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DIAL P FOR POPCORN

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A STREETCAR NAMED DESIRE (1951)


Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Esta semana dedicamo-nos a A STREETCAR NAMED DESIRE, a obra-prima de Elia Kazan baseada na peça imortal de Tennessee Williams, cujo centenário do seu nascimento nos encontramos a celebrar esta semana. Uma vez que esta rubrica é feita para um sítio inglês, o artigo tem que ser colocado nas duas línguas. Espero que gostem, de qualquer forma. [N.B.: O texto tem 'spoilers'].



Há tanta coisa que gosto no A STREETCAR NAMED DESIRE (invariavelmente, a obra-prima de Tennessee Williams e um dos melhores filmes do enorme Elia Kazan) que torna tão difícil resumi-lo em meras poucas palavras. É seguramente um dos maiores dramas de sempre. É um dos maiores exemplos de um trabalho de elenco de qualidade da História. É uma peça indissociável do clima cinematográfico dos anos 50, considerado demasiado risqué, controverso, inconveniente, provocante, mas que parece bastante sedado em relação aos tempos de hoje. Nele está presente um confronto interessantíssimo entre dois dos maiores intérpretes que o grande ecrã alguma vez já viu: o defensor do 'method acting', Marlon Brando, num dos seus primeiros papéis de relevo; e a rainha da Velha Hollywood e lenda cinematográfica, Vivien Leigh, que já nos tinha oferecido uma das maiores personagens da História do cinema (estou a falar, claro, de Scarlett O'Hara). Ambos conseguem magníficas interpretações que iriam conduzir, eventualmente, a nomeações para os Óscares da Academia para os dois (aliás, os quatro actores principais da trama viriam a ser nomeados, resultando em três vitórias; só Brando perdeu).


A STREETCAR NAMED DESIRE conta a história de Blanche DuBois, uma dama do Sul  que decide visitar a sua irmã Stella, que vive em Nova Orleães com o seu marido, Stanley Kowalski, um homem rude, animalesco, bruto e mal-educado. Durante a sua estadia na casa da irmã, Blanche é testemunha do forte abuso que a sua irmã tem de aturar por parte do marido, sem esboçar esta qualquer reacção (ela ama-o perdidamente, o que poderá explicar parte desta passividade) - abuso este do qual ela mais tarde virá a ser vítima. O abuso e a tortura que Stanley impõe sobre a doce e sonhadora Blanche destrói o pouco de sanidade que esta ainda possui, levando a que ela seja institucionalizada.


Tennessee Williams tem um dom para escrever para mulher. Consegue ver para lá do óbvio e mostra-nos a sua vulnerabilidade, o seu sofrimento, o seu orgulho, de forma crua e honesta, real.  Blanche DuBois é uma mulher fracassada. Decadente e desavergonhada, como os habitantes de Auriol, a terra onde vivia, fazem questão de a descrever. Narcisista, histérica, pomposa e artificial, Blanche é uma criação mítica que muitas actrizes matariam para interpretar. Que Vivien Leigh tenha sido tão bem sucedida no papel (ainda para mais porque era a única dos quatro principais que não tinha ligação com o espectáculo na Broadway, tendo substituído Jessica Tandy na transformação da peça em filme) diz muito da sua verdadeira qualidade como actriz. Vivien incorpora a sua Blanche de tanta falsa felicidade (as cenas com Mitch (Karl Malden) são uma delícia, tal é  o desvario da sua cabeça), de tanta necessidade e urgência e desejo, balanceando-o com o graciosidade, charme e delicadeza, enquanto nos proporciona uma visão priveligiada da sua dor, da sua psique, que é fenomenal observar a sua abordagem muito única às suas personagens. A peça está desenhada para nos fazer sentir pena dela e da sua irmã; contudo, Leigh imprime sentimentos e emoções e reacções em Blanche que nunca nos permite identificar e simpatizar com a sua história, dando-nos oportunidade para perceber o porquê de tanta implicância de Stanley. Imensamente irritante numas cenas, enternecedora noutras, assim é  Blanche DuBois. Uma criação incompleta - talvez para sempre assim. Uma grande interpretação, de qualquer forma. 


Marlon Brando é também brilhante. Stanley Kowalski é um homem atroz, sem dúvida. Ele bate na mulher, ele berra e discute, ele parte e atira coisas pelo ar, ele mete-se em confusões e lutas só porque lhe apetece e ainda por cima decide que é sua missão torturar mental e fisicamente a sua cunhada. A sua personagem é tão vil, tão violenta e real, tão complicada de ler que se torna impressonante imaginar de que forma vai reagir da próxima vez. A cena em que ele é abandonado na sua casa, no escuro, bêbedo e a chorar por ter batido à sua mulher e os gritos de "Stella!" que se seguem, é de arrancar o coração. Algo que nem devia ser posto em questão (afinal, ele acabara de bater à mulher!), Brando consegue fazer-nos sentir pena e compaixão pela personagem. Um desempenho fantástico.


Curiosamente, o elemento surpresa da história e sem dúvida a figura mais interessante do filme é a terceira parte deste triângulo: Stella (Kim Hunter). Impossível de desvendar o que pensa, o que sente. Por que razão está ainda com Stanley, quando toda a gente no seu bairro conhece como ele é? Como é que ela aguenta com tanta parvoíce que a sua irmã profere? Hunter torna Stella uma mulher enigmática, emotiva, reactiva, a sua face iluminando-se nalguns momentos cruciais na película. Comporta-se ingenuamente a maior parte do tempo, todavia de repente exibe uma espécie de despreocupação, temeridade, non-chalance, uma capacidade de abstracção que me fascina na personagem.  No início é-nos óbvio que quando Stella, depois de espancada, abandona a sua casa, que ela voltará. Ela deseja Stanley ardentemente e por ele faz tudo. É chocante apercebermo-nos que ela não o teme; ela até o compreende. Tudo isto torna a cena final, em que Stella volta a abandonar o seu domicílio depois do internamento da irmã, desta vez "de uma vez por todas", segundo ela, tanto ou mais imperiosa - será mesmo de vez?


E agora a minha escolha para melhor imagem. A que representa, para mim, o melhor que este triângulo de relações nos oferece no filme. Blanche torturada por Stanley. Stanley, bruto, sem noção de como é. Stella agindo como mediadora, nunca escolhendo lados neste feudo. E Blanche procurando segurança numa irmã que não sabe em quem confiar mais.




Nota Final:
A

Informação Adicional:
Realização: Elia Kazan
Argumento: Tennessee Williams
Elenco: Vivien Leigh, Kim Hunter, Marlon Brando, Karl Malden
Ano: 1951



"Hit Me With Your Best Shot": A STREETCAR NAMED DESIRE (1951)


Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Esta semana dedicamo-nos a A STREETCAR NAMED DESIRE, a obra-prima de Elia Kazan baseada na peça imortal de Tennessee Williams, cujo centenário do seu nascimento nos encontramos a celebrar esta semana. Uma vez que esta rubrica é feita para um sítio inglês, o artigo tem que ser colocado nas duas línguas. Espero que gostem, de qualquer forma. [N.B.: O texto tem 'spoilers'].



There is so much I love about A STREETCAR NAMED DESIRE that it makes it so hard to resume it to a mere few words. It's one of the greatest dramas ever. It's one of the greatest ensemble pieces of all time. It's an indelible cultural landmark of the 1950s, deemed too daring and unconventional for the time but looking far too restrained when watching it at present. It features a clash between two of the most amazing screen performers the cinema has ever seen: the Method acting enthusiast Marlon Brando, in one of his first outstanding film roles; and Old Hollywood queen and legend Vivien Leigh, which had already given us one of the most fascinating characters of movie history (I'm talking about Scarlett O'Hara, of course). Both turn in fabulous turns which would eventually lead to Academy Award nominations to both (actually, all four main actors were nominated, resulting in three wins; only Brando lost).


A STREETCAR NAMED DESIRE tells the story of Blanche DuBois, an aging southern belle who apparently arrives at New Orleans to visit her sister Stella, who is married to Stanley Kowalski, a rude, impolite, brutal man. During her stay at her sister's house, Blanche witnesses the abuse her sister puts up - which later she will also become a victim of - without a reaction from her part. Stella is clearly madly in love with him, or else she'd do something. Stanley goes on to torture poor Blanche to a state of unbearable madness, to a point where her only solution is to be institutionalized.


Tennessee Williams had a way with words for women. He manages to see through their façade and show us their raw vulnerability, suffering and pride. Blanche DuBois is a very flawed woman. Decadent and shameful, according to the people of Auriol. Narcissistic, hysteric, pompous and artificial, Blanche is one mighty creation for any actress to dare play the role. That Vivien Leigh could imprint so much faux glee (especially in her date with Stanley's friend Mitch (Karl Malden), who seemed to bring some fresh air into her life), so much neediness and urge and lust and balance it with charm, delicacy and grace while providing us a fine way to her pathos, to her pain is a true testament to her unique approach to characters. The play is set out to make us feel sorry for her and her sister; yet, Leigh manages to convey feelings in Blanche that never allow us to identify ourselves and sympathize too much to her story, allowing us to see why Stanley (Brando) had such huge issues with her. She annoyed the hell out of me in some scenes - and in others she was endearing. A great performance by all means.


Marlon Brando is also firing in all cilinders. Stanley Kowalski is an atrocious man, that is for sure. He spanks his wife, he screams and yells, he smashes things, he gets into fights with his friends and he mentally and physically tortures his sister-in-law. His character is so real, so violent, so difficult to read that is makes it so delicious to wonder how he'll react next. The scene where he is left alone at his house, drunk, crying after spanking his wife, is heartwrenching. He makes us feel for the character in a situation where that shouldn't even be considered possible; after all, he had just spanked his wife.


Interestingly, the surprising element of this story is the third party of the triangle: Kim Hunter's Stella. She's so hard to figure out. Why she's still with Stanley, when everyone in her neighbourhood knows how he is? How does she put up with so much nonsense from her sister? Hunter makes Stella enigmatic, emotive, reactive, her face illuminating in several frames. She behaves naively most of the time but there's a sort of absent-mindedness, perilessness in the character that fascinates me. It's obvious in the beginning, when Stella leaves her house once again, that she will probably return; she lusts for Stanley and can't seem to live without him, no matter how abusive he is. She doesn't fear him; she even understands him. All this only makes the final scene more intense - when she finally realizes what he has done to her sister and leaves - will it be for good?


My choice for best shot. I think it perfectly captures the nature and three-way dimension of this triangle of relationships. Stanley abusing Blanche. Blanche leaning on Stella. Stella trying to be a moderator between this feud, opting to never choose sides.



[amanhã colocarei o mesmo artigo mas em português]


Nota Final:
A

Informação Adicional:
Realização: Elia Kazan
Argumento: Tennessee Williams
Elenco: Vivien Leigh, Kim Hunter, Marlon Brando, Karl Malden
Ano: 1951