fundo uma celebração bem humorada e jubilante deste famoso período de transição em Hollywood - que acaba por usar música para provar o seu ponto de vista que a arte - e as pessoas que a produzem - precisam de evoluir. 







Nota:
A

Informação Adicional:
Realização: Stanley Donen, Gene Kelly
Argumento: Adolph Green, Betty Comden
Elenco: Gene Kelly, Donald O'Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen, Millard Mitchell
Música: Lennie Hayton
Fotografia: Harold Rosson
Ano: 1952

Best Shot: Singin' in the Rain


This brief article is part of the weekly series at Nathaniel Rogers' quintessential movie site "The Film Experience", titled "Hit Me With Your Best Shot" (link here to previous entries)

As you know, we've been participating for quite some time. This week, we are focusing on one of my all-time favorites: Donen and Kelly's SINGIN' IN THE RAIN.




I can never explain quite well what watching SINGIN' IN THE RAIN makes me feel. Far from a perfect movie, the Donen/Kelly masterpiece is still as joyous and exciting as it was sixty years ago. It's a unique and powerful experience, and one that even through repeated viewings, never loses its thrill, its emotion, its happiness - the sheer joy is always there. Always. It's no wonder why this movie is considered to be the best musical of all time and is on almost everyone's all-time most beloved movies.


SINGIN' IN THE RAIN is one of my go-to movies when I'm having a bad day or when I'm sad or bored. It never ceases to amaze me how wonderfully simplistic, fun, cheerful and refreshing that movie is, and after watching it I always end up singing its songs for the next two hours, from the classic "Singin' in the Rain" to the more amusing "Good Morning" or the silly "Moses Supposes" (let's not forget the incredible, physically-demanding O'Connor number "Make'em Laugh", which is awesome too).


Despite being lighthearted, SINGIN' IN THE RAIN is a very original product, colourful, energetic and brilliant in its bright, merry way. Most of my admiration goes to its three leads - the dazzling Gene Kelly, the fantastic Donald O'Connor and the formidable Debbie Reynolds, at the time only 19 but more than holding her own against two industry powerhouses (the little girl sings, dances and acts her socks off). They sing and dance (in spectacular fashion, I might add - some of those choreographies are too good to be true, even for 1952!) to make it look so effortless and easy... Oscar-nominated Jean Hagen's Lina Lamont completes the core cast of the movie and although her performance is kind of a one-note joke (she can't act, she can't sing, she can't dance, she's somewhat dim and annoying), it's still a very inspired take on the dumb blonde type. The rest comes from a deceptively simple but clever story about people making movies and their immense love and pride in doing what they do, even if that means having to adapt to fit the new age of an industry always developing and now starting to realise the potential of sound in film (noticing some similarities with 2012's Best Picture winner "The Artist"? Well you should; it's one of the movies that inspired it). It's a good-humored celebration of this famous transition period in Hollywood that happens to use songs to prove its point that art - and people doing it - must evolve, all the while having a blast while doing it.

As for my best shot?




Well, before I even watched the movie again to write this article I knew I'd be picking this one. It's in the final scene of the movie, when Don (Kelly) ingeniously turns the tables on Lina (Hagen) and rushes to announce Kathy (Reynolds) - who's running down the aisle crying - as the real performer. It's one of the most romantic moments in the movies and that close-up on Reynolds' face seals the deal - it gives me goosebumps, it makes me swoon, it makes me teary eyed and gooey all inside. I know it's a little bit sentimental but this truly heartwarming finale - for an already sensational movie - is just what was needed to leave the movie - and you - on a high note for the rest of the day. It's pure magic that never fails. It's just... perfect.

Grandes Posters: Edição Musicais


Uma vez que nas últimas semanas revi "Moulin Rouge!", "West Side Story" e ainda "An American in Paris" para o nosso mês especial de celebração e depois de constatar o quão bem executados estão os posters dos três para a época em que se encontram e sobretudo para o tipo de audiência-alvo que buscam,  decidi fazer uma pequena pesquisa pelos posters da maioria dos grandes musicais da história do cinema e avaliar a sua qualidade. Decidi aproveitar esta ideia, já que me dei ao trabalho, para ressuscitar uma velha rubrica cá do blogue e foi assim que este artigo teve origem. Deixo-vos abaixo as minhas selecções para os melhores vinte posters de filmes musicais:

#20-18:


O enorme espaço em branco em "Hello, Dolly!" tira-me do sério, compensado contudo pela forma inteligente de vender o filme: a sua grande estrela (Barbra Streisand) em destaque e com um dos chapéus mais mirabolantes - e cativantes - de que há memória. Outro que sabe bem vender o produto é o poster de "Nine" que apesar de feio e tosco tem no poder dos nomes do elenco a sua grande vantagem. Difícil é não querer assistir a um filme com Day-Lewis, Cruz, Hudson, Loren, Dench, Kidman e Cotillard. Para a época, penso que a Disney fez um bom trabalho com "Mary Poppins", ilustrando bem a sensação de felicidade, de "estar nas nuvens" que o filme nos transmite, dando a entender também que esta senhora, de nome Mary Poppins, é especial.

#17-15:

 
"New York, New York" é um musical muito peculiar e o poster sabe vender bem essa atmosfera meio mística e especial. O único senão que lhe posso apontar é a grande porção de espaço vazio a preto que, hoje em dia, arruina muitos posters modernos. O de "Sound of Music" está irrepreensível, focando-se no que interessa: a sua grande estrela, Julie Andrews; o ar musical; e as colinas. O de "An American in Paris", contudo, é ainda melhor - dá ou não dá vontade de saltar para o poster e dançar nas ruas de Paris?

#14-12:



Um poster divertido é o que se pede para promover "Funny Girl" e, de facto, a imagem estilizada é promissora. A grande quantidade de espaço vazio preto peca por ser excessiva mas, neste caso, funciona bem para reforçar a imagem portanto eu vou deixar passar. Um bom uso do preto pode ser encontrado no poster de "The Rocky Horror Picture Show" que depois contém uma imagem central que vende bem o filme, irreverente, atraente, diferente. Finalmente, "Sweeney Todd". Que grande poster. Completamente Tim Burton.

#11-9:


Hesitei em colocar "Singin' in the Rain" tão alto mas a verdade é que para um poster dos anos 50 este conceito resulta excepcionalmente bem. Alegre, colorido e envolvente, a imagem com o trio à chuva contagia-me e faz-me desejar fazer o mesmo. Cumprindo assim tão eficientemente a sua missão e não alienando nenhuma pessoa que desgoste de musicais, merece esta posição alta. O estilizado, bonito e com belíssimo uso de cor poster de "Dreamgirls" quase que não merece o filme que promove. Dá ideia de um filme completamente diferente. Um bom trabalho. O poster de "Love Songs" tem três grandes elementos que o fazem funcionar: o trio de atraentes protagonistas; a cor e o tom; o desenho de Paris e pela frente o título do filme, brilhantemente executado. Promove tão bem o filme sem contar bem o que nele se passa.

#8-6:


Perfeito a capturar o ambiente e a atmosfera dos anos 20 e a segurar o seu público-alvo mostrando, através das roupas das protagonistas, do efeito risqué do título do filme e do poder dos três grandes nomes envolvidos, o poster de "Chicago" resultou muito bem. Já o poster de "Hedwig and the Angry Inch" é um caso bastante particular. Este não é um filme fácil de promover ou sequer de explicar. É preciso tê-lo visto para se compreender. Ainda assim, penso que a equipa de marketing trabalhou imensamente bem na concepção do poster, optando por escolher a melhor forma de promover o filme: uma enorme imagem da chocante personagem principal do filme. "Dancer in the Dark" poderia só ter os nomes de Björk, Catherine Deneuve e especialmente de Lars von Trier para ser relevante, mas só o facto de terem arriscado numa imagem tão arrojada e pouco relacionada com a temática principal do filme - a personagem parece que está a flutuar no ar, numa leveza de espírito, conduzida pela música, como que hipnotizada - merece pontos bónus.

#5-3:


"West Side Story" tem um poster absolutamente fascinante. Uma cor diferente e forte mas que resulta muito bem em contraste com o preto do título, também este num tipo de letra arrojado. Gosto muito ainda do pequeno pormenor das escadas da varanda e os dois amantes a branco. Lindo. "My Fair Lady" tem vários posters, alguns óbvios (como aquele todo a branco apenas com a cabeça gigante de Audrey Hepburn ao centro) e alguns, como este, estranhos mas belos. Também tem Audrey e Rick Harrison em destaque mas fá-lo de forma subtil, encantada, bonita. O resultado final é esta espécie de pintura romântica, de cores claras e suaves. Fantástico. O poster de "Moulin Rouge!", para mim, define-se em apenas três palavras: mágico, apaixonante, estonteante. Aliás, a colecção inteira dos posters merecia um artigo especial só dedicado a elas. São todos óptimos.
#2:


Um dos poucos casos em que o preto trabalha em benefício da arte, o poster de "All That Jazz" (que apresenta uma variante em vermelho também muito interessante) vende o filme apenas com o título e nada mais. Aquela tag é, além disso, fenomenal. Um musical de Bob Fosse, chamado "All That Jazz" (reminiscente da música do seu musical "Chicago", o que nos indica que podemos estar perante uma semi-autobiografia) e o título em lâmpadas. Que mais é preciso dizer? Luzes, câmara... It's show time!
#1:


Havia posters mais bonitos. Havia posters mais artísticos. Mas mais ousados e originais que este... duvido. Life is a "Cabaret", Sally Bowles em festa no topo. O texto em arco-íris em contraste com fundo preto faz o resto. Brilhante, festivo, atraente.

Passo-vos agora a palavra: quais destes posters vos chamaram à atenção?

WEST SIDE STORY (1961)

"All the world is only you and me."

Por várias vezes, a sétima arte declarou a morte do seu género mais rico e mais prestigiante, o musical. Depois de "Wizard of Oz" ter encantado milhões e "Singin' in the Rain" nos ter dado vontade de sair à rua e cantar enquanto gotas frias de chuva nos caem em cima, alguns falhanços de bilheteira como "Oklahoma!" ou "South Pacific" ou mesmo os cintilantes "A Star is Born" de Cukor e "Gigi" de Minnelli - hoje em dia considerados dos melhores musicais de sempre, galardoados com várias nomeações pela Academia mas ignorados na altura pelo grande público - puseram em causa o quanto o público ainda apreciava um grande espectáculo de luz, cor, música e dança. O que o cinema musical precisava, então, era de um enorme êxito cuja ressonância junto do público faria os estúdios acreditar de novo no poder da música. E eis que é assim que surge o famoso e muito premiado (vencedor de dez Óscares da Academia, só atrás de "Return of the King", "Titanic" e "Ben Hur" que ganharam onze) "WEST SIDE STORY", que pega nos conceitos básicos do romance "Romeu e Julieta" de William Shakespeare e cria uma história para recordar todo o sempre e um dos pares românticos mais inesquecíveis de todos os tempos, Tony e Maria.


Com uma energética e dinâmica Nova Iorque nos anos 50 como pano de fundo, "WEST SIDE STORY" foca-se na relação tempestuosa entre dois gangues rivais: os Jets, compostos por descendentes dos imigrantes europeus que se estabeleceram na América no início do século, liderados por Riff (Russ Tamblyn) e os Sharks, recém-chegados porto-riquenhos em busca do sonho americano, liderados por Bernardo (George Chakiris). O filme transforma assim a disputa de duas famílias rivais numa luta entre duas classes sociais distintas, revolucionando a narrativa em termos da sua mensagem, abordando tópicos como o roubo, a delinquência juvenil, a xenofobia e o racismo e conferindo-lhe um estilo muito próprio, bem diferente do romance trágico de Shakespeare, embora conservando os seus fios narrativos essenciais - e adicionando-lhe um toque bem refrescante e inovador, transmitindo as suas ideias sob a forma de música e dança.


No meio da disputa entre os dois gangues encontram-se Tony (Richard Beymer), o melhor amigo de Riff, que apesar de ter abandonado os Jets e decidido procurar trabalho e subir na vida, vê-se envolvido na confusão a pedido de Riff, que põe em questão a sua amizade, e Maria (Natalie Wood), irmã de Bernardo, trazida há bem pouco tempo para a América para poder desposar Chino, o braço-direito de Bernardo, contrariando a vontade de Maria e da sua namorada Anita (Rita Moreno), amiga e confidente de Maria. A falta de química dos dois protagonistas seria, à partida, essencial para o sucesso da história (e atenção que eu sou um enorme fã de Natalie Wood, por isso custa imenso estar a criticá-la); todavia, o espírito e a graça de Rita Moreno e o estilo e irreverência de Russ Tamblyn e George Chakiris convencem-nos a ignorar essa grande fraqueza e a apreciar outros factores que ajudam, no fim de contas, o filme a capturar na perfeição a ingenuidade e a despreocupação da juventude.

 
Apesar da visão ambiciosa por detrás do filme e do grande potencial que tinha, o resultado final peca em defeito. O diálogo sofre de clara falta de inspiração e talento de escrita, servindo apenas como guideline e intermissão entre momentos de música e dança, mas funciona perfeitamente para o propósito do filme (como conseguiu ser nomeado para Melhor Argumento Adaptado eu nunca hei-de saber). Como que a compensar, as cenas musicais, tão igualmente elogiadas (pela crítica) e criticadas (pelos actores, que viram as cenas ser repetidas vezes sem conta pelo realizador Jerome Robbins, que no seu perfeccionismo acabou por ser despedido por ultrapassar o orçamento), são de absoluto encanto e charme. Se "Tonight" e "I Feel Pretty" fazem hoje parte do nosso imaginário (as gerações mais novas reconhecerão estas músicas seguramente pelas suas adaptações na série televisiva "Glee"), "America", "Cool", "Prologue" e "Something's Comin'" são, para mim, os três números musicais definidores do ambiente do filme, a tresandar de paixão, de alma, de fogo e de alegria. As vozes que Marni Nixon e Jimmy Bryant "emprestam" a Natalie Wood e Richard Beymer fazem maravilhas em "Tonight", é certo, mas é a exuberância e a energia de Rita Moreno e George Chakiris em "America" que fazem deste filme tão especial. Curiosamente, as quatro músicas que preferi destacar são as quatro coreografias que Jerome Robbins completou antes de abandonar o filme. São hilariantes, excitantes e fortíssimas, geniais no seu conceito e execução, de facto. Às músicas mencionadas junto ainda a brilhante sátira feita à idiotice e inércia das forças policiais em "Gee, Officer Krupke". Stephen Sondheim e Leonard Bernstein são, sem dúvida, dois dos maiores compositores de sempre.


Merecido vencedor, em 1962, dos Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador (a primeira de apenas duas vezes que uma parceria de realizadores venceria o prémio; os outros foram os irmãos Coen em 2007), Melhor Actor Secundário (Chakiris) e Melhor Actriz Secundária (Moreno), Melhor Banda Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Direcção Artística, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Edição e Melhor Som, "WEST SIDE STORY" é uma experiência absolutamente inesquecível e indescritível, repleto de momentos musicais arrebatadores e cenas de dança de cortar a respiração, com uma conclusão agridoce que é, contudo, bastante realista (talvez o meu principal problema com o filme, o facilitismo com que chega a empurrar a sua mensagem para o centro da narrativa, perdendo assim o final do filme - quase - toda a sua potência): com o coração cheio de ódio não se vai a lado nenhum. Gostava que o filme tivesse sido mais risqué e menos politicamente correcto e fã do final feliz. Ainda assim, constitui um feito notável e uma das maiores produções de sempre do cinema americano, uma que tem lugar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. Como musical, nunca desaponta. Como filme... Depende do que se pretender retirar dele.


Nota:
A-

Ficha Técnica:
Realização: Jerome Robbins, Robert Wise
Argumento: Jerome Robbins, Arthur Laurents, Ernest Lehman
Elenco: Natalie Wood (voz: Marni Nixon), Richard Beymer, Rita Moreno, George Chakiris, Russ Tamblyn, William Bramley, Ned Glass
Música: Leonard Bernstein, Irwin Kostal
Fotografia: Daniel L. Fapp
Ano: 1961

Revisão da Década e Top Filme: Musicais (2000-2009)


Partindo de uma conversa tida há dias no grupo de Bloggers, saiu-me este top, que assim aproveito para retomar uma das velhas rubricas do Dial P For Popcorn, o TOP FILME e para comemorar a estreia de "Burlesque" nas salas nacionais (crítica há-de vir mais tarde, em formato rápido). Ainda dizer que o crédito da ideia tem que ser dado ao André Marques (Blockbusters).

Deixo-vos então ficar com a minha lista dos melhores musicais da década passada. Para aumentar a discussão, só colocarei a minha opinião sobre cada um deles mais tarde.

Avisar também que peguei em filmes musicais, não apenas em musicais no próprio sentido da palavra. Faz-me mais sentido assim.


#10 (empate):


#9:


#8:


#7:


#6:


#5:


#4:


#3:



#2:



#1:



Espero que deixem cá ficar a vossa opinião, a vossa lista e o que pensam da minha. Gostaria imenso de obter várias impressões.

CABARET (1972)

 

«Leave your troubles outside.
So life is disappointing, forget it!
In here life is beautiful.»
 

A citação acima pertence à música introdutória de "Cabaret", o filme mais famoso do realizador-coreógrafo Bob Fosse. É através dessa música, "Willkommen", brilhantemente escrita e composta por Ebb e Kander que o Mestre de Cerimónias do clube nocturno Kit Kat Klub (interpretado magnificamente por Joel Grey) nos dá as boas-vindas ao mundo do Cabaret.

Este musical tão fora do habitual é um deleite de ir desvendando, apresentando-nos tanto detalhe, tanta cor, tanta imaginação, tanta alma, que é impossível não nos contagiarmos e nos deixarmos levar, precisamente abandonando os nossos problemas durante as duas horas do filme.


"Cabaret" passa-se na antecâmara da II Guerra Mundial, na Berlim de 1931, numa altura em que, enquanto se assistia à ascensão do Partido Nazi, se vinha assistindo a um aumento na ambiguidade sexual, na decadência e em que locais como os cabarés eram francamente apreciados pela sua falta de pudor em expor o que a protagonista, Sally Bowles, viria a caracterizar como "divina decadência". Este paralelismo entre, por um lado, todo uma parte do filme mais política, mais séria, mais machista, existe a outra parte, a alegre, a descontraída, a sensual é o que mais me fascina no filme. E aqui entra o génio de Bob Fosse, que consegue aliar as duas histórias que pretende contar e interrelacioná-las, fazendo-nos perceber que este filme é, sobretudo, um filme sobre as pessoas. 


O argumento do filme segue a personagem principal das "Histórias de Berlim" de Christopher Isherwood, a cantora de cabaré Sally Bowles, uma das personagens mais fabulosas que o Cinema alguma vez teve a oportunidade de conhecer. Por entre a sua falta de tacto e de educação, o seu narcisismo, os seus amuos, a enorme aura de diva que paira sobre ela, os seus mil defeitos e as suas generosas qualidades, a sua falsa vitalidade e devassidão apercebemo-nos que ante nós se desvenda uma das maiores interpretações de sempre. Liza Minnelli cria um monstro perante os nossos olhos. Além dos fantásticos números de dança e canto, Minnelli confere a Sally Bowles uma vulnerabilidade que a personagem, ao tentar esconder, nunca falha em nos mostrar, quer pelo meio da "divina decadência" a que tanto se refere, quer pela forma teatral com que reage à maioria das situações, quer pela forma como guarda para si a maioria dos seus receios, dos seus traumas, das suas desilusões e até quer pela forma como só se dá às pessoas até certo ponto. Emocional e excitável, é certo, mas bastante frágil e secreta. Soberba ao ponto de nos conseguir convencer sempre de que ela, de facto, é apenas uma rapariga que vive o momento, sem preocupações, que acredita fielmente no lema do Cabaret, não levar nada a sério e viver para sempre o presente. E quanto ela se dá a conhecer na totalidade a nós audiência, no seu mais exposto é de partir o coração.


O filme conta-nos portanto a história da relação entre Sally Bowles e Brian (Michael York), um jovem professor de Inglês que se perde na vida nocturna do cabaré e depois a relação destes com dois alunos de Brian, Fritz e Natalia (fazendo depois com esta personagem o paralelismo para o nazismo e para a influência que teve na vida dos Judeus alemães, comunidade da qual Natalia faz parte) e em seguida de Sally e Brian com um milionário excêntrico, bissexual (interpretado de forma muitíssimo interessante por Helmut Griem). A exploração deste amor aparentemente incompreendido e deste triângulo amoroso tão fora do ordinário é o que dá ao filme força motriz. Pelo meio, vão-se entrelaçando situações da vida destas personagens com números de dança e canto no clube nocturno, números esses ricos de realismo, sempre relacionados com o momento em que a acção principal pára. É a este nível que se consegue sentir a enorme interpretação de Joel Grey como o Mestre de Cerimónias de cara pintada e sorriso aberto, que serve de ponto de ligação entre as várias partes do filme, quer esteja a cantar e a dançar, quer esteja a saltar, quer esteja a atirar lama para duas das suas dançarinas que estão envolvidas numa luta em pleno palco, quer esteja a contar-nos a história do seu ménage à trois, ele continua o divertimento e as festividades no cabaré, fazendo-nos sentir todo o entusiasmo, a força, a pujança e a alegria que normalmente pautaria tais estabelecimentos. Joel Grey é fascinante de acompanhar, pois rouba toda a atenção nas cenas em que surge e oferece-nos uma performance completamente bestial.


A acompanhar as prestações do grande elenco temos números musicais intemporais, melodias de uma exuberância e brilho tal que serão amadas para sempre, como "Money Makes The World Go Round", "Mein Herr", "If You Could See Her", "Maybe This Time" e o magnífico final, "Life is a Cabaret"; uma fotografia bastante poderosa, muito pormenorizada, com uma paleta de cores infindável; um argumento muito bem explorado e incisivo, que nos permite acompanhar esta história melancólica e elégica sem nunca perder o norte ao real, inventivamente teatralizado nos números musicais no cabaré; e uma realização extraordinária de Bob Fosse, que lança um olhar bastante cínico e frio às pessoas que habitavam esta Berlim dos anos 30.


Quando o filme chega ao seu fim, percebemos finalmente que este não é um filme feliz e nem o seu número final, "Life is a Cabaret", é uma canção sobre a alegria do cabaré, onde todas as preocupações são abandonadas, como poderia parecer. É, sim, uma elegia, uma canção de lamento, uma canção de desespero, de tristeza, que não só se refere à falsa felicidade patente nestes locais, como também serve como forma de análise ao futuro sombrio que a Alemanha Nazi iria trazer ao mundo, um mundo onde personagens como Sally Bowles e o Mestre de Cerimónias deste cabaré não irão ser toleradas.

E a despedida é feita da mesma forma que fomos introduzidos em cena, pelas palavras melódicas do Mestre de Cerimónias, que de facto nos leva a concordar com ele, dizendo: «Where are your troubles now? Forgotten? I told you so. We have no troubles here. Here life is beautiful.» e despede-se dizendo, antes das cortinas caírem uma última vez: «Auf Wiedersehen, À bientôt».

NOTA:
A

"Cabaret" viria a vencer 8 Óscares na cerimónia de 1972, sendo o filme com maior número de troféus da noite. Venceu Melhor Actriz (Minnelli), Melhor Actor Secundário (Grey), Melhor Edição, Melhor Direcção Artística,  Melhor Som, Melhor Música, Melhor Fotografia e, tendo "The Godfather: Part I" vencido Melhor Filme, conseguiu ficar com o prémio de Melhor Realização (Fosse).

Ficha Técnica:

Realização: Bob Fosse
Elenco: Liza Minnelli, Joel Grey, Michael York, Helmut Griem, Marisa Berenson
Fotografia: Geoffrey Unsworth

Banda Sonora: Fred Ebb (musical "Cabaret") e John Kander
Argumento: Jay Allen