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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

NINHO DE CUCOS (VII)

Novo mês, novo insurgimento social contras as velhas e austeras medidas que a Troika nos teima em oferecer como brinde natalício antecipado. Governo e sindicatos degladiam-se de forma cada vez menos figurada, numa luta entre pessoas cada vez menos interessadas em lutar. Assim se progride em Passos lentos no país pelo qual já ninguém dá Cavaco. Mas não sou eu, universitário sustentado pela família, que ainda me dou ao luxo de sofrer menos pelos sacrifícios financeiros, que pelo impacto psicossocial da crise, que vou juntar o meu latim à horda de bitaites que apesar de alheios à solução para a crise, são omniscientes relativamente ao facto da necessidade da guilhotina ter cabeças para separar do respectivo pescoço.


Não. Em vez disso deixem-me preocupar com as convocatórias da seleção ou com a mensagem de voz nos comboios da CP, enquanto escolho o país para onde vou emigrar. E se bem que as escolhas do mister Paulo Bento não têm volta a dar, já a robótica e feminina voz, que no final das viagens ferroviárias endereça uma agradecimento pela "preferência" dos seus utentes pela única empresa de comboios no nosso país, podia claramente beneficiar de uma completa remodelação. Sei bem que há alternativas ao transporte ferroviário, mas ter de ouvir uma barbaridade destas de uma operadora de transportes com um serviço tão ruinoso e tão pouco fiável como a CP torna-se tão agradável como ouvir a minha professora, que não chega à aula das 14h antes das 15h30, queixar-se da minha pontualidade. É sofrimento imerecido e numa época em que um noticiário é fonte suficiente de sofrimento para toda a semana revela-se cada vez mais premente suprimir estes desnecessários focos de angústia, para a população em geral, e para mim em concreto. Julgo mesmo oportuno revisitar a minha aula do meio-dia, em que um outro professor meu atentava na necessidade da precisão do discurso, citando Jô Soares com a feliz expressão: "Meça suas palavras!"

No nosso Portugal não impressiona que o efeito borboleta de uma má escolha de palavras em São Bento, seja razão suficiente para desencadear um ciclone de Bragança a Sagres. Por outro lado, não deixa de ser curioso o facto de se chutar uma pedra e aparecerem umas 10 pessoas capazes de identificar a mais ampla variedade de defeitos no novo acordo ortográfico, mas se sai uma notícia n'A Bola ou no Record a dizer que fulano vai ser "irradiado" do desporto, é rara a alma que reconhece a violência dos abusos a que a sua língua materna acabou de ser sujeita. Permitam-me portanto ser apologista do pedantismo, já que dele depende, não só a defesa da nossa cultura linguística, como também o bom funcionamento da nossa disfuncionante sociedade.

Mas quem vive também de uma boa escolha de palavras é o cinema. 


Costuma-se dizer que uma imagem vale mais que mil palavras, mas no fundo ninguém usa imagens para evidenciar a singularidade de uma circunstância. Uma citação, um título, uma discussão são, não raras vezes, exemplos máximos do expoente artístico que um bom filme pode oferecer. Pessoalmente admiro a arte de fazer funcionar um título. Pode não parecer tarefa digna de louvor, mas a congregação de um conjunto de palavras que sirva mais do que o simples propósito de rotular um filme comporta, por vezes, uma qualidade artística que muitas fitas não conseguem sequer aproximar nas suas centenas de minutos de rodagem. Mais do que isso, é difícil nos tempos que correm, encontrar um título que não denuncie metade da história da película, o que não deixa de ser sobejamente irritante, tendo em conta a quantidade de trailers e sinopses que surgem cedo demais e revelam mais do que devem.

A este ponto serve bem ao objectivo do meu argumento tirar "Good Bye Lenin", de Wolfgang Becker, da cartola, obra que representa exemplarmente a escassez de bons títulos a que me refiro. Esta película alemã, cujo nome nos transporta para um universo decerto comunista, oculta de forma encantadora a necessidade desta epígrafe. O filme desenrola-se na Alemanha dividida, mais concretamente do lado de lá do muro, numa altura em que o regime comunista parece prestes a dar os seus últimos suspiros de vida. Sucede então, que pouco antes da queda do muro, a mãe do protagonista entra em coma, e não acorda até que toda a evidência da sociedade em que sempre viveu seja substituída pela máquina capitalista, com rapidez e eficácia tais que a Blitzkrieg hitleriana se sentiria vexada perante tão descomplexada empresa. O desenlace do filme determina entretanto a dramática (porém cómica) tentativa do filho em proteger a ressuscitada mãe da invasão dos valores ocidentais de liberalização económica. Contudo, o pináculo da narrativa fica reservado para o momento em que a pobre mãe, vendo-se finalmente livre do hermético controlo da sua cria, se depara com a alienígena visão de uma Alemanha forrada a painéis publicitários, quando do céu surge, transportada por um helicóptero, uma estátua de Lenin de braço estendido em jeito de despedida. E é aí que o título do filme se desacorrenta da sua mera função de etiqueta, para fornecer àquela cena uma grandiosidade simbólica, de outra forma inatingível.


Este é o verdadeiro alcance que um perfeito uso da palavra é capaz de atingir. Enquanto que a necessidade básica do uso da palavra se confina à tradução de conceitos para linguagem comunicável e objectiva, a fim de fornecer informação para descobrir relatividade, o autor do filme contorna essa utilização comum atribuindo-lhe uma função que ultrapassa vastamente o seu valor concreto e fornece-lhe uma dimensão simbólica poucas vezes disponível fora da arte puramente literária. De qualquer das formas há-de sempre haver quem determine que o filme do Spiderman deva ser estandardizadamente chamado "Spiderman", e daí seja fácil perceber que a mestria do uso da palavra vá muito mais além do que saber juntar meia dúzia de vocábulos para simplesmente encontrar forma de denominar algo. 

Mas pronto isto tem o valor que tem quando é dito por alguém que encabeça os seus textos com números. 

Gustavo Santos

SHAME (2011)



Honra lhe seja feita. Shame não é um filme para meninos. Estamos numa Nova Iorque contemporânea. Onde o rebuliço dos dias arrasta milhões, de um lado para o outro, numa azáfama e numa rotina diabólica, que destrói relações e promove a solidão e a desintegração social. Brandon Sullivan (Michael Fassbender) é um homem perdido. Vive na ilusão das suas inúmeras companheiras sexuais, da pornografia cibernética, das fugazes relações de uma noite. Mas a adrenalina e o calor de mais um encontro sempre desaparecem com o nascer do sol, e mais um infeliz, cinzento e solitário dia aparece.


A viver sozinho no seu apartamento nova-iorquino, Brandon recebe a inesperada visita da sua irmã Sissy (Carey Mulligan), uma aspirante e promissora cantora, que se revela uma personagem completamente distinta e paradoxal daquilo que é Bradon: carente, dependente, a viver intensamente cada momento e cada relação. Enquanto, sabiamente, o magistral Steve McQueen cria uma cápsula que envolve, protege e esconde o íntimo de Brandon , a encantadora Sissy é uma personagem inocente, que se abre perante o espectador e nos dá a conhecer aquilo que é, sem sombras, sem máscaras, sem fantasias.


Mas o maior elogio de todo o filme vai directamente para Steve McQueen. O seu trabalho é sublime. E se Shame não funcionaria sem o carisma e a intensidade com que Fassebender se entrega à personagem, seria também um enorme fracasso na mão de 99% dos realizadores em actividade. É preciso ser-se um mestre, é preciso ser-se muito muito bom, para se criar um ambiente, uma envolvência, um clima que, por si só, catapultam uma personagem. A banda-sonora é irrepreensível e (igualmente) surpreendente. É uma das melhores deste ano. Tal como filme. Shame não desiludiu. Mas, repito, não é um filme para meninos. E é um filme que merece (e necessita) da compreensão do espectador. Tudo o que acontece, sem pudor, faz parte de uma história maior. De um revelação pura, dolorosa e real.


Nota Final:
A-



Trailer:





Informação Adicional:
Realização: Steve McQueen
Argumento: Abi Morgan e Steve McQueen
Ano: 2011
Duração: 101 minutos








THE GIRL WITH THE DRAGON TATTOO (2011)




Antes de começar, quero deixar aqui bem claro que o filme de David Fincher não é nenhum re-make do filme de Niels Arden Oplev, sobre o qual vos falei aqui no ano passado. É sim, uma nova adaptação, independente, do grande sucesso literário Millenium 1 de Stieg Larsson e quem vê os dois filmes percebe que há claras diferenças entre ambos.


A começar pela banda-sonora de Trent Reznor. Provavelmente, a melhor deste ano. O clima com que carrega todo o filme, com que suporta toda a tensão que se vai criando e auto-alimentando, é soberba e tem, como ponto alto, a sequência inicial que deixei há dias aqui no blogue. Muitos dizem ser o melhor momento do filme. Eu não acho. The Girl with the Dragon Tattoo vale pelo seu todo. É uma história construída com consistência. É trabalhada com minúcia e elegância. E David Fincher, fruto da sua enorme experiência, fez um trabalho estupendo onde era proibido falhar: Lisbeth Salander (Rooney Mara) é, também neste filme, a pedra basilar. É a grande revelação que certamente dará que falar nos próximos anos.


A história, um thriller marcado pela imprevisibilidade e pelo mistério de um conjunto de assassinatos misteriosos há mais de quarenta anos, levam Mikael Blomkvist (Daniel Craig), um prestigiado jornalista sueco, a deslocar-se até à ilha onde a família Vanger se instalou, há mais de um século. Aos poucos, começa a descobrir a dimensão de um trabalho que começa com a descoberta de um simples desaparecimento. Com a ajuda da hacker Lisbeth Salander, Mikael acaba por se envolver numa história para a qual não estava preparado e que nunca esperou poder descobrir.


Se o leitor não viu a versão Sueca do filme, ver a versão de Fincher é uma óptima opção. Não fica atrás da qualidade do filme de Oplev, e percebe facilmente (depois de ver as duas versões), porque é que Fincher é um realizador com nome, prestígio e reconhecimento firmados. O seu dedo e a sua arte notam-se vivamente na sua versão. E das duas, esta é claramente a minha favorita.


Nota Final:
A-


Trailer:




Informação Adiconal:
Realização:
David Fincher

Argumento: Steven Zaillian e Stieg Larsson
Duração: 158 minutos
Ano: 2011

THE INBETWEENERS MOVIE (2011)


Hoje falo-vos, com tristeza, de uma das maiores desilusões do ano 2011. Criei algumas expectativas sobre aquilo que daqui poderia sair, muito por culpa da admiração que tenho pela enorme irreverência e originalidade que esta série trouxe à televisão britânica e sobre a qual já tive o prazer de vos falar aqui.


É sempre um risco fechar um ciclo com um filme. As histórias das séries são demoradas, os detalhes são trabalhados e há espaço para os toques de genialidade que marcam a diferença. Num filme também os há, mas é dificil transportar a ideia de uma série para um filme. É raro (e eu não me recordo, de momento, de nenhum exemplo de sucesso) sair um filme que responda às expectativas dos fans. Na despedida, da série, do verão e do ensino secundário, os quatro jovens que se tornaram emblemas da juventude britânica, decidem encerrar em grande um ciclo. Viajam até Malia, na Grécia, um local onde o álcool e as aventuras se conjugam em harmonia de forma a satisfazer as necessidades daqueles que a procuram.


Como era de calcular, muita coisa corre mal e muitos dos planos idílicos dos quatros jovens acabam por ser um autêntico desastre. E é precisamente com essa amargura que o espectador fica. Em especial, o fan. The Inbetweeners Movie foi um final infeliz para uma série que tinha tudo para continuar a surpreender e cativar velhos e novos fans. Ficou pelo caminho de uma forma inglória. Agora, é esperar que alguma mente brilhante da britcom se lembre de uma nova ideia, igualmente genial e irreverente, para entreter os saudosos fans da série que retratou a adolescência como ela realmente é.


Nota Final:
C


Trailer:





Informação Adicional:

Realização:
Ben Palmer
Argumento: Iain Morris, Damon Beesley
Ano: 2011
Duração: 97 minutos

TINKER TAILOR SOLDIER SPY (2011)


"She told me she had a secret, the mother of all secrets..."

Comecei por ficar entusiasmado com a chegada deste filme às nossas salas de cinema. Depois, comecei a ler, aqui e ali, algumas críticas à monotonia e ao argumento e fiquei de pé atrás. Depois o Jorge Rodrigues deu-me a opinião dele, mais positiva e mais interessante, e retomei o meu entusiasmo. E finalmente tive oportunidade de o ver no cinema. E fiquei convencido. Tomas Alfredson é realmente um realizador estupendo. Comecemos pela fotografia, a edição e a banda-sonora do filme? Irrepreensível. Do melhor que vi este ano no cinema. Alfredson dá ao espectador uma perspectiva ímpar. O espectador faz parte de todo o ambiente de espionagem e mistério que constrói e alicerça o filme. E isso torna-o um filme especial, digno de registo, digno de ser recordado e digno de ser visto. Com todos os sentidos apurados e com a máxima das atenções.


Tudo começa com a viagem de Jim Prideaux até Budapeste, na busca da Toupeira que se encontrava nos serviços secretos britânicos a mando do governo russo. A sua morte, misteriosa, marca o início de todo o drama e despoleta uma sequência ininterrupta de cenas intrigantes e, muitas vezes contraditórias, numa busca incessante e incansável por parte de George Smiley (Gary Oldman), antiga coqueluche dos serviços secretos, que procura respostas para a sua forçada demissão e para o ambiente corrosivo e desleal que contamina o seu antigo local de trabalho.


Tinker Tailor Soldier Spy é um filme complexo, trabalho e meticuloso. Carregado de informação, de personagens e de momentos que se interligam e enovelam de uma forma densa e intrigante. Se o espectador gostar de ser testado, gostar de ser estimulado, gostar de um filme com um clímax fortíssimo no seu final, carregado de mistério e de especulação, este é o filme certo e o preço do bilhete vale todo o seu preço. Com um grande elenco, muito bem equipado e trabalho.

Nota Final:
A-


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Tomas Alfredson
Argumento: John le Carré, Bridget O'Connor e Peter Straughan.
Ano: 2011
Duração: 127 minutos.

BRITISH TV - MISFITS, MERLIN AND SHERLOCK.

Porque o British TV é uma crónica sobre aquilo que de melhor existe na televisão britânica, optei este mês por fazer um ponto de situação sobre as séries do momento em Inglaterra. Aquelas que tenho a felicidade de poder acompanhar.


Começo pelas séries que terminaram. Merlin, numa quarta temporada cheia de sucesso (para mim foi a melhor), confirma o seu estatuto de série em prime-time (é transmitida aos sábados à noite na BBC One) com mais de oito milhões de espectadores a assistir ao episódio que encerrou a quarta temporada. Se duvidas existiam, quanto à sua capacidade de ombrear com a elite das séries britânicas, a renovação para uma quinta temporada muito promissora e uma remodelação das personagens e dos seus estatutos, prova que existe uma evolução, um crescendo e uma maturidade que são inegáveis. Eu já gastei todos os meus elogios com Merlin e resta-me apenas aconselhar, mais uma vez, que o leitor lhe dê uma oportunidade e se delicie com esta adaptação de uma das mais lendárias histórias da nossa infância.


Também chegou ao final a muito aguardada terceira temporada de Misfits. Uma série que precisou de sarar as feridas provocadas pela saída da sua estrela mais brilhante, mas que não virou a cara a luta. A terceira temporada ficou marcada pela chegada de Joseph Gilgun, um actor com grande potencial, que aos poucos foi apagando o fantasma de Nathan Young. É natural e era expectável que a terceira temporada não fosse tão cativante quanto foram as duas primeiras temporadas. Mas eu gostei. Gostei porque vi em Misfits um enorme esforço em seguir em frente, não vi dramatização, não vi uma série presa ao passado. Vi sim uma série a seguir em frente, a procurar uma saída do buraco em que foi enfiada e, no culminar de mais uma temporada, é deixada escancarada a porta para uma próxima temporada que será, em comparação com a primeira, algo de completamente diferente e inovador.


Enquanto uns vão, outros voltam. Aquela que é, muito provavelmente, a série mais aguardada de 2012 na televisão britânica, Sherlock, regressou para uma segunda temporada exactamente nos mesmos moldes da sua série de estreia (três episódios de noventa minutos) com críticas muito positivas para o seu primeiro episódio. Se o leitor ainda não viu, obrigo-o a ver. Sherlock é, muito provavelmente, a maior lufada de ar fresco da televisão britânica nos últimos largos anos. E mete num bolso a pobre e infeliz versão de Guy Ritchie.

MELANCHOLIA (2011)



Há crónicas que preferia não ter que escrever. A responsabilidade de comentar um filme de Lars Von Trier é demasiado pesada. Porque a ambiguidade dos seus projectos, os sentimentos contraditórios e distintos que cada um consegue sentir ao ver os seus filmes (uns veneram, outros repugnam), transformaram-no no mais controverso realizador do momento (as suas declarações ajudaram à festa) e podem muito bem fazer desta crítica um completo tiro ao lado, tanto sobre a qualidade do filme, como sobre a opinião geral do mesmo. Mas vamos a isso.


Melancholia é o Apocalipse contado de uma forma inteligente e, digamos, nobre. Depois de tantos fracassos a recriar o final do mundo (com Roland Emmerich a liderar o pelotão dos falhados), finalmente alguém arregaçou as mangas e tratou de descobrir a direcção certa. Melancholia uma história contada por um tipo desgraçadamente inteligente. E esta é mais uma obra a juntar a um currículo vasto e riquíssimo. Este será bem capaz de ser o filme de Lars Von Trier que mais vezes vou ter prazer em repetir. A melancolia das cenas, a melancolia das personagens, a melancolia da história constroem um atmosfera pesada, um ambiente tenso e um poder quase sobrenatural sobre todo o filme.


Tudo se desenrola, paradoxalmente à fatalidade da história, de uma forma tranquila, demorada. Cada momento é saboreado, tanto pelas personagens, como pelo espectador. Começamos com uma cena inicial "à Lars Von Trier", com imagens fantásticas, um ambiente sonoro (que em cinema resulta de uma forma estupenda) intenso e que culmina com o início da história de Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), naquele que deveria ser o dia mais feliz da vida da irmã mais nova de Claire. Justine casa com Michael, o homem que a ama incondicionalmente, numa festa cheia de pompa e glamour na elegante propriedade de John (Kiefer Sutherland). Com avançar da noite, Justine transforma-se numa noiva infeliz, nostálgica, que procura a solidão do quarto ou a tranquilidade do exterior envolto numa noite estrelada.


Após um final de noite dramático, com Michael a abandonar a casa de Claire e o casamento com Justine, somos lançados para o interior da vida destas duas irmãs, com uma relação tensa, marcada por um amor incondicional que se esbate em acções irreflectidas de ambas, que as afasta sem nunca as separar. Claire (a grande interpretação deste filme!), convida Justine a repousar junto da sua família, na tranquilidade do seu lar, de forma a recuperar dos incidentes de um conturbado copo de água, à medida que se preparam, em conjunto, para a passagem do Planeta Melancholia, que segundo as garantias de John, apenas fará uma trajectória limite, sem afectar o Planeta Terra e os seus habitantes. E é quando toda esta ideia apocalítica, de desgraça e de FIM se começa a apoderar de Claire, que todo o filme entra numa espiral de momentos e acontecimentos que o fazem crescer, crescer lenta e vagarosamente, para o seu final, épico, fantástico e portentoso.


Um final coerente com a qualidade de Melancholia, um dos melhores filmes de 2011, um dos grandes filmes da carreira de Lars Von Trier, com a emoção e o poder que este consegue impingir nos seus melhores filmes, com a sua marca pessoal, com o seu dedo de criador a sentir-se em cada cena, em cada imagem, em cada sequência. Por fim, uma nota pessoal, para reafirmar que adorei a forma como Melancholia foi filmado. O movimento da câmara nas cenas mais atribuladas, nas cenas mais vividas, transformam o ecrã nos nossos olhos e o movimento faz-nos sentir dentro das divisões da casa ou da tranquilidade das fantásticas paisagem que Lars Von Trier nos mostra.


Nota Final:
A-


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Lars von Trier
Argumento: Lars von Trier
Ano: 2011
Duração: 136 minutos

50/50 (2011)


"A Tumor? Me? That doesn't make any sense though. I mean... I don't smoke, I don't drink... I recycle..."


Acabado de sair da sala de cinema, posso-vos dizer que gostei muito, diverti-me imenso e fiquei surpreendido com a qualidade cinematográfica de 50/50. Vamos por partes então.

Joseph Gordon-Levitt, no papel de Adam, interpreta o jovem querido e adorável que derrete o coração das espectadoras do sexo feminino. É impossível não apreciar a qualidade deste jovem actor, a consolidar a sua carreira já com uma mão cheia de papéis cativantes e muito bem recebidos pelo público. Adam, um jovem de vinte e sete anos que trabalha como jornalista numa rádio de Seattle, descobre que sofre de um raro cancro das células de Schwann, maligno e muito invasivo, que coloca a sua vida em risco. Decidido a curar-se, começa os tratamentos de quimioterapia, primeiro passo para a sua reabilitação.


Apoia-se no seu grande amigo Kyle, papel interpretado por Seth Rogen, do qual é impossível perceber o limite onde acaba a personagem e começa o actor. Ele nasceu para fazer o papel do tipo relaxado, consumidor de drogas leves e admirador do sexo feminino. Porque isso foi a imagem que Seth Rogen tão bem criou e cultivou em Hollywood. E neste papel, ele é garantidamente o melhor do mercado americano. Juntos, com a ajuda da terapeuta Katherine (Anna Kendrick), formam um elenco extremamente simpático e empático, do qual se gosta naturalmente.


50/50 é um filme feito para o grande público (ok, concordo que exista um certo limite para a sensibilidade e a capacidade de encaixe das piadas mais mórbidas e negras do filme, o que pode criar uma certa tensão numa sala onde os risos de uns se confundem com a indignação de outros), é um filme que vale mesmo a pena ver, que diverte e alegra o espectador, que transmite uma mensagem forte de uma forma tão natural quanto inteligente, com uma banda-sonora muito bem escolhida e um ambiente feliz. 50/50 é daqueles que se pode ver vezes sem conta. E que a televisão vai explorar até ao último cêntimo.

Nota Final:
B+



Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Jonathan Levine
Argumento: Will Reiser
Ano: 2011
Duração: 100 minutos

JOSÉ E PILAR (2010), por João Samuel Neves



"A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar."


José e Pilar. Porque José Saramago não seria Saramago sem Pilar. Porque Pilar del Río não seria Pilar sem Saramago. Um documentário fantástico, editado, filmado e produzido com imensa paixão, que explora com perspicácia a infinita imaginação de um dos maiores e mais sagazes pensadores dos tempos modernos. Um homem diferente de todos os outros, com uma visão singular do mundo e da religião, sem medo de tocar nos tabus das sociedade e de abanar os alicerces que sustentam a inabalável fé que muitos têm por Deus e pelo Cristianismo.


José e Pilar é uma honrosa e dignificante despedida de Saramago. Ao longo de todo o documentário (filmado entre 2006 e 2008) vemos um Saramago cada vez mais debilitado fisicamente. Paradoxalmente a esta deterioração exterior, facilmente percebemos que o génio continua lá. Que o humor mordaz e lacerante, que as expressões politicamente incorrectas maturaram com a idade e tornaram-se cada vez mais oportunas. Vemos um Saramago que, sentado no seu computador, produz e cria a uma velocidade improvável para os seus debilitados 85 anos. Vemos um Saramago que percorre o mundo, é adorado, admirado e procurado em qualquer ponto do Planeta. Um Saramago que não se cansa. Um Saramago que não se rende ao passar do tempo. Um Saramago que um Portugal (e Cavaco Silva) obtuso e retrógrado nunca soube acolher e compreender.


Mas José e Pilar tem mais para ver. Neste filme/documentário, o leitor poderá perceber a profunda intimidade de um casal, à partida, improvável. E, também neste documentário, o leitor perceberá que, ao lado de um grande homem, se encontra sempre uma grande mulher. E Pilar é uma grande mulher. Uma mulher que certamente deixará orgulhosa qualquer leitora que tenha a possibilidade de ver José e Pilar. É ela (como certa vez o próprio Saramago a rotulou) o seu Pilar. Em momentos de dificuldade, Pilar nunca deixa Saramago, e o amor que existe no casal respira-se em toda a película. É esta relação tocante que o realizador Miguel Gonçalves Mendes explorou de uma forma sublime. É o melhor de um filme onde o humor de Saramago nos diverte e entretém, onde a fotografia e a edição carregam o filme de uma tensão e um ambiente que envolvem o espectador e o colocam em Lanzarote, no mesmo espaço (físico e temporal) de Saramago.


Um digníssimo representante de Portugal na categoria de Melhor Filme Estrangeiro nos Oscars deste ano. Um dos melhores documentários que alguma vez vi. Um grande filme Português.


Nota Final:
A-


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Miguel Gonçalves Mendes
Argumento: Miguel Gonçalves Mendes
Ano: 2010
Duração: 125 minutos