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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

Brincar à imitação dá direito a Óscar?

É uma aflição que me dá este "The Imitation Game". Filme de Óscar que mais quer ser filme de Óscar não há. Todavia, não duvido que o Morten Tyldum lá tenha lutado contra todos esses instintos o mais que possa, porque o filme mostra-se muito mais do que o Harvey Weinstein merecia.

 

Por um lado, bastante para gostar e degustar, nomeadamente a melhor interpretação da Keira Knightley em muito tempo, a acertar todas as notas que o filme lhe pede e a emprestar muito necessário carisma e personalidade a uma personagem que construída por uma actriz com menos capacidades, ia acabar como ruído de fundo e uma história pouco conhecida e de inegável valor, que aborda um prisma diferente da II Guerra Mundial e, acima de tudo, com um personagem caricato e difícil de ler que acaba, de forma surpreendente, por ter um papel muito activo no desfecho de uma das grandes calamidades sócio-políticas do passado século.

 

Por outro lado, a quantidade ridícula de "imitações" de má espécie que o filme contém tira-me do sério, desde Cumberbatch a roubar truques ao Sherlock, o moço de "Downton Abbey" que deve ter-se enganado no set de gravações, o Matthew Goode a aperfeiçoar a arte de ser o Matthew Goode em tela grande, o Charles Dance a dosear o veneno que costuma dispensar ao seu Tywin Lannister, o Mark Strong em mais um papel em que não se sabe bem se é vilão, se é boa pessoa e sobretudo - o pior dos crimes - a primeira vez que vejo o Alexandre Desplat a reciclar material. Tira-se o trecho de abertura e o resto é uma amálgama de tudo aquilo que faz dele o maior compositor do século XXI (sim, tenho dito). O filme também pede emprestado umas dicas aos seus colegas britânicos contemporâneos, sobretudo a uma certa e respeitável película que venceu o prémio máximo da Academia há cinco anos, que tenta imitar à força toda - mas pelo menos fá-lo naquilo que esse filme é bom. De tão bem que imita, "The Imitation Game" não aprende a lição fundamental, sofrendo também do mesmo mal de "The King's Speech": tem um protagonista que é paradigmático de uma dicotomia (ou indecisão) do filme entre abordar mais especificamente - e mais aprofundadamente - o seu protagonista. Se em "The King's Speech" pouco se retira de George VI, em "The Imitation Game" temos um filme com um protagonista homossexual que tem medo de mostrar esse mesmo protagonista nesse ângulo. 

 

 

Resumindo: é uma aflição que me dá este "The Imitation Game". Um filme indubitavelmente sólido e um bom produto de entretenimento, muito arrumado e apresentável (impecável trabalho a todos os níveis por parte de praticamente toda a gente), prazeiroso e inteligente em vários momentos, mas que me deixa com um ataque de azia quando me lembro o que poderia ter sido esta história e esta personagem nas mãos de alguém mais temerário a escrever e a realizar.  

Parece que foi ontem, mas já passaram dez anos



Gostava de dizer que não, que sou um crítico sério mas tem um enorme blind spot para esta comédia romântica de Richard Curtis, que depois "produziu" aquela terrível espécie de sequela à Hollywood chamada "Valentine's Day" de Garry Marshall (e pior, a sequela disso, "New Year's Eve") que nem consegue limpar os pés do original - que conta com um fantástico elenco (Hugh Grant no auge, Emma Thompson, Bill Nighy e Liam Neeson de volta, Laura Linney, Colin Firth e Alan Rickman sólidos e Keira Knightley, Andrew Lincoln e Chiwetel Ejiofor em ascensão e entre eles a portuguesa Lúcia Moniz e o brasileiro Rodrigo Santoro) e com o selo britânico a credibilizar o que de outro modo é uma narrativa bastante errática, desorganizada e mal desenvolvida. 

Claro que as repetidas sessões televisivas, todos os santos natais, dificultam uma apreciação positiva à película, mas o seu charme, mesmo dez anos depois, permanece intacto. De Colin Firth a arranhar português a Laura Linney a abandonar Rodrigo Santoro na sua cama para socorrer o irmão, de Andrew Lincoln a dizer à Keira Knightley que ela é perfeita a Emma Thompson a esconder a descoberta da traição do marido, com o miúdo a correr pelo meio do aeroporto, "Love  Actually" tem um polvilhado de momentos encantadores que compensam a falta de coesão do resto do filme. É impossível que não haja uma cena do filme que não vos comova. Ou ainda há por aí quem estoicamente não se impressione?

Que memórias guardam do filme?

ANNA KARENINA (2012)



Pouco há a dizer sobre a história de “Anna Karenina” que já não tenha sido dito sobre as inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas. Todo o mundo sabe que o clássico de Tolstoi aborda a sociedade aristrocrática da Rússia do século XIX e a rigidez das suas regras e costumes, contando através da história da bela Anna Karenina, tragicamente condenada a sofrer por amor, como era viver na alta sociedade de então e, bem mais que isso, como era o ambiente político-social da sua Rússia. O que importa frisar, então, nesta adaptação de “Anna Karenina”, é que se trata da terceira colaboração entre Joe Wright e a sua musa, Keira Knightley (que voltam a trabalhar juntos após “Atonement” e “Pride and Prejudice” terem feito de um e outro, respectivamente, importantes figuras do cinema contemporâneo). 


Pragueado por problemas financeiros, “Anna Karenina” obrigou Wright a inventar na concepção da história e fazer algo mais experimental, mais ambicioso, mais arriscado (daí a dividida opinião acerca do filme). Wright propõe que “Anna Karenina” se passe dentro de um teatro – tornando literal a expressão “a vida é um teatro”, em que nós, humanos, somos como um elenco – espectadores da vida dos outros, protagonistas da nossa, muito conscientes de que outros nos olham e nos julgam pelo que fazemos (assim é a sociedade) – tal qual como se fôssemos meras peças de um jogo de xadrez, que nos movemos infindavelmente até que, por fim, a cortina se fecha para nós de vez. Anna Karenina pensa que pode fintar as regras. Pense de novo. As escolhas que fazemos ditam o nosso destino. E assim é para a nossa pobre heroína. 


A produção artística de Sarah Greenwood merece aqui uma ressalva, ao criar múltiplos mundos e a fazer enorme uso do espaço e, sobretudo, do ambiente confinado que lhe é dado, conseguindo conferir ao filme a mesma ilusão de quasi prisão, de clausura, de claustrofobia que Anna Karenina também mostra estar a atravessar (ajudada pelos corsetes bem apertados de Jacqueline Durran). Wright encena esta peça de forma apaixonante, precisa, mas fluída, brincando com este mundo que lhe é oferecido, criando alguns momentos verdadeiramente encantadores, trazendo vivacidade, amor, vitalidade e, finalmente, tragédia a esta peça. A atmosfera que Wright origina com uma simples mudança de cenário é infindável – aquela cena da valsa ainda hoje me assombra. A sagacidade do realizador vê-se também noutra forma de abordagem da história, ao focar-se não só no triângulo entre Anna, Vronsky (um terrível Aaron Johnson) e Karenin (um formidável Jude Law, pena o pouco tempo de ecrã), mas também em mais dois casais, como que a servir de exemplo contrastante para com o que se passa com Anna: o seu infiel irmão Stiva (o brilhante Matthew MacFayden) e sua esposa sofredora Dolly (Kelly MacDonald) e o jovem casal idealista e apaixonado, Levin (Domnhall Gleeson) e Kitty (Alicia Vikander, um achado de 2012). 


Outro elemento digno de nota é Dario Marianelli, também ele de regresso para uma quarta colaboração com Wright. Arriscaria dizer que Wright não faria o filme sem ele – até porque o compositor elaborou toda a música para o filme antes da filmagem, para que Wright pudesse coreografar certas cenas ao som da música. Marianelli, que merecia uma menção aos Óscares pela fantástica música de “Jane Eyre” o ano passado, volta a estar em grande. O mais ténue ranger de cordas desperta mil sentimentos e emparelha na perfeição com a face de Keira Knightley, mais uma vez a encaixar como uma luva num filme de período (a sua especialidade, de “A Dangerous Method” a “The Duchess”), mais uma vez impossível de não admirar. Quando Anna perde o controlo, a fragilidade que Keira exibe desarma o mais sisudo dos seus críticos. Se justiça houvesse, esta interpretação suscitaria mais falatório. 


Colocando de parte os nossos sentimentos acerca do filme, uma coisa, penso eu, fica clara, tanto para quem odeia como para quem apreciou “Anna Karenina”: é a imensidão do génio e intelecto de Joe Wright, que demonstra aqui, ao seu quinto filme, a versatilidade e diversidade do seu arsenal de talentos enquanto realizador. Quando ameaçado com cortes no orçamento, permitir-se a si mesmo criar do nada esta ideia tão absurda e louca quanto potencialmente interessante está ao alcance de muito poucos. Safar-se já era um êxito; fazê-lo da forma como o faz, com aquele que é para mim e até agora, o seu melhor filme, é merecedor de um fortíssimo aplauso.



Nota Final:
B/B+

Informação Adicional:
Realizador: Joe Wright
Argumento: Tom Stoppard
Elenco: Keira Knightley, Matthew MacFayden, Jude Law, Kelly MacDonald, Alicia Vikander, Domnhall Gleeson, Aaron Johnson-Wood, Olivia Williams, Ruth Wilson, Emily Watson
Fotografia: Seamus MacGarvey
Música: Dario Marianelli

Estreia da Semana (27/9)

Estamos finalmente a chegar à melhor época cinematográfica do ano. Depois de um doloroso percurso no deserto (com filmes tão maus que nem mereceram a nossa análise aqui no blogue), voltamos novamente àquela época febril das grandes estreias em catadupa, onde o leitor merece ser informado sobre o que realmente não pode perder.

A nossa escolha para esta semana vai para Seeking a Friend for the End of the World, uma comédia com Steve Carell, Keira KnightleyAdam Brody. Aqui ficam a capa e o trailer: