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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

Saramago, Gylenhaal e Villeneuve


Do primeiro sou um fã assumido desde que pelas minhas mãos passou "Ensaio sobre a Cegueira" - à profunda admiração seguiu-se a obsessão quando devorei "O Ano da Morte de Ricardo Reis", recomendação obrigatória para qualquer pessoa que goste de literatura portuguesa (aliás, qualquer fã de literatura). Não foi por acaso que José Saramago foi Prémio Nobel.

O segundo tem no currículo "Donnie Darko", "Brokeback Mountain" e "Zodiac". Para mim isso significa passe vitalício. Mesmo "End of Watch", "Brothers", "The Good Girl" e "Bubble Boy" foram bem melhores do que esperava. Uma boa carreira para um moço com apenas 32 anos, com uma nomeação ao Óscar (e provavelmente esteve muito perto de vencer esse ano) e próximo da A-List. Jake Gylenhaal tem tudo para ascender a ícone da sua geração mais cedo ou mais tarde.

O terceiro é quem tem de me convencer. "Incendies" foi um bom filme, mas nada de extraordinário para as hossanas que a crítica lhe lançou. Não conheço a filmografia dele para trás (meu erro talvez, eu sei) mas sei que os seus dois novos filmes - este "Enemy" e "Prisoners" - foram muito elogiados em Toronto. O segundo já estreou inclusive em território americano (o primeiro vai ter vida difícil para ser distribuído, penso eu) com bom resultado de bilheteira. Fico à espera de ser surpreendido (ou ver confirmado o talento que a espaços Denis Villeneuve exibiu no candidato ao Óscar de Filme Estrangeiro de 2011).


Tudo isto para mencionar que "Enemy" ganhou hoje o primeiro poster e primeiro teaser trailer e que estou embeiçado por ambos (por ambos, pela Mélanie Laurent e pela Sarah Gadon - que duas enormes actrizes!). Olhem-me esta beleza de poster (em comparação, por exemplo, com o poster insípido de Labor Day - lançado esta semana também - que ganhou certamente inspiração nesta outra criação pálida) Venha o Outono e finalmente os filmes que interessam! 


BEGINNERS (2010/11)



What happens now? I don't know.


Como é que se criou essa ideia de que há almas gémeas, este mito de que estamos destinados a encontrar alguém que fique connosco para sempre e nos complete a todos os níveis? Não sei. Contudo, não é isto, afinal, que todos procuramos na vida? Passamos os dias mergulhados num oceano de mil e uma sensações, numa amálgama de emoções, de momentos e cenas que todas juntas compõem a nossa vida, a nossa personalidade, a nossa pessoa, em busca, esperançados, da pessoa que nos transforme a nossa existência. O que ninguém nos explicou é que o ser humano não foi feito para estar junto com alguém. Crescemos com a ideia que para sobreviver temos de saber viver na solidão, ser opinativos, decididos, independentes e fortes, não importa as circunstâncias. E de repente lá vem alguém que nos põe a colocar tudo em perspectiva, que nos confunde, encanta e emociona, que nos muda para sempre e nos faz sentir como se a vida sem ela não faz sentido. Em seguida, vem a parte complicada: aquela de saber incluir quem amamos nas nossas decisões, na nossa vida. E é aí que a maior parte de nós falha. Se bem que Mike Mills tem a vantagem de estar a aproveitar uma história verídica da sua vida para nos proporcionar esta inventiva, prodigiosa e preciosa comédia romântica chamada "BEGINNERS", é impossível não notar a sua voz distintiva ao longo de toda a película, do fascinante argumento à brilhante direcção de actores, que revela que de facto estamos perante um realizador a seguir atentamente no futuro.


"BEGINNERS" alterna brilhantemente entre a comédia subtil e o toque virtuoso, despretensioso do melodrama familiar, mostrando-nos como o passado das personagens se interliga e influencia o presente e como o presente nos leva muitas vezes a questionar actos do passado, como todos nós seres humanos somos imperfeitos, confusos, ignorantes e impotentes face ao amor, à felicidade, à tristeza, à perda e à solidão - não sabemos bem o que havemos de fazer e, mais vezes do que queremos admitir, nesta sociedade verdadeiramente sociopática e de emoções amorfas e complicadas em que vivemos, tomamos as decisões erradas e acabamos por arruinar tudo.


"BEGINNERS" abre com a morte de Hal (Christopher Plummer) que, ao perder a sua esposa de mais de quatro décadas, decide confessar ao seu filho Oliver (Ewan McGregor) que toda a sua vida foi homossexual e que portanto pretende agora aproveitar esta nova oportunidade que a vida lhe dá para fazer tudo diferente. Oliver narra-nos o filme através de uma série de imagens e lirismos, seja poemas, frases icónicas da história ou pequenas narrativas pessoais acerca de si, da sua família e da sua vida. Oliver, que é um artista que trabalha como desenhador, ilustra as várias fases do filme enquanto este alterna entre o passado, os anos 50, nos quais Oliver passava a maior parte do tempo com a mãe, Georgia (Mary Page Keller), que lhe acabou por passar alguma da indiferença, passividade e natureza contemplativa com que reagia aos acontecimentos da vida, presa durante anos e anos num casamento infeliz; o período de tempo entre a morte da mãe e da morte do pai, em que observamos um deleitoso, enternecedor e até divertido retrato de um homem que nunca desistiu, mesmo aos 75 anos, de ser feliz e que, na sua intrépida curiosidade e mesmo lutando contra um cancro que lhe foi minando a vida, foi aprendendo o que é ser gay nos dias de hoje e encontra o amor nos braços de um homem imensamente mais novo que ele, Andy (Goran Visnjic); e meses depois, em que um Oliver imerso numa depressão e apatia profundas descobre novo rumo na sua vida ao se encontrar com Anna (Mélanie Laurent), uma misteriosa e encantadora rapariga que abana com os mecanismos de defesa que Oliver vinha aperfeiçoando nos últimos tempos e o obriga a, pela primeira vez na vida, correr atrás do que quer, tal e qual como o pai fez antes e que nos mostra o quão difícil é para ele, que foi ensinado toda a vida a guardar segredos, a partilhá-los com alguém.


O principal atributo de "BEGINNERS" é a franca sinceridade, honestidade e calor das personagens. Aqui não há heróis nem vilões, vencidos nem vencedores. Só um conjunto de pessoas à deriva na vida, em busca de algo que lhe dê sentido. Christopher Plummer enche o seu Hal de graça, alma e uma indelével e inexplicável alegria de viver, mesmo nos piores momentos, exibindo orgulhosamente a lição moral de que o nosso exterior nem sempre reflecte bem o que o nosso interior é, tornando impossível não nos perdermos na empatia do seu olhar, na generosidade do seu espírito, na profundidade da sua caracterização. Uma nomeação - e até uma vitória - nos Óscares seria o prémio merecido para uma interpretação tão rica, tão melíflua, tão inesquecível. Ewan McGregor é exímio na forma como diz muito com tão pouco, com uma expressão ou um olhar tão cruel e devastador como apropriado, partilhando connosco o seu sofrimento, as suas dúvidas e incertezas acerca da sua vida, o seu ressentimento mas também o seu orgulho e amor para com o seu pai por recomeçar a vida mesmo enquanto ele, paradoxalmente, perece. A melhor interpretação da sua carreira, para mim. Há que realçar também o enorme contributo das duas mulheres na vida de Oliver: Mary Page Keller tem a tarefa ingrata do filme, mas uma que cumpre com elevada distinção, ao ser capaz de dar vida à sua Georgia de forma tão realista e nua, coerentemente entrelaçando, nas nossas cabeças, a explicação de porque razão Oliver é como é e Mélanie Laurent por nunca ter entrado no caminho fácil com a sua Anna e por ter compreendido que o lado imprevisível e difícil de entender da sua personagem, aquele que consegue ser, em simultâneo, terno e sensível e indiferente e frio, é o que a torna tão única e distinta. Finalmente, falar do verdadeiro astro do filme, o cão Arthur, um extraordinariamente fiel Jack Russell com uma habilidade muito particular: a de ser incisivo na forma crítica como analisa a vida de Oliver.




Um filme que mais parece um espelho da nossa vida, que captura na perfeição o amor e a melancolia em todas as suas formas, que se atreve a abordar assuntos difíceis e o faz de forma poética, sonhadora e cativante, ao som puro e gentil da linda banda sonora de Palmer, Reitzell e Neill, "BEGINNERS" é um filme que vale a pena ver e rever - mais não seja pelo sentimento inconfundível de sair da sala de cinema após ter visto um filme completo, quase perfeito, que me mexe com as emoções, que me deixa quase em lágrimas e que me faz feliz por estar vivo e neste mundo imperfeito e imprevisível onde tudo é possível. Como apaixonar-me. Ele nunca desistiu, diz Anna na cena final do filme acerca de Hal. É isso mesmo que nunca devemos deixar de fazer. Não desistir de ser feliz.



Nota:
A/A-

Informação Adicional:
Realização: Mike Mills
Argumento: Mike Mills
Elenco: Ewan McGregor, Mélanie Laurent, Christopher Plummer, Mary Page Keller, Goran Visnijc
Banda Sonora: Roger Neill, Brian Reitzell e Dave Palmer
Fotografia:
Ano: 2010

Trailer:


LE CONCERT (2009)



Aproveitando a óptima colecção de cinema independente que o jornal Público junta, todas as sextas-feiras por mais 1,95€, como o seu jornal, tive oportunidade de ver um filme extremamente tocante e sentimental. Embora já tivesse recebido boas opiniões sobre o filme, confesso-me surpreendido pela qualidade do mesmo. Le Concert é um filme sobre a obsessão pela concretização de um sonho, a obsessão por recuperar uma vida roubada de uma forma cobarde, a obsessão por voltar uma página magoada e ressentida de um passado longínquo.


Andrey Filipov (Aleksey Guskov - com uma interpretação marcante), trabalha como empregado de limpeza de um decrépito Bolshoi, uma orquestra que em tempos coordenou, mas cuja qualidade já viu dias melhores. Trinta anos passaram desde a fatídica noite, em que o governo comunista invadiu o palco onde Andrey orientava uma peça de Tchaikovsky, e destruiu a carreira de um maestro e de uma orquestra considerados brilhantes. Aproveitando a sua condição e a circulação livre e privilegiada pelos corredores do Bolshoi, Andrey descobre um convite para a orquestra actuar no famoso Châtelet Theater em Paris. Assustado com a ideia de uma representação tão ridícula como a da actual orquestra do Bolshoi, Andrey enche-se de coragem e decide reunir a sua antiga orquestra para terminar a peça que para sempre, na sua cabeça, ficou inacabada: O Concerto de Violino em D Maior de Tchaikovsky.


Uma preparação extremamente hilariante, que proporciona ao espectador uma constante animação e imprevisibilidade, cativa uma saudável empatia para com algumas das personagens e expõe-nos alguns dos segredos por detrás das magestosas orquestras e das transcendetes criações de Tchaikovsky. O filme conta ainda com a participação de uma das grandes promessas do cinema francês, Mélanie Laurent, com uma personagem importantíssima em toda a dinâmica da história e que se torna uma mais valia na qualidade do filme. Divertido, emocionante, criativo e arrojado. Pagar 1,95€ por Le Concert foi um dos melhores negócios cinematográficos do meu ano.
Nota Final:
B+/A-



Trailer:





Informação Adicional:

Realização: Radu Mihaileanu
Argumento: Radu Mihaileanu
Ano:
2009
Duração:
118 minutos