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DIAL P FOR POPCORN

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SECRETS AND LIES (1996)



"Life isn't fair then is it. Somebody always draws the short straw. "


São poucas, pouquíssimas, as pessoas que no cinema se podem gabar de saber contar uma história de forma tão realista, despretensiosa, (direi até) humanista, quanto Mike Leigh. Ele é um mestre quando nos fala sobre nós, sobre a nossa/sua sociedade, sobre as relações humanas, sobre as filosofias da vida. E é delicioso, fantástico e absolutamente comovente ver um filme com uma carga emocional como a de Secrets and Lies (tal como aconteceu com um dos melhores filmes de 2010, o super aclamado Another Year).


Porque o dinheiro empobrece o espírito das pessoas, corrói relações de carinho e amor, embrutece e estupidifica os mais vulneráveis, Mike Leigh resolveu falar-nos sobre ele. E sobre os efeitos catastróficos que a ganância e a inveja podem ter num ambiente familiar, já de si, pouco saudável. Falo-vos de Cynthia (Brenda Blethyn - Fantástica actriz, numa Fantástica Interpretação), mãe solteira de Roxanne, uma caprichosa, insurrecta e desconcertante jovem de dezoito anos, em completa ruptura com a sua mãe, cuja vida se limita aos cigarros que engole enquanto, sentada na poltrona da sala, espera a chegada do seu namorado. Cynthia tem uma vida triste, cinzenta, desoladora.


Até que a sua vida ganha uma nova e inesperada alegria. Hortense Cumberbatch (Marianne Jean-Baptiste) contacta-a e informa-a de que é sua filha. Cynthia, reprimindo o choque inicial (e recordando os dias em que se viu obrigada a entregar Marianne para adopção), aproxima-se da sua filha e, aos poucos, entrega-se a um carinho, a um amor e a uma alegria que nunca antes conheceu. Não posso terminar, sem vos falar de Maurice (Timothy Spall), irmão de Cynthia, que vive um casamento feliz com Monica (Phyllis Logan) e interpreta a única personagem mental e emocionalmente saudável deste filme. Maurice é um homem forte (em todos os sentidos) e é dele que partem as desesperadas tentativas de criar uma harmonia entre todos, é ele que tenta compreender os problemas da família, é ele quem coloca os outros à frente de si mesmo, e a sua alegria consegue contagiar, com facilidade, a empatia do espectador.


Tudo isto nos é contado como se se passasse na porta ao lado da nossa casa. Não há super-heróis. Não há mulheres bombásticas. Não há felizes acasos. Há vidas, tão reais, tão humanas, que não as conseguimos separar do mundo que nos rodeia.


Nota Final:
A-


Trailer:

´

Informação Adicional:
Realização: Mike Leigh
Argumento: Mike Leigh
Ano: 1996
Duração: 142 minutos

ANOTHER YEAR (2010)



"Life is not always kind, is it?"


Que diriam vocês se alguém decidisse entrar dentro de vossa casa, no seio da vossa família e entre os vossos amigos, e começasse a filmar o vosso dia-a-dia, durante um ano inteiro? Parece... aborrecido, não é? Sem qualquer propósito. Afinal, as nossas vidas nada têm de especial. É, talvez, este ingrediente que mais atrai ao virtuoso realizador Mike Leigh, que volta a pegar na rotina diária de pessoas ordinárias, sem qualquer feito de relevo, para nos mostrar todo o tipo de lições sobre o que é ser feliz e como lá chegar. 

 
Relembro que este é o mesmo homem que nos presenteou há dois anos com o magnífico "Happy-Go-Lucky", que nos proporcionou um valente soco no estômago com "Vera Drake" e que produziu clássicos intemporais como "Secrets and Lies", "Naked" e "Topsy-Turvy", um homem brilhante a explorar o que há de mais puro e impressionante no drama da vida  que tem um olho e um instinto certeiros para a comédia humana, um observador fascinante do comportamento humano e sobretudo com um genuíno talento para uma forma invulgar de fazer cinema: sem julgamentos. 

O filme segue o dia-a-dia de um casal ao longo de um ano, com vizinhos e amigos e família a aparecerem em diferentes momentos ao longo das quatro estações do ano. Não há muito mais que aconteça no filme. Contudo, no que algumas pessoas preferem ver aborrecimento e monotonia, eu prefiro ver realismo, porque a nossa vida, a vida da grande maioria das pessoas que passa por este mundo, é assim. Não se passa muita coisa. Gerri e Tom (Ruth Sheen e Jim Broadbent) são um casal de meia-idade feliz, que faz questão de aproveitar o melhor que a vida tem para oferecer, que tem as portas sempre abertas a visitas. De uma felicidade genuína e palpável, inteligentes, amáveis e carinhosos, fornecem um excelente contraste em relação às visitas que lá aparecem por casa, não tão ajustados e com a vida resolvida como eles. 

 
A química e a empatia que Sheen e Broadbent conferem aos seus personagens é incrível, dotando-os igualmente de uma fascinante cumplicidade, de modo que muitas vezes só uma troca de olhares ou de uma palavra entre eles diz milhões de coisas que pensam mas não ousam dizer. Tudo isto transforma-os num convincente casal que fica contente por receber os amigos e que verdadeiramente torna a sua estadia o mais agradável possível. É impossível ver o filme e não pensar o quão divertido e reconfortante seria visitá-los neste preciso momento.


A interpretação de Sheen e Broadbent tem ainda outro condão: o de deixar a Lesley Manville a possibilidade de explodir com o cenário. Que interpretação formidável. Possivelmente a melhor que vi, em termos de actrizes secundárias, este ano. Mary está completamente perdida. Está tão perdida que já nem sequer parece ter conserto - algo que dá para perceber logo que a vemos, nem precisávamos que Tom e Gerri, na cama à noite, após mais uma das visitas de Mary, comentassem: "It's so sad". Mary é uma mulher na casa dos quarenta, divorciada, que bebe demasiado, que é completamente inapropriada a maioria das vezes que fala (diz sempre o que pensa), que repete a mesma piada milhares de vezes, que comete imensos faux-pas em socialização normal e que, sem noção da sua situação real, continua convencida que está no pico da sua vida e portanto que o homem perfeito há-de vir ter com ela - e tanto assim é que ela se julga capaz de afastar Kenny, mais um dos amigos de Gerri e Tom que aparece para visitar, também ele solteiro (melhor, divorciado) e que busca em Mary uma companhia para o resto dos seus dias.


Trágica mas divertidíssima, frágil mas humana, neurótica a ponto de fingir despreocupação para se convencer a si própria do contrário, impossível de agradar e aturar em certas alturas mas também impossível de enxotar quando já bebeu mais do que uns dois, três copos, Mary é simplesmente inesquecível. Uma interpretação electrizante, hábil a fugir da caricatura e transformando Mary numa roda viva de emoções e transportando-nos a nós com ela, Lesley Manville é magistral.

O argumento é genial. Construído a pensar em momentos superficiais, triviais do dia-a-dia, é na mensagem que reside no seu interior que se encontra toda a beleza.  A pacatez ingenuamente pode levar-nos a pensar que nada substancial se passa. Não se enganem, este é um filme profundo, pleno de situações cheias de humor mas com vários episódios dotados de maior tristeza e melancolia. Deve ser seguido com a maior das atenções, porque aqui, cada fala, cada olhar, cada variação na forma como cada personagem se comporta em relação às outras, conta. 


E, no fim de contas, não é assim a vida? Às vezes passa a correr, outras vezes leva tempo demais a passar, contudo aquilo que nos fica, no final, não são os acontecimentos que se passaram - são as pessoas com quem os passámos. Lembramos as amizades que fazemos e o tempo que passamos com elas, os abraços e beijos que trocamos com a família, as horas que partilhamos com quem trabalha connosco ou com quem estuda connosco. Os melhores momentos da nossa vida são, invariavelmente, aqueles que passamos com as pessoas que dão significado à nossa existência. E é isso que Mike Leigh tenta, afinal, transmitir.



Nota:
A-



Informações Adicionais:
Realizador: Mike Leigh
Argumento: Mike Leigh
Elenco: Jim Broadbent, Ruth Sheen, Lesley Manville, Karina Fernandez, Oliver Maltman, Peter Wight
Fotografia: Dick Pope
Música: Gary Yershon


Trailer: