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DIAL P FOR POPCORN

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Admirando MARGARET (2011)



Como um fã absoluto do filme de estreia do dramaturgo Kenneth Lonergan, “You Can Count On Me”, podem contar que estava esperançado que a sua obra seguinte, “Margaret”, fosse igualmente excelente. Não me desiludiu. É definitivamente uma pena – e uma vergonha para distribuidores pelos Estados Unidos da América fora – que este filme tenha passado quase despercebido do público, tendo aparecido e saltado fora dos cinemas norte-americanos num piscar de olhos. Não fosse o aviso da Boston Society of Film Critics e este filme tinha-me passado completamente ao lado.


Passo a explicar: o filme passou por infernais problemas de desenvolvimento, com guerras entre distribuidoras, com a distribuidora do filme a falir, com anos e anos a passar até que Lonergan conseguisse juntar dinheiro suficiente para reaver o filme e com a problemática mania de perfeição de Lonergan a meter-se ao barulho também, editando o filme vezes sem conta. Scorsese, amigo pessoal de Lonergan, viu uma versão antecipada do filme - chegou até a trazer Thelma Schoonmaker com ele para ajudar a editar a película - e ficou maravilhado, considerando-o uma obra-prima perfeita. Lonergan não era da mesma opinião e editou. E editou de novo. Tanto editou que o filme falhou o prazo imposto pela editora – que o queria lançar nos festivais o ano passado – e acabou esquecido por todos. Felizmente, conto-me entre os sortudos que viu o filme – e que o admira por tudo aquilo que tenta ser e sentir, mesmo que não suceda na sua plenitude. É um filme de uma beleza sem precedentes, de uma pureza e sentimento ímpares, de um poder difícil de explicar.  “MARGARET” é único.


Com uma interpretação fantástica de Anna Paquin – a sua Lisa é ao mesmo tempo irreverente, destemida, precipitada, instintiva e desesperante, personificando o volátil estado de espírito de alguém que não é já uma jovem, contudo não é ainda também uma mulher. Lisa é filha de pais divorciados, uma mãe actriz com quem não tem grande conexão e um pai que adora, mas que não lhe dá a devida atenção e prefere manter distância. Lisa é, apesar de rebelde, uma jovem inteligente e interessada no mundo que a rodeia, que surpreendentemente se vê de repente a mãos com um evento traumatizante, que desperta na outrora despreocupada adolescente um misto de luto e revolta que a faz pensar para onde caminha a sua vida – e a vida de todos à sua volta, numa Nova Iorque pós-11 de Setembro onde o trágico incidente ainda faz sentir a sua marca. 


O acontecimento – que engloba para além de Lisa um condutor interpretado soberbamente com igual parte confusão e esternecimento por Mark Ruffalo e uma pobre pedestre interpretada por Allison Janney – leva Lisa a embarcar numa jornada para que seja feita justiça, empurrada pela consciência de que o que se sucedeu partiu dela, apesar da culpa não ser propriamente da mesma. O problema é que Lisa nunca consegue encontrar uma resolução satisfatória que a faça sentir melhor com ela própria e por isso assume uma personalidade alternativa proporcional à raiva que sente. O filme é um estudo interessantíssimo de como a nossa consciência individual do mundo em que existimos é o que faz girar o próprio mundo. E é acima de tudo pertinente na medida em que se propõe a analisar o que está de errado no mundo da perspectiva de uma adolescente de 17 anos, marcando bem a diferença entre ser jovem e ser jovial. A inocência de Lisa vai sendo destruída pouco a pouco, à medida que o mundo que Lisa achava que conseguiria subverter à sua vontade e empenho vai sucumbindo aos poucos e poucos. No final, a nossa adolescente, com uma vida confortável e simpática, sem grandes problemas, assume que a sua vida nunca mais vai ser a mesma. Como recuperamos de uma situação destas? “Margaret” é isto. É um filme que dá voltas e voltas a um ritmo incomum (correndo o risco de se tornar até redundante), fortalecendo cada camada de narrativa com mais complexidade e beleza, tentando explicar como às vezes o que sucede na vida de uma pessoa não tem sentido nenhum, mas ainda assim as coisas acontecem e como a mais insignificante das acções pode ter imprevisíveis consequências. 


Trágico e profundo, o argumento de Lonergan pega nas nossas noções de sociedade, de família, de relações, de maturidade, de compaixão, de responsabilidade e transcende-as num filme que é mais peça de arte que um sucesso cinematográfico. Lonergan não pretende fazer cinema. O próprio sabe que este o resultado final deste filme nunca o deixará satisfeito. Porque o que o filme pretende alcançar é muito maior do que uma simples película. É o universo, é a vida, concentrada numa história, numa experiência vulgar como tantas outras. As suas melhores cenas são viscerais, cruas, reais, filosóficas, inesquecíveis. Entre elas encadeiam-se muitos momentos que não funcionam muito bem (alguns deles, nada bem, como um encontro romântico entre Lisa e o seu professor, interpretado por Matt Damon), mas por cada dez cenas dispensáveis, temos uma cena como a discussão entre Lisa e a mãe (a extraordinária J. Smith-Cameron) que fazem o filme parecer tão melhor do que realmente é. O final catártico e eléctrico vende bem o filme. E assim, sem esperarmos, voltamos a apaixonar-nos pelo filme no seu todo. E as falhas perdoam-se. Não é uma obra-prima, mas Lonergan sim, é um mestre.

Nota:
A-/B+ (9/10)

Informação Adicional:
Realização: Kenneth Lonergan
Argumento: Kenneth Lonergan
Elenco: Anna Paquin, Jeannie Berlin, J. Smith-Cameron, Matt Damon, Mark Ruffalo, Matthew Broderick, Jean Reno, Kieran Culkin, Allison Janney, Kenneth Lonergan, Krysten Ritter, Rosemarie DeWitt
Fotografia: Ryszard Lenczewski
Música: Nico Muhly
Ano: 2011 (não comercializado em Portugal)