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DIAL P FOR POPCORN

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Previsões Óscares - Outono: Actores e Actrizes



Já era hora, digam lá, já ganhava vergonha, ainda para mais um blogue que gosta de se armar em guru de cerimónias*! Eis que volto a fazer previsões aos Óscares, quando faltam pouco mais de quatro meses para a cerimónia do próximo ano (a ter lugar dia 24 de Fevereiro). Nesta altura, depois dos festivais de Toronto, Veneza, Telluride e Nova Iorque terem originado alguns candidatos e destruído outros e depois da poeira assentar, é mais fácil organizar na nossa cabeça os verdadeiros candidatos às nomeações e começar a anotar algumas apostas. A corrida começa finalmente a ganhar interesse. Começo pelas quatro categorias de representação e pelas duas principais em particular. 


MELHOR ACTRIZ

PROVÁVEIS 
(por ordem decrescente de probabilidade):

Jennifer Lawrence, "Silver Linings Playbook"
Marion Cotillard, "Rust and Bone"
Helen Mirren, "Hitchcock"
Naomi Watts, "The Impossible"
Meryl Streep, "Hope Springs"

OUTRAS POSSIBILIDADES:
Emmanuelle Riva, "Amour"
Quvenzhané Wallis, "Beasts of the Southern Wild"
Keira Knightley, "Anna Karenina"
Maggie Smith, "Quartet"
Amy Adams, "Trouble with the Curve"


Uma categoria que está muito difícil de ler, para além de Jennifer Lawrence que neste momento parece ter não só assegurada a nomeação, mas também a vitória. Teremos em princípio Marion Cotillard e Emmanuelle Riva a lutar pela vaga estrangeira, sendo que se é verdade que Emmanuelle Riva é tida como espectacular em "Amour", Cotillard recebeu críticas não menos elogiosas por "Rust and Bone", o que significa que ou ambas ficarão de fora, ou (o mais provável) é só uma ter lugar e o meu dinheiro está do lado da actriz Oscarizada que tem uma carreira crescente em Hollywood. Os Óscares gostam mais de voltar a premiar os seus. 


Jennifer Lawrence e Bradley Cooper, "Silver Linings Playbook"

"Hitchcock" é uma incógnita a este ponto mas assumindo que sendo a interpretação de Helen Mirren minimamente boa (como em "The Last Station"), eles a nomeiam, então é seguro dizer que as hipóteses dela por "Hitchcock", em que interpreta Alma Reville, a mulher do realizador mais famoso do planeta, são bastante boas. Da época de festivais começaram a vir ecos da interpretação de Naomi Watts em "The Impossible", a confirmar dentro de algumas semanas. Muitos asseguram que o filme - e Watts - são dignos de muitas nomeações. À falta de maiores certezas, deixo-a cá ficar. Vai ter que ser muito boa para ultrapassar a noção de um filme catástrofe ser nomeado para uma categoria major nos Óscares. Finalmente, apostei em Streep por duas razões: 1) o filme é bastante bom e ela e o Tommy Lee Jones são impecáveis e 2) não há grandes candidatos nesta categoria, o voto vai-se repartir e não será plausível que ela vá ser um dos nomes mais consensuais, até porque acabou de vencer o seu terceiro Óscar à 17ª nomeação? 


Meryl Streep e Tommy Lee Jones, "Hope Springs"

Das minhas outras possibilidades, era em Amy Adams que eu apostava mais mas apesar das boas indicações e críticas, o buzz não está lá. Pode ser que reapareça com os primeiros prémios de críticos. Maggie Smith e Keira Knightley precisam que os seus filmes ganhem mais buzz e que sejam abraçados pelos críticos para terem hipóteses. A outra grande questão da categoria é se Quvenzhané Wallis consegue ser nomeada ou não com a tenra idade de oito anos (ainda para mais depois de ter sido desqualificada pelos SAG). Em teoria penso que sim, razão pela qual que penso que facilmente Watts e Streep podem dar lugar a Riva e Wallis. Na prática... É difícil. É um filme pequeno, com buzz moderado e que dificilmente entrará em grandes nomeações. E depois vai haver gente do contra que há-de vir dizer que ela não representa, que tudo aquilo lhe vem naturalmente. Não sei. Para já, fico assim.


MELHOR ACTOR

PROVÁVEIS:

Daniel Day-Lewis, "Lincoln"
Joaquin Phoenix, "The Master"
John Hawkes, "The Sessions"
Denzel Washington, "Flight"
Hugh Jackman, "Les Misérables"

OUTRAS POSSIBILIDADES:
Anthony Hopkins, "Hitchcock"
Jean Louis Trintignant, "Amour"
Bradley Cooper, "Silver Linings Playbook"
Tom Hanks, "Cloud Atlas"
Tommy Lee Jones, "Hope Springs"

Aqui há menos dúvidas. Day-Lewis, Phoenix (mesmo com a campanha anti-Óscares deste) e Hawkes estão praticamente garantidos entre os nomeados, Denzel Washington vai a caminho e agora a luta é entre os lançamentos a caminho, "Hitchcock" e "Les Misérables". Se algum falhar, há candidatos para ocupar os seus lugares. Vamos por partes. Day-Lewis está seguríssimo, depois das críticas de Nova Iorque virem dar razão aos apostadores. Não será suficiente para uma terceira vitória, talvez, mas é uma nomeação que está garantida. De Phoenix pode-se dizer o mesmo. Aliás, pode-se dizer até que a vitória seria dele se fizesse  campanha. Como não o fez, irá à mesma ser nomeado, graças à sua fenomenal - diz-se - interpretação, mas ganhar... é mais difícil. Hawkes vem numa onda positiva de buzz desde Sundance, tem vindo a perder estofo mas com os primeiros prémios de críticos e as nomeações para Globos, Critics' Choice  e SAG este antigo nomeado ("Winter's Bone", 2010) devem ajudar a que a nomeação não fuja. 


Helen Mirren e Anthony Hopkins, "Hitchcock"

Denzel Washington só não está carimbado também porque a nomeação virá se o filme tiver sucesso na bilheteira (este tipo de dramas, para ganhar nomeações major, precisa de receita de bilheteira significativa, como "The Blind Side" conseguiu para Sandra Bullock) - tem para já a crítica do seu lado (e bem sabemos que a Academia gosta dele). A minha última vaga vai para um de três entre Trintignant (se Riva for nomeada, há boa probabilidade que "Amour" ganhe mais nomeações noutras categorias; uma delas é esta, porque Trintignant é tão bom como Riva e o filme vive do dueto dos dois), Hopkins (no trailer não impressionou; irá a interpretação no seu todo ser bastante melhor? E outra coisa: há quantos anos este Oscarizado actor não se mete num papel a sério?) e Jackman, que foi quem escolhi. "Les Misérables" tem grande potencial para ser o candidato de topo aos Óscares. Jackman é querido pela indústria (e pela Academia, a julgar pelo sucesso a apresentar em 2008), tem provas dadas no cinema e no teatro (ganhou um Tony em 2005) e tem uma excelente voz. Será desta? Relembremos que Tom Hooper conseguiu 3 nomeações para actores pelo seu último filme e que se este filme resultar, mais uma chuva de nomeações irá vir.


Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant, "Amour"

Outras opções bastante populares são Tom Hanks por "Cloud Atlas" (não consigo perceber qual vai ser a reacção geral do público e da Academia a este filme), Bradley Cooper ("Silver Linings Playbook" vai ser um dos grandes candidatos, quantas nomeações por arrasto vai conseguir? Cooper será um dos que à cabeça poderá usufruir e ele é, diz-se, muito bom) e Tommy Lee Jones (possibilidade remota, ainda para mais quando ele tem uma nomeação certa por "Lincoln" para Melhor Actriz Secundário à espreita). Ben Affleck ("Argo") pode também ser possível, se o filme arrastar consigo várias outras nomeações, bem como Jack Black ("Bernie") ou Matt Damon ("Promised Land"), que podem ser empurrados pelos críticos à la Demian Bichir o ano passado (ainda me custa que Michael Shannon tenha perdido essa corrida). E mais uma possibilidade que me lembrei agora: e se "The Master" gerasse dois protagonistas nomeados em vez de um, ao contrário do que a campanha sugere? O filme é supostamente um tête-à-tête entre Phoenix e Philip Seymour Hoffman, logo... Pode acontecer.



Philip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix, "The Master"

STRANGERS ON A TRAIN (1951)


"I have the perfect weapon right here: these two hands."


Penso que já o disse aqui no blogue, mas volto a repeti-lo. Hitchcock está, no cinema, para os thrillers de mistério e suspense, como Agatha Christie estava, dentro do género, para os livros: o tamanho não é sinónimo de qualidade e, em pouco tempo, se consegue contar uma história sempre cativante, sempre surpreendente e sempre imprevisível.


E Strangers on a Train, de 1971, não é diferente de tudo aquilo a que o génio do crime, Sir Alfred Joseph Hitchcock, sempre nos habituou. Original, como eram todos os seus trabalho, desta vez a história começa com dois perfeitos desconhecidos que viajam na mesma carruagem de comboio. Guy Haines (Farley Granger) é um bem sucedido tenista, no princípio de uma promissora carreira, que está apaixonado por Anne Morton (Ruth Roman), filha do importante Senador Morton e cujo casamento se encontra condicionado pelo divórcio de Haines com a sua primeira mulher, Miriam Haines, uma mulher infiel e que recusa a separação para poder usufruir dos luxos da vida de sucesso do marido.


Na mesma carruagem viaja Bruno Antony (Robert Walker), um aristocrata cuja a vida se faz de gastos dispendiosos e luxos pessoais pagos pela fortuna de um pai que o recrimina pelo seu insucesso e o ameaça com internamentos em instituições que corrijam alguns dos distúrbios de personalidade que o parecem afectar. Um desses distúrbios acaba por ser o ponto de partida para mais uma emocionante história de Hitchcock.


Reconhecendo Haines das revistas e dos courts de Tennis, cedo Bruno insiste em almoçar com Haines e passar o resto da viagem em conversa. Durante a refeição surgem diversas perguntas sobre Anne Morton e Miriam Haines, da parte de Bruno, que demonstra conhecer muito bem a vida do seu companheiro de viagem. É então que propõe a Haines um plano que há muito desejava concretizar: a realização de um duplo homicídio, em que Haines eliminaria o pai de Bruno e este, em contra-partida, eliminaria Miriam Haines. Segundo o próprio mentor, tinha tudo para que corresse bem, sem deixar vestígios de possíveis suspeitos, ficando, portanto, ambos a ganhar com a realização do mesmo.


Impressionado, incomodado e até ligeiramente assustado, Haines abandona a carruagem respondendo com tímidos acenos de cabeça que servem para calar as insistências de Bruno, cada vez mais entusiasmado com o seu plano. Dias depois desta viagem, Haines volta a encontrar Bruno em Washington D.C., onde este o informa de que tinha assassinado Miriam e que, por isso mesmo, Haines teria que cumprir a sua parte neste macabro acordo. A partir daqui desenrola-se toda uma história bem ao jeito do mestre que a produz. Tudo o resto, fica para o leitor descobrir por si mesmo.


Nota Final:
B+


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Alfred Hitchcock
Argumento: Whitfield Cook e Patricia Highsmith
Ano: 1951
Duração: 101 minutos

PSYCHO (1960)


Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Esta semana a película em análise é um dos filmes mais reconhecidos universalmente, a fantástica obra-prima de Hitchcock, PSYCHO. Espero que gostem, de qualquer forma e que se juntem à conversação - e que vos incite a ver o filme. AVISO: Pode conter 'spoilers' uma vez que não é bem uma crítica mas uma análise ao filme.




O pormenor que considero mais fascinante em torno de PSYCHO é a minha firme crença de que o seu realizador, Alfred Hitchcock, soube desde sempre que este filme, cinquenta anos após a sua produção, iria estar tão enraizado na cultura popular que nunca mais ninguém iria olhar para filmes de terror, para cenas de chuveiro e para o matricídio da mesma forma. PSYCHO é, na sua mais pura essência, uma experiência aterrorizante, excitante, envolvente, que nunca perde o seu poder e potência seja esta a primeira vez que o vemos ou a décima.

 
Quando vemos a mulher à janela na mansão assustadora e de aspecto  decrépito e misterioso onde vivem os Bates pela primeira vez, não podemos deixar de ponderar na sua possível omnipresença na trama daqui para a frente. A expressão de estranheza, de curiosidade leve e cautelosa (tendo em conta o que sabemos hoje em dia de vultos em janelas sombrias no meio da noite, não seria a nossa expressão facial também parecida?) no rosto de Marion Crane (uma interpretação imensamente detalhada por parte da talentosa Janet Leigh), que havia fugido de Phoenix com 40,000 dólares roubados e que, em direcção a Fairvale para se encontrar com o seu amante Sam, por se encontrar cansada e assustada da viagem, decide pernoitar no Motel Bates, é também ela denunciadora. 

 
Mal sabia Marion que se encontrava a meros minutos de sofrer uma das mortes mais infames da história do cinema; no entanto, parece que ela adivinhava que, depois de todas as tribulações e confusões na viagem (uma das grandes delícias da sua interpretação são as diversas expressões faciais que exibe enquanto é perseguida pela polícia e quando está a abandonar a cidade e o seu patrão a vê de relance, denunciando o seu crime), seria esta a mulher que lhe iria trazer o seu triste fim.


Antes de morta, porém, Marion trava conhecimento com Norman Bates (Anthony Perkins), o responsável pelo motel. Bates é um sujeito invulgar. Tenta fazer passar-se o máximo por uma pessoa normal e quase consegue - isto é, até ao momento que Marion começa a fazer-lhe perguntas pessoais. A psique de Bates é uma coisa fascinante de se observar - a forma despreocupada com que fala do seu dia-a-dia, da sua solidão, da sua paixão pela taxidermia, é trocada de repente por gélidos olhares, fala entredentes, sorrisos nervosos e confusão e incongruência no discurso. Impressionante é ver que Janet Leigh consegue usar esses traços de personalidade de Bates para contar mais acerca da sua própria personagem: as dentadas nervosas que dá na sanduíche, os olhares de soslaio que faz, o contacto íntimo que procura até perceber que falou demasiado... Muito perspicaz.


Eventualmente, como em qualquer filme do senhor Alfred Hitchcock, temos que chegar à parte dos assassinatos. E falando de mortes... Esta é uma daquelas que impressiona. Para azar e infortúnio de Marion Crane, a sua jornada acaba aqui - este é o seu destino - e parece-nos a nós que sempre o fora desde o momento em que ela pôs os pés neste motel. A inocente e ingénua Marion toma despreocupadamente banho de chuveiro quando tudo acontece. O resto, é história. A banda sonora de Herrmann alterna entre a melodia sombria e arrepiante que pauta toda a película para uns sons mais estridentes e assustadores. Um vulto aproxima-se por detrás da cortina, segurando uma faca. Marion grita. Ninguém ouve. Repetidas facadas são vistas (como se sabe, Hitchcock decidiu filmar esta cena sem que uma facada ou jorro de sangue se visse, porque achava que o público da altura não suportava ver grande quantidade de sangue) e o fim prematuro de Marion chegou. Num último movimento, ela puxa a cortina da banheira. Simbolicamente, sangue a jorrar da vítima  é lavado pela água do chuveiro e ambos rodopiam pelo cano abaixo. Um close-up final do olho cintilante, sem vida de Marion é-nos proporcionado.


Quando Bates (ouvimos) descobre a mãe coberta de sangue, corre até à cabana procurando impedir o pior, mas este já está feito - e quando ele a desvenda, não há como não ficar horrorizado pelo cenário atroz e macabro. Atrás de Marion já anda meio mundo e dias depois é a ver de Arbogast (Martin Balsam), um investigador privado, chegar ao Motel Bates. Também ele iria ser surpreendido pela Morte, pouco depois de ter informado Lila Crane (Vera Miles), a irmã, e Sam Loomis (John Garvin), o amante, que ela teria aí sido vista pela última vez. Quando ele não regressa, não havia como Lila e Sam ficarem desconfiados e procurarem fazer justiça pelas próprias mãos.


É nestas cenas de busca dos dois na casa dos Bates que dá para ver melhor aquilo que eu mais gosto nos filmes de Hitchcock - a forma como testa o índice de medo da audiência, a forma ilimitada com que aborda os nossos medos mais primários, mais básicos, mais fundos da nossa alma. O jogo de espelhos que tanto aterroriza Lila numa cena funciona de forma semelhante às várias vezes que Marion, mais cedo na película, olha para o espelho para conferir se alguém a segue, e depois quando o polícia surge em repetidas frames à porta da loja de carros usados.  Este estudo do comportamento e da natureza humana que Hitchcock faz em todos os seus filmes é notável - quem diria que nos podemos assustar tanto com algo tão elementar como a ideia de termos alguém a perseguir-nos quando fazemos algo de errado? E a situação em que Lila se encontra - ela que anda a bisbilhotar uma casa que não é sua, a invadir a privacidade de outrem - e ainda por cima numa casa tão mal iluminada, tão assustadora, tão estranha e peculiar - e que a qualquer momento pode ser apanhada... é perfeitamente natural que se tenha assustado ao ver o seu reflexo no espelho por trás dela, pensando que era outra pessoa. Quem é que nunca experienciou sentimentos semelhantes? Certamente já se passou com todos nós. Todos nós já fizermos algo que sabemos que era errado e tememos ser apanhados por fazê-lo.


Mas o que tema ela em concreto? Desde o primeiro momento que surge no grande ecrã que se torna bastante claro que no fim tudo iria girar em torno de Norman Bates. Anthony Perkins interpreta-o de forma magnífica, transformando o que já era uma personagem complexa no papel numa verdadeira sombra humana. Variando entre a personalidade jovem, enternecedora e divertida de algumas cenas e a tristeza, melancolia, dúvida e mistério que pairam no seu rosto noutras, o seu Norman Bates é claramente alguém que não dá para confiar a sério. A forma como pronuncia algumas falas é brilhante. E é fantástico, como disse acima, vê-lo perder-se totalmente quando se aborda assuntos muito pessoais. Ele escapa para outro mundo. Parece ter a cabeça na lua. Perde-se na coerência do seu discurso. Ri-se nervosamente. Fala entre dentes. E perde completamente as estribeiras e a polidez por alguns momentos.  Apesar de achar que o filme dispensava  as cenas com o psiquiatra, sendo que para mim devia ter terminado logo após a mãe ter sido revelada, esta última cena, frente a frente com o assassino, de olhar frio e cruel, de sorriso ironicamente satisfeito, qual louco envolvido pelo seu próprio delírio, é absolutamente preciosa, como que a lembrar-nos de que nem sempre o demónio está nos sítios mais óbvios. Norman Bates tinha uma alta doce e gentil. É pena que esta estivesse consumida e destruída.

No fim de contas, PSYCHO é um melodrama/thriller de grande qualidade e efeito, recheado de interpretações curiosas e poderosas mas onde o realizador é que é a verdadeira estrela. Desde os close-ups do ponto de vista da personagem (em particular a visão dentro do carro), da forma desconcertante de introduzir ironia nos diálogos mais sérios, da surpreendente lata de fazer as personagens sorrir nas situações mais inapropriadas, da extraordinária direcção artística (pássaros assustadores empalhados, anyone?) e escolhas de casting (todos os actores são aquilo que as suas personagens precisavam - mesmo em termos físicos; não há escolhas ao acaso aqui) e a edição perfeita, PSYCHO é realmente uma obra emblemática, uma sinfonia estrondosa de horror e suspense; numa frase, é tudo aquilo que os grandes filmes esperam ser: um filme para todo o sempre, um  filme que resista ao teste do tempo, um filme que desafie e estimule a audiência e, sobretudo, um filme que tenha o orgulho e prazer de se auto-intitular como um dos melhores já alguma vez feitos.

Nota Final:
A

Informação Adicional:
Realização: Alfred Hitchcock
Elenco: Janet Leigh, John Gavin, Vera Miles, Anthony Perkins
Fotografia: John L. Russell
Banda Sonora: Bernard Herrmann
Duração: 109 minutos
Ano: 1960

Trailer:

"Hit Me With Your Best Shot": PSYCHO (1960)


Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Esta semana a película em análise é um dos filmes mais reconhecidos universalmente, a fantástica obra-prima de Hitchcock, PSYCHO. Uma vez que esta rubrica é feita para um sítio inglês, o artigo tem que ser colocado nas duas línguas. Espero que gostem, de qualquer forma e que se juntem à conversação - e que vos incite a ver o filme. [N.B.: O texto tem 'spoilers']. 




What strikes me as the most fascinating about PSYCHO is how I believe its director Alfred Hitchcock knew that one day, fifty years after its release, that movie would have become such an indelible part of pop culture that no one would ever look at horror films, shower scenes and sons damaged by overbearing mothers the same way again. PSYCHO is, at its core essence, an amazing, thrilling experience, one that never loses its power whether you are watching it for the first time or if you have already watched it too many times for your own good. This, however, creates a huge problem for me: how to select only one image as strikingly iconic enough to represent a whole two hours' worth of pure entertainment - and not going for the shower scene?

 
When we first see this woman by the window, in that creepy-looking manor next to Bates Motel, one can't help but wonder about the possible omnipresence it may have on the story development. The facial expression on Marion Crane (an immensely detailed performance by Janet Leigh), our protagonist, that has fled Phoenix with 40,000 $ she stole from her boss and in her way to Fairvale, to meet her lover Sam, after seeing that image is so curious, judgemental yet ambiguous, unaffected but scared, that I couldn't help but to be drawn to it. Hardly does she know she's only mere minutes away from being murdered in one of the most famous scenes in cinematic history; however, it's as if she knew that the woman she saw would spell trouble for her along the way.


Speaking of murder... This is an impressive one. Misfortunately, Marion Crane meets her fate and ends her journey here. What a way to go. After a creepy, bizarre conversation with the motel owner, Norman Bates (an outstanding Anthony Perkins), Marion unknowingly decides to take a shower. The rest, you already know. Bernard Herrmann's delightfully suspenseful score sets the perfect mood for this untimely end. A shadow holding a knife creeps in. Marion screams loudly and  is repeatedly stabbed. In one last movement, she pulls the shower curtains. Symbolically, blood and water spin down the drain and the camera cuts to a close-up of Marion's unmoving eye. When Bates sees her, he (and we) can't help but to be sickened of the whole gruesome picture.


My favorite shot. After her disappearance has been known, a private detective, Arbogast (Martin Balsam) is hired to discover evidence on her whereabouts. He will eventually end up being murdered at the Bates's, not long after he informs her sister, Lila Crane (Vera Miles) and her lover Sam Loomis (John Garvin) that she stayed in that motel on her way to Fairvale. When they didn't hear from him the next few days, Lila and Sam decide to take matters into their own hands and search for her inside the house. Here lies what I believe to be Hitchcock's greatest skill: he worked with our primal fears and keeps testing them every time. It's amazing what frightening feelings he can pull off a car chase by a policeman (that repeated image of Marion looking into the rear mirror and afterwards of the policeman parked outside the used cars department reads as a pitch-perfect notion of human nature - when we do something bad, we are always glancing over our shoulders, almost anticipating that someone will come and be suspicious and reveal that they had known all along what we have done). This is why I love this shot so much. It plays so obvious that Lila would be terrified to see herself in the mirror, mistaking it for somebody else. In an ominous, creepy house like that and taking into account the purpose and the illegality of her presence there, who wouldn't be scared? It's something we all can relate to. Who hasn't been caught in a situation like that before? Who hasn't been caught sneaking up on something when we know we aren't supposed to?


From the first moment when he appears on screen, it's pretty clear that in the end it would all come down to Norman Bates. Anthony Perkins plays him in excellent fashion, transforming a complex character on paper into a doubtful shadow of a person. He conveys that boyish, "joie de vivre" kind of personality perfectly while still managing to sound mysterious and creepy through his line reading of some pivotal sentences. And it's fantastic to see him let go of his grip when things start to get personal. He evades. He giggles nervously. He loses track of his speech. He is not to be trusted. To Hitchcock's credit, although I feel that he should have ended the movie right after the scene where the mother's identity is revealed, this last scene which ends with the imposition of a skeleton over Norman's face is absolutely brilliant (The psychiatrist's lecture? Not so much), as if to remind us that sometimes the devil is in the unlikeliest of places. Norman Bates had one gentle soul. He just happened to have a broken one.


PSYCHO is an effective, full-blown melodrama, filled with interesting performances but where the director is the true star. From the close-ups from the character's point of view, the unsettling way of creating irony in a serious dialogue, the joyful thrill of having your characters smile in the most innapropriate of settings,  the spot-on art direction (stuffed birds, anyone?), casting choices (every actor is everything, physically, which the character requires them to be) and perfect editing, PSYCHO is truly an emblematic masterpiece, a mindblowing symphony of horror and suspense; in a sentence, it is everything the great movies hope for: a movie for the ages, that stands the test of time, that defies and challenges the audience, a movie that can proudly call itself one of the best ever made.

Nota Final:
A

Informação Adicional:
Realização: Alfred Hitchcock
Elenco: Janet Leigh, John Gavin, Vera Miles, Anthony Perkins
Fotografia: John L. Russell
Banda Sonora: Bernard Herrmann
Duração: 109 minutos
Ano: 1960

Trailer:

Personagens do Cinema - L.B. 'Jeff' Jeffries

"I've seen bickering and family quarrels and mysterious trips at night, and knives and saws and ropes, and now since last evening, not a sign of the wife. How do you explain that?"



Naquele que é o meu filme favorito de Hitchcock, Rear Window, a personagem interpretada por James Stewart (uma das mais importantes estrelas da história do cinema) transformou-se num dos grandes cultos da sétima arte.


L.B. 'Jeff' Jeffries
é um fotógrafo que, devido a uma lesão, se vê forçado a ficar em casa preso a uma cadeira de rodas. Para ocupar os seus dias decide aproveitar para observar os seus vizinhos: os seus hábitos, as suas rotinas, os seus passatempos, os seus gostos.


Com o desenrolar do filme, L.B. 'Jeff' Jeffries percebe que algo d e errado se está a passar no seu bairro. Algo de grave poderá acontecer e o único a aperceber-se disso é ele, preso a uma cadeira de rodas, fechado no seu apartamento, impotente perante tudo.


A forma como Hitchcock cria um conjunto de acasos e acontecimentos, os trabalha, associa e mistura de forma a criar um complexo crime que é resolvido graças à mestria de uma personagem que reflecte não só as grandiosas qualidades do grande criador que foi Hitchcock mas também as do grande interprete James Stewart, são uma prova cabal da importância que Rear Window e L.B. 'Jeff' Jeffries tiveram para a história do cinema.

Grandes Posters: the Hitchcock edition


Há muito tempo que não pegava na nossa rubrica de Posters e fazia uma edição baseada nas principais obras de um realizador. Depois de analisar Malick e Cameron, exemplos claros de realizadores com filmes brilhantes que conseguem sucesso mesmo com fraco merchandising, vamos pegar num expoente claro do contrário: excelentes peças de arte que atiçam ainda mais a nossa atenção para os filmes em questão.

Dos muitos filmes da vasta filmografia de Alfred Hitchcock, resolvi ressalvar estes. Alguns antiquados, é certo, mas há que perceber que para os anos 40 e 50 estes posters estavam já muito à frente do que se fazia na época. Há por aqui um ou outro poster que é na verdade de uma edição comemorativa, portanto bem mais recente, mas na maioria o que dá para perceber é que as imagens que Hitchcock usava nos posters dele são todas muito inventivas, muito curiosas, apelando à nossa atenção, normalmente focando-se em expressões faciais ou gestuais das personagens. Senão vejamos:


The Lady Vanishes (1938) / Rebecca (1940)

  
Shadow of a Doubt (1943) / Notorious (1946)


Rope (1948) / Strangers on a Train (1953) 



Dial M For Murder (1954) / Rear Window (1954)


To Catch a Thief (1955) / The Man Who Knew Too Much (1956)


Vertigo (1958) / North By Northwest (1959)


Psycho (1960) / The Birds (1963) 



Além de vários posters que aprecio, outra coisa fica-me bem clara. Haverá outro realizador com uma filmografia tão rica? E vocês, que pensam? 

Personagens do Cinema - Melanie Daniels


Começo por vos pedir desculpa pela nossa ausência. Os exames da faculdade têm-nos comido o tempo e a paciência e o blog acaba por ficar prejudicado com tanto trabalho acumulado.

Recupero hoje, com prazer, a minha crónica das Personagens do Cinema. E hoje vou falar-vos de uma personagem marcante de um filme igualmente marcante. Recordo-me de estar ainda no décimo ano, com quinze anos, quando o meu professor de Inglês (a pessoa a quem devo o início da minha paixão da séptima arte) perguntou à turma quem já tinha visto um filme do Hitchcock. Após um silêncio geral, a expressão "Mas o que é que voces andam a fazer neste mundo?" ficou-me para sempre na memória e foi graças a ela que, poucos dias depois, peguei neste lendário "The Birds".


Um terror paranóico baseado numa idea peculiar: Terão os Pássaros a capacidade de nos aterrorizar? Até ver The Birds, não acreditava nisso. Mas após Hitchcock, cuja magia e talento estão demonstrados nas dezenas de filmes e séries que fez, criar The Birds todos aqueles que o vêem, ficam tocados. Uns mais do que outros, acabam por ficar sensibilizados e impressionados perante o terror e frieza das cenas em que as dezenas de pássaros atacam como um gang organizado que destroi tudo aquilo em que toca.


Mas passemos à nossa personagem desta semana: Melanie Daniels (Tippi Hedren) é uma bonita jovem de Los Angels habituada ao sucesso e às grandes montras. Uma mulher citadina, moderna, à frente no seu tempo, desejada e amada por muitos homens, acaba por encontrar na indiferença e irreverência de Mitch Brenner um inesperado interesse que a leva, por gentileza, a guia-lo até Bodega Bay, onde Mitch vive com a mãe e a irmã.

Após a sua chegada, começa uma estranha migração de pássaros que, aos poucos e poucos começam a causar sérios estragos na povoação. O terror instala-se quando o vizinho de Mitch aparece morto e Melanie Daniels se começa a aperceber que ela é o alvo dos pássaros.


Um filme intrigante, intenso e inesperado. The Birds é aquilo a que chamamos um filme à Hitchcock. Embora não seja dos seus melhores filmes, tornou-se memorável graças ao papel de Tippi Hedren e à vida que Hitchcock deu aos "seus" pássaros.