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DIAL P FOR POPCORN

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Maratona Meryl Streep: OUT OF AFRICA (1985)

Este artigo faz parte da nossa semana temporada especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.



OUT OF AFRICA (Pollack, 1985)


"If I know a song of Africa, [...], does Africa know a song of me?"


Haverá filme dos anos 80 tão emblemático e poderoso como "Out of Africa" de Sidney Pollack? Não me parece. É um drama inteligente, bem pensado e excelentemente executado, é um dos maiores romances épicos de todos os tempos, é um relato fascinante das memórias de Karen Blixen, uma aventureira mulher que se mudou para África para casar e por aí permaneceu, tentando construir uma fortuna. Quando não o conseguiu, abandonou essa terra, nunca mais lá voltando e escreveu as suas histórias autobiográficas sob o pseudónimo Isak Dinesen.


Este era um filme destinado ao sucesso. Primeiro que tudo, pelo seu pano de fundo. África é, só por si, uma terra estonteantemente bela. A sua própria beleza natural é sedutora o suficiente para entiçar qualquer indivíduo. A bela fotografia de David Watkin só vem exacerbar ainda mais esta opinião. Em segundo lugar, pelo seu realizador. Sidney Pollack vinha fazendo trabalho consistentemente celebrado desde os dias de "They Shoot Horses, Don't They". E em terceiro lugar, o elenco, encabeçado por duas das maiores estrelas de Hollywood, não só da época, como de sempre: Meryl Streep e Robert Redford. O seu estatuto de super-estrelas, combinado com uma química ardente que conferiram às suas personagens, fizeram este filme dar o tão requerido salto qualitativo. Em quarto lugar, pela história. Diz-se (que eu não li) que os memoires de Karen Blixen são de uma qualidade imensa, bastante explorados e detalhados e interessantes e apaixonantes de ler. E em último lugar, abordemos a banda sonora. Este filme é engrandecido, em larga parte, à custa da extraordinária banda sonora de John Barry (fica um excerto no fim da crónica; é só clicar no botão "Play" para ouvir).


Por tudo isto, não foi surpresa para ninguém o filme ter vencido sete Óscares de entre as suas onze nomeações e do trio principal de actores, só Redford não ter conseguido ser nomeado. Meryl Streep mais uma vez muito bem (mas não tão sublime como em ocasiões anteriores), comandando o filme do princípio ao fim e garantindo a nossa atenção em todos os momentos e mesmo Redford consegue transmitir um ar selvagem, introspectivo, misterioso que nada tem a ver com a maioria da sua filmografia. No entanto, quem rouba o show, por assim dizer, é Klaus Maria Brandauer. Em qualquer cena que ele aparece, consegue ser o foco da atenção.


O filme parte então da história de Karen Blixen, uma mulher dinamarquesa que em desespero de causa, decide partir para o Quénia, em África e casar com o irmão do seu antigo amante, de quem era grande amiga, que lhe oferece o seu título em troca do seu dinheiro. Lá, ela e o Barão Bron (Brandauer), o marido, decidiram plantar café no sopé do Kilimanjaro. Percebemos por volta desta altura, com as infidelidades do marido e com o largo período de tempo em que ele a abandona, que Bron não é uma boa pessoa, sendo inevitável que estes se separem. A forma como isso sucede, com ele a dar-lhe sífilis e mais tarde numa festa de ano novo em que ele exibe a sua amante em público, é mais curiosa do que eu qualquer coisa que poderia ter pedido.

Mesmo depois desta situação, a Baronesa não desanima nem descansa, pois ela é um poço de força de vontade, firme e focada nos seus objectivos, com imenso amor à terra africana. O abandono de Bron faz com que a Baronesa passe a dar mais valor aos seus criados negros e às populações nativas das redondezas, que a ajudam a tentar salvar as suas plantações de café.

Quem também decide ajudá-la é o caçador forasteiro Denys, com quem a Baronesa trava uma espécie de relação íntima, que nem sei bem se lhe poderíamos chamar de amorosa, uma vez que Denys é demasiado independente para estar preso a uma mulher. Ele é, passe a expressão, um "filho da terra".

No fim, contudo, nada consegue salvar a Baronesa da ruína financeira e do fracasso da plantação de café, sendo esta obrigada a voltar para a Europa e a deixar para trás a África que tanto amou (e Denys nela).


"Out of Africa" não é um filme extraordinário. Daqueles que uma pessoa fica surpreendida de ver, tamanha é a sua qualidade. Todavia, é um bom filme, inteligentemente escrito, bem realizado e orquestrado, com boas interpretações e de um poderio visual e sonoro interessantes. É um retrato curioso da sociedade europeia do tempo da I Guerra Mundial, que decidira imigrar em massa para os países do Leste Africano em busca de melhor sorte. É um relato curioso das primeiras relações entre brancos e negros a viver em comunhão, em igualdade. É um dos romances mais imponentes da história do cinema. É um belíssimo filme para se ver, para ouvir, para se apaixonar, para se deixar levar.
 




NOTA:
 B


Trailer:




Informação Adicional:

Realização: Sidney Pollack
Argumento: Kurt Luedtke
Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer
Fotografia: David Watkin
Banda Sonora: John Barry

Maratona Meryl Streep: SOPHIE'S CHOICE (1982)

Este artigo faz parte da nossa semana temporada especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.


E estamos de volta com a nossa maratona, espero que com o pé a fundo no acelerador até ao final. Depois de pegarmos nos anos 70 da sua filmografia, passamos à década de 80, onde Meryl Streep foi profílica como talvez nenhuma outra estrela de Hollywood. Nesse período de dez anos ela viria a coleccionar seis nomeações para os Óscares, todas na categoria de Actriz Principal e, mais importante que isso, consolidar-se-ia como a melhor actriz que apareceu no mundo desde Bette Davis e Katharine Hepburn. Mas falaremos disso mais em pormenor no artigo que foca todos os títulos. Vamos agora à crítica dos quatro filmes seleccionados desta década. Este é o primeiro:

SOPHIE'S CHOICE (Pakula, 1982)


"Don't make me choose! I can't!"


Há uma cena em "Sophie's Choice", quase a chegar ao fim, em que ela conta finalmente a escolha terrível que tem que fazer. Essa cena surge em analepse no meio de uma diálogo entre Sophie (Meryl Streep) e Stingo (Peter MacNicol) e é precedida e é sucedida pela mesma cara de Sophie. Fria, amoral, sem reacção, como se lhe tivessem tirado a vida. Este é um exemplo claro do extraordinário trabalho da actriz na composição da personagem, pois é a única cena em todo o filme que me lembro em que Sophie não demonstra alegria e satisfação. 


O filme de Alan J. Pakula revolve em torno de três personagens principais: Sophie, uma mulher polaca e Católica que havia sido capturada pelos Nazis e colocada num campo de concentração, onde os Nazis lhe roubaram os seus dois filhos, Nazis estes que depois lhe permitiram miraculosamente imigrar para os Estados Unidos; Nathan (Kevin Kline), um homem Judeu charmoso e cheio de vida mas secretamente problemático e perturbado mentalmente, que acolhe Sophie na sua casa e com quem mantém uma relação no mínimo turbulenta; e Stingo, um adolescente saloio vindo do Sul que chega a Brooklyn com a ambição de se tornar um escritor conhecido. A história desenvolve-se a partir da amizade improvável que se cria entre os três personagens, da tumultuosa relação entre Nathan e Sophie e da crescente admiração que Stingo ganha à vida, aos seus dois melhores amigos e em particular a Sophie. 

 
O filme introduz-nos na vida de um ingénuo e pacato rapaz do Sul que, pouco conhecendo da vida real, trava conhecimento com uma pessoa tão impressionante quanto experienciada como Sophie e como imediatamente fica embeiçado por ela e pelo mundo que ela - e o seu amante Nathan, genial, excêntrico, louco - decidem abraçar, onde não há lugar para tristezas, onde todos os momentos são para serem vividos e onde todas as alegrias devem ser celebradas. Ao mesmo tempo, o filme, narrado por Stingo, vai-nos revelando, através do seu outro narrador contido dentro da história, Sophie, como é que esta pessoa foi tão fulcral no seu crescimento de um adolescente sonhador para um adulto responsável e realista. No decorrer do filme, as aspirações algo idióticas do jovem rapaz são substituídas por longos flashbacks de confissões da vida passada de Sophie, no tempo da II Guerra Mundial  (flashbacks estes que vão surgindo após calorosas discussões entre Nathan e Sophie que invariavelmente culminam com a fuga do primeiro, abandonando-a com Stingo) e vamos percebendo o quão grande é a fachada que Sophie usa para esconder o que de mal fez (e lhe fizeram) no passado.


Ficamos então a conhecer do horror que Sophie viveu, das escolhas terríveis que teve que fazer e de uma em particular que a assombra para o resto da vida e que ela não consegue perdoar a si própria. Não me vou alongar mais nisto porque arruína o prazer de ver o filme a quem não o viu, só dizer que é um filme que progride de forma exemplar para o grande clímax final que nos mostra, sem julgamentos, a outra face de Sophie.

Um filme repleto de boas interpretações, em particular de Meryl Streep, claro está, no papel da sua vida (muitos outros se seguiram, mas este é invariavelmente aquele que toda a gente vai recordar daqui a muitos anos) e que lhe valeu merecidamente o seu segundo Óscar em 1983, acompanhado por uma realização muito capaz e um argumento que é uma fidelíssima adaptação do apaixonante romance com o mesmo nome. "Sophie's Choice" é, no fim de contas, mais do que um relato portentoso da maturidade de um jovem quando face a face com problemáticas adultas e a aquisição de responsabilidades e a destruição do ideal de vida a que aspirava, um retrato apaixonado, subtil, inflamado, absorvente de uma mulher demasiado complexa para tentar ser rotulada levianamente, de uma mulher que já viu tanta maldade, tanta má fé, tanta desonra, tanto ódio, tanta tristeza, tanta tortura e tanta morte que a única forma que ela tem de viver a vida é mesmo na corda bamba, sem apego às coisas, bebendo, de festa em festa, fazendo amor, dia após dia, bloqueando o passado horroroso que a teima em perseguir. De partir o coração.


Nota:
B+

Trailer:



Informação Adicional:

Realização: Alan J. Pakula
Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Peter MacNicol
Argumento: Alan J. Pakula
Fotografia: Nestor Almendros
Banda Sonora: Marvin Hamlisch