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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

Para 2014 também está bem



Já circulavam rumores sobre problemas na pós-produção e agora confirmam-se: "Foxcatcher", cujo teaser trailer foi lançado online no dia de ontem, viu a sua estreia protelada para a Primavera de 2014, impedindo assim a sua competição à cerimónia dos Óscares deste ano, para a qual era apontado como um dos principais favoritos a várias categorias. A sua distribuidora, a Sony Pictures Classics, está do lado da equipa de produção do filme (o que é sempre boa notícia, ou não esqueçamos ainda que esta semana, a acompanhar a mudança de "Grace of Monaco" para 2014, vinha uma missiva da The Weinstein Company que o filme mudaria para 2014 porque não estaria em campanha para os Óscares e nele só viam possibilidade comercial - pobre Nicole Kidman...) e com esta mudança pretende conferir a Bennett Miller (o realizador, cujos esforços prévios resultaram em inúmeras nomeações aos Óscares - "Moneyball" e "Capote") e companhia mais tempo para finalizar a película.

Apesar da Sony Pictures Classics ter ordenado a remoção dos trailers da Internet, ainda é possível encontrar alguns por aí, pelo que aqui fica (até tempo indefinido, porque penso que a SPC conseguirá encontrar e bloquear os restantes que existam). Do vídeo , o que me fica sobretudo é o enorme potencial da interpretação do cómico Steve Carell, num registo bem mais escuro e dramático. 



A corrida, agora, parece estar à mercê de um saque por parte de "American Hustle"; se não, "12 Years A Slave", "Captain Philips" e "Gravity" repartem o favoritismo entre si. Via aberta para O. Russell finalmente levar o troféu principal?


Previsões Óscares 2013 (I): Actor Secundário


Como habitualmente, esta promete ser uma categoria difícil de resolver (no que a nomeados diz respeito) mas fácil de premiar (o vencedor é - excepção feita ao ano passado - alguém que costuma fazer uma limpeza geral aos prémios todos do circuito). A categoria do ano passado, apesar de excitante de seguir pelo fluxo de gente a entrar e a sair a cada conjunto de nomeações e prémios anunciados e pelos múltiplos vencedores que foi tendo ao longo da época de premiações, acabou por reunir uma colecção de antigos galardoados com o prémio algo enfadonha, quando um bocadinho de colorido aqui e ali - McConaughey ("Magic Mike"), Samuel L. Jackson ou Leonardo DiCaprio ("Django Unchained") ou Javier Bardem ("Skyfall") - traria mais alguma diversidade e interesse à corrida. A vitória sorriu a Christoph Waltz, que reciclou para "Django Unchained" a sua personagem Hans Landa de "Inglorious Basterds". Pronto, o homem dá-se bem com diálogos do Tarantino - e daí? Quer dizer que o homem ganha um Óscar basicamente sempre que lhe apetece fazer por isso? Daqui a pouco é o novo Daniel Day-Lewis (já não falta muito, só mais uma estatueta).


Muitos dos homens mencionados acima voltam à corrida este ano. Matthew McConaughey terá uma temporada de campanha em cheio, porque seja como actor principal ("Dallas Buyers' Club") seja como actor secundário ("Mud" e "Wolf of Wall Street", provavelmente este último será a sua melhor hipótese, embora terá também que lutar internamente contra Jonah Hill, nomeado em 2011 e que poderá ter possivelmente nova hipótese), tem várias oportunidades para tentar a nomeação. Outro actor roubado de uma nomeação o ano passado  (podemos falar de duas consecutivas, contando com "Shame" o ano antes também) foi Michael Fassbender. O homem regressa à competição tanto em actor principal ("The  Counselor") como em actor secundário - e deverá ser nesta última que terá mais hipóteses, por "12 Years a Slave" de Steve McQueen. O papel clama atenção da Academia (vilão, crueldade para os escravos, filme de época, actor no timing certo - tudo aquilo que eles gostam nesta categoria). Veremos se pega. 


Um recente nomeado de volta é Mark Ruffalo por "Foxcatcher", o novo filme de Bennett Miller que promete fazer estrago na corrida - é um projecto pessoal do próprio (que conseguiu nomeações para filme, actor e um dos seus actores secundários para os seus dois primeiros filmes, "Capote" e "Moneyball"), é uma história verídica perturbante e conta com um elenco fantástico (liderado por Carell - já falado em actor principal, Ruffalo e Channing Tatum, outro com possibilidade de nomeação aqui). Ruffalo é querido pela indústria, já conseguiu o mais difícil - ser nomeado (2010), que parecia que nunca iria acontecer - e portanto pode pensar (o papel também ajuda) em repetir o feito. Outros nomeados recentes a ter em conta também são Bradley Cooper e Jeremy Renner pelo novo filme de O. Russell (se "American Hustle" provar ser tão diverso e dar tanto que fazer como os filmes prévios de O. Russell, é de esperar que algum dos actores secundários - entre Renner, Lawrence e Cooper - consiga um bom papel e respectiva nomeação), Matt Damon ou George Clooney (falta sabermos quem é o real protagonista de "The Monuments Men" e se haverá mais alguém do elenco secundário a roubar cenas, como Bob Balaban ou Bill Murray por exemplo) e Javier Bardem (que já venceu a categoria, tal como Clooney) e Brad Pitt por "The Counselor" de Ridley Scott. George Clooney tem ainda um papel secundário que desperta muita curiosidade em "Gravity" de Alfonso Cuarón (temo que este filme não vá resultar ou não vá ser do agrado da Academia, à la "Children of Men", mas Clooney e Bullock são mel para a crítica e para o grande público por isso pode ser que se dê bem) e Jeremy Renner obteve ainda boas críticas pela sua prestação em "The Immigrant" de James Gray, já discutido previamente. Também falado anteriormente em melhor actor mas de nota aqui é a interpretação de Josh Brolin em "Labor Day" de Jason Reitman - isto porque a interpretação pode tão facilmente ser considerada principal como secundária, como penso que irá acontecer - o que o fará (tendo em conta o papel), se o filme tiver sucesso, um dos favoritos a vencer.


Além da grande percentagem de regressos que comummente pautam as listas de nomeados aos Óscares todos os anos, constam sempre nomes novos (não o ano passado mas, como já referido, foi uma excepção).  Tony Danza ("Don Jon") numa espécie de prémio por uma carreira relevante na indústria (e parcialmente porque toda a gente gosta do homem), Will Forte ("Nebraska") se o filme cativar muitos membros da Academia e arrastar consigo algumas nomeações menos óbvias para lá de argumento, realizador, filme e actor - o mesmo é aplicável a Jared Leto ("Dallas Buyers Club"), Daniel Brühl ("Rush") porque todos os anos há sempre um actor com uma transformação física espantosa na conversação, Tim Roth ("Grace of Monaco") pelas mesmas razões de Will Forte só que muda actor para actriz - o mesmo se aplica a Steve Coogan ("Philomena") e a Benedict Cumberbatch ("August: Osage County"), se bem que este tem ainda o bónus adicional de estar no momento exacto e na transição para A-List para esta premiação suceder. Falta ainda referir o homem camaleão, um dos verdadeiros character actors da actualidade, que surge em vários filmes por ano e em todos é bom mas acaba sempre por não obter reconhecimento - será este o ano de John Goodman? E por que filme? "Saving Mr. Banks", "Inside Llewyn Davis" (pelas críticas, o mais provável) ou "The Monuments Men"?

Pergunta final: e começar a montar uma campanha para Ewan McGregor ser nomeado por "August: Osage County"? É que não é só "Moulin Rouge!", "Trainspotting", "Velvet Goldmine", "Shallow Grave", "Big Fish", "Young Adam"... Já vai numa sequência seguida de grandes interpretações - "I Love You Philip Morris", "The Ghost  Writer", "Beginners", "The Impossible"... Quanto mais tempo demorarem, Academia, maior é a vergonha...


Previsão dos nomeados:
Javier Bardem, "The Counselor"
Bradley Cooper, "American Hustle"
Michael Fassbender, "12 Years a Slave"
Matthew McConaughey, "Wolf of Wall Street"
Mark Ruffalo, "Foxcatcher"

Admirando MARGARET (2011)



Como um fã absoluto do filme de estreia do dramaturgo Kenneth Lonergan, “You Can Count On Me”, podem contar que estava esperançado que a sua obra seguinte, “Margaret”, fosse igualmente excelente. Não me desiludiu. É definitivamente uma pena – e uma vergonha para distribuidores pelos Estados Unidos da América fora – que este filme tenha passado quase despercebido do público, tendo aparecido e saltado fora dos cinemas norte-americanos num piscar de olhos. Não fosse o aviso da Boston Society of Film Critics e este filme tinha-me passado completamente ao lado.


Passo a explicar: o filme passou por infernais problemas de desenvolvimento, com guerras entre distribuidoras, com a distribuidora do filme a falir, com anos e anos a passar até que Lonergan conseguisse juntar dinheiro suficiente para reaver o filme e com a problemática mania de perfeição de Lonergan a meter-se ao barulho também, editando o filme vezes sem conta. Scorsese, amigo pessoal de Lonergan, viu uma versão antecipada do filme - chegou até a trazer Thelma Schoonmaker com ele para ajudar a editar a película - e ficou maravilhado, considerando-o uma obra-prima perfeita. Lonergan não era da mesma opinião e editou. E editou de novo. Tanto editou que o filme falhou o prazo imposto pela editora – que o queria lançar nos festivais o ano passado – e acabou esquecido por todos. Felizmente, conto-me entre os sortudos que viu o filme – e que o admira por tudo aquilo que tenta ser e sentir, mesmo que não suceda na sua plenitude. É um filme de uma beleza sem precedentes, de uma pureza e sentimento ímpares, de um poder difícil de explicar.  “MARGARET” é único.


Com uma interpretação fantástica de Anna Paquin – a sua Lisa é ao mesmo tempo irreverente, destemida, precipitada, instintiva e desesperante, personificando o volátil estado de espírito de alguém que não é já uma jovem, contudo não é ainda também uma mulher. Lisa é filha de pais divorciados, uma mãe actriz com quem não tem grande conexão e um pai que adora, mas que não lhe dá a devida atenção e prefere manter distância. Lisa é, apesar de rebelde, uma jovem inteligente e interessada no mundo que a rodeia, que surpreendentemente se vê de repente a mãos com um evento traumatizante, que desperta na outrora despreocupada adolescente um misto de luto e revolta que a faz pensar para onde caminha a sua vida – e a vida de todos à sua volta, numa Nova Iorque pós-11 de Setembro onde o trágico incidente ainda faz sentir a sua marca. 


O acontecimento – que engloba para além de Lisa um condutor interpretado soberbamente com igual parte confusão e esternecimento por Mark Ruffalo e uma pobre pedestre interpretada por Allison Janney – leva Lisa a embarcar numa jornada para que seja feita justiça, empurrada pela consciência de que o que se sucedeu partiu dela, apesar da culpa não ser propriamente da mesma. O problema é que Lisa nunca consegue encontrar uma resolução satisfatória que a faça sentir melhor com ela própria e por isso assume uma personalidade alternativa proporcional à raiva que sente. O filme é um estudo interessantíssimo de como a nossa consciência individual do mundo em que existimos é o que faz girar o próprio mundo. E é acima de tudo pertinente na medida em que se propõe a analisar o que está de errado no mundo da perspectiva de uma adolescente de 17 anos, marcando bem a diferença entre ser jovem e ser jovial. A inocência de Lisa vai sendo destruída pouco a pouco, à medida que o mundo que Lisa achava que conseguiria subverter à sua vontade e empenho vai sucumbindo aos poucos e poucos. No final, a nossa adolescente, com uma vida confortável e simpática, sem grandes problemas, assume que a sua vida nunca mais vai ser a mesma. Como recuperamos de uma situação destas? “Margaret” é isto. É um filme que dá voltas e voltas a um ritmo incomum (correndo o risco de se tornar até redundante), fortalecendo cada camada de narrativa com mais complexidade e beleza, tentando explicar como às vezes o que sucede na vida de uma pessoa não tem sentido nenhum, mas ainda assim as coisas acontecem e como a mais insignificante das acções pode ter imprevisíveis consequências. 


Trágico e profundo, o argumento de Lonergan pega nas nossas noções de sociedade, de família, de relações, de maturidade, de compaixão, de responsabilidade e transcende-as num filme que é mais peça de arte que um sucesso cinematográfico. Lonergan não pretende fazer cinema. O próprio sabe que este o resultado final deste filme nunca o deixará satisfeito. Porque o que o filme pretende alcançar é muito maior do que uma simples película. É o universo, é a vida, concentrada numa história, numa experiência vulgar como tantas outras. As suas melhores cenas são viscerais, cruas, reais, filosóficas, inesquecíveis. Entre elas encadeiam-se muitos momentos que não funcionam muito bem (alguns deles, nada bem, como um encontro romântico entre Lisa e o seu professor, interpretado por Matt Damon), mas por cada dez cenas dispensáveis, temos uma cena como a discussão entre Lisa e a mãe (a extraordinária J. Smith-Cameron) que fazem o filme parecer tão melhor do que realmente é. O final catártico e eléctrico vende bem o filme. E assim, sem esperarmos, voltamos a apaixonar-nos pelo filme no seu todo. E as falhas perdoam-se. Não é uma obra-prima, mas Lonergan sim, é um mestre.

Nota:
A-/B+ (9/10)

Informação Adicional:
Realização: Kenneth Lonergan
Argumento: Kenneth Lonergan
Elenco: Anna Paquin, Jeannie Berlin, J. Smith-Cameron, Matt Damon, Mark Ruffalo, Matthew Broderick, Jean Reno, Kieran Culkin, Allison Janney, Kenneth Lonergan, Krysten Ritter, Rosemarie DeWitt
Fotografia: Ryszard Lenczewski
Música: Nico Muhly
Ano: 2011 (não comercializado em Portugal)



THE AVENGERS (2012)



Começo este artigo por agradecer a Joss Whedon. Sem ele, "THE AVENGERS" nunca teria sido o filme que é, divertido, inteligente e leve, que consegue entrelaçar várias histórias e várias personagens e dar uma voz singular a cada uma delas. Este era o grande sarilho para os quadros superiores da Marvel: como juntar, num filme de míseras duas horas, seis dos maiores super-heróis do seu universo e assegurar que todos participariam na narrativa de forma importante e equitativa, agradando aos actores que interpretariam os papéis (todos actores com algum nome e que, depois de protagonizarem, na maioria dos casos, o seu próprio filme, teriam que partilhar o estrelato e as principais cenas do filme com outros) e aos fãs que há muitos anos desejavam ardentemente um filme que juntasse a equipa maravilha da S.H.I.E.L.D.


Arrisco-me a dizer que Joss Whedon não só superou as expectativas iniciais de toda a gente, como o fez com incrível estilo e classe. "THE AVENGERS" não está, obviamente, na mesma liga da trilogia de Christopher Nolan e nem tem que estar. São filmes diferentes, com objectivos diferentes e com personagens e alvos diferentes. "THE AVENGERS" é, tal como os filmes da Marvel que o sucederam ("Iron Man" e "Iron Man 2", "Thor", "Captain America: First Avenger") um produto de entretenimento, mais preocupado por ocupar o espectador com deliciosas cenas de acção e efeitos especiais e com diálogo bem-disposto, bem-humorado e inteligente do que propriamente em entrar em considerações sobre a situação económica e político-social. A acção é mais fácil de seguir, o argumento é bem mais simples e, por isso, complica menos e torna-se mais agradável de acompanhar e degustar e "THE AVENGERS", como filme Marvel que é, também incorpora a energia contagiante que os seus antecessores também possuem.


A grande vantagem deste "THE AVENGERS" é sem dúvida o seu forte elenco, com personagens bem formados, com personalidades bem vincadas e curiosas, interpretados todos por actores bastante capazes. É também um elenco bastante equilibrado, com todos a terem a sua oportunidade de brilhar em diferentes momentos do filme, com várias interacções inesperadas que por várias vezes me arrancaram gargalhadas e com todas as personagens a terem motivações e narrativas próprias, desenvolvidas em simultâneo com bastante sucesso por Whedon. The Hulk (Ruffalo) é quem merece mais aplausos, tal o upgrade que Whedon faz em relação aos filmes que a personagem integrou anteriormente - e é dele a cena mais cómica do filme, um pequeno momento de brilhantismo de comédia física de Ruffalo, indubitavelmente criação da mente experiente e sagaz de Whedon, que se fartou de originar momentos destes nos vários anos que passou na televisão como criador de uma das séries mais injustiçadamente tratadas de sempre, "Buffy the Vampire Slayer". O outro grande triunfo de Whedon neste elenco é, para mim, o tratamento que ele dá a Romanoff (Johansson), dando-lhe muito mais que fazer aqui do que ela teve em "Iron Man 2", continuando a lista de grandes personagens femininas criadas por Whedon. De resto, o elenco funciona - seja porque Whedon manteve o carácter-base da personagem e a sua essência - Tony Stark (Downey Jr. igual a si mesmo), seja porque foi exímio na continuidade dos eventos de "Thor", reciclando o vilão Loki para a sequela (Hiddleston merecia claramente regressar ao papel) e continuando a sua titânica rivalidade com o irmão Thor (Hemsworth) e pegando no Tessaract que foi encontrado por Captain America (Evans) em "First Avenger".


O filme arrasta-se um pouco na primeira hora e meia, com alguns momentos enferrujados e com uma cena inicial bastante problemática, mas compensa com um último ato a todo o vapor, com uma gigante - e quase contínua - cena de acção que combina o que de melhor sabem fazer os seis heróis e que reúne todos num extasiante clímax que termina com a primeira grande vitória do maior grupo de heróis da Terra ("Earth's mightiest heroes!") e nos deixa a salivar para o que Whedon e Cª nos trarão a seguir. Espero que seja tão satisfatório e completo como este filme que apesar de nunca alcançar níveis de excelência, mais do que compensa o nosso investimento nele pela sensação inesquecível de estar a testemunhar algo tido como impossível por qualquer amante de banda desenhada: agrupar vários heróis de um universo - e criar um filme digno do talento e força combinada deles todos. "THE AVENGERS" é esse filme e a alegria que Whedon - confesso comic book geek - passa através do ecrã é indesmentível e impagável.


Nota:
B


Informação Adicional:
Realização: Joss Whedon
Argumento: Joss Whedon, Zak Penn
Elenco: Robert Downey, Jr., Mark Ruffalo, Chris Evans, Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Jeremy Renner, Scarlett Johansson, Stellan Skarsgaard, Cobie Smulders, Samuel L. Jackson, Clark Gregg
Música: Alan Silvestri
Fotografia: Seamus McGarvey
Ano: 2012


THE KIDS ARE ALL RIGHT (2010)


Os miúdos estão bem. Arriscaria dizer, os miúdos e os graúdos estão bem. "The Kids Are All Right” é um retrato fascinante das famílias dos tempos modernos, uma das melhores comédias do cinema independente americano que há já algum tempo precisava de um filme como este: desinibido, leve, inconvencional, alegre, reconfortante, divertido, agradável, inteligente, bem-humorado, enquanto lida com problemas sérios do mundo actual como a disfuncionalidade da unidade familiar, o casamento homossexual, a inseminação artificial, as falhas nas relações interpessoais e o crescimento e a partida para a universidade.


Lisa Cholodenko é, de facto, uma brilhante observadora das relações e das pessoas. Especialmente dotada em colocar à prova as suas personagens perante situações onde elas não se sentem confortáveis, a realizadora consegue explorar a humanidade, emoção e a racionalidade por detrás de cada tipo de pessoa, nunca fornecendo uma visão redutora do que se passa com elas e expondo as suas imperfeições bem a nu. A forma fabulosa como ela consegue transformar a nossa visão de casamento e união, passando-nos a mensagem de que neste caso a relação errada é a heterossexual, não deve passar despercebida.

 
A história de “The Kids Are All Right” decorre em Los Angeles, onde uma família composta por duas mães lésbicas, Jules e Nic (Julianne Moore e Annette Bening) e pelos seus dois filhos, obtidos através de inseminação artificial, Laser e Joni (Josh Hutcherson e Mia Wasikowska) se vê confrontada com a entrada na sua unidade familiar do pai biológico dos jovens, Paul (Mark Ruffalo), após Joni, que acaba de completar dezoito anos e está de partida para a universidade, ter feito a vontade ao irmão mais novo de descobrir a identidade do seu verdadeiro pai.


Ao saber dos encontros secretos com o pai, ambas as mães ficam reticentes em permitir-lhe entrada na sua vida, mas decidem estabelecer contacto com ele de qualquer forma. Paul dá-se genuinamente bem com os dois miúdos e com Jules (Moore), com quem se sente completamente à vontade. Já Nic (Bening), a ganha-pão da família, uma bem-sucedida, determinada e controladora médica com queda para o dramatismo e para a ingestão de largas quantidades de vinho e que vem negligenciando a sua companheira, muito mais aventureira, despachada e relaxada, vem gerindo a sua neurose disparando palavras ríspidas em todas as direcções e deixando a restante família, em particular Jules, numa pilha de nervos. A ida de Joni para a universidade vem complicar ainda mais as coisas, com as mães a terem problemas de comunicação com a filha, que nem sempre as compreende e vice-versa.


O distanciamento entre as duas mães e a contínua aproximação de todos menos Nic a Paul vem criar uma rotura na unidade familiar que se torna difícil de reparar, oferecendo inevitáveis mas nem sempre agradáveis surpresas, inúmeros conflitos e mal-entendidos e complicando a história de mil e uma divertidas maneiras.


Um filme com excelente argumento e uma cuidadosa realização, acompanhado de excelentes interpretações, em particular de Julianne Moore e Annette Bening, com material aqui para mostrar variadas nuances e oferecer-nos das melhores interpretações da sua carreira, complexas, mágicas e magnetizantes, de nos fazer chorar a rir e de nos fazer chorar por nos partir o coração, conseguindo transmitir pela sua linguagem corporal e expressão facial tanta cumplicidade, tantos segredos e tantas cicatrizes, próprias de um casamento de 20 anos, ambas merecedoras de atenção nos prémios de fim-de-ano, e de Mark Ruffalo, uma performance surpreendentemente relaxada, 100% dentro da natureza da sua personagem, nunca esquecendo porém também o papel dos miúdos na história, pois Hutcherson e Wasikowska são sem dúvida dois dos melhores jovens a trabalhar em Hollywood hoje em dia. Um filme irresistível para qualquer fã de comédia bem feita, para qualquer fã de filmes familiares e em especial para fãs dos actores, a trabalhar aqui no topo da sua forma.

Nota Final:
A-

Trailer:


Informação Adicional:
Realização: Lisa Cholodenko
Argumento: Stuart Blumberg, Lisa Cholodenko
Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Josh Hutcherson, Mia Wasikowska
Fotografia: Igor Jadue-Lillo
Banda Sonora: Carter Burwell, Nathan Larson, Craig Wedren