Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

Falemos da Pixar (uma vez mais)


Amanhã vou ver "Monsters University". Um frio peculiar sobe-me à espinha sempre que penso nisso - já assim foi com "Brave" - porque a Pixar já não é tão infalível como outrora. O que será que vou encontrar? As críticas já vão dando um indício - um bom filme, todas o dizem, não dos melhores da Pixar mas dos mais entretidos. Já o antecessor, "Monsters, Inc." o fora. E definitivamente muito melhor que "Cars" ou "Cars 2", o que chega para me deixar descansado. Veremos no que dá.

Entretanto, lembrei-me de desenterrar, agora que estão volvidos três anos (!) desde a estreia de "Toy Story 3" e, antes de acrescentar a nota de "Monsters University" (em 2010 decidi acrescentar "Toy Story 3" à lista; talvez não o devesse ter feito, porque acho que a visualização mais recente influenciou algumas posições na lista), aproveito para rever as escolhas de então e actualizar a lista com "Brave" e "Cars 2".

Em 2010, o melhor filme da Pixar para mim era "Wall-E", seguido pelo então acabadinho de estrear "Toy Story 3" (que infamemente foi batido por "How To Train Your Dragon" para melhor filme animado desse ano cá nos DAFA) e por "Finding Nemo" e "Ratatouille". "Up", para muitos o melhor filme da Pixar, era o meu quinto favorito, com "Monsters, Inc" logo atrás. Na cauda vinham os óbvios "Cars" e "A Bug's Life", largamente considerados dos piores do estúdio, acompanhados um pouco acima por "Toy Story 2" e "The Incredibles". 

Em 2013...


#13 CARS 2 (Lasseter, 2011) [em 2010: -]
#12 CARS (Lasseter, 2006) [11]

Sem sombra de dúvida os únicos filmes da Pixar sobre os quais só tenho quase coisas negativas a dizer. Por sinal, a sua franchise mais lucrativa (boys will be boys e gostarão sempre de carros). A sequela, por sinal, inspira em mim cada sentimento mais odioso...

#11 A BUG'S LIFE (Lasseter e Stanton, 1998) [10]

Mediocridade. Um bom avanço tecnológico para a altura e o primeiro filme Pixar a criar um microcosmos. Pouco mais que isso. 

#10 TOY STORY 2 (Lasseter, Unkrich e Brannon, 1999) [9]

Merecia mais, mas é da trilogia aquele que menos aprecio. Uma pena, porque para muitos é o favorito. Talvez deva tentar uma nova visualização, afinal já não o vejo há uns bons anos. De qualquer forma, para mim 1999 em animação resume-se a "The Iron Giant". Um dos grandes filmes animados de sempre. De sempre.


#9 BRAVE (Chapman e Andrews, 2012) [-]

Não percebo o ódio. É por a Pixar tentar um conto de fadas, uma especialidade mais adequada à casa mãe Disney? É por ser uma rapariga? É porque decidem passar um filme todo com duas personagens, duas mulheres, se bem que uma delas é um urso? Não entendo. Talvez o Pixar com o melhor e mais complexo protagonista.

#8 UP (Docter, 2009) [5]

E pensar que já achei este o melhor filme da Pixar... Mentira, nunca achei O melhor. Mas sempre esteve nos meus mais cotados. O problema é que retira-se a sequência de "Married Life" que serve de prelúdio à narrativa e o que temos? Um filme muito oco, desengonçado e que não sabe que mais fazer quando a história mais importante do filme foi contada nos primeiros dez minutos. De qualquer forma, muito mérito para o primeiro filme da Pixar a introduzir um protagonista de certa idade. Um risco curioso.

#7 TOY STORY (Lasseter, 1995) [7]

O primeiro. O que abriu a porta à revolução. O filme que mudou a face da animação. Merecia estar mais alto, possivelmente merecia até o primeiro lugar, mas o meu apego é maior aos seis "clientes" acima.


#6 THE INCREDIBLES (Bird, 2004) [8]

Fazer um filme de superherói melhor do que qualquer um que se consiga produzir com actores reais? Podem apostar. E o único Pixar do qual eu gostava de ver uma sequela. O Brad Bird é um enorme cineasta. Edna Mole anyone?

#5 TOY STORY 3 (Unkrich, 2010) [2]

O filme que fecha a trilogia com chave de ouro (uma tristeza que tenham logo ressuscitado as personagens para uma curta; nem um ano durou a retirada!). Era impossível pedir algo mais perfeito.

#4 MONSTERS, INC. (Docter, Unkrich e Silverman, 2001) [6]

Não estaria tão alto não fosse ter apanhado uma transmissão televisiva há pouco tempo. Por acaso fiquei a ver. Não me lembrava de gostar tanto do filme, dos seus temas, da sua simplicidade, da sua ternura e felicidade. É um feito gigante de entretenimento, uma criação muito original e um mundo tão incrível, peculiar e fascinante que nos apresenta. Não tem a perfeição de "Toy Story 3" ou a imensidão de "Finding Nemo" mas é dos mais completos da Pixar.


#3 FINDING NEMO (Stanton, 2003) [3]

Antes de John Carter, eu achava impossível que Stanton fizesse um filme que não fosse impressionante. Errei. Ele também. Somos humanos. Mas as suas duas criações em singular para a Pixar são espantosas obras-primas tanto em escala, como em ambição, como em conteúdo. Vão tão além do que um filme animado se propõe a fazer que é um milagre que por duas vezes a Pixar lhe tenha confiado rédeas para fazer o que ele quis. Da primeira vez, saiu isto.


#2 RATATOUILLE (Bird, 2007) [4]

Bird, outra vez. O melhor Pixar. A todos os níveis. Combina tudo aquilo que a Pixar faz de melhor com o que o cinema de Bird tem de melhor. Extremamente original e divertido e refrescante sem forçar a piada fácil. Não é a minha escolha pessoal para melhor de sempre mas se a razão mandasse mais que o coração, este seria o topo da lista...


#1 WALL-E (Stanton, 2008) [1]

... Todavia estas listas são pessoais e o meu cunho pessoal tinha que se revelar nesta primeira escolha. "Define Dancing". "Wall-E" tem uma segunda parte muito pior que o seu primeiro acto, quase imaculado, é verdade. Não é imune a críticas - a maioria delas eu até as percebo. Mas aos detractores só tenho a perguntar: vocês estão a ver bem ao que é que Stanton e C.ª se propôs, os temas maiores que o filme cobre, o desafio que é para ele - e a Pixar - ter como protagonista (e principal atractivo para o seu público-alvo) um robô que não fala? Lightning in a bottle. A Pixar agora pode fazer as sequelas todas que quiser. Treze anos depois de "Toy Story", atingiu o seu pico criativo (pelo menos para já). Quando dentro de cinquenta anos se fizer uma retrospectiva do melhor cinema de animação de sempre, este (e "Ratatouille" e obviamente "Toy Story", penso eu) serão os três filmes da Pixar mais relembrados.

Os melhores argumentos de sempre, segundo a WGA



Na semana passada, na ressaca das cerimónias de prémios e passando relativamente despercebida, surgiu a lista actualizada para 2013 dos 101 Melhores Argumentos de Sempre para o Writers' Guild of America (WGA). Recheada de filmes clássicos e escolhas que, na sua maioria, nem merecem sequer discussão quanto à sua inclusão, aqui e ali revela algumas surpresas e algumas opções de nível bastante duvidoso.


"Casablanca", "The Godfather", "Chinatown", "Citizen Kane" e "All About Eve" encabeçam a lista, o que me parece bem, se bem que não seria a ordem pela qual os escolheria. Em #6 vem Woody Allen (considero que "Manhattan" (#54), por exemplo, ou "Hannah and Her Sisters" (#94) são melhores argumentos mas é difícil negar que "Annie Hall" é francamente estupendo também - e é, afinal, o seu Óscar de Melhor Filme). 


Billy Wilder consegue a óbvia distinção de ser a pessoa com mais presenças no topo da lista, com "Sunset Boulevard" (#7) e "Some Like it Hot" (#9) entre os dez primeiros (algo que só Coppola iguala, com os seus dois "The Godfather" - como sempre, é para esquecer que o terceiro existiu - nos primeiros dez lugares).  Porém, custa-me não ver o seu "The Apartment" melhor colocado (#15) - e mesmo "Double Indemnity" (#26). É para mim a comédia mais bem escrita de sempre, ao lado de "It Happened One Night" (#59; também merecia mais). De qualquer forma, é caso para dizer: demasiada coisa boa.

Entre outras boas surpresas, ressalvo a altíssima colocação de Quentin Tarantino (#16, "Pulp Fiction") e dos irmãos Coen (#32 e pelo filme certo, "Fargo") e a inclusão de "Tootsie" (#17), "E.T." (#67), "Shakespeare in Love" (#28), "Groundhog Day"  (#27), "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" (#24), "Moonstruck" (#62), "Jaws" (#63), "Back to the Future" (#56) e "When Harry Met Sally" (#40) que não são filmes que uma pessoa pensaria à partida incluir entre estes clássicos. 


De aplaudir também não se terem esquecido - pese a carreira posterior dos seus argumentistas - de McQuarrie (#35, "The Usual Suspects"), Darabont (#22, "Shawshank Redemption"), Ball (#38, "American Beauty"), Shyamalan (#50; apesar de todos os meus problemas com ele, "The Sixth Sense" continua a ser excelente), Crowe (#66, "Jerry Maguire") e Hanson (#60, "LA Confidential"), entre outros.

M. Night Shyamalan elogiado no DPFP? Não posso!

Entre as desilusões, não percebo que fazem "Rocky" (#78), Forrest Gump" (#89) e "Amadeus" (#73) na lista e em particular gostava que me elucidassem alguns critérios, para que me expliquem como por exemplo "Tootsie" - que eu gosto bastante, não é por aí - ou "American Beauty" ou "Jerry Maguire", só para dar alguns exemplos mencionados acima conseguiram melhor colocação que estes dez filmes: "Psycho" (#92), "Being John Malkovich" (#74), "Dog Day Afternoon" (#69), Adaptation" (#77), "Do the Right Thing" (#93), "Memento (#100), "Raging Bull" (#76), "Sideways" (#90), "8 1/2" (#87) e "La Grande Illusion" (#85).

Fico feliz por terem sequer merecido menção ("Vertigo" por exemplo nem essa sorte teve; aliás, os filmes de Hitchcock, uma vez mais, acabaram quase ignorados) ou irritado pelo desrespeito que é serem considerados todos piores que "Tootsie"? Bem, opto por ficar feliz, não por isto, mas porque, ao menos, Paul Haggis ("Crash" e "Million Dollar Baby") não aparece na lista. Ponto a favor: WGA. 

Belle du Jour, Belle Toujours!


São raras as actrizes que se conseguem transcender num grande papel, quanto mais em vários. Ainda mais raras são as actrizes estrangeiras que têm essa possibilidade. E, se tivermos em conta que até aos dias de Marion Cotillard e Juliette Binoche, foi esta a única actriz francesa a penetrar nas listas sagradas de casting de Hollywood e que isto tudo se deu logo após a Idade de Ouro do cinema norte-americano, nos anos 50 e 60, ainda mais impressionante se torna.
Que esta actriz tenha conseguido o feito de se reinventar mil vezes, de se perder em milhares de papéis, pequenos ou grandes, para maiores e menores mestres, de Honoré a Buñuel, de Polanski a Demy, de Téchiné a von Trier, de consistentemente trabalhar na plenitude dos seus talentos e capacidades e mantendo intocável a beleza marcante que a imortalizou é uma prova do gigantesco brilho, carisma e talento da aniversariante Catherine Deneuve, que comemora - notem bem - 68 anos de idade!


Tenho que admitir desde logo que não sou um completista da filmografia de Deneuve, embora gostasse muito de o ser. Do que vi, não há um filme em que o misticismo, a aura de mistério, a beleza fulgurante, o sorriso que emana simpatia e calor, não estejam presentes. As minhas interpretações favoritas dela são em "Repulsion" de Roman Polanski, em "Les Parapluies de Cherbourg" de Jacques Demy, em "Dancer in the Dark" de Lars von Trier, "Ma Saison Préférée" de André Téchiné, "Un Conte de Nöel" de Arnaud Desplechin e finalmente - e obviamente - na obra-prima de Luis Buñuel, "Belle de Jour".


 A inesquecível interpretação dela em "Belle de Jour", em particular, funciona como um ensaio de condensação das qualidades de representação de Deneuve. Hipnótica, sensual, electrizante, misteriosa, enigmática, uma verdadeira mulher de sonho, a lembrar Jane Fonda em "Klute", Nicole Kidman em "Eyes Wide Shut" ou Anne Bancroft em "The Graduate", Catherine Deneuve entrega-nos uma performance inspirada, algo que dela ainda não tínhamos visto. Brilhante.

Portanto... Parabéns Catherine Deneuve! Que celebre muitos! E que continue sempre a surpreender-me, como fez o ano passado em "Potiche" de François Ozon. Que interpretação.


E vocês, qual consideram ser a melhor interpretação de sempre da enorme Catherine Deneuve?

A STREETCAR NAMED DESIRE (1951)


Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Esta semana dedicamo-nos a A STREETCAR NAMED DESIRE, a obra-prima de Elia Kazan baseada na peça imortal de Tennessee Williams, cujo centenário do seu nascimento nos encontramos a celebrar esta semana. Uma vez que esta rubrica é feita para um sítio inglês, o artigo tem que ser colocado nas duas línguas. Espero que gostem, de qualquer forma. [N.B.: O texto tem 'spoilers'].



Há tanta coisa que gosto no A STREETCAR NAMED DESIRE (invariavelmente, a obra-prima de Tennessee Williams e um dos melhores filmes do enorme Elia Kazan) que torna tão difícil resumi-lo em meras poucas palavras. É seguramente um dos maiores dramas de sempre. É um dos maiores exemplos de um trabalho de elenco de qualidade da História. É uma peça indissociável do clima cinematográfico dos anos 50, considerado demasiado risqué, controverso, inconveniente, provocante, mas que parece bastante sedado em relação aos tempos de hoje. Nele está presente um confronto interessantíssimo entre dois dos maiores intérpretes que o grande ecrã alguma vez já viu: o defensor do 'method acting', Marlon Brando, num dos seus primeiros papéis de relevo; e a rainha da Velha Hollywood e lenda cinematográfica, Vivien Leigh, que já nos tinha oferecido uma das maiores personagens da História do cinema (estou a falar, claro, de Scarlett O'Hara). Ambos conseguem magníficas interpretações que iriam conduzir, eventualmente, a nomeações para os Óscares da Academia para os dois (aliás, os quatro actores principais da trama viriam a ser nomeados, resultando em três vitórias; só Brando perdeu).


A STREETCAR NAMED DESIRE conta a história de Blanche DuBois, uma dama do Sul  que decide visitar a sua irmã Stella, que vive em Nova Orleães com o seu marido, Stanley Kowalski, um homem rude, animalesco, bruto e mal-educado. Durante a sua estadia na casa da irmã, Blanche é testemunha do forte abuso que a sua irmã tem de aturar por parte do marido, sem esboçar esta qualquer reacção (ela ama-o perdidamente, o que poderá explicar parte desta passividade) - abuso este do qual ela mais tarde virá a ser vítima. O abuso e a tortura que Stanley impõe sobre a doce e sonhadora Blanche destrói o pouco de sanidade que esta ainda possui, levando a que ela seja institucionalizada.


Tennessee Williams tem um dom para escrever para mulher. Consegue ver para lá do óbvio e mostra-nos a sua vulnerabilidade, o seu sofrimento, o seu orgulho, de forma crua e honesta, real.  Blanche DuBois é uma mulher fracassada. Decadente e desavergonhada, como os habitantes de Auriol, a terra onde vivia, fazem questão de a descrever. Narcisista, histérica, pomposa e artificial, Blanche é uma criação mítica que muitas actrizes matariam para interpretar. Que Vivien Leigh tenha sido tão bem sucedida no papel (ainda para mais porque era a única dos quatro principais que não tinha ligação com o espectáculo na Broadway, tendo substituído Jessica Tandy na transformação da peça em filme) diz muito da sua verdadeira qualidade como actriz. Vivien incorpora a sua Blanche de tanta falsa felicidade (as cenas com Mitch (Karl Malden) são uma delícia, tal é  o desvario da sua cabeça), de tanta necessidade e urgência e desejo, balanceando-o com o graciosidade, charme e delicadeza, enquanto nos proporciona uma visão priveligiada da sua dor, da sua psique, que é fenomenal observar a sua abordagem muito única às suas personagens. A peça está desenhada para nos fazer sentir pena dela e da sua irmã; contudo, Leigh imprime sentimentos e emoções e reacções em Blanche que nunca nos permite identificar e simpatizar com a sua história, dando-nos oportunidade para perceber o porquê de tanta implicância de Stanley. Imensamente irritante numas cenas, enternecedora noutras, assim é  Blanche DuBois. Uma criação incompleta - talvez para sempre assim. Uma grande interpretação, de qualquer forma. 


Marlon Brando é também brilhante. Stanley Kowalski é um homem atroz, sem dúvida. Ele bate na mulher, ele berra e discute, ele parte e atira coisas pelo ar, ele mete-se em confusões e lutas só porque lhe apetece e ainda por cima decide que é sua missão torturar mental e fisicamente a sua cunhada. A sua personagem é tão vil, tão violenta e real, tão complicada de ler que se torna impressonante imaginar de que forma vai reagir da próxima vez. A cena em que ele é abandonado na sua casa, no escuro, bêbedo e a chorar por ter batido à sua mulher e os gritos de "Stella!" que se seguem, é de arrancar o coração. Algo que nem devia ser posto em questão (afinal, ele acabara de bater à mulher!), Brando consegue fazer-nos sentir pena e compaixão pela personagem. Um desempenho fantástico.


Curiosamente, o elemento surpresa da história e sem dúvida a figura mais interessante do filme é a terceira parte deste triângulo: Stella (Kim Hunter). Impossível de desvendar o que pensa, o que sente. Por que razão está ainda com Stanley, quando toda a gente no seu bairro conhece como ele é? Como é que ela aguenta com tanta parvoíce que a sua irmã profere? Hunter torna Stella uma mulher enigmática, emotiva, reactiva, a sua face iluminando-se nalguns momentos cruciais na película. Comporta-se ingenuamente a maior parte do tempo, todavia de repente exibe uma espécie de despreocupação, temeridade, non-chalance, uma capacidade de abstracção que me fascina na personagem.  No início é-nos óbvio que quando Stella, depois de espancada, abandona a sua casa, que ela voltará. Ela deseja Stanley ardentemente e por ele faz tudo. É chocante apercebermo-nos que ela não o teme; ela até o compreende. Tudo isto torna a cena final, em que Stella volta a abandonar o seu domicílio depois do internamento da irmã, desta vez "de uma vez por todas", segundo ela, tanto ou mais imperiosa - será mesmo de vez?


E agora a minha escolha para melhor imagem. A que representa, para mim, o melhor que este triângulo de relações nos oferece no filme. Blanche torturada por Stanley. Stanley, bruto, sem noção de como é. Stella agindo como mediadora, nunca escolhendo lados neste feudo. E Blanche procurando segurança numa irmã que não sabe em quem confiar mais.




Nota Final:
A

Informação Adicional:
Realização: Elia Kazan
Argumento: Tennessee Williams
Elenco: Vivien Leigh, Kim Hunter, Marlon Brando, Karl Malden
Ano: 1951



"Hit Me With Your Best Shot": A STREETCAR NAMED DESIRE (1951)


Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Esta semana dedicamo-nos a A STREETCAR NAMED DESIRE, a obra-prima de Elia Kazan baseada na peça imortal de Tennessee Williams, cujo centenário do seu nascimento nos encontramos a celebrar esta semana. Uma vez que esta rubrica é feita para um sítio inglês, o artigo tem que ser colocado nas duas línguas. Espero que gostem, de qualquer forma. [N.B.: O texto tem 'spoilers'].



There is so much I love about A STREETCAR NAMED DESIRE that it makes it so hard to resume it to a mere few words. It's one of the greatest dramas ever. It's one of the greatest ensemble pieces of all time. It's an indelible cultural landmark of the 1950s, deemed too daring and unconventional for the time but looking far too restrained when watching it at present. It features a clash between two of the most amazing screen performers the cinema has ever seen: the Method acting enthusiast Marlon Brando, in one of his first outstanding film roles; and Old Hollywood queen and legend Vivien Leigh, which had already given us one of the most fascinating characters of movie history (I'm talking about Scarlett O'Hara, of course). Both turn in fabulous turns which would eventually lead to Academy Award nominations to both (actually, all four main actors were nominated, resulting in three wins; only Brando lost).


A STREETCAR NAMED DESIRE tells the story of Blanche DuBois, an aging southern belle who apparently arrives at New Orleans to visit her sister Stella, who is married to Stanley Kowalski, a rude, impolite, brutal man. During her stay at her sister's house, Blanche witnesses the abuse her sister puts up - which later she will also become a victim of - without a reaction from her part. Stella is clearly madly in love with him, or else she'd do something. Stanley goes on to torture poor Blanche to a state of unbearable madness, to a point where her only solution is to be institutionalized.


Tennessee Williams had a way with words for women. He manages to see through their façade and show us their raw vulnerability, suffering and pride. Blanche DuBois is a very flawed woman. Decadent and shameful, according to the people of Auriol. Narcissistic, hysteric, pompous and artificial, Blanche is one mighty creation for any actress to dare play the role. That Vivien Leigh could imprint so much faux glee (especially in her date with Stanley's friend Mitch (Karl Malden), who seemed to bring some fresh air into her life), so much neediness and urge and lust and balance it with charm, delicacy and grace while providing us a fine way to her pathos, to her pain is a true testament to her unique approach to characters. The play is set out to make us feel sorry for her and her sister; yet, Leigh manages to convey feelings in Blanche that never allow us to identify ourselves and sympathize too much to her story, allowing us to see why Stanley (Brando) had such huge issues with her. She annoyed the hell out of me in some scenes - and in others she was endearing. A great performance by all means.


Marlon Brando is also firing in all cilinders. Stanley Kowalski is an atrocious man, that is for sure. He spanks his wife, he screams and yells, he smashes things, he gets into fights with his friends and he mentally and physically tortures his sister-in-law. His character is so real, so violent, so difficult to read that is makes it so delicious to wonder how he'll react next. The scene where he is left alone at his house, drunk, crying after spanking his wife, is heartwrenching. He makes us feel for the character in a situation where that shouldn't even be considered possible; after all, he had just spanked his wife.


Interestingly, the surprising element of this story is the third party of the triangle: Kim Hunter's Stella. She's so hard to figure out. Why she's still with Stanley, when everyone in her neighbourhood knows how he is? How does she put up with so much nonsense from her sister? Hunter makes Stella enigmatic, emotive, reactive, her face illuminating in several frames. She behaves naively most of the time but there's a sort of absent-mindedness, perilessness in the character that fascinates me. It's obvious in the beginning, when Stella leaves her house once again, that she will probably return; she lusts for Stanley and can't seem to live without him, no matter how abusive he is. She doesn't fear him; she even understands him. All this only makes the final scene more intense - when she finally realizes what he has done to her sister and leaves - will it be for good?


My choice for best shot. I think it perfectly captures the nature and three-way dimension of this triangle of relationships. Stanley abusing Blanche. Blanche leaning on Stella. Stella trying to be a moderator between this feud, opting to never choose sides.



[amanhã colocarei o mesmo artigo mas em português]


Nota Final:
A

Informação Adicional:
Realização: Elia Kazan
Argumento: Tennessee Williams
Elenco: Vivien Leigh, Kim Hunter, Marlon Brando, Karl Malden
Ano: 1951



Personagens do Cinema - Holly Golightly


Hoje decidi aventurar-me a pegar na rubrica que é habitualmente do João. E escolhi esta para começar (e até para balançar a forte presença masculina nas Personagens do Cinema que já abordámos), ela que é uma das personagens mais icónicas da história do próprio cinema.


Estamos em 1961. Introduzam na história uma das grandes actrizes de todos os tempos, em particular naquela época, em que definitivamente Audrey Hepburn era a mulher mais querida em Hollywood (sentimento que se mantém até hoje, com qualquer actriz mais jovem com uma carreira promissora a ser comparada a ela - as últimas duas: as britânicas Knightley e Mulligan, ambas curiosamente estiveram na luta pelo papel principal no remake de "My Fair Lady", um dos grandes papéis de Hepburn). Vencedora de um Óscar em 1954, juntou a essa nomeação mais duas antes de chegar aquele que é, indubitavelmente, o seu maior papel de sempre, o papel que a imortalizou: o de Holly Golightly.


Holly Golightly é uma mulher frágil, solitária e insegura que esconde essa sua fachada com os seus intermináveis serões e festas, com a sua atitude de espírito livre, sofisticada, moral, engraçada, divertida e charmosa, tentando agarrar o prazer fugaz que a vida traz e a que realidade não lhe traz. Audrey Hepburn empresta uma frescura e originalidade a esta personagem a que é impossível ficar indiferente. 


As suas reacções extemporâneas, o seu carácter romântico e sonhador tornam-se curiosos demais para o seu novo vizinho Paul, que acabou de se mudar para o prédio ao lado, resistir. Holly apresenta a Paul o que de facto compõe a sua vida e se bem que tudo isso é muito fascinante, torna-se ainda mais saboroso ver a  ternura, a vulnerabilidade, a simplicidade real de Holly quando está sozinha em casa, quando não está a saltar de festa em festa, em compras e gestos excessivos e chegar à conclusão que tudo aquilo com que ela se diz identificar, tudo aquilo que ela julga ser a sua vida, é uma farsa, uma falsidade. 


É, no fim de contas, a relação com Paul e a paixão que sente por ele que levam a estonteante Holly Golightly a parar para pensar e a avaliar-se a si própria realisticamente, percebendo que a vida que levava não é a vida que ela quer.


Uma personagem fascinante, uma interpretação genial, um papel que fica marcado na história. "Breakfast at Tiffany's" é Audrey Hepburn. Bem, Audrey Hepburn e "Moon River". Mas essencialmente Audrey Hepburn. E foi inesperadamente com este filme que eu fiquei embevecido por ela.

CABARET (1972)

 

«Leave your troubles outside.
So life is disappointing, forget it!
In here life is beautiful.»
 

A citação acima pertence à música introdutória de "Cabaret", o filme mais famoso do realizador-coreógrafo Bob Fosse. É através dessa música, "Willkommen", brilhantemente escrita e composta por Ebb e Kander que o Mestre de Cerimónias do clube nocturno Kit Kat Klub (interpretado magnificamente por Joel Grey) nos dá as boas-vindas ao mundo do Cabaret.

Este musical tão fora do habitual é um deleite de ir desvendando, apresentando-nos tanto detalhe, tanta cor, tanta imaginação, tanta alma, que é impossível não nos contagiarmos e nos deixarmos levar, precisamente abandonando os nossos problemas durante as duas horas do filme.


"Cabaret" passa-se na antecâmara da II Guerra Mundial, na Berlim de 1931, numa altura em que, enquanto se assistia à ascensão do Partido Nazi, se vinha assistindo a um aumento na ambiguidade sexual, na decadência e em que locais como os cabarés eram francamente apreciados pela sua falta de pudor em expor o que a protagonista, Sally Bowles, viria a caracterizar como "divina decadência". Este paralelismo entre, por um lado, todo uma parte do filme mais política, mais séria, mais machista, existe a outra parte, a alegre, a descontraída, a sensual é o que mais me fascina no filme. E aqui entra o génio de Bob Fosse, que consegue aliar as duas histórias que pretende contar e interrelacioná-las, fazendo-nos perceber que este filme é, sobretudo, um filme sobre as pessoas. 


O argumento do filme segue a personagem principal das "Histórias de Berlim" de Christopher Isherwood, a cantora de cabaré Sally Bowles, uma das personagens mais fabulosas que o Cinema alguma vez teve a oportunidade de conhecer. Por entre a sua falta de tacto e de educação, o seu narcisismo, os seus amuos, a enorme aura de diva que paira sobre ela, os seus mil defeitos e as suas generosas qualidades, a sua falsa vitalidade e devassidão apercebemo-nos que ante nós se desvenda uma das maiores interpretações de sempre. Liza Minnelli cria um monstro perante os nossos olhos. Além dos fantásticos números de dança e canto, Minnelli confere a Sally Bowles uma vulnerabilidade que a personagem, ao tentar esconder, nunca falha em nos mostrar, quer pelo meio da "divina decadência" a que tanto se refere, quer pela forma teatral com que reage à maioria das situações, quer pela forma como guarda para si a maioria dos seus receios, dos seus traumas, das suas desilusões e até quer pela forma como só se dá às pessoas até certo ponto. Emocional e excitável, é certo, mas bastante frágil e secreta. Soberba ao ponto de nos conseguir convencer sempre de que ela, de facto, é apenas uma rapariga que vive o momento, sem preocupações, que acredita fielmente no lema do Cabaret, não levar nada a sério e viver para sempre o presente. E quanto ela se dá a conhecer na totalidade a nós audiência, no seu mais exposto é de partir o coração.


O filme conta-nos portanto a história da relação entre Sally Bowles e Brian (Michael York), um jovem professor de Inglês que se perde na vida nocturna do cabaré e depois a relação destes com dois alunos de Brian, Fritz e Natalia (fazendo depois com esta personagem o paralelismo para o nazismo e para a influência que teve na vida dos Judeus alemães, comunidade da qual Natalia faz parte) e em seguida de Sally e Brian com um milionário excêntrico, bissexual (interpretado de forma muitíssimo interessante por Helmut Griem). A exploração deste amor aparentemente incompreendido e deste triângulo amoroso tão fora do ordinário é o que dá ao filme força motriz. Pelo meio, vão-se entrelaçando situações da vida destas personagens com números de dança e canto no clube nocturno, números esses ricos de realismo, sempre relacionados com o momento em que a acção principal pára. É a este nível que se consegue sentir a enorme interpretação de Joel Grey como o Mestre de Cerimónias de cara pintada e sorriso aberto, que serve de ponto de ligação entre as várias partes do filme, quer esteja a cantar e a dançar, quer esteja a saltar, quer esteja a atirar lama para duas das suas dançarinas que estão envolvidas numa luta em pleno palco, quer esteja a contar-nos a história do seu ménage à trois, ele continua o divertimento e as festividades no cabaré, fazendo-nos sentir todo o entusiasmo, a força, a pujança e a alegria que normalmente pautaria tais estabelecimentos. Joel Grey é fascinante de acompanhar, pois rouba toda a atenção nas cenas em que surge e oferece-nos uma performance completamente bestial.


A acompanhar as prestações do grande elenco temos números musicais intemporais, melodias de uma exuberância e brilho tal que serão amadas para sempre, como "Money Makes The World Go Round", "Mein Herr", "If You Could See Her", "Maybe This Time" e o magnífico final, "Life is a Cabaret"; uma fotografia bastante poderosa, muito pormenorizada, com uma paleta de cores infindável; um argumento muito bem explorado e incisivo, que nos permite acompanhar esta história melancólica e elégica sem nunca perder o norte ao real, inventivamente teatralizado nos números musicais no cabaré; e uma realização extraordinária de Bob Fosse, que lança um olhar bastante cínico e frio às pessoas que habitavam esta Berlim dos anos 30.


Quando o filme chega ao seu fim, percebemos finalmente que este não é um filme feliz e nem o seu número final, "Life is a Cabaret", é uma canção sobre a alegria do cabaré, onde todas as preocupações são abandonadas, como poderia parecer. É, sim, uma elegia, uma canção de lamento, uma canção de desespero, de tristeza, que não só se refere à falsa felicidade patente nestes locais, como também serve como forma de análise ao futuro sombrio que a Alemanha Nazi iria trazer ao mundo, um mundo onde personagens como Sally Bowles e o Mestre de Cerimónias deste cabaré não irão ser toleradas.

E a despedida é feita da mesma forma que fomos introduzidos em cena, pelas palavras melódicas do Mestre de Cerimónias, que de facto nos leva a concordar com ele, dizendo: «Where are your troubles now? Forgotten? I told you so. We have no troubles here. Here life is beautiful.» e despede-se dizendo, antes das cortinas caírem uma última vez: «Auf Wiedersehen, À bientôt».

NOTA:
A

"Cabaret" viria a vencer 8 Óscares na cerimónia de 1972, sendo o filme com maior número de troféus da noite. Venceu Melhor Actriz (Minnelli), Melhor Actor Secundário (Grey), Melhor Edição, Melhor Direcção Artística,  Melhor Som, Melhor Música, Melhor Fotografia e, tendo "The Godfather: Part I" vencido Melhor Filme, conseguiu ficar com o prémio de Melhor Realização (Fosse).

Ficha Técnica:

Realização: Bob Fosse
Elenco: Liza Minnelli, Joel Grey, Michael York, Helmut Griem, Marisa Berenson
Fotografia: Geoffrey Unsworth

Banda Sonora: Fred Ebb (musical "Cabaret") e John Kander
Argumento: Jay Allen