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DIAL P FOR POPCORN

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Previsões Óscares 2013 (I): Actor Secundário


Como habitualmente, esta promete ser uma categoria difícil de resolver (no que a nomeados diz respeito) mas fácil de premiar (o vencedor é - excepção feita ao ano passado - alguém que costuma fazer uma limpeza geral aos prémios todos do circuito). A categoria do ano passado, apesar de excitante de seguir pelo fluxo de gente a entrar e a sair a cada conjunto de nomeações e prémios anunciados e pelos múltiplos vencedores que foi tendo ao longo da época de premiações, acabou por reunir uma colecção de antigos galardoados com o prémio algo enfadonha, quando um bocadinho de colorido aqui e ali - McConaughey ("Magic Mike"), Samuel L. Jackson ou Leonardo DiCaprio ("Django Unchained") ou Javier Bardem ("Skyfall") - traria mais alguma diversidade e interesse à corrida. A vitória sorriu a Christoph Waltz, que reciclou para "Django Unchained" a sua personagem Hans Landa de "Inglorious Basterds". Pronto, o homem dá-se bem com diálogos do Tarantino - e daí? Quer dizer que o homem ganha um Óscar basicamente sempre que lhe apetece fazer por isso? Daqui a pouco é o novo Daniel Day-Lewis (já não falta muito, só mais uma estatueta).


Muitos dos homens mencionados acima voltam à corrida este ano. Matthew McConaughey terá uma temporada de campanha em cheio, porque seja como actor principal ("Dallas Buyers' Club") seja como actor secundário ("Mud" e "Wolf of Wall Street", provavelmente este último será a sua melhor hipótese, embora terá também que lutar internamente contra Jonah Hill, nomeado em 2011 e que poderá ter possivelmente nova hipótese), tem várias oportunidades para tentar a nomeação. Outro actor roubado de uma nomeação o ano passado  (podemos falar de duas consecutivas, contando com "Shame" o ano antes também) foi Michael Fassbender. O homem regressa à competição tanto em actor principal ("The  Counselor") como em actor secundário - e deverá ser nesta última que terá mais hipóteses, por "12 Years a Slave" de Steve McQueen. O papel clama atenção da Academia (vilão, crueldade para os escravos, filme de época, actor no timing certo - tudo aquilo que eles gostam nesta categoria). Veremos se pega. 


Um recente nomeado de volta é Mark Ruffalo por "Foxcatcher", o novo filme de Bennett Miller que promete fazer estrago na corrida - é um projecto pessoal do próprio (que conseguiu nomeações para filme, actor e um dos seus actores secundários para os seus dois primeiros filmes, "Capote" e "Moneyball"), é uma história verídica perturbante e conta com um elenco fantástico (liderado por Carell - já falado em actor principal, Ruffalo e Channing Tatum, outro com possibilidade de nomeação aqui). Ruffalo é querido pela indústria, já conseguiu o mais difícil - ser nomeado (2010), que parecia que nunca iria acontecer - e portanto pode pensar (o papel também ajuda) em repetir o feito. Outros nomeados recentes a ter em conta também são Bradley Cooper e Jeremy Renner pelo novo filme de O. Russell (se "American Hustle" provar ser tão diverso e dar tanto que fazer como os filmes prévios de O. Russell, é de esperar que algum dos actores secundários - entre Renner, Lawrence e Cooper - consiga um bom papel e respectiva nomeação), Matt Damon ou George Clooney (falta sabermos quem é o real protagonista de "The Monuments Men" e se haverá mais alguém do elenco secundário a roubar cenas, como Bob Balaban ou Bill Murray por exemplo) e Javier Bardem (que já venceu a categoria, tal como Clooney) e Brad Pitt por "The Counselor" de Ridley Scott. George Clooney tem ainda um papel secundário que desperta muita curiosidade em "Gravity" de Alfonso Cuarón (temo que este filme não vá resultar ou não vá ser do agrado da Academia, à la "Children of Men", mas Clooney e Bullock são mel para a crítica e para o grande público por isso pode ser que se dê bem) e Jeremy Renner obteve ainda boas críticas pela sua prestação em "The Immigrant" de James Gray, já discutido previamente. Também falado anteriormente em melhor actor mas de nota aqui é a interpretação de Josh Brolin em "Labor Day" de Jason Reitman - isto porque a interpretação pode tão facilmente ser considerada principal como secundária, como penso que irá acontecer - o que o fará (tendo em conta o papel), se o filme tiver sucesso, um dos favoritos a vencer.


Além da grande percentagem de regressos que comummente pautam as listas de nomeados aos Óscares todos os anos, constam sempre nomes novos (não o ano passado mas, como já referido, foi uma excepção).  Tony Danza ("Don Jon") numa espécie de prémio por uma carreira relevante na indústria (e parcialmente porque toda a gente gosta do homem), Will Forte ("Nebraska") se o filme cativar muitos membros da Academia e arrastar consigo algumas nomeações menos óbvias para lá de argumento, realizador, filme e actor - o mesmo é aplicável a Jared Leto ("Dallas Buyers Club"), Daniel Brühl ("Rush") porque todos os anos há sempre um actor com uma transformação física espantosa na conversação, Tim Roth ("Grace of Monaco") pelas mesmas razões de Will Forte só que muda actor para actriz - o mesmo se aplica a Steve Coogan ("Philomena") e a Benedict Cumberbatch ("August: Osage County"), se bem que este tem ainda o bónus adicional de estar no momento exacto e na transição para A-List para esta premiação suceder. Falta ainda referir o homem camaleão, um dos verdadeiros character actors da actualidade, que surge em vários filmes por ano e em todos é bom mas acaba sempre por não obter reconhecimento - será este o ano de John Goodman? E por que filme? "Saving Mr. Banks", "Inside Llewyn Davis" (pelas críticas, o mais provável) ou "The Monuments Men"?

Pergunta final: e começar a montar uma campanha para Ewan McGregor ser nomeado por "August: Osage County"? É que não é só "Moulin Rouge!", "Trainspotting", "Velvet Goldmine", "Shallow Grave", "Big Fish", "Young Adam"... Já vai numa sequência seguida de grandes interpretações - "I Love You Philip Morris", "The Ghost  Writer", "Beginners", "The Impossible"... Quanto mais tempo demorarem, Academia, maior é a vergonha...


Previsão dos nomeados:
Javier Bardem, "The Counselor"
Bradley Cooper, "American Hustle"
Michael Fassbender, "12 Years a Slave"
Matthew McConaughey, "Wolf of Wall Street"
Mark Ruffalo, "Foxcatcher"

E o Óscar (não) vai para...



É sempre chato ser o perdedor. Ainda para mais quando se é consecutivamente. Always the bridesmaid, never the bride, como reza a expressão inglesa. Em tempos recentes, Meryl Streep era o exemplo consumado de uma perdedora nos Óscares: dezassete nomeações, venceu à segunda (1979) e terceira vez (a primeira como actriz principal, por "Sophie's Choice", 1982) e apesar de anos e anos de contínua excelência e interpretações de mérito, só trinta anos depois ("The Iron Lady", 2011) a sorte lhe voltou a sorrir. Outro exemplo clássico de tempos recentes foi Jeff Bridges, por muitos considerado o maior actor americano vivo, que recebeu a sua primeira nomeação em 1971 ("The Last Picture Show") e precisou de mais quatro e de chegar ao ano de 2009 para receber a sua primeira estatueta. Mais um exemplo comum é o de Kate Winslet, excelente desde que surgiu em "Heavenly Creatures" no princípio da década de noventa e nomeada pela primeira vez em 1995 por "Sense and Sensibility", levou mais de vinte anos de versatilidade e brilhantismo em diversas interpretações para, à sua sexta nomeação, conquistar o troféu tão ambicionado (2008, "The Reader").


Pego neste tema hoje porque estava a vasculhar artigos antigos que tinha guardado para futura memória e veio-me parar às mãos (metaforicamente, vá, porque no fundo, foi através de um clique de rato) este artigo de 2008 do Nathaniel Rogers do The Film Experience que especulava quem seguiria as pisadas de Kate Winslet a vencer um Óscar há muito já merecido. Adoro como o artigo e os comentários funcionam como uma cápsula do tempo de há cinco anos atrás e como tanta coisa mudou desde então. A lista de 2008 reflectia a proeminência, então, de Johnny Depp, que muitos cotavam como um vencedor óbvio a curto prazo. Também antevia que Streep vencesse novo troféu (o que acabou por acontecer) e a terceira aposta mais popular era curiosamente Ralph Fiennes (estupidamente roubado em 1993 por "Schindler's List"). Bridges era o quinto da lista, liderada no topo por Michelle Pfeiffer, a actriz preferida do Nathaniel, que faz uma defesa bastante fundamentada pelo título de actriz mais negada pela Academia. Curiosamente, da lista de 2008, três actores receberam nomeações (mas não os três que Nathaniel apostou): Bridges (que venceu e ainda conseguiu mais uma nomeação), Streep (que conseguiu um Óscar e outra nomeação) e... Annette Bening, nomeada em 2010 por "The Kids are All Right".


Volvidos cinco anos, é engraçado analisar estas premonições. Depp está a atravessar um momento inigualável de seca criativa na sua carreira, parecendo ter perdido toda a imaginação e originalidade que trespassava para as suas antigas interpretações. Terá estado perto de mais uma nomeação em 2009 por "Public Enemies" mas desde então nunca mais fez nada que merecesse consideração. Em 2009 também sucedeu o último ataque de Pfeiffer à estatueta. "Chéri" não resultou em nada. Fiennes virou entretanto realizador e também pouco mais se viu, desde que em 2008 voltou a ser ignorado tanto por "The Duchess" como por "In Bruges".  Ian McKellen e Joan Allen praticamente já não aparecem em filmes. Sigourney Weaver tentou a rota da televisão ("Political Animals") sem sucesso e continua esporadicamente a surgir aqui e ali, sem nota de destaque. Julianne Moore saltou também para o pequeno ecrã para ganhar um Emmy e um Globo de Ouro ("Game Change"), depois de ser negada mais uma nomeação em 2009 ("A Single Man") e outra em 2010 ("The Kids Are All Right"). Annette Bening é a única a trabalhar consistentemente com qualidade lado a lado com Moore.


Outra curiosidade na lista é de Nathaniel ter mencionado que Glenn Close tinha desistido de caçar um Óscar. Cinco anos decorridos e ela juntou mais uma nomeação ao currículo ("Albert Nobbs", 2011) e parece ter regressado para tentar de novo a sorte. Helena Bonham-Carter foi outra das menções honrosas de Nathaniel que também conseguiu mais uma nomeação ("The King's Speech", 2010) e esteve provavelmente próxima da vencedora (Melissa Leo, "The Fighter"). E da lista dos renegados da Academia ("Oscar poison"), dois conseguiram prémios e ambos na mesma categoria e consecutivamente: Christopher Plummer (2011) e Christian Bale (2010).

Depois desta introdução, expliquemos ao que venho: em 2013, quem seriam as vossas apostas para vencer um Óscar a curto prazo por já ter feito para merecer um? Por outras palavras, quem vai conseguir juntar a trifecta buzz, timing e body of work?

Cá vão as minhas dez escolhas.



Menção Henrosa (porque me esqueci dela):
Michelle Williams
Tem três nomeações, só uma delas por um trabalho Oscar friendly ("My Week with Marilyn"). Eu sou da opinião que ou consegue um papel que torne a vitória inevitável (tipo Natalie Portman, "Black Swan") ou então nunca vai ganhar, tudo porque ela não aceita papéis a pensar em prémios, prefere personagens difíceis e complicadas, o que lhe ganha admiradores fervorosos mas não faz a Academia gostar dela como gosta, por exemplo, de Amy Adams. A verdade é que desde 2005 que a moça trabalha a alta rotação: "Brokeback Mountain", "Shutter Island", "Wendy & Lucy", "Synecdoche New York", "I'm Not There", "Meek's Cutoff", "Blue Valentine", "Take this Waltz", "My Week with Marilyn". Vai ter de aceitar mais papéis como o próximo filme, "Suite Française", para ter possibilidade de vencer.




10. e 9. 
Michael Fassbender / Jessica Chastain
Criei aqui um empate, à batoteiro, para mencionar estes dois casos. O primeiro ainda nem sequer conseguiu uma nomeação, mas em termos de popularidade e aclamação crítica e afirmação no panorama cinematográfico estão, diria, mais ao menos taco a taco. Falemos de Fassbender primeiro. "Hunger" e "Shame" são vergonha suficiente para a Academia nem sequer ter tido lata de o nomear. Então pelo segundo filme é qualquer coisa de incrível. Pelo meio junte-se "Fish Tank", "A Dangerous  Method" e "Jane Eyre". Até filmes de género de qualidade ele fez - "X-Men: First Class" e "Prometheus". Do novo Malick, do novo McQueen ou do novo Ridley Scott há-de sair qualquer coisa, não? Agora Chastain. Duas nomeações em três, quatro anos de trabalho contínuo de grande qualidade (em 2011 tinha mesmo quatro, cinco interpretações dignas de nomeação, de "Take Shelter" a "The Tree of Life", de "The Help" a "Coriolanus"). Perdeu por pouco a corrida nas duas vezes que foi nomeada. É a menina querida dos cineastas "a sério" e junta a isso a admiração dos seus pares. Se continuar a este ritmo, a vitória não tardará muito.



8. Robert Downey, Jr.
Adicionem à mistura os ingredientes "rejuvenescimento", "reinvenção de uma carreira dada como perdida", "reabilitação muito aplaudida", "originador da fortuna recente da Marvel", "Sr. Tony Stark" (tão popular como Jack Sparrow no final da década de 2000), "vencedor do Globo de Ouro por Sherlock Holmes" e "nomeado ao Óscar por Tropic Thunder" e o que temos? Um actor que toda a gente quer ver ter sucesso. Bob, escolhe produzir para ti um filme daqueles em que sabes que podes reinar à grande - e o Óscar é teu. 



7. Viola Davis
Só pela humilhação que a Academia deve ter sentido de ter sido acusada de tirar a Viola Davis o Óscar por "The Help" para dar a Meryl Streep ("The Iron Lady") a mulher tem logo uns 100 pontos de vantagem na próxima vez que voltar à corrida. O difícil será conseguir um papel que a coloque em contenção. Será, contudo, só isso que bastará, porque só com uma interpretação titânica (pensemos Mo'Nique em "Precious") é que lhe vão arrancar o Óscar das mãos.



6. Brad Pitt
Três nomeações ("Moneyball" em 2011, "The Curious  Case of Benjamin Button" em 2008, "Twelve Monkeys" em 1995) não reflectem bem a enorme carreira deste homem. "Fight Club" e "Se7en" são óbvias e imperdoáveis omissões. Juntaria "The Tree of Life" e "Inglorious Basterds" à lista, mas poderia também citar "The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford", "Burn After Reading", "Snatch" e "Thelma and Louise" à lista de interpretações de elite. Brad Pitt pertence ainda a um clube especial da indústria, dos membros mais valorizados, como Clooney, DiCaprio ou até a sua cara-metade, Jolie. Também no caso deste é só preciso surgir um papel. Em 2011 esteve muito perto. Arrisco dizer que se a campanha de Dujardin não tivesse sido tão forte e seria ele e não o francês a roubar o Óscar a Clooney. Julgo que acabará eventualmente por vencer, seja como principal ou secundário.




5. Julianne Moore
"[safe]", "Boogie Nights", "Far From Heaven", "The Hours", "Magnolia", "The Kids Are All Right", "The End of the Affair", "Blindness", "Vanya on 42nd Street", "Saving Grace", "A Single Man", "Crazy, Stupid, Love", "Children of Men", "The Big Lebowski", "Hannibal", "I'm Not There", "The Fugitive", "The Hand that Rocks the Craddle", "Shipping News", "Cookie's Fortune" e "Psycho" de Van Sant. Disto tudo resultaram quatro nomeações. Continua a trabalhar com a dedicação, talento, versatilidade e excelência de sempre. Basta um papel certeiro. I rest my case.



4. Annette Bening
Quatro vezes nomeada, quatro vezes terminou em segundo lugar (não se sabe oficialmente mas suspeita-se). "The Grifters", "American Beauty", "Being Julia", "The Kids Are All Right". Duas vezes batida por escolhas consensuais (Portman em "Black Swan", Swank em "Boys Don't Cry"). E duas vezes batida por escolhas popularistas (Whoopi Goldberg em "Ghost" e Swank - a arqui-inimiga - em "Million Dollar Baby"). Tal como a moça acima, mantém o talento e a ambição intactas e apresenta frequentemente interpretações de luxo. Esperemos que algum ano tenha mais sorte, embora a personalidade distante e fria - de senhora sofisticada - seja um obstáculo difícil de ultrapassar. Os Óscares gostam mais das meninas bonitas e simpáticas. Que o diga Jennifer Lawrence.



3. Joaquin Phoenix
Um dos actores mais entusiasmantes dos dias que correm. Depois do fatídico ano de 2005 ("Walk the Line") e da sua segunda derrota dedicou-se a uma fase da sua vida mais experimental, não sem antes virar musa de James Gray (uma pena a Academia ter ignorado "Two Lovers" e "We Own the Night"). Voltou desse período conturbado com revigorada energia, virando a nova musa de Paul Thomas Anderson, que lhe rendeu nova nomeação e derrota este último ano ("The Master") e com nova produção a caminho ("Inherent Vice"). Este ano volta à corrida por "Her" e "The Immigrant". Será desta? Tal como Christian Bale, será mais um enfant terrible triunfador?



2. Leonardo DiCaprio
O mal amado. Tal como Kate Winslet, algum dia terá que ser a vez dele. E ao contrário de Winslet, o Leonardo sempre vai tentando produzir os seus próprios esforços, nunca se cansa, tem sempre mais que um projecto a sair e não se pode dizer que recorra sempre aos meus realizadores e tipos de papéis (se bem que a saga das personagens consecutivas com mulheres mortas e a atormentá-lo já enjoava). Nos últimos tempos foi de Scorsese para um blockbuster de Christopher Nolan, para um biopic de Clint Eastwood, para o mais recente êxito de Quentin Tarantino, para uma adaptação literária estilosa de Baz Luhrmann e de volta a Scorsese. Se isto não é variedade e pedigree, não sei o que será. Pecou pela juventude das três vezes que perdeu. A que mais doeu foi em 2004 ("The Aviator"). Tinha tudo para ganhar mas a Academia achou Ray Charles mais impressionante. Há-de chegar o dia (embora já me tenha passado pela cabeça que o Leo dava um bom "novo Peter O'Toole").




1. Amy Adams
"Junebug", "Doubt", "The  Fighter", "The Master". Sempre que ela esteve num filme popular com as massas ou com os críticos ou, pelo menos, num filme "à Óscar", ela foi nomeada. Pode-se dizer que foi ignorada por trabalho impressionante em 2007 ("Enchanted") mas a Academia nunca tocaria naquele filme nem por sombras. O amor que a instituição tem por ela, no entanto, bate fundo e parece não ter fim (quatro nomeações em apenas oito anos - 2005-2012 e das quatro vezes conseguidas a muito esforço - duas delas a par com uma actriz do seu filme - ou pelo menos assim parecendo mostram que a Academia gosta dela). Algum dia terá sorte. Será este ano com "American Hustle" ou "Her"? É que mesmo quando a moça tira um ano sabático para ter um filho, consegue manter-se sempre pertinente na indústria ("The Muppets" foi uma das grandes histórias de sucesso de 2011). Com o ritmo de trabalho dela, é uma questão de tempo até... lhe darem um Óscar ou esquecê-la de vez.


E para mais um Óscar, alguma aposta? Acho seguro assumir que Clooney, Streep, Seymour Hoffman, Winslet, Lawrence e Hathaway vão vencer mais Óscares. Mesmo Blanchett, Bale e Kidman, se bem que estes nem sempre façam filmes populares. Firth poderá repetir, dependendo do papel. O mesmo digo de Sean Penn, Russell Crowe, Tom Hanks e Denzel Washington. Dos veteranos, acho que DeNiro terá sempre boas hipóteses se - e é um grande se - quiser voltar aos grandes papéis (como este ano vimos, em "Silver Linings Playbook"), bem como as Dames Judi Dench, Maggie Smith e Helen Mirren porque são britânicas e essas trabalham para sempre. 

Isto, no fundo, não quer dizer nada. De repente, sem ninguém esperar, um actor arranja o papel de uma vida e lá chovem estatuetas e mais estatuetas. Quem diria que chamaríamos àquela simpática senhora nomeada por "Frozen River" em 2008 vencedora do Óscar? E quem apostaria que seria Sandy Bullock a ficar com o prémio de Melhor Actriz em 2009? E que Daniel Day-Lewis iria aproveitar um ano fraco para actores e ganhar um terceiro Óscar de Melhor Actor, juntando três prémios no espaço de 23 anos (1989, 2007, 2012) e pouco mais de dez papéis nesse tempo? E que de França viria um Jean Dujardin bater Pitt e Clooney? Lá está, isto das previsões não querem dizer absolutamente nada. Mas é sempre giro especular.



"12 Years A Slave" de Steve McQueen candidata-se a filme do ano


Steve McQueen é um dos mais brilhantes realizadores da nova geração, com os seus dois primeiros filmes, "Hunger" e "Shame", a transformá-lo num dos mais excitantes artistas a seguir no cinema moderno e a converter a sua musa, o alemão Michael Fassbender, num dos actores mais importantes dos últimos anos em Hollywood. Tem sido até agora ignorado pelas principais cerimónias de prémios, o que se percebe em parte pelo conteúdo difícil de digerir das suas duas películas (que também penalizou as fantásticas interpretações do seu protagonista). 

A maré de azar parece estar a mudar, pelo que o trailer do seu novo filme, "12 Years A Slave", indicia. Reunindo-se com a sua estrela (Fassbender), reabilitando (possivelmente) a carreira de um dos maiores actores afroamericanos deste século (Chiwetel Elijofor) e completando um elenco muito sólido com consumados profissionais (Brad Pitt, Paul Dano, Paul Giamatti, Scott McNairy, Garrett Dillahunt, Michael Kenneth Williams, Alfre Woodward e Sarah Paulson, entre outros), McQueen decide pegar no tema da escravatura no final do século XIX, o qual "Django Unchained",  o multi-nomeado aos Óscares o ano passado, também abordou.


Cá fica o primeiro grande trailer do ano. Muita promessa, muita expectativa, a confirmar em Veneza ou nos festivais de Outono (Telluride e Toronto).

REALIZADORES/PERSONAGENS DO CINEMA: STEVE MCQUEEN E BOBBY SANDS



Pela primeira vez junto duas das minhas crónicas favoritas numa só. É uma crónica de comemoração, onde presto homenagem a duas das figuras mais brilhantes do cinema em 2011. Sim, a crónica dos Realizadores (em especial essa) serve para homenagear os grandes nomes da realização, é verdade. Nomes com história, com currículo, com filmes suficientes para garantir um lugar entre os melhores e mais marcantes de sempre. Steve McQueen pode não ser ainda tão grande como foram Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman ou Fritz Lang. Mas, verdade seja dita, está numa posição muito privilegiada para fazer parte deste clube de elite.


Quanto a Michael Fassbender, pouco mais há a dizer. Bobby Sands é a mais importante personagem da sua carreira até ao momento (e certamente uma das mais marcantes de todo o seu currículo). Estamos a falar de um actor que conseguiu, em X-Men: First Class, transformar Magneto numa grande personagem. E quando pensamos nisto e olhamos para Bobby Sands, um revolucionário da Irlanda do Norte enclausurado numa prisão sem regras, disposto a morrer pelos seus direitos como prisioneiro político, percebemos a dimensão daquilo que lhe foi posto em mãos.


Estamos a falar de um filme que, a nível técnico, não é tão bem conseguido quanto o foi Shame. Aí, Steve McQueen está melhor. Aprendeu com alguns erros cometidos em Hunger e mostrou uma evolução consistente e admirável. Mas Fassbender mostra porque é que faz as delicias dos amantes do cinema. É uma máquina de representação. A intensidade, a entrega, a concentração, o profissionalismo, actualmente não têm igual. É o melhor actor em actividade. Não sabe fazer mal. Em Hunger, um filme que nos transporta para o inicio da década de 80, altura dos violentos conflitos entre a Irlanda do Norte e a tirana Margaret Thatcher, vivemos o ambiente duro e cruel de uma prisão onde eram calados os presos políticos, os homens que mobilizavam as massas e que, com coragem, desafiavam o sistema e as regras.


É um filme duro. Não se vê com o pacote de pipocas à frente, nem num ambiente festivo. Baseado em factos reais, é uma mensagem sobre a bravura e a coragem de homens que lutaram pelos seus ideais e pelo seu orgulho. Arrojado em todos os aspectos técnicos, com um fantástico take de quase vinte minutos onde Fassbender mostra a sua classe, Hunger foi o primeiro passo de um imberbe Steve McQueen. Com um estilo muito próprio, McQueen é um dos mais promissores realizadores dos nosso dias. E Twelve Years a Slave, esperado para 2013, é já um dos filmes mais aguardados do próximo ano.

O MELHOR DE 2011 - PRÉMIOS INDIVIDUAIS

O meu atraso na publicação destas listas é justificável. Tal como no ano passado, optei por fazer uma reunião tendo por base o ano em que os filmes aparecem identificados no site IMDb. Sendo assim, e como alguns dos melhores filmes do ano só estreiam em Portugal na altura dos Oscars, as minhas listas surgem um pouco mais tarde.

Pela primeira vez, arrisco-me nos prémios individuas (A lista com os Melhores Filmes será publicada amanhã.). De forma tímida, apenas com cinco categorias. Há sempre filmes que não tenho oportunidade de ver e não gosto de ser injusto. Mas penso que fiz uma escolha séria e ponderada e que aqui estão realmente aqueles que, para mim, foram os melhores em 2011. Pode ser que em 2012, com mais experiência (tanto cinematográfica como blogosférica, me consiga atrever a algo mais arrojado como são, por exemplo, os Dial A for Awards do Jorge. Posto isto, os vencedores de 2011 são:


Melhor Actor: Michael Shannon (Take Shelter)






Melhor Actriz: Meryl Streep (Iron Lady)






Melhor Realizador: Steve McQueen (Shame)






Revelação Masculina do Ano: Michael Fassbender (Shame, A Dangerous Method, X-Men: First Class)






Revelação Feminina do Ano: Jessica Chastain (Take Shelter, The Tree of Life, The Help)


SHAME (2011)



Honra lhe seja feita. Shame não é um filme para meninos. Estamos numa Nova Iorque contemporânea. Onde o rebuliço dos dias arrasta milhões, de um lado para o outro, numa azáfama e numa rotina diabólica, que destrói relações e promove a solidão e a desintegração social. Brandon Sullivan (Michael Fassbender) é um homem perdido. Vive na ilusão das suas inúmeras companheiras sexuais, da pornografia cibernética, das fugazes relações de uma noite. Mas a adrenalina e o calor de mais um encontro sempre desaparecem com o nascer do sol, e mais um infeliz, cinzento e solitário dia aparece.


A viver sozinho no seu apartamento nova-iorquino, Brandon recebe a inesperada visita da sua irmã Sissy (Carey Mulligan), uma aspirante e promissora cantora, que se revela uma personagem completamente distinta e paradoxal daquilo que é Bradon: carente, dependente, a viver intensamente cada momento e cada relação. Enquanto, sabiamente, o magistral Steve McQueen cria uma cápsula que envolve, protege e esconde o íntimo de Brandon , a encantadora Sissy é uma personagem inocente, que se abre perante o espectador e nos dá a conhecer aquilo que é, sem sombras, sem máscaras, sem fantasias.


Mas o maior elogio de todo o filme vai directamente para Steve McQueen. O seu trabalho é sublime. E se Shame não funcionaria sem o carisma e a intensidade com que Fassebender se entrega à personagem, seria também um enorme fracasso na mão de 99% dos realizadores em actividade. É preciso ser-se um mestre, é preciso ser-se muito muito bom, para se criar um ambiente, uma envolvência, um clima que, por si só, catapultam uma personagem. A banda-sonora é irrepreensível e (igualmente) surpreendente. É uma das melhores deste ano. Tal como filme. Shame não desiludiu. Mas, repito, não é um filme para meninos. E é um filme que merece (e necessita) da compreensão do espectador. Tudo o que acontece, sem pudor, faz parte de uma história maior. De um revelação pura, dolorosa e real.


Nota Final:
A-



Trailer:





Informação Adicional:
Realização: Steve McQueen
Argumento: Abi Morgan e Steve McQueen
Ano: 2011
Duração: 101 minutos








Uma lista de 11 para o dia 11/11/11

Como saberão, esta sexta-feira é dia de palíndromo (um palíndromo imperfeito, mas ainda assim). Às 11:11 horas deste dia 11/11/11, assistimos a um fenómeno que só ocorrerá novamente daqui a cem anos. Uns dizem que esse momento leva a grandes decisões e mudanças na vida, dado o misticismo em volta da dada e superstições populares, para outros é apenas mais um minuto do seu dia.  Posso dizer que a essa hora estava bem ferrado no sono.

De qualquer forma, referi isto por que razão, perguntam-me vocês. Pois bem, em resposta ao curioso desafio do Nathaniel Rogers no seu The Film Experience, aqui estão as minhas onze coisas favoritas de hoje. Ou, já que é de cinema que se fala nesse site e neste, os meus onze actores (e actrizes) favoritos de hoje em dia. Claro que se excluem aqui as grandes glórias como Meryl Streep, Al Pacino, Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Julianne Moore, Michael Caine, Robert DeNiro, Daniel Day-Lewis, Brad Pitt, George Clooney, Judi Dench, Emma Thompson, Anjelica Huston, Sissy Spacek, entre outros. Estamos a falar de actores e actrizes que não são (ainda) lista-A em Hollywood apesar da grande maioria deles estar bem lá perto (e Kate Winslet, quer se queira quer não, não gosta de ser considerada como lista-A).


Cate Blanchett | Christian Bale | Ewan McGregor


 James McAvoy | Kate Winslet| Marion Cotillard


 Michael Fassbender | Michelle Williams | Nicole Kidman


Ryan Gosling | Tilda Swinton


Quais são os vossos? (Ou, se preferirem, vão ao The Film Experience deixar outra lista; há lá várias listas curiosíssimas).

[ÚLTIMA HORA] Vencedores do Festival de Veneza


Os grandes vencedores do Festival de Veneza acabaram de ser anunciados, numa cerimónia que sucedeu a sessão de encerramento do festival, que ficou a cargo de "Damsels in Distress" de Whit Stillman. Mais logo viremos analisar como decorreu o festival e os títulos que de lá saíram que poderão fazer mossa na campanha aos Óscares do outro lado do Atlântico. Para já, cá ficam os vencedores, uma lista muito diversa com grande - e curiosa - predominância asiática e com um vencedor bastante polémico e inesperado:


Leão de Ouro:
  "Faust", Alexander Sukurov

Leão de Prata (Melhor Realizador):
  Shangjun Cai, "People Mountain, People Sea"



Copa Volpi para Melhor Actor:
Michael Fassbender, "Shame"

Copa Volpi para Melhor Actriz:
  Deanie Yip, "A Simple Life"

Grand
e Prémio do Júri:
  "Terraferma", Emmanuele Crialese

Prémio Marcelo Mastroianni (Melhor Novo Actor ou Actriz):
Shota Sometami, Fumi Nikaido, "Himizu"

Osella para Melhor Argumento:
Yorgos Lanthimos, "Alps"

Osella para Melhor Fotografia:
Robbie Ryan, "Wuthering Heights"

Prémio FIPRESCI:
  Em Competição (Venezia 68): “Shame”
Fora de Competição: “Two Years”

Prémio SIGNIS:
“Faust”
Menção Honrosa: “A Simple Life”

Leão de Ouro do Futuro:
“Là-Bas”

Prémio Cinema Europeu - Fora de Competição:
“Présumé Coupable (Guilty)”

Prémio Pequeno Leão de Ouro (Leoncino d’Oro Agiscuola):
“Carnage

Prémio UNICEF:
“Terraferma”

Prémio Francesco Pasinetti (SNGCI):
“Terraferma

Prémio Brian:
“The Ides of March”

Prémio Leão Queer (Melhor Filme LGBT):
“Wilde Salome

Prémio Arca CinemaGiovani:
  “Shame” e “L’ultimo terrestre

Prémio CinemAvvenire:
“Shame”

Prémio Inovação Digital:
“Faust”
Menção Honrosa: “Kotoko”

Prémio Rato de Ouro:
“Killer Joe”
Rato de Prata: “Kotoko”

SECÇÃO ORIZZONTI:

Premio Orizzonti
(Longa-Metragem):
"Kotoko"

Prémio do Júri (Longa-Metragem):
"Whores’ Glory"

Prémio Orizzonti (Meia-Metragem):
"Accidentes Gloriosos" 

Prémio Orizzonti (Curta-Metragem):
"In attesa dell'avvento"

Menções Especiais:
"The Orator"
"All The Lines Flow Out"


Leão de Ouro de Carreira:
Marco Bellocchio

Prémio Jaeger-LeCoultre:
Al Pacino

X-MEN: FIRST CLASS (2011)



Desde sempre fui um apreciador de X-Men. Por isso mesmo, não consegui resistir a mais um filme sobre mutantes. Mas não foi só por isso que peguei nesta que poderá vir a ser uma das mais bem sucedidas sequências de filmes da Marvel. Matthew Vaughn, depois de surpreender em Stardust, obter grande admiração com o inesperado super-herói Kick-Ass (cuja sequela já se encontra prevista), volta agora a colocar bem alta a fasquia. Christopher Nolan tem alguém a morder-lhe os calcanhares! Não acredito que algum dia se aproxime daquilo que Nolan já fez com Batman, mas, pelo menos, garante aos admiradores do género, um futuro muito interessante para as adaptações dos super-heróis da Marvel.


O mais recente filme de X-Men conta-nos como tudo começou. Como Charles Xavier (James McAvoy), mais tarde conhecido como Professor X, deu início às suas investigações de uma nova geração de seres humanos com mutações que resultaram dos efeitos da radiação produzida pela Segunda Guerra Mundial. Mostra-nos quem era Magneto (Michael Fassbender) e de onde surgiu a rivalidade com o Professor X. No filme, aparecem ainda Mystique (Jennifer Lawrence) e a Besta (Nicholas Hoult), dois dos mais emblemáticos personagens da série.


E neste primeiro filme de Vaughn que eu espero, sinceramente venha a produzir mais duas ou três sequelas (tem qualidade suficiente para isso), o Charles Xavier, um promissor Professor de Genética acabado de se formar em Oxford, é contactado pela CIA para ajudar a resolver aquele que parece ser o início de uma Terceira Guerra Mundial. Estamos na década de 60 e Kennedy é o Presidente dos Estados Unidos. Xavier reúne uma equipa, onde junta Magneto, um jovem judeu que ficou orfão às mãos dos alemães na Segunda Grande Guerra. A sua união resulta de um objectivo comum: Deter Sebastian Shaw (Kevin Bacon), também ele mutante, que pretende criar um conflito entre as duas grandes nações do mundo. Shaw movimenta-se muito bem e consegue criar fortes influências em ambos os governos, manietando-os a seu belo prazer. Mais? Não vou contar para obrigar o leitor a descobrir uma das mais agradáveis e divertidas surpresas de 2011!


Para terminar, não posso deixar de referir que McAvoy é um excelente Professor X e Fassbender um óptimo Magneto! E que todo o restante elenco foi muito bem pensado. Matthew Vaughn está de Parabéns, mais uma vez.



Nota Final:
B


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Matthew Vaughn
Argumento:
Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman e Matthew Vaughn
Ano:
2011
Duração:
132 minutos

JANE EYRE (2011)


"You're a full human being."

Numa altura em que tanto se fala pelos lados de Cannes em candidatos precoces à cerimónia dos Óscares de 2012, passou de mansinho cá por Portugal o primeiro legítimo candidato a essa mesma época. Depois de "Sin Nombre", um dos melhores filmes de 2009, Cary Fukunaga ficou na retina de todos os cinéfilos como um dos realizadores a seguir no futuro e portanto, foi com muita expectativa - mas também apreensão - que o vimos pegar em algo completamente diferente para o seu segundo filme, um verdadeiro desafio às suas qualidades enquanto realizador: o aclamado clássico JANE EYRE, a obra-prima romântica - e semi-autobiográfica - de Charlotte Brönté, a irmã de Emily Brönté ("Wuthering Heights"). Depois das diversas vezes que foi alvo de adaptação, nas quais se incluem duas longas-metragens e três mini-séries, é-me de todo surpreendente que Fukunaga tenha encontrado uma voz distinta nesta sua JANE EYRE, que tenha arranjado tanto de novo e significativo para dizer, que tenha conseguido pintar um retrato completamente resplandecente, absorvente e apaixonante desta heroína dos tempos de heróis byronianos e que tenha criado uma obra tão singular quanto admirável e, sobretudo, com a mesma qualidade do seu primeiro filme. De qualquer forma, já não me devia de surpreender com estas coisas - é assim mesmo com os grandes realizadores...

 
JANE EYRE (Mia Wasikowska), como se sabe, é uma jovem rapariga que, embora nascida nobre, fora enviada para um orfanato pela sua tia, Mrs. Reed (Sally Hawkins num pequeno mas delicioso papel) onde aí cresceu sendo ensinada para se tornar numa perceptora - uma espécie de tutora dos dias de hoje. Aos seus 18 anos, foi contratada para tomar conta de Miss Ravens (Romy Moore), uma menina aos cuidados do mestre da mansão de Thornfield Hall, Mr. Rochester (Michael Fassbender). Rochester é bruto, rude, vil e frio - como qualquer herói byroniano, é um homem valente e cheio de espírito mas fragilizado e com defeitos. Ainda assim, o seu súbito interesse na jovem Jane Eyre permitem-nos ver que existe mais para além dessa faceta dura que ele monta para as restantes pessoas, levando a que esta se apaixone por ele. Parece, de facto, a história de um amor impossível, porque o é - como muito bem a avisa Mrs. Fairfax (Judi Dench), a governanta da casa - Rochester guarda um peso inestimável nas suas costas, um segredo que consome a sua alma. Será que Jane e Rochester vão conseguir ultrapassar todos os obstáculos no seu caminho? É o que o filme nos leva a saber.


O que me surpreende nesta adaptação de Fukunaga é ter percebido o quanto ele e Moira Buffini, a argumentista, conseguiram retirar das páginas do livro, reduzindo em muito o volume de texto mas conservando o poder, o enigma, a reviravolta e o suspense que este mantém. Fukunaga e Buffini perceberam o que está por detrás do virtuosismo e idealismo de Jane Eyre, o que leva Rochester a escolher tão estranha e pobre criatura para seu igual, que a atracção entre ambos não se baseia no medo que a primeira sente pelo segundo mas sim na pena - Rochester precisa do idealismo de Jane para sobreviver, Jane necessita do apoio de Rochester para se libertar. O realizador e argumentista trabalharam bem na forma como pegaram nas noções muito próprias dos romances góticos deste tipo e aplicaram bem a intensidade emocional e a ressonância para os dias de hoje que também reside no livro e escolheram na perfeição os dois actores para interpretar os dois papéis: Mia Wasikowska carrega o filme às costas com uma leveza e subtileza própria das grandes actrizes, numa interpretação tão corajosa quanto impressionante. Michael Fassbender é o perfeito Rochester. Ele percebe bem a dualidade de personalidade que tem que exibir, percebe bem qual a interacção a ter com cada membro do elenco que interage com ele na película, consegue ser forte e bravo e ao mesmo tempo tão frágil que nos leva a ter pena de uma forma tão profunda que quase nos vêm lágrimas aos olhos. Não tenho qualquer dúvida em afirmar que é o melhor actor da actualidade e, se lhe forem dados papéis à sua altura, não tardará muito a que o mundo todo se apaixone por ele da mesma forma que Jane - e o público que assistiu a JANE EYRE - já está. Mesmo Jamie Bell, Sally Hawkins e Judi Dench (a sua Mrs. Fairfax conta tanto sobre a vida em Thornfield e sobre o seu patrão em meras poucas palavras e, às vezes, só por expressões e pelo tom de voz), em papéis secundários, brilham nas suas respectivas cenas.


Com um estilo visual muito próprio - uma fotografia de incomparável beleza, repleta de voluptuosos cenários e cenas de extraordinária sensibilidade poética, uma banda sonora de Dario Marianelli tão arrepiante quanto enternecedora, um arrojado guarda-roupa e imaginativa direcção artística -, um realizador e uma argumentista em grande forma e um elenco formidável, JANE EYRE é, finalmente, a adaptação pela qual muitos fãs do romance de Brönte (entre os quais me conto) ansiavam.  De tirar o fôlego, de assombrar-nos por uns dias, é um filme que por duas horas, pelo menos, nos espanta todos os males e preocupações enquanto nos envolvemos, nos questionamos, nos preocupamos, nos afligimos e choramos e finalmente nos encantamos e apaixonamos com a história do amor proibido de Jane e Rochester. Depois de o vermos, nunca mais ficamos os mesmos. Eu, sem dúvida, não vou ficar.



Nota:
A-

Informação Adicional:
Realização: Cary Fukunaga
Argumento: Moira Buffini
Elenco: Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Judi Dench, Jamie Bell, Sally Hawkins
Música: Dario Marianelli
Fotografia: Adriano Goldman