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DIAL P FOR POPCORN

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Grandes Melodias do Ecrã (II)




"My Husband Makes Movies" - NINE (2009) - Marion Cotillard

De longe a melhor parte de "Nine", tanto nesta música como no seu outro grande número (aqui). Marion Cotillard canta que se farta, é uma actriz enorme e ainda com um potencial tremendo, é belíssima e sensual mas ao mesmo tempo delicada e vulnerável e enche o ecrã e é emotiva como poucas em Hollywood. Vê-se logo que é francesa. Ó Guido, como é que tu me trocas isto pela Nicole Kidman, pá?

THE DARK KNIGHT RISES (2012)




Sempre apreciei o franco extremismo que vem com a avaliação do trabalho de Christopher Nolan, porque simplesmente não me lembro de em tempos recentes um realizador conseguir elicitar tanto ódio como admiração por parte do grande público e dos críticos, o que faz da sua obra um caso de estudo bastante fascinante de analisar. Para ajudar ainda mais a situação, a Academia tem também uma relação bastante conflituosa com o realizador, sendo capaz de atribuir aos seus filmes um número substancial de nomeações, sendo capaz até de o nomear pela sua capacidade de escrita, mas ignorando-o sempre na nomeação que, no fundo, mais (lhe) interessa: a de melhor realizador. "The Dark Knight Rises", a última peça na trilogia de Nolan sobre Batman, o Cavaleiro das Trevas, vem adicionar mais contexto à discussão.

Para ser mais fácil explicitar a minha análise, organizei as minhas considerações por tópicos:

1. É de longe o filme mais fraco de Christopher Nolan (a par de "Insomnia"), o menos consistente, o que tem o pior argumento e o mais longo, tanto a nível da real duração do filme como da percepção do espectador. "Batman Begins" tem-se transformado, com os anos, no meu favorito pessoal da trilogia, muito devido ao espectacular primeiro acto do filme (e à mais sensacional origem de um super-herói alguma vez projectada na tela); contudo, admito que "The Dark Knight" é o melhor filme dos três e por isso concordo também que lhe tenha dado a melhor nota de entre os três. 


2. A ambição de Nolan é, para mim, o principal problema. A forma épica e ostentosa como aborda os seus filmes, qual David Lean ou D.W. Griffith (ele que é um confesso fã de ambos) e a necessidade quase messiânica de incluir missivas político-sociais nos seus argumentos (que não tem nada de mal, isto se Nolan não passasse o filme todo a pôr em conflito ideias contraditórias) acaba sempre por servir-lhe mais de handicap como de ponto a favor. Acaba assim por negligenciar o essencial na narrativa, que é o desenvolvimento das personagens (algo que Dickens faz tão bem em "A Tale of Two Cities", que serviu de base à temática do filme), é a organização do fio narrativo, a ideia de continuidade, de evolução no espaço e no tempo, noções básicas de que Nolan abdicou em detrimento do seu já habitual estilo errático de expor informação e complicar o enredo (o filme tem partes literalmente incompreensíveis). 


3. A narrativa é sofrível em vários momentos, uma gigante confusão estrutural, sem grande coesão do princípio ao fim, com sequências consideráveis em que nada se passa e depois segmentos loucos em que nem tempo há para respirar entre os diálogos. Outro problema permanente no filme é a forma como usa e abusa dos traumas e tragédias pessoais das personagens para fazer girar a narrativa, mas depois esquece-se de lhes conferir ressonância emocional, fazendo com que algumas personagens pareçam incompletas e com traços de personalidade confusos (de repente lembro-me da bipolaridade das reacções de Miranda Tate em vários momentos do filme ou do intenso dramatismo em torno da relação de Alfred e Bruce Wayne - com todas as interacções das duas personagens a acabar com um (ou ambos) quase em lágrimas). A temática da "dor" (em contraponto com "caos" de "The Dark Knight" e "medo" de "Batman Begins") deveria estar omnipresente no filme, mas Nolan nunca deixa a câmara tempo suficiente nalgumas cenas para podermos contemplar a atmosfera e a sensação de desespero, de desconsolo, de sofrimento, o que é uma pena porque a alegoria de ter Bane como vilão mestre da derradeira película da trilogia, o único que consegue igualar Batman a nível físico e intelectual (não é por acaso que ele é "the man who broke the Bat") e explorar a sua vulnerabilidade física bem como as suas fraquezas e medos soa no final como uma oportunidade ultimamente  desperdiçada. 


4. Dos três filmes, é o que tem o melhor e mais nivelado elenco - não tem uma Katie Holmes, mas também não tem um Heath Ledger que sobressaiam, para o bem ou para o mal. Contém a melhor interpretação de Christian Bale e de Michael Caine da trilogia, incorpora bastante bem as personagens de Joseph Gordon-Levitt e Anne Hathaway, cuja Selina Kyle é facilmente a melhor interpretação do filme. Tom Hardy cumpre o seu papel, muito exigente a nível físico (basicamente a sua interpretação reside no que ele consegue fazer passar com os seus olhos). É só uma pena que pouco tenha sido feito com Marion Cotillard. A personagem e a actriz mereciam mais.

5. No seguimento do ponto 2: Lee Smith é um milagreiro. Que a edição de "The Dark Knight Rises" seja, mesmo com a intervenção salvadora de Smith, medíocre e apenas relativamente consistente explica na perfeição o problema-base de Christopher Nolan na génese deste filme. Não se pode querer falar de tudo, abordar ideias contraditórias, ser infinitamente detalhado e depois querer trocar exposição por acção. É nisto que depois dá - não se sabe bem onde começar e onde acabar de cortar. Hans Zimmer é, também ele, um milagreiro. A banda sonora é, aliás, das poucas coisas que realmente funciona em pleno no filme. Os valores de produção são também de qualidade inegável, com efeitos especiais incisivos e delicados, que ajudam a aumentar o realismo da trama e, assim, o suspense e o drama.

6. O filme demora a encontrar o seu ritmo, mas quando o encontra, não pára de crescer, compensando as hesitações e inconsistências com um majestoso terceiro acto - a roçar o sublime, mas que ainda assim aproveita o sentimentalismo para fazer avançar a história - e que acaba por encerrar a trilogia em nota alta de execução (ainda assim, aquele epílogo ainda me fez revirar os olhos várias vezes, mesmo se me agrada a ideia final que Nolan deixa de Batman ser mais um símbolo que um homem!).



Bruce cai ao poço em "Begins" / Bruce trepa o poço em "Rises" - o primeiro acto e o último ano da trilogia, numa das muitas conexões entre as três películas

Que Nolan tenha conseguido terminar esta trilogia magnífica de forma tão satisfatória para os fãs diz muito do calibre do realizador. A este filme falta muita coisa e claro que peca em comparação com os seus dois predecessores. Contudo, criar uma visão moderna, semi-apocalíptica de anarquia e caos a controlar a humanidade num mundo fantástico como é o de Gotham City e suceder na exploração do mito de Batman/Bruce Wayne como controverso símbolo de justiça e igualdade, um playboy milionário que controla o poder e a riqueza da sua cidade que vive uma vida dupla como um radical anti-herói individualista com imperativos morais que o colocam muitas vezes na corda bamba entre o mal e o bem, conseguindo ser coerente e fazer intersecções entre os três filmes de forma orgânica e familiar e ao longo da trilogia nunca abdicar do seu estilo irreverente como contador de histórias e estética tendenciosamente obscura, crua, realista é um feito inacreditável e quase impensável para um realizador com uma década de carreira. Agradeço-lhe imenso por ter reposto Batman no lugar de destaque que merece, no panteão dos super-heróis. E mal posso esperar para ver o que este excitante realizador fará no futuro.


Nota:
B/B-

Informação Adicional:
Ano: 2012
Realizador: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan, Jonathan Nolan (história de David S. Goyer)
Elenco: Christian Bale, Morgan Freeman, Michael Caine, Marion Cotillard, Anne Hathaway, Tom Hardy, Gary Oldman, Joseph Gordon-Levitt
Banda Sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Wally Pfister



Uma lista de 11 para o dia 11/11/11

Como saberão, esta sexta-feira é dia de palíndromo (um palíndromo imperfeito, mas ainda assim). Às 11:11 horas deste dia 11/11/11, assistimos a um fenómeno que só ocorrerá novamente daqui a cem anos. Uns dizem que esse momento leva a grandes decisões e mudanças na vida, dado o misticismo em volta da dada e superstições populares, para outros é apenas mais um minuto do seu dia.  Posso dizer que a essa hora estava bem ferrado no sono.

De qualquer forma, referi isto por que razão, perguntam-me vocês. Pois bem, em resposta ao curioso desafio do Nathaniel Rogers no seu The Film Experience, aqui estão as minhas onze coisas favoritas de hoje. Ou, já que é de cinema que se fala nesse site e neste, os meus onze actores (e actrizes) favoritos de hoje em dia. Claro que se excluem aqui as grandes glórias como Meryl Streep, Al Pacino, Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Julianne Moore, Michael Caine, Robert DeNiro, Daniel Day-Lewis, Brad Pitt, George Clooney, Judi Dench, Emma Thompson, Anjelica Huston, Sissy Spacek, entre outros. Estamos a falar de actores e actrizes que não são (ainda) lista-A em Hollywood apesar da grande maioria deles estar bem lá perto (e Kate Winslet, quer se queira quer não, não gosta de ser considerada como lista-A).


Cate Blanchett | Christian Bale | Ewan McGregor


 James McAvoy | Kate Winslet| Marion Cotillard


 Michael Fassbender | Michelle Williams | Nicole Kidman


Ryan Gosling | Tilda Swinton


Quais são os vossos? (Ou, se preferirem, vão ao The Film Experience deixar outra lista; há lá várias listas curiosíssimas).

CONTAGION (2011)






"It's figuring us out faster than we're figuring it out."

Começo por dizer que Steven Soderbergh é dos realizadores americanos que mais admiro. Só ele para construir uma carreira que alterna entre filmes de largo orçamento, produzidos pelos grandes estúdios de Hollywood, e pelos pequenos filmes independentes que, numa fase inicial, lhe ditaram o futuro na profissão. Durante uns tempos, Soderbergh tentou conciliar ambos, realizando dois filmes no espaço de um ano e lançando-os quase ao mesmo tempo. De repente, cansou-se e parou. E o mundo do cinema despedia-se não só de um dos seus autores mais profícuos, mas também um dos mais irreverentes e talentosos. E se bem que ele nunca há de voltar aos níveis de genialidade atingidos com o seu auspicioso início "Sex, Lies and Videotape", vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 1998, é sempre bom tê-lo de volta ao que melhor faz: filmes. E 2011 oferece-nos dois filmes dele, ainda por cima.

O primeiro desses a ser lançado é este "CONTAGION", que reúne um elenco impressionante de brilhantes e talentosos actores para contar a história de como uma simples infecção viral pode provocar, de forma estrondosa, uma revolução no mundo inteiro, na tentativa de mostrar que, ao contrário do que muitos pensam, o real perigo do fim do mundo pode não estar em terramotos ou dilúvios ou outros desastres naturais, mas sim numa pandemia microbiológica multirresistente, capaz de ceifar a vida a milhões de pessoas enquanto semeia o pânico e a guerra entre pessoas, entre nações, entre o mundo.



A narrativa de "Contagion" é algo que já foi contado várias vezes, por diversas perspectivas, mas sempre da mesma forma. O que faz o filme de Soderbergh tão diferente dos outros (para melhor) é o facto de abordar a situação do ponto de vista de cada personagem, da forma menos sensacionalista e mais realista possível. O filme parece funcionar até como uma espécie de documentário, tal é a sua vontade de ser levado a sério e a sua precisão a nível científico (algo que é de louvar). Comporta-se como um thriller adulto que tenta fazer passar uma amálgama de mensagens, algumas políticas, outras sociais, acerca da forma como a sociedade actual reage a este tipo de acontecimento. Procura ser minimamente assustador e impressionante. Contudo... a não ser que seja um verdadeiro misofóbico (que tem horror a germes) - que eu sou, já agora - penso que não deve recear ver este filme. Se os germes o assustam... Bem, prepare-se. O filme não ajuda nada.



O filme abre então com a chegada de Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) a casa, onde encontra o seu marido Mitch (Matt Damon) e o seu filho Clark, já visivelmente debilitada e doente depois de uma visita de negócios a Hong Kong. A sua doença, aparentemente, não é um caso isolado, pois acontece o mesmo a uma top model ucraniana de regresso a Londres, um empregado de mesa chinês e um homem de negócios japonês. Partindo destas primeiras pessoas infectadas, a película observa o desenrolar cronológico da progressão do vírus, apresentando-nos, além de mais indivíduos que contraem a doença, o grupo de pessoas responsáveis por parar a proliferação da infecção, entre eles médicos - Dr. Orantes, especialista da OMS (Marion Cotillard), Dr. Mears (Kate Winslet), Dr. Hextall (Jennifer Ehle), Dr. Eisenberg (Demetri Martin), Dr. Sussman (Elliot Gould) e Dr. Cheever (Lawrence Fishburne), responsáveis do CDC - e figuras governamentais (Bryan Cranston, Enrico Colantoni) e ainda nos introduz uma questão pertinente sob a forma de Alan Krumwiede (Jude Law), um oportunista blogger australiano que pretende lucrar com a crise e que cria teorias da conspiração em que menciona documentos que teriam sido ocultados pelo governo acerca do vírus e do seu tratamento.



Algo a admirar em "Contagion" é a forma surpreendentemente vivaz e empolgante com que se desenrola o filme, não deixando lugar para o aborrecimento durante as suas quase duas horas de duração. Também há que elogiar Soderbergh por nunca deixar que a história de uma das personagens se sobreponha às outras, dando tempo a todas sem nunca permitir que uma ganhe proeminência. Claro que o elenco é seu aliado, pois tanta gente com talento nunca poderia dar mau resultado. Não há um ponto fraco, tal como não há (por razões óbvias, como já expliquei) ninguém que se destaque. Scott Z. Burns e Steven Soderbergh mantêm o argumento o mais simples, plausível e directo possível, sendo que o único detalhe que me recorde incomodar-me é o facto de praticamente nenhuma das personagens ter grande profundidade - algo que neste tipo de filme não choca ninguém também, por isso penso que esse será um mal menor. A banda sonora electrizante de Cliff Martinez, a edição impecável de Stephen Mirrione e a fotografia sumptuosa - a cargo do próprio Soderbergh - ajudam a manter as coisas interessantes.



O final deixa as coisas irremediavelmente resolvidas e, com tantas personagens para nos despedirmos e vermos a sua história ser encerrada, permite-se entrar em alguns clichés desnecessários e que teriam ficado melhor fora do ecrã mas, ainda assim, é um dos filmes imperdíveis do ano e uma fonte de entretenimento garantido, mais não seja porque o seu objectivo é maior do que contar uma simples história: "Contagion" tenta colocar-nos a discutir e a questionar tudo aquilo que nos foi mostrado.


Nota Final:
B

Informação Adicional:

Realização: Steven Soderbergh
Argumento: Scott Z. Burns
Elenco: Marion Cotillard, Bryan Cranston, Matt Damon, Jennifer Ehle, Lawrence Fishburne, Jude Law, Demetri Martin, Gwyneth Paltrow, Kate Winslet
Fotografia: Steven Soderbergh
Banda Sonora: Cliff Martinez
Ano: 2011


Trailer:

MIDNIGHT IN PARIS (2011)



"That's what the present is. It's a little unsatisfying because life is unsatisfying."


Midnight in Paris será certamente um dos melhores filmes da carreira de Woody Allen. Vê-lo (no cinema, recomendo totalmente) é uma enorme delicia e um reconfortante prazer. Vê-se com alegria, sente-se com felicidade e sai-se do cinema rendido à classe e ao charme de mais uma das muitas obras-primas de Woody Allen.


Concebido de forma verdadeiramente genial, com uma edição, uma fotografia e uma banda-sonora soberbas, que transportam o espectador para o coração de Paris, representado não só nas imagens (brilhantes!) da cidade, como também no retrato histórico desenhado por Allen e nas músicas escolhidas a dedo para cada instante de emoção.


Owen Wilson interpreta o papel de Gil Pender, um argumentista de Hollywood, com fama e currículo consolidados e que viaja para Paris com a sua noiva Inez (Rachel McAdams) e os seus futuros e asquerosos sogros, tentando encontrar inspiração para um romance que há muito deseja escrever. Cedo se percebem as enormes disparidades entre o casal e o fracasso a que a sua relação se encontra condenada. Gil é um homem simples, correcto, despretensioso e amante da história e das mentes brilhantes do passado. Inez é uma menina mimada, criada com luxo e extravagâncias, habituada a ter tudo e rendida às balelas que o seu amigo e historiador Paul (que com frequência tenta humilhar Gil) lhe enfia a toda as horas.


Gil é um apaixonado pela cidade de Paris, pela sociedade de Paris, pelos Anos 20 de Paris, pela história de Paris. É um romântico. É um sonhador. E quando no final de uma noite regada com vários copos de vinho tinto, se deixa passear sozinho pela cidade, acaba por encontrar um Peugeot Landaulet 184 do início do Século XX, que o conduz para a mais extraordinária, intrigante e inesperada aventura da sua vida. É então transportado para uma dimensão paralela, numa Paris do início do século passado, onde priva com algumas das mais carismáticas figuras que se imortalizaram pelas suas obras: Cole Porter, Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Luis Buñuel, T.S. Eliot, Paul Gauguin e Henri Matisse. Entre esta sociedade imaginária, conhece Adriana (Marion Cotillard) a musa de Picasso e Hemingway, que o encanta com a sua beleza e a inteligência do seu olhar rebelde.


Midnight in Paris é mais um sonho que Woody Allen concretiza. Um história simples, ligeira, carregada de diálogos trabalhados pela inteligência e a sagacidade de um mestre. Com Midnight in Paris percebemos que se recordar é bom, viver é bem melhor.


Nota Final:
B+


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Ano: 2011
Duração: 94 minutos

INCEPTION (2010)



Peço desculpa pelo LONGO comprimento do artigo mas acabei por juntar a Antevisão e a Crítica e deu nisto. Não volta a suceder.


Foi há dez anos (em Outubro de 2000) que um até então desconhecido realizador chamado Christopher Nolan estreou o seu segundo filme, chamado "Memento". Nunca adivinharia ele que esse viria a ser o filme que lhe daria a hipótese de voos mais altos, mas foi. O filme ganhou a admiração dos críticos e do público, conseguiu-lhe a nomeação para Melhor Argumento Original nos Óscares e terá estado muito próximo de ser nomeado para Melhor Filme e Melhor Realizador. Um filme de pequena dimensão, com algumas mas poucas ambições, sobre um homem com perda de memória a curto-prazo, protagonizado por um Guy Pearce em claro declínio de carreira. Foi, ainda, por volta dessa altura que começou a escrever o argumento para este seu novo filme, "Inception".


Entretanto, teve que se entregar a novos projectos, mantendo-se contudo sempre dentro do mesmo género, o thriller. Optou por se dedicar ao remake do filme nórdico de 1997 "Insomnia", conseguindo ultrapassar alguns dos pontos fracos que o seu antecessor possuía e alcançando boas prestações por parte de Al Pacino e Robin Williams. Seguiu-se a recuperação, milagrosa diriam alguns, da franchise de super-heróis mais querida de sempre, com "Batman Begins" em 2005, um filme extraordinário e que veio, em certa medida, complementar a virada no estilo de filmes de super-herói que já tinha começado com Sam Raimi e o seu Spider-Man, novamente pegando num actor mal usado, Christian Bale e conseguindo uma interpretação fenomenal e provando que, com o material e a direcção adequados, os blockbusters podem ter qualidade e agradarem ao público. Entre o primeiro e o segundo Batman ele escolheu "The Prestige" para realizar, um filme sobre a rivalidade entre dois mágicos em que Nolan usa em seu detrimento a ilusão sem nunca nos menosprezar enquanto audiência. Depois eis que chega "The Dark Knight", a sequela ao seu "Batman Begins". Desde a escolha perfeita para vilão (uma que muitos questionaram veementemente - Heath Ledger como The Joker, uma das melhores interpretações de sempre), passando por um argumento impenetrável do seu irmão Jonathan e de David S. Goyer, pela impressionante fotografia de Wally Pfister (que devia ter ganho um Óscar com todo o mérito), pelo belo elenco que ele conseguiu juntar (a troca, mesmo que forçada, de Katie Holmes por Maggie Gylenhaal fez uma diferença colossal e a adição de Aaron Eckhart e Heath Ledger a um elenco que já continha os nomes de Bale, Caine, Oldman e Freeman só trouxe ainda mais qualidade) e chegando até à genial banda sonora de Zimmer e Newton Howard, excluída pela Academia (no que raio estavam a pensar?) mas agraciada com um Grammy, o filme foi um sucesso enorme, com largos elogios tanto da crítica como do público. Conseguiu 8 nomeações para Óscar (venceu 2), mas não conseguiu as que mais merecia (Melhor Argumento Adaptado, Melhor Banda Sonora, Melhor Filme e Melhor Realizador). A terceira parte da saga já está marcada para continuar em 2012.

Eis que chegamos pois a 2010 e a este seu novo filme... "INCEPTION".



Um argumento que levou dez anos a escrever, um filme que inicialmente se pensava ser uma espécie de filme de reserva, para ocupar tempo antes de se voltar a entregar ao "seu" Batman, uma história que foi mantida em sigilo absoluto até ao dia da estreia e mesmo assim um filme que mesmo que se fôssemos contar a alguém o final da história, eles continuariam a não perceber nada. É assim este "Inception". São duas horas e meia do mais alucinante que há, com um enredo multifacetado e repleto de camadas de complexidade, ao qual devemos dedicar a nossa máxima atenção e concentração com pena de perdermos o fio à meada.



Não se pense, contudo, que é um corte com o que ele tinha vindo a fazer. Não. Chris Nolan mantém-se no seu género predilecto, o thriller, só que decide criar um subgénero dentro do seu próprio género - segundo a sua definição, este filme relata, muito simplesmente, um crime, um assalto, que decorre na arquitectura da mente, do sonho. Não podia ter caracterizado melhor. Não é bem ficção científica mas é quase. É talvez o filme dele que mais penetra nesse género. E é também talvez o filme dele mais incompreendido de todos.



Em "Inception", conseguimos vislumbrar partes dos seus filmes anteriores, desde a grandiosidade dedicada às cenas de acção de "The Dark Knight" até o fascínio com a mente e a ilusão de "Memento" e "The Prestige". Além do mais, "Inception" mantém-se dentro das duas premissas principais dos seus antecessores: Nolan adora fazer filmes sobre anti-heróis, homens desesperados, derrotados pela vida e sobre os momentos que os levam ao extremo (aqui, mais uma vez, não é excepção, pois é a morte de Mal, a mulher de Cobb, que o corrói por dentro), sobre o renascimento dos indivíduos (Bruce Wayne vira Batman, Harvey Dent vira Two-Face, Leonard de Memento renasce a cada alguns minutos, os dois protagonistas de Prestige, Alfred e Robert, também se debruçam sobre o renascimento contínuo e o renascimento é o tema principal de "Inception", pois na mente é tudo possível, como uma personagem do filme bem colocou, "It's just... pure creation") e sobre a dualidade dos homens, isto é, as personagens nos seus filmes são sempre reflexos umas das outras (como o Batman e os seus rivais - Two-Face e Rhas Al Ghoul são antíteses de Batman no sentido em que representam o que Bruce Wayne seria se decidisse optar pelo mal em vez do bem; The Joker é também um oposto a Batman na essência em que enquanto o primeiro é maléfico mas não tem qualquer plano ou agenda ou regra, o segundo defende a prevalência do bem mas é pautado por regras e planificações) - aqui em "Inception", o Cobb é atormentado pela sua própria projecção da sua mulher Mal, que funciona como a sua antítese, o seu oposto, o seu rival, digamos.


O enredo do filme envolve assim, uma equipa de ladrões de sonhos, contratados por grandes empresas, que penetram nas mentes das pessoas e roubam as suas ideias. Uma equipa tão invulgar quanto esta necessita de vários membros talentosos e especialistas no que fazem: temos então Cobb (DiCaprio), que é "The Extractor", quem rouba a ideia; Arthur (Gordon-Levitt), bastante bem descrito por Eames como sem imaginação, oco, que é o "The Point Man", responsável pela logística e braço-direito de Cobb; Ariadne (Page), que é "The Architect", o criador do mundo do sonho (será coincidência esta personagem ter o nome de Ariadne, que é a mulher na mitologia grega que ajudou Teseus a fugir do labirinto do Minotauro?); Eames (Hardy), "The Forger", capaz de se transformar no sonho por razões puramente estratégicas; e finalmente Yussuf (Rao), "The Chemist", que é quem produz o sedativo para os pôr a dormir. Além destes nomes, o elenco inclui ainda o Michael Caine, num papel pequeno, de mero conselheiro; Cillian Murphy é Robert Fischer, o alvo ("The Mark") da equipa, numa interpretação bastante interessante; Marion Cotillard, que é Mal, a falecida mulher de Cobb ("The Shade") e que vai surgindo durante a missão como projecção da mente de Cobb, de longe a personagem que mais me chamou a atenção no filme; e Ken Watanabe, que é Saito, o cliente ("The Tourist"). Esta equipa parte para um último trabalho, o trabalho que iria redimir o foragido Cobb e permitir-lhe juntar-se à sua família. Este último trabalho, no entanto, é diferente de todos os outros, pois o que lhes é pedido é a implantação (daí "inception" - mais um título horrivelmente traduzido para português) de uma ideia e não a extracção, que é a sua especialidade.



O filme é incrivelmente complexo a início de perceber (a primeira meia-hora é de alguma confusão) mas felizmente com um pouco de concentração e com a entrada de Ariadne em cena (e com a reunião da equipa) tudo fica mais facilitado, pois Nolan usa-a para nos introduzir ao mundo dele - ela funciona como a voz do público, sendo através do seu treino por Cobb e Arthur e pelo seu diálogo com os restantes membros da equipa que ficamos a perceber como funciona a actividade deles e como é que eles conseguem operar dentro do sonho. Além do mais, o filme é exuberante o suficiente para nos manter fascinados com o que se está a passar, portanto concentração não deverá ser um problema.

É-nos (e a Ariadne) então depois explicado que os sonhos têm vários níveis, com sonhos dentro de sonhos e por aí em diante, cada vez mais complexos (introduzindo aqui uma interessante perspectiva da flexibilidade do tempo, com 5 minutos a durar 1 hora de sonho no nível um, 1 dia de sonho no nível dois e 1 semana no nível três - as cenas com os três níveis de sonho em intersecção são bestiais) e que dentro do mundo dos sonhos existem projecções do subconsciente que funcionam como os anticorpos no sistema imunitário, atacando os invasores se detectados.



O principal ponto forte de "Inception" é fugir ao que poderia ser uma armadilha fácil, focar-se mais na acção do que nas personagens, mas a verdade é que Nolan, qual mestre que é, prefere dar atenção às caracterizações (pouco detalhadas, é verdade) das suas personagens (há que dizer aqui, contudo, que há algumas personagens bem menos trabalhadas que outras) e prefere trazer-nos para o mundo dentro do cérebro delas do que no sonho do alvo da equipa. Assim, percebemos como cada um reage às situações e entendemos porquê. Simpatizamos com o sofrimento de DiCaprio e as constantes perturbações que o assomam. Entre outras coisas. A acção serve meramente para dar lugar às interacções entre as pessoas, que é afinal o propósito deste filme, funcionando como labirinto onde cada uma das personagens se perde nos seus demónios e nas suas qualidades. 


As três interpretações mais fortes do filme, além da de DiCaprio (se bem que já chega de personagens traumatizados pelas mulheres psicologicamente perturbadas, sim?), são a de Marion Cotillard (que eu amo indefinidamente a partir de agora) como Mal, a esposa, capaz de provocar tanta intriga e comoção a partir de duas-três cenas (e mesmo enquanto ela não está no ecrã, é quase omnipresente, sempre como a sombra, como o demónio, como a cruz que Cobb tem de suportar), a de Joseph Gordon-Levitt, que teve a sorte (ou não) de participar na melhor cena de acção do filme, a gravidade zero, e a de Tom Hardy, que vai dando um ar humorístico e irónico no que seria pelo contrário um filme extremamente pesado. Finalmente, há que dizer coisas boas também de Ellen Page, muito diferente do habitual aqui mas com a mesma graça de sempre, e de Cilian Murphy, que consegue ser bastante expressivo em poucos momentos e com pouquíssimo diálogo.


All in all, o filme consegue manter-nos on the edge of our seat durante as duas horas e meia, é de uma beleza e riqueza visual (e auditiva) como poucos há, aguentando sempre o ritmo e a dinâmica da acção muito elevado, contribuindo muito para isso a fortíssima banda sonora de Hans Zimmer (do melhor que ele já fez - será que me cheira a Óscar #2?) e a soberba fotografia de Wally Pfister (Óscar, anyone?) - a sequência final do filme é de uma tremenda qualidade, mexendo imenso comigo a nível emocional, enquanto a acção decorria a um ritmo alucinante.



Gosto particularmente deste pormenor para o qual me chamaram à atenção na banda sonora. De génio, realmente.


Fazer um filme que altere a linearidade do tempo e do espaço e que consiga explorar tão bem a dicotomia fina entre a percepção e a realidade, entre o que é o sonho e o que é verdadeiro, expondo as nossas concepções e noções de realidade e imaginação a paradoxos, brincando com a ilusão da mente humana e a natureza insidiosa das ideias (como muito bem disse Pete Hammond na sua crítica na Variety), não é para todos. Fazer da mente, do sonho, um puzzle metafísico, metafórico, não é para todos. Nolan conseguiu-o. Terminando quase como comecei... "It's just... pure creation". A ideia mais original de sempre? Talvez.


Nota: A-