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DIAL P FOR POPCORN

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Maratona Meryl Streep: OUT OF AFRICA (1985)

Este artigo faz parte da nossa semana temporada especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.



OUT OF AFRICA (Pollack, 1985)


"If I know a song of Africa, [...], does Africa know a song of me?"


Haverá filme dos anos 80 tão emblemático e poderoso como "Out of Africa" de Sidney Pollack? Não me parece. É um drama inteligente, bem pensado e excelentemente executado, é um dos maiores romances épicos de todos os tempos, é um relato fascinante das memórias de Karen Blixen, uma aventureira mulher que se mudou para África para casar e por aí permaneceu, tentando construir uma fortuna. Quando não o conseguiu, abandonou essa terra, nunca mais lá voltando e escreveu as suas histórias autobiográficas sob o pseudónimo Isak Dinesen.


Este era um filme destinado ao sucesso. Primeiro que tudo, pelo seu pano de fundo. África é, só por si, uma terra estonteantemente bela. A sua própria beleza natural é sedutora o suficiente para entiçar qualquer indivíduo. A bela fotografia de David Watkin só vem exacerbar ainda mais esta opinião. Em segundo lugar, pelo seu realizador. Sidney Pollack vinha fazendo trabalho consistentemente celebrado desde os dias de "They Shoot Horses, Don't They". E em terceiro lugar, o elenco, encabeçado por duas das maiores estrelas de Hollywood, não só da época, como de sempre: Meryl Streep e Robert Redford. O seu estatuto de super-estrelas, combinado com uma química ardente que conferiram às suas personagens, fizeram este filme dar o tão requerido salto qualitativo. Em quarto lugar, pela história. Diz-se (que eu não li) que os memoires de Karen Blixen são de uma qualidade imensa, bastante explorados e detalhados e interessantes e apaixonantes de ler. E em último lugar, abordemos a banda sonora. Este filme é engrandecido, em larga parte, à custa da extraordinária banda sonora de John Barry (fica um excerto no fim da crónica; é só clicar no botão "Play" para ouvir).


Por tudo isto, não foi surpresa para ninguém o filme ter vencido sete Óscares de entre as suas onze nomeações e do trio principal de actores, só Redford não ter conseguido ser nomeado. Meryl Streep mais uma vez muito bem (mas não tão sublime como em ocasiões anteriores), comandando o filme do princípio ao fim e garantindo a nossa atenção em todos os momentos e mesmo Redford consegue transmitir um ar selvagem, introspectivo, misterioso que nada tem a ver com a maioria da sua filmografia. No entanto, quem rouba o show, por assim dizer, é Klaus Maria Brandauer. Em qualquer cena que ele aparece, consegue ser o foco da atenção.


O filme parte então da história de Karen Blixen, uma mulher dinamarquesa que em desespero de causa, decide partir para o Quénia, em África e casar com o irmão do seu antigo amante, de quem era grande amiga, que lhe oferece o seu título em troca do seu dinheiro. Lá, ela e o Barão Bron (Brandauer), o marido, decidiram plantar café no sopé do Kilimanjaro. Percebemos por volta desta altura, com as infidelidades do marido e com o largo período de tempo em que ele a abandona, que Bron não é uma boa pessoa, sendo inevitável que estes se separem. A forma como isso sucede, com ele a dar-lhe sífilis e mais tarde numa festa de ano novo em que ele exibe a sua amante em público, é mais curiosa do que eu qualquer coisa que poderia ter pedido.

Mesmo depois desta situação, a Baronesa não desanima nem descansa, pois ela é um poço de força de vontade, firme e focada nos seus objectivos, com imenso amor à terra africana. O abandono de Bron faz com que a Baronesa passe a dar mais valor aos seus criados negros e às populações nativas das redondezas, que a ajudam a tentar salvar as suas plantações de café.

Quem também decide ajudá-la é o caçador forasteiro Denys, com quem a Baronesa trava uma espécie de relação íntima, que nem sei bem se lhe poderíamos chamar de amorosa, uma vez que Denys é demasiado independente para estar preso a uma mulher. Ele é, passe a expressão, um "filho da terra".

No fim, contudo, nada consegue salvar a Baronesa da ruína financeira e do fracasso da plantação de café, sendo esta obrigada a voltar para a Europa e a deixar para trás a África que tanto amou (e Denys nela).


"Out of Africa" não é um filme extraordinário. Daqueles que uma pessoa fica surpreendida de ver, tamanha é a sua qualidade. Todavia, é um bom filme, inteligentemente escrito, bem realizado e orquestrado, com boas interpretações e de um poderio visual e sonoro interessantes. É um retrato curioso da sociedade europeia do tempo da I Guerra Mundial, que decidira imigrar em massa para os países do Leste Africano em busca de melhor sorte. É um relato curioso das primeiras relações entre brancos e negros a viver em comunhão, em igualdade. É um dos romances mais imponentes da história do cinema. É um belíssimo filme para se ver, para ouvir, para se apaixonar, para se deixar levar.
 




NOTA:
 B


Trailer:




Informação Adicional:

Realização: Sidney Pollack
Argumento: Kurt Luedtke
Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer
Fotografia: David Watkin
Banda Sonora: John Barry

Maratona Meryl Streep: SILKWOOD (1983)

Este artigo faz parte da nossa semana temporada especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.


Depois de analisarmos um primeiro título da sua filmografia dos anos 80 ("Sophie's Choice"), vamos agora abordar outro, que é bastante especial para mim, porque é das minhas interpretações favoritas dela:


SILKWOOD (Nichols, 1983)


"Goddamn goverment fucks you comin' and going."

Vou começar a minha crónica por confessar a minha maior admiração pelo realizador deste filme, Mike Nichols, um cineasta americano como poucos outros, que nos deu das obras mais assinalavelmente populares dos últimos cinquenta anos (basta dizer que foi o realizador de "The Graduate", "Who's Afraid of Virginia Woolf?", "Working Girl", "Carnal Knowledge" e é o responsável pelas minhas três interpretações favoritas de Meryl Streep, em "Postcards from the Edge", no fabuloso "Angels in America" e neste "Silkwood"). As suas quatro colaborações com Meryl Streep, aparte de "The Graduate" e do sucesso que este obteve, são sem dúvida portanto o seu ponto alto e é interessante ver a simbiose entre o seu excelente trabalho como realizador e a interpretação que Streep lhe entrega nos seus filmes. 



Ao filme passamos. "Silkwood" é baseado na história verídica de Karen Silkwood, uma mulher como tantas outras que por acaso trabalhava na central nuclear Kerr-McGee, em Oklahoma, produzindo peças para construção de um reactor nuclear e que aparece morta no meio de circunstâncias bastante misteriosas após ter iniciado uma investigação que visava analisar as condições de segurança da central nuclear onde trabalhava.




Mike Nichols poderia ter abordado o argumento do filme (brilhantemente escrito pela estreante então Nora Ephron, acompanhada por Alice Arlen) a partir de uma vertente mais política, ou podia ter optado por tratá-lo como um drama sobre seres humanos, com qualidades e defeitos, que se vêem apanhados no meio de uma confusão, por acaso. Felizmente para nós, o realizador preferiu fazer um filme sobre o segundo e portanto o que temos aqui sé a história de indivíduos normalíssimos, a história do dia-a-dia das pessoas que trabalhavam numa fábrica / central nuclear, que vêm para o trabalho todos os dias à mesma hora e todos os dias saem da central à mesma hora, com vidas rotineiras, o mais vulgar possível. Mesmo os vilões da história, aqui, são tratados como pessoas, pessoas essas que cometem erros pelos quais outros pagam, mas ainda assim são pessoas como quaisquer outras. Uma coisa interessante acerca deste filme são os longos takes que dão um ar e um ritmo mais naturalista à coisa, em que em vez de só focar as personagens principais, focam as suas interacções com todos os intervenientes em cena.




Apesar de se notar que Mike Nichols tenta ser inclusivo nos seus takes, é em três pessoas em particular que ele foca a sua atenção (e são eles que ele segue até casa): Karen Silkwood (Meryl Streep), Drew Stephens (Kurt Russell), o seu namorado, e Dolly Pellikker (Cher), a sua melhor amiga, lésbica, que também vive em sua casa. São três interpretações fabulosas e três excelentes casos de imersão e devoção completa ao seu trabalho (quão raro é vermos três estrelas desaparecerem tão a fundo nos seus papéis). Obviamente que a que mais me surpreende é Cher. Tão longe da pessoa que Cher parece ser na realidade, mas tão humana e tão genuína que parece impossível não o ser. E claro, teríamos que chegar a falar de Meryl Streep. O trabalho que teve com esta personagem nota-se desde o início da película, uma vez que todos os seus gestos, o seu sotaque, os seus tiques e manias, as suas expressões faciais parecem tão intrinsicamente detalhados, trabalhados, pensados, todos os movimentos orquestrados automaticamente, de modo a conferir um ar de autenticidade que mais nenhuma outra actriz, ousaria dizer, consegue fazer tão bem como ela. Este é, na minha opinião, o grande trunfo do filme. A autenticidade das personagens principais. O quão convincentes estes três actores conseguem ser, de modo a que nós parecermos mais amigos que meras testemunhas do que se passa no ecrã com elas.




Depois de apresentados às personagens, descobrimos que a central nuclear está com problemas para cumprir os seus prazos, obrigando as pessoas a trabalhar turnos duplos e triplos e a cortar custos em tudo o que possa encontrar. Vários pequenos incidentes começam a chamar a atenção de Karen Silkwood para a falta de condições de higiene e segurança no trabalho da central e a falsificação de testes de controlo de segurança, tendo ela começado por avisar os responsáveis do perigo que as pessoas passavam. 


Não obtendo resposta, ela recorre ao sindicato, que lhe confere alguma notoriedade e a leva a viajar para Washington para tratar do assunto com oficiais do sindicato. O assunto começa a tirar-lhe tanto tempo que ela negligencia o namorado Drew, que sai de casa, e reage mal à entrada da namorada de Dolly, Angela. Entretanto, começa a ser vítima de uma espécie de conspiração na empresa, com o sindicato local e os trabalhadores a mostrarem o seu descontentamento com as confusões que ela estava a começar com a gerência da firma e com a empresa a tentar envenenar Karen com níveis altos de plutónio nos frascos de amostra de urina que ela é requerida a fazer após ter sido contaminada uma vez.

Como se sabe pela história, a sua visita a um laboratório oficial após ter sido confirmada a contaminação elevada por plutónio só lhe reforçou a sua tese que as condições de segurança na fábrica estavam a ser negligenciadas e que era hora de agir. Como também se sabe, Karen nunca chegou a encontrar-se com o repórter do NY Times com quem tinha marcado encontro, aparecendo morta sob circunstâncias misteriosas. A polícia arquivou o caso e os documentos que Karen supostamente trazia consigo desapareceram. Nunca se conseguiu provar nada e a história tornou-se célebre pouco tempo depois por causa disso.




"Silkwood" é, no fim de contas, a história de uma mulher vulgar, nada extraordinária, mas trabalhadora e apaixonada pelo que faz, se bem que um pouco distraída e extrovertida a mais, que cresceu do anonimato a que estava habituada para um lugar de alguma preponderância e destaque, sendo castigada, no final, pela sua rebelião e liberdade de pensamento e expressão. Há que perceber que aqui na história não há pessoas más. Só há a verdade. E isso era o que Karen Silkwood vinha para contar e que ninguém a deixou fazer.



Nota:
B+


Trailer:



Informação Adicional:
Realizador: Mike Nichols
Argumento: Nora Ephron, Alice Arlen
Elenco: Meryl Streep, Cher, Kurt Russell
Fotografia: Miroslav Ondrícek
Banda Sonora: Georges Delerue
Ano: 1983
Duração: 131 minutos


 

Maratona Meryl Streep: SOPHIE'S CHOICE (1982)

Este artigo faz parte da nossa semana temporada especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.


E estamos de volta com a nossa maratona, espero que com o pé a fundo no acelerador até ao final. Depois de pegarmos nos anos 70 da sua filmografia, passamos à década de 80, onde Meryl Streep foi profílica como talvez nenhuma outra estrela de Hollywood. Nesse período de dez anos ela viria a coleccionar seis nomeações para os Óscares, todas na categoria de Actriz Principal e, mais importante que isso, consolidar-se-ia como a melhor actriz que apareceu no mundo desde Bette Davis e Katharine Hepburn. Mas falaremos disso mais em pormenor no artigo que foca todos os títulos. Vamos agora à crítica dos quatro filmes seleccionados desta década. Este é o primeiro:

SOPHIE'S CHOICE (Pakula, 1982)


"Don't make me choose! I can't!"


Há uma cena em "Sophie's Choice", quase a chegar ao fim, em que ela conta finalmente a escolha terrível que tem que fazer. Essa cena surge em analepse no meio de uma diálogo entre Sophie (Meryl Streep) e Stingo (Peter MacNicol) e é precedida e é sucedida pela mesma cara de Sophie. Fria, amoral, sem reacção, como se lhe tivessem tirado a vida. Este é um exemplo claro do extraordinário trabalho da actriz na composição da personagem, pois é a única cena em todo o filme que me lembro em que Sophie não demonstra alegria e satisfação. 


O filme de Alan J. Pakula revolve em torno de três personagens principais: Sophie, uma mulher polaca e Católica que havia sido capturada pelos Nazis e colocada num campo de concentração, onde os Nazis lhe roubaram os seus dois filhos, Nazis estes que depois lhe permitiram miraculosamente imigrar para os Estados Unidos; Nathan (Kevin Kline), um homem Judeu charmoso e cheio de vida mas secretamente problemático e perturbado mentalmente, que acolhe Sophie na sua casa e com quem mantém uma relação no mínimo turbulenta; e Stingo, um adolescente saloio vindo do Sul que chega a Brooklyn com a ambição de se tornar um escritor conhecido. A história desenvolve-se a partir da amizade improvável que se cria entre os três personagens, da tumultuosa relação entre Nathan e Sophie e da crescente admiração que Stingo ganha à vida, aos seus dois melhores amigos e em particular a Sophie. 

 
O filme introduz-nos na vida de um ingénuo e pacato rapaz do Sul que, pouco conhecendo da vida real, trava conhecimento com uma pessoa tão impressionante quanto experienciada como Sophie e como imediatamente fica embeiçado por ela e pelo mundo que ela - e o seu amante Nathan, genial, excêntrico, louco - decidem abraçar, onde não há lugar para tristezas, onde todos os momentos são para serem vividos e onde todas as alegrias devem ser celebradas. Ao mesmo tempo, o filme, narrado por Stingo, vai-nos revelando, através do seu outro narrador contido dentro da história, Sophie, como é que esta pessoa foi tão fulcral no seu crescimento de um adolescente sonhador para um adulto responsável e realista. No decorrer do filme, as aspirações algo idióticas do jovem rapaz são substituídas por longos flashbacks de confissões da vida passada de Sophie, no tempo da II Guerra Mundial  (flashbacks estes que vão surgindo após calorosas discussões entre Nathan e Sophie que invariavelmente culminam com a fuga do primeiro, abandonando-a com Stingo) e vamos percebendo o quão grande é a fachada que Sophie usa para esconder o que de mal fez (e lhe fizeram) no passado.


Ficamos então a conhecer do horror que Sophie viveu, das escolhas terríveis que teve que fazer e de uma em particular que a assombra para o resto da vida e que ela não consegue perdoar a si própria. Não me vou alongar mais nisto porque arruína o prazer de ver o filme a quem não o viu, só dizer que é um filme que progride de forma exemplar para o grande clímax final que nos mostra, sem julgamentos, a outra face de Sophie.

Um filme repleto de boas interpretações, em particular de Meryl Streep, claro está, no papel da sua vida (muitos outros se seguiram, mas este é invariavelmente aquele que toda a gente vai recordar daqui a muitos anos) e que lhe valeu merecidamente o seu segundo Óscar em 1983, acompanhado por uma realização muito capaz e um argumento que é uma fidelíssima adaptação do apaixonante romance com o mesmo nome. "Sophie's Choice" é, no fim de contas, mais do que um relato portentoso da maturidade de um jovem quando face a face com problemáticas adultas e a aquisição de responsabilidades e a destruição do ideal de vida a que aspirava, um retrato apaixonado, subtil, inflamado, absorvente de uma mulher demasiado complexa para tentar ser rotulada levianamente, de uma mulher que já viu tanta maldade, tanta má fé, tanta desonra, tanto ódio, tanta tristeza, tanta tortura e tanta morte que a única forma que ela tem de viver a vida é mesmo na corda bamba, sem apego às coisas, bebendo, de festa em festa, fazendo amor, dia após dia, bloqueando o passado horroroso que a teima em perseguir. De partir o coração.


Nota:
B+

Trailer:



Informação Adicional:

Realização: Alan J. Pakula
Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Peter MacNicol
Argumento: Alan J. Pakula
Fotografia: Nestor Almendros
Banda Sonora: Marvin Hamlisch



Maratona Meryl Streep: "You so rarely get treated like crap!"

Continuando com os vídeos do AFI Life Achievement Award de 2003, atribuído a Meryl Streep...

Vim pegar, para o nosso penúltimo artigo sobre este prémio, nos três melhores discursos da noite. Todos engraçados à sua maneira, todos diferentes, todos com um único objectivo: honrar as amizades que todas elas têm com Meryl Streep e elogiar o quão boa a atriz é, pelo meio entretendo toda a sala. Preparem-se para rir (vá, pelo menos sorrir).




(Carrie Fisher)



(Nora Ephron)



(Tracey Ullman)

E, já agora, uma nota: COMO É POSSÍVEL TRACEY ULLMAN NÃO SER UMA ESTRELA MAIOR?


Maratona Meryl Streep: César Awards

Este artigo faz parte da nossa semana temporada especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.




Pouquíssimas lendas do cinema recebem este prémio, o Prémio Honorário (César d'Honneur) nos Césars (prémios de cinema da Academia Francesa). Meryl Streep recebeu-o em 2003. E ainda foi suficientemente fabulosa para discursar em fluente francês.





Quem é grande, é grande sempre. Meryl Streep é fantástica.

Maratona Meryl Streep: Óscares 1979 e 1980

Este artigo faz parte da nossa semana temporada especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.



Como parte da Maratona Meryl Streep, também vamos abordar as corridas aos Óscares. Uma vez que já encerramos os anos 70 (nem comento o quão atrasada está esta maratona... mas enfim, continuemos), vamos discutir as duas primeiras nomeações de Meryl Streep aos Óscares - mal sabia ela, por esta altura, que um dia viria a ser a recordista do número total de nomeações.



1978


Em 1978, Meryl Streep começou a sua colecção de prémios com um Emmy. Sim, um Emmy, que lhe foi atribuído pela sua nomeação como Melhor Actriz em Mini-Série pela mini-série "Holocaust", da NBC.

A actriz conseguiu uma dupla nomeação nos BAFTA (os BAFTA são os prémios da Academia Britânica - British Academy Film and Television Awards): Melhor Actriz por "The Deer Hunter" e Melhor Actriz Secundária por "Manhattan". Na primeira categoria perderia (merecidamente) para Jane Fonda ("The China Syndrome") e na segunda perderia para Rachel Roberts ("Yanks"), numa daquelas típicas jogadas da Academia Britânica em apoiar talento inglês.

Meryl ganharia alguns prémios de críticos, entre eles o prémio de Melhor Actriz Secundária do NSFCA (National Society of Film Critics Awards), um dos primeiros grandes precursores dos Óscares, por "The Deer Hunter" e "Manhattan".

Mais tarde vieram os Globos de Ouro que se decidiram por Dyan Cannon ("Heaven Can Wait") para Melhor Actriz Secundária, a categoria na qual Meryl Streep estava nomeada. Jane Fonda ganharia Melhor Actriz - Drama por "Coming Home" e Maggie Smith, empatada com Ellen Burstyn ("Same Time, Next Year"), venceria Melhor Actriz - Comédia por "California Suite". 

A corrida começava a ganhar contornos por esta altura, com Jane Fonda a ser uma das grandes candidatas a Melhor Actriz, fosse por "Coming Home" (que eventualmente lhe deu a vitória) ou por "The China Syndrome" e com Maggie Smith a revelar grande pedigree por "California Suite" (por entre as várias nomeações como Actriz ou como Actriz Secundária, os Óscares decidiram dar-lhe a estatueta pela segunda categoria - correctamente, devo dizer). As senhoras de "Manhattan" (que só viria a estrear em 1979 nos Estados Unidos mas era elegível para os BAFTA) conseguiram três nomeações nos BAFTA mas para os restantes prémios teriam que vir a esperar mais um ano e por isso as outras candidatas na corrida para Melhor Actriz eram: Ellen Burstyn ("Same Time, Next Year"), Ingrid Bergman ("Autumn Sonata"), Jill Claybourgh ("An Unmarried Woman"), Glenda Jackson ("Stevie") e Geraldine Page ("Interiors"), Jacqueline Bisset ("Who's Been Killing The Great Chefs in Europe?"), Olivia Newton-John (contava com o voto popular pelo sucesso "Grease") e Goldie Hawn ("Foul Play"). Os Óscares conservariam quatro das cinco nomeadas para Melhor Actriz - Drama nos Globos mais Ellen Burstyn (que ocupava então o lugar de Glenda Jackson).

E para Melhor Actriz Secundária, além de Streep, Cannon e de Smith, tínhamos Maureen Stapleton ("Interiors"), Carol Burnett ("A Wedding"), Mona Washbourne ("Stevie) e Stockard Channing ("Grease"). Os Óscares ver-se-iam livres de Burnett e Washbourne (nomeadas para os Globos de Ouro com Streep e Cannon) para dar lugar a Smith e a Penelope Milford ("Coming Home") - uma nomeação que veio do nada, fruto do grande amor da Academia pelo filme, que viria a vencer os dois Óscares de Actor e Actriz.

Na noite dos Óscares, então, tivemos:



Dyan Cannon, Heaven Can Wait
Penelope Milford, Coming Home
Maggie Smith, California Suite
Maureen Stapleton, Interiors
Meryl Streep, The Deer Hunter




Nesse ano, ganhou a maior estrela do conjunto: Maggie Smith já vinha construindo um palmarés impressionante de grandes interpretações (e já tinha vencido antes, por "The Prime of Miss Jean Brodie") e tinha grande buzz, fruto da vitória nos Globos de Ouro. Além disso, foi sempre nomeada em todos os precursores, tenha sido quer em Melhor Actriz como em Melhor Actriz Secundária. Deste grupo, vi quatro das cinco interpretações - a de Meryl Streep, a de Penelope Milford, a de Maggie Smith e a de Maureen Stapleton - e tenho a dizer que provavelmente daria o prémio a Maggie Smith também. Com esta primeira derrota, Meryl Streep tornou-se na predilecta para ganhar um Óscar logo que a oportunidade surgisse. E esta não tardou muito.


1979


O ano de 1979 foi bastante diferente para Meryl Streep. Venceu o prémio de Melhor Actriz Secundária do NBR (National Board of Review) pela tripla de interpretações em "Manhattan", em "The Seduction of Joe Tynan" e em "Kramer vs. Kramer". Pelas mesmas interpretações ganhou (novamente) o prémio de Melhor Actriz Secundária nos NSFCA e venceu o Globo de Ouro nesta mesma categoria. Juntou-lhes vários prémios de grupos de críticos importantes, entre eles o de Los Angeles (LAFCC Awards) e o de Nova Iorque (NYFCC Awards).

Nos Óscares seria nomeada com duas das suas quatro companheiras dos Globos de Ouro (Candice Bergen, "Starting Over" e Jane Alexander, "Kramer vs. Kramer") tendo Kathleen Beller ("Promises in the Dark") e Valerie Harper ("Chapter Two") sido preteridas pela Academia a favor de Mariel Hemingway ("Manhattan") e Barbara Barrie ("Breaking Away"). Além destas, a corrida via Jessica Lange e Ann Renking ("All That Jazz"), Shirley MacLaine ("Being There") e Doris Roberts ("The Rose") desvanecer por entre os precursores e poucas hipóteses tinham todas as outras quando comparadas com o buzz que tinha Meryl Streep (significado: vitória asseguradíssima).

Na cerimónia dos Óscares de 1979, tínhamos então estas nomeadas:



Jane Alexander, Kramer vs. Kramer
Barbara Barrie, Breaking Away
Candice Bergen, Starting Over
Mariel Hemingway, Manhattan
Meryl Streep, Kramer vs. Kramer


O resultado: Meryl Streep ganhou, como é óbvio. Incontestavelmente.


(vídeo cortesia de YouTube e do canal Oscars, propriedade da AMPAS)



E vocês? Que acham das corridas aos Óscares desses anos?

Maratona Meryl Streep: De Niro, Nicholson e Eastwood

Este artigo faz parte da nossa semana especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.






(Robert DeNiro)



(Jack Nicholson)



(Clint Eastwood)


Se estes três senhores e gigantes do cinema o pensam, é porque é verdade.

Maratona Meryl Streep: Especial Grandes Divas do Ecrã

Este artigo faz parte da nossa semana especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.






 

"Look at that. You've blown out my light."


Esta tirada, de um timing comédico impressionante num filme dramático com um argumento com bastante subtexto e humor negro, mostra bem o que Meryl Streep sabe fazer melhor (e, já agora, Amy Adams não está também nada mal nesta cena). 

Conseguem imaginar uma interpretação tão deliciosamente malévola quanto autoritária? Tão benfeitora quanto rude, Sister Aloysius é um poço de força, personificando o poder da Verdade em "Doubt", adaptado da Broadway pelo seu encenador, John Patrick Shanley e protagonizado por Meryl Streep, Viola Davis, Amy Adams e Philip Seymour Hoffman. Pelo meio, os tiques de Diva fazem o resto e quando nos damos conta, não podemos desviar o olhar do que Streep faz no ecrã. É impressionante.

 

Maratona Meryl Streep EXPANDIDA!

Por vezes, não dá para prever o atraso que as coisas vão ter... E esta foi de facto uma semana complicada.

À custa disto, a nossa Maratona Meryl Streep vai ser expandida mais uma semana!


Continuando hoje... Esperemos arrumar os anos 80 da filmografia este fim-de-semana.

Esperemos que apreciem tal aumento e que continuem a seguir-nos e a comentar!

Maratona Meryl Streep: Anos 70

Este artigo faz parte da nossa semana especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.



Vamos então analisar a primeira década de cinema em que Meryl Streep trabalhou. Aviso desde já é que optarei sempre por abordar os filmes que fazem das personagens de Meryl focos de acção ou pelo menos surgem para desenvolvimento, não apenas personagens unidimensionais que surgem uma ou duas vezes em todo o filme.


Mary Louise Streep, que tinha começado a interessar-se pela representação no seu tempo em Vassar (universidade da qual se formou em 1971), tomou essa opção de vida ao ser admitida no curso de Drama em Yale, no qual se formou com distinção. Participou então em diversas peças no panorama teatral nova-iorquino enquanto ao mesmo tempo trabalhava em part-time como empregada de mesa. Contudo, com o seu talento, era mais do que óbvio que faria a transição para outras formas de expressão da sua arte de maior dimensão. Começou por fazer alguns tele-filmes até que o seu primeiro grande papel surgiu.


Em 1977, aos 27 anos, Meryl Streep principia a sua carreira no cinema, no filme "Julia", de Fred Zinnemann, protagonizado por duas gigantes da geração anterior à de Meryl, Vanessa Redgrave e Jane Fonda. A sua Anne Marie torna-se, sem querer, um dos (poucos) pontos de interesse do filme, que, não obstante os cinco Óscares e onze nomeações conseguidos, não foi muito do meu agrado. Meryl, no entanto, através da sua presença, da sua expressividade e da forma impressionante como rouba cenas às duas cabeças de cartaz (coisa que fará habitualmente por mais uns anos, como veremos, até ser considerada uma cabeça de cartaz ela mesma), através da forma cativante, diria até mágica, como lê as entrelinhas das falas que tem que pronunciar, é bestial.


No filme, de resto, salva-se a magnífica interpretação de Vanessa Redgrave, que lhe rendeu (justificadamente) o Óscar. Anne Marie é a típica socialite: aquela que sabe sempre o que dizer não importa a situação; aquela que parece que não se importa com o que os outros pensam; aquela que até compreende os outros, mas a quem não lhe interessa muitos os seus problemas; aquela que tem um pouquinho a mais de egocentrismo. Mas num papel que podia resultar num mero estereótipo ou caricatura, Meryl pega e transforma num indivíduo sobre o qual queremos saber genuinamente mais.

Depois deste sucesso menor, era certo que Meryl Streep procuraria vôos mais altos e uma actriz bonita, charmosa e talentosa como ela teria com certeza grandes papéis a serem-lhe oferecidos. Um ano volvido, em 1978 (nesse mesmo ano casaria com Don Gummer), Meryl vai à caça de um dos maiores papéis femininos desse ano: Linda em "The Deer Hunter", contracenando com Robert DeNiro e Christopher Walken.



"The Deer Hunter" é um dos melhores filmes de sempre, com três excelentes interpretações (uma das quais - Walken - venceu o Óscar), com uma história fantástica e com uma lição inspiracional importante (a de que a guerra muda as pessoas - muda as suas vidas, muda as suas personalidades, muda lugares e destrói-os por dentro.


Meryl Streep faz um excelente trabalho com a sua personagem, Linda, uma belíssima, inocente e divertida rapariga, indiferente ao mundo em seu redor, que vê o seu namorado Nick (Walken) partir para a guerra no Vietname com mais dois amigos, tendo só o seu melhor amigo, Michael (De Niro), voltado (os três fogem à guerra, mas só Michael decide voltar para casa - por causa de Linda).


Os dois, que já possuíam incrível química e tensão quando Nick estava presente, entregam-se por completo um ao outro, funcionando isto como que uma espécie de conforto, de consolo, pela falta do ente querido. Streep joga bem com a caracterização da sua personagem - uma típica mulher que só se consegue ver definida pelo homem que a ama, uma mulher para sempre dividida entre dois amores, uma mulher a quem tinha sido roubada a felicidade e que encontrou noutro homem uma forma alternativa de ser feliz - e aproveita os momentos em que surge no filme para se dar bastante bem a conhecer.

Este trabalho valer-lhe-ia uma nomeação para o Óscar de Melhor Actriz Secundária que, mesmo tendo perdido para Maggie Smith (falaremos disso noutro artigo, dedicado às suas duas primeiras nomeações), faria de Meryl Streep a actriz mais cobiçada da altura e certamente colocava-a em posição priveligiada para da próxima vez que fosse nomeada, ser consagrada. E nem foi preciso esperar muito.


Em 1979, Meryl Streep garantiu três excelentes papéis femininos: foi a amante e colaboradora de Joe Tynan em "The Seduction of Joe Tynan", um papel completamente díspar do de Linda em "The Deer Hunter" (uma mulher independente, com uma carreira) mas que tem um ponto em comum (ser a amante de outro homem); foi a ex-mulher do (personagem de) Woody Allen em "Manhattan" (um dos melhores filmes de Allen, no qual mistura tudo o que sabe fazer melhor, no seu cenário preferido: Nova Iorque), no qual interpretou Jill, a ex-mulher de Isaac, virada lésbica, que ameaça publicar um livro no qual conta todos os segredos da sua relação; e foi Joanna Kramer, a mulher de Ted Kramer (Dustin Hoffman), em "Kramer vs. Kramer".


Neste último, Meryl é estonteante. A sua Joanna Kramer brilha nas poucas cenas em que aparece, mostra-nos em alguns segundos uma quantidade infindável de defeitos e qualidades, faz-nos preocupar com ela, faz-nos odiá-la, faz-nos obcecados em saber porque ela é assim, faz-nos agoniados de ver a transformação que sofreu, faz-nos sentir traídos pelo que faz a Ted e finalmente faz-nos sentir-nos culpados por odiá-la. A cena no tribunal, em que se revela - a ela e à própria Meryl - é de génio. Aquele rosto. Aquela expressividade. A forma como fala. O que deixa transparecer. É talento puro.


A outra cena que eu realço é a inicial, a da sua partida. A forma como começa ternurenta, progride para total acidez e frieza com o marido e termina com ela lavada em lágrimas, cheia de receio mas determinação, cheia de ódio por si própria mas confiante da sua decisão. Ela assombra-nos o filme todo e mesmo após. É uma performance cheia de força, um verdadeiro tour-de-force, que merecidamente lhe deu um Óscar.


Os anos 70 acabavam com Meryl Streep em alta. Era sem dúvida uma das estrelas mais ascendentes de então e os anos 80 só serviriam para consolidar essa ascensão no panteão da glória eterna.

- Na capa da "Times", 1981 -