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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

A relação amorosa de Affleck com os prémios continua nos BAFTA



Mais uma cerimónia de entrega de prémios, nova colecção de troféus para "Argo". Ben Affleck volta a receber o galardão de Melhor Filme, desta vez por parte da Academia Britânica, que entregou os BAFTA neste final de tarde / princípio de noite (a cerimónia pode ser acompanhada, em diferido, aqui).

Além do troféu de Melhor Filme, Affleck também recebeu o prémio de Melhor Realizador, criando uma deliciosa confusão para a noite dos Óscares, para a qual Affleck não se encontra nomeado nesta categoria. Lee, Haneke, Spielberg, Zeitlin ou O. Russell, algum deles vai ter de receber o prémio e nesta altura é impossível prever com exactidão qual. Excitante. 


"Argo" conquistou ainda o troféu para Melhor Edição, perfazendo um total de três galardões. Não foi, contudo, o vencedor com mais prémios da noite - essa honra coube a "Les Misérables", que venceu nas categorias de Melhor Maquilhagem e Cabelo, Melhor Produção Artística (incrível como "Anna Karenina" perde aqui), Melhores Efeitos Sonoros (com "Skyfall" na categoria, a sério que este foi o filme britânico que escolheram?) e Melhor Actriz Secundária, troféu que invariavelmente acaba nas mãos de Anne Hathaway


Curiosamente e mesmo perante tanta demonstração de afecto, foi "Skyfall" quem venceu Melhor Filme Britânico, ao qual juntou a estatueta para Melhor Música (50% dessa estatueta deve-se a Adele, claro) para Thomas Newman (uma das surpresas da noite). "Anna Karenina" teve que se contentar com o triunfo mais que previsível em Melhor Guarda-Roupa. Que esperará repetir nos Óscares. "Life of Pi" ganhou, uma vez mais, duas categorias técnicas: Melhor Fotografia para Claudio Miranda e Melhores Efeitos Especiais. Em ambos os casos, nos Óscares são também muito prováveis.

Tal como "Argo", "Searching for Sugarman" recebeu mais um prémio (que varridela tem sido!) para Melhor Documentário, contra a previsão dos especialistas que apostavam no britânico "The Imposter" para surpreender. Não obstante a derrota, "The Imposter" acabou por triunfar na categoria de Melhor Contributo de um Britânico em Filme.



"Silver Linings Playbook" recebeu o prémio de Melhor Argumento Adaptado (ou prémio de Maior Campanha, que equivale ao mesmo, aparentemente), enquanto na categoria de Melhor Argumento Original foi "Django Unchained" o contemplado (o que me faz perguntar: a Academia leu mesmo estes roteiros? Ou votou pelo nome? Enfim), que também garantiu mais um prémio de Melhor Actor Secundário a Christoph Waltz, que começa a parecer um grande candidato aos Óscares.

A grande história da cerimónia, contudo, ficou para o final. Antes de Daniel Day-Lewis ir receber o seu milésimo troféu de Melhor Actor por "Lincoln", foi a octagenária Emmanuelle Riva ("Amour") a subir a palco (metaforicamente, infelizmente; Riva está-se a guardar para os Césars e os Óscares, diz-se) para ser contemplada com o prémio de Melhor Actriz, batendo Jennifer Lawrence e Jessica Chastain e basicamente a criar mossa na corrida. Finalmente.

A lista completa dos vencedores pode ser consultada aqui.


TYRANNOSAUR (2011)


Um dos meus filmes favoritos do ano de 2011, conta-nos uma história dura e violenta. Um filme totalmente british, para os adeptos dos Dramas sem mágoas e sem complexos. Um filme pequeno (como eu gosto), que nos faz sorver cada minuto de duas personagens trágicas, que se juntam por um aparente (e infeliz) acaso, construindo uma cumplicidade e uma entre-ajuda que cimenta uma amizade que se alimenta da tragédia, da dor e do sofrimento.



Joseph (Peter Mullan) é um cinquentão viúvo, tempestuoso, agressivo e impulsivo. Começa o filme numa cena de ira efervescente, que culmina com a morte do seu cão, em quem descarrega a adrenalina de um negócio falhado e cuja ausência se fará sentir durante todo o filme. Solitário, depressivo, arrasta-se pelos bares da sua localidade. Após mais uma zaragata, refugia-se na loja de Hannah (Olivia Colman), uma mulher madura que vive os seus dias envolvida na religião e na sua fé inabalável. Esconde, no entanto, um difícil e chocante segredo. Casada, sem filhos, é uma mulher angustiada, convivendo e aceitando as taras e a violência animal de um marido completamente primata, que a obriga a participar em sessões violentas e perigosas de sadomasoquismo.


Duas almas que partilham a dor e o silêncio da solidão, duas personagens moldadas pelo sofrimento, que se juntam numa loja de conveniência para não mais se conseguirem separar. Não é uma mera história de amor. Não é uma simples historieta condenada a terminar num romance eterno e feliz. Tyrannosaur conta com a única interpretação feminina que, este ano, consegue ombrear com a brilhante Meryl Streep (Olivia Colman é FANTÁSTICA!). Tyrannosaur conta com uma fotografia intensa e trabalhada, que nos transporta para uma ambiente frio, cinzento, tenebroso. E ainda se arrisca numa inesperada banda-sonora, que acrescenta alguma cor e alguma harmonia a uma história que em tudo é deprimente. Para mim, Tyrannosaur foi um momento delicioso.


Nota Final:
A-


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Paddy Considine
Argumento: Paddy Considine
Ano: 2011
Duração: 92 minutos











THE INBETWEENERS MOVIE (2011)


Hoje falo-vos, com tristeza, de uma das maiores desilusões do ano 2011. Criei algumas expectativas sobre aquilo que daqui poderia sair, muito por culpa da admiração que tenho pela enorme irreverência e originalidade que esta série trouxe à televisão britânica e sobre a qual já tive o prazer de vos falar aqui.


É sempre um risco fechar um ciclo com um filme. As histórias das séries são demoradas, os detalhes são trabalhados e há espaço para os toques de genialidade que marcam a diferença. Num filme também os há, mas é dificil transportar a ideia de uma série para um filme. É raro (e eu não me recordo, de momento, de nenhum exemplo de sucesso) sair um filme que responda às expectativas dos fans. Na despedida, da série, do verão e do ensino secundário, os quatro jovens que se tornaram emblemas da juventude britânica, decidem encerrar em grande um ciclo. Viajam até Malia, na Grécia, um local onde o álcool e as aventuras se conjugam em harmonia de forma a satisfazer as necessidades daqueles que a procuram.


Como era de calcular, muita coisa corre mal e muitos dos planos idílicos dos quatros jovens acabam por ser um autêntico desastre. E é precisamente com essa amargura que o espectador fica. Em especial, o fan. The Inbetweeners Movie foi um final infeliz para uma série que tinha tudo para continuar a surpreender e cativar velhos e novos fans. Ficou pelo caminho de uma forma inglória. Agora, é esperar que alguma mente brilhante da britcom se lembre de uma nova ideia, igualmente genial e irreverente, para entreter os saudosos fans da série que retratou a adolescência como ela realmente é.


Nota Final:
C


Trailer:





Informação Adicional:

Realização:
Ben Palmer
Argumento: Iain Morris, Damon Beesley
Ano: 2011
Duração: 97 minutos

Que dizer de Vivien Leigh?


Vivien Leigh é uma actriz muito especial. Não teve uma grande carreira (leia-se em volume, não em dimensão, claro está), não foi uma actriz convencional, mas quando estava inspirada, meu Deus, ela era brilhante. Vivien Leigh viveu durante 53 anos, sofreu imenso com a sua doença bipolar, com um casamento tempestuoso com o temperamental e polígamo Laurence Olivier e padeceu de tuberculose durante a última década da sua vida. A juntar a tudo isto há o facto de apesar de ter dois merecidíssimos Óscares por duas brilhantes interpretações e ser admirada pelo grande público da altura, nunca foi inteiramente amada pela crítica e nunca foi respeitada como uma actriz séria nos bastidores de Hollywood, sendo sempre rotulada como actriz de difícil feitio e complicada para se trabalhar. Uma actriz bastante versátil, como o demonstram as suas múltiplas aparições no teatro - uma delas viria a conferir-lhe a oportunidade de representar o segundo grande papel da sua vida na grande tela, em detrimento da actriz americana que desempenhou o papel na Broadway (Jessica Tandy) - e de uma beleza ímpar, é uma pena que Leigh tenha tido tantos obstáculos a opor-se à sua enorme qualidade enquanto actriz.


Como seu legado, Vivien Leigh deixou-nos dois papéis inseparáveis da história do cinema em si e duas interpretações de tal gabarito que a colocam logo nos lugares cimeiros do panteão do cinema: Scarlett O'Hara em "Gone With The Wind", o filme mais famoso de todo o sempre e Blanche DuBois em "A Streetcar Named Desire" (crítica do DPFP aqui).

Disse eu de Leigh em "A Streetcar Named Desire":

"Que Vivien Leigh tenha sido tão bem sucedida no papel (ainda para mais porque era a única dos quatro principais que não tinha ligação com o espectáculo na Broadway, tendo substituído Jessica Tandy na transformação da peça em filme) diz muito da sua verdadeira qualidade como actriz. Vivien incorpora a sua Blanche de tanta falsa felicidade (as cenas com Mitch (Karl Malden) são uma delícia, tal é  o desvario da sua cabeça), de tanta necessidade e urgência e desejo, balanceando-o com o graciosidade, charme e delicadeza, enquanto nos proporciona uma visão priveligiada da sua dor, da sua psique, que é fenomenal observar a sua abordagem muito única às suas personagens."



Hoje, 5 de Novembro, Vivien Leigh faria 98 anos e eu não posso deixar de pensar de quanto fomos nós privados por perdemos Leigh tão cedo (ela faleceu aos 53 anos). Quem dá duas interpretações assim ao mundo demonstra ter algo que pouquíssimas actrizes possuem: um potencial e um talento tremendo. É uma pena não ter surgido mais vezes e uma maior pena ainda ter desaparecido tão cedo.

ATTACK THE BLOCK (2011)




É o sucesso inglês do ano. O grande candidato aos BAFTA de 2011 mas que, curiosamente, não teve praticamente repercussão internacional. E, depois de ver o filme, é fácil perceber o porquê. Attack the Block é um filme mediano. E quando um filme é mediano, não aquece nem arrefece. Achei-o um pouco monótono, um pouco mortiço, um pouco sonolento. É uma ideia engraçada, não o nego. O oportunismo com que apareceu associado aos tumultos de Londres, fê-lo entrar num comboio de sucesso para o qual, à partida, não estaria preparado.


Tudo se passa num bairro social, onde um grupo de jovens utiliza os assaltos violentos para garantir a sua subsistência. Quando a jovem Sam regressa a casa e é atacada pelo gang liderado por Moses, um objecto estranho aparece do nada e cai em cima de um carro. O estrondo da queda permite a fuga de Sam e capta a atenção dos jovens que, ao perceberem que se trata de um alien, decidem mostrar a sua força e exercer a sua autoridade. A morte deste estranho animal traz consigo a desgraça do bairro social. O gang começa a ser perseguido por animais monstruosos e demolidores e vê-se a braços com uma guerra entre dois mundos, utilizando todos os artifícios à sua disposição para se defenderem.



Até podem achar o argumento interessante, mas eu considerei o filme bastante entediante e, até, medíocre. Não é o melhor do ano em Inglaterra. Nem estará certamente entre os cinco melhores.

Nota Final:

C+


Trailer:





Informação Adicional:

Realização:
Joe Cornish
Argumento: Joe Cornish
Ano: 2011
Duração: 88 minutos

GREEN STREET HOOLIGANS (2005)



"Once you've taken a few punches and realize you're not made of glass, you don't feel alive unless you're pushing yourself as far as you can go."


Hoje apeteceu-me falar de um dos meus filmes favoritos de 2005. Uma das melhores surpresas desse ano que passou quase despercebido por Portugal e foi praticamente ignorado e esquecido pela crítica mundial. Falo-vos de Green Street Hooligans, um dos poucos filmes em que Elijah Wood não faz aquele papel desconcertante de Frodo e em que o podemos ver num registo alternativo, com uma interpretação interessante e numa personagem muitíssimo bem elaborada.



Matt Buckner (Elijah Wood) é um promissor estudante de Harvard, que vê o seu futuro comprometido depois de ser injustamente expulso da famosa universidade devido a uma falsa acusação de posse de cocaína. Decide então fazer uma mudança radical na sua vida e muda-se para Londres, cidade onde vive a sua irmã Shannon.


Aí conhece Pete Dunham (Charlie Hunnam), irmão mais novo do seu cunhado, que o introduz num dos mais obscuros e perigosos ambientes do mundo: Fan incondicional do West Ham, Pete é também um dos principais líderes da claque do clube e, com orgulho, faz parte de um dos mais perigosos movimentos Hooligan de Londres. Com o tempo, Matt é introduzido no grupo e vive uma das mais marcantes experiências da sua vida.


Com uma banda sonora que mistura grandes músicas com os mais carismáticos hinos do futebol inglês (possivelmente, a melhor Liga de Futebol do mundo), Green Street Hooligans é um retrato marcante e cruel da violência futebolística, das motivações por detrás dos temíveis grupos de fans que assombraram não só a Inglaterra, como também a Europa, durante muitos anos, das consequências que actos irrefletidos e irresponsáveis têm em jovens e famílias. É daqueles em que o espectador vai adorar, do início ao fim.


Nota Final:
B+


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Lexi Alexander
Argumento: Lexi Alexander
Ano: 2005
Duração: 109 minutos

MADE IN DAGENHAM (2010)

 

"That's how it should be!"


Como sabemos, as mulheres nunca tiveram vida fácil neste mundo. Tudo o que lhes foi concedido, até hoje, foi através de grande esforço, muitas vezes de grandes privações e sobretudo a partir de muita luta contra a desigualdade que existe - mesmo hoje - entre o sexo masculino e o sexo feminino. MADE IN DAGENHAM passa-se em 1968, numa altura em que as mulheres, felizmente, já podiam votar e tinham assegurados os principais direitos humanos mas onde, contudo, eram pagas muito menos em relação aos homens. Estas grandes mulheres, que trabalhavam mais e melhor que todos os homens que conheciam, eram tratadas como amadoras no seu trabalho para que pudessem ser mal pagas e poupar dinheiro às suas fábricas, dominadas todas na generalidade por homens que pouco ou nada tinham em consideração as mulheres trabalhadoras. Mal sabiam eles que tudo mudaria em pouco tempo.


As maquinistas costureiras da Ford de Dagenham iriam iniciar uma revolução a todos os níveis improvável mas com repercussões impressionantes: seriam elas as primeiras mulheres da história a fazer greve por uma melhoria de condições de trabalho e de salários e seriam elas as primeiras mulheres a conseguirem o que queriam. Reclamavam, sobretudo, igualdade. Uma vez que faziam exactamente o mesmo serviço e cumpriam as mesmas horas que os homens, por que razão não haveriam de ganhar o mesmo? Lideradas pela fantástica Rita O'Grady (Sally Hawkins), estas mulheres extraordinárias conseguiram o impossível naquele tempo: triunfar num mundo onde os homens tinham sempre a palavra final. Imensamente divertido e fácil de seguir, encantador e irreverente, descontraído e com uma mensagem importante, MADE IN DAGENHAM é um filme que promete entreter e fazer vibrar quem o vê enquanto passa, de forma grosseira, um olhar pela história da emancipação das mulheres.


É difícil caracterizar a prestação de Sally Hawkins, já o disse anteriormente - é uma actriz completa, uma pessoa cuidada e muito sóbria que quando mergulha na pele das personagens se transforma, tornando-se contagiante, extrovertida, irresistível e impossível de parar de ver. Um verdadeiro camaleão, por outras palavras. Em MADE IN DAGENHAM, mais uma vez, esta capacidade de dotar de um completo realismo as suas personagens volta a dar jeito, com Hawkins a dar ao cinema mais uma personagem inesquecível. Rita O'Grady, com todos os seus defeitos e virtudes, é uma personagem inolvidável. A forma sagaz como Hawkins alterna entre o alegre e divertido, o subtil e sério e o vulnerável e receoso é fabulosa. A viagem de Rita neste filme, passando de uma ordinária mulher, inteligente, que só quer viver o seu dia-a-dia em paz a uma negociadora nata, uma voz inesperada surge de dentro para vir inspirar e comandar estas mulheres a fazer o que é certo.


Felizmente, o elenco que a acompanha não se deixa ofuscar com a sua prestação gloriosa. Andrea Riseborough é deliciosa num papel pequeno mas memorável. Miranda Richardson é uma ameaça que todo o seu ministério já devia ter aprendido a não ignorar; pequena mas autoritária, uma mulher poderosa que usa tudo o que tiver ao seu dispor para vincar a sua opinião. Bob Hoskins é divertidíssimo como o representante de sindicato, inesperadamente do lado destas mulheres em vez de defender a classe masculina a que pertence, porque sabe o esforço que estas mulheres passam, desdobrando-se em múltiplas tarefas nunca sendo recompensadas devidamente. Rosamund Pike é luminosa nos momentos em que se encontra no ecrã. Daniel Mays faz um fantástico par com Hawkins, proporcionando-nos uma cara-metade digna de Rita.


No fim das contas, esta história resume-se a uma coisa apenas: igualdade. Se as mulheres trabalham o mesmo que os homens, cumprem as mesmas horas, realizam o mesmo trabalho, por que razão não haveriam de ganhar o mesmo? É assim mesmo que pensa Rita O'Grady - que sabe o trabalho que faz, sabe o quão bem o faz e sabe perfeitamente quanto recebe ela e quanto recebe o marido, em condições de trabalho semelhantes. E que portanto quer receber o que tem direito. Acompanhada por mulheres com muito fogo na alma e paixão no coração, viria instaurar uma revolução que iria mudar para sempre a forma como as mulheres viriam a ser consideradas no seu posto de trabalho. Depois da conquista de O'Grady e companhia, a grande maioria das empresas e fábricas do mundo inteiro reviu os seus estatutos do trabalhador e melhorou as condições salariais e de trabalho para as mulheres. Tudo partiu de uma pessoa, de uma voz improvável - mas era a voz que era preciso para ser dada razão às mulheres. "That's how it should be" - é bem verdade.

Nota Final:
B/B+

Informação Adicional:
Realização: Nigel Cole
Argumento: William Ivory
Elenco: Sally Hawkins, Andrea Riseborough, Rosamund Pike, Daniel Mays, Bob Hoskins, 
Banda Sonora: David Arnold
Fotografia: John de Borman
Ano: 2010

Trailer:




FOUR LIONS (2010)



"They'll pump you full of Viagra. Make you fuck a dog!"


Há muito tempo que não ria com tanta vontade. Four Lions é absolutamente desconcertante, e ao conseguir ridicularizar alguns dos mais obscuros tabus sociais de uma forma tão simples e criativa, transformou-se, naturalmente, num dos melhores filmes de 2010.


O filme não é mais do que uma inteligente sátira sobre os ataques suicídas aos países do ocidente, desenvolvendo a sua história a partir das reuniões de um grupo de cinco amigos, liderado por Omar (claramente o mais perspicaz do gang) que começa por viajar juntamente com Waj até ao Afeganistão, local de onde fogem depois de um conjunto de problemas tão caricatos quanto ridículos. É impossível ficar indiferente.


Enquanto os dois estão ausentes de Inglaterra, Barry recruta Hassan, um promissor revolucionário, que simula um ataque suicida ao som de um RAP de Tupac num dos pontos altos do filme. Juntamente com Fessal, os três começam os preparativos para a grande missão das suas vidas.


Com o regresso de Omar e Waj, o grupo começa a delinear a estratégica a seguir e o alvo a atacar. Cedo se percebe que o plano tem tudo para correr mal mas, fintando os inúmeros contra-tempos que os próprios "bombistas" conseguem criar, o grupo chega, mal e porcamente, à última etapa da sua jornada. E a um passo da grande decisão, qual o caminho que estes fiéis revolucionários irão tomar? A resposta fica para o leitor descobrir.


É fantástico. É humor do mais negro e ácido que vi em 2010. Christopher Morris, vencedor do BAFTA em 2010 para "Outstanding Debut by a British Writer, Director or Producer" vai andar debaixo do meu olho. O do seu também, espero.

Nota Final:
A-



Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Christopher Morris
Argumento: Christopher Morris
Ano: 2010
Duração: 97 minutos

ANOTHER YEAR (2010)



"Life is not always kind, is it?"


Que diriam vocês se alguém decidisse entrar dentro de vossa casa, no seio da vossa família e entre os vossos amigos, e começasse a filmar o vosso dia-a-dia, durante um ano inteiro? Parece... aborrecido, não é? Sem qualquer propósito. Afinal, as nossas vidas nada têm de especial. É, talvez, este ingrediente que mais atrai ao virtuoso realizador Mike Leigh, que volta a pegar na rotina diária de pessoas ordinárias, sem qualquer feito de relevo, para nos mostrar todo o tipo de lições sobre o que é ser feliz e como lá chegar. 

 
Relembro que este é o mesmo homem que nos presenteou há dois anos com o magnífico "Happy-Go-Lucky", que nos proporcionou um valente soco no estômago com "Vera Drake" e que produziu clássicos intemporais como "Secrets and Lies", "Naked" e "Topsy-Turvy", um homem brilhante a explorar o que há de mais puro e impressionante no drama da vida  que tem um olho e um instinto certeiros para a comédia humana, um observador fascinante do comportamento humano e sobretudo com um genuíno talento para uma forma invulgar de fazer cinema: sem julgamentos. 

O filme segue o dia-a-dia de um casal ao longo de um ano, com vizinhos e amigos e família a aparecerem em diferentes momentos ao longo das quatro estações do ano. Não há muito mais que aconteça no filme. Contudo, no que algumas pessoas preferem ver aborrecimento e monotonia, eu prefiro ver realismo, porque a nossa vida, a vida da grande maioria das pessoas que passa por este mundo, é assim. Não se passa muita coisa. Gerri e Tom (Ruth Sheen e Jim Broadbent) são um casal de meia-idade feliz, que faz questão de aproveitar o melhor que a vida tem para oferecer, que tem as portas sempre abertas a visitas. De uma felicidade genuína e palpável, inteligentes, amáveis e carinhosos, fornecem um excelente contraste em relação às visitas que lá aparecem por casa, não tão ajustados e com a vida resolvida como eles. 

 
A química e a empatia que Sheen e Broadbent conferem aos seus personagens é incrível, dotando-os igualmente de uma fascinante cumplicidade, de modo que muitas vezes só uma troca de olhares ou de uma palavra entre eles diz milhões de coisas que pensam mas não ousam dizer. Tudo isto transforma-os num convincente casal que fica contente por receber os amigos e que verdadeiramente torna a sua estadia o mais agradável possível. É impossível ver o filme e não pensar o quão divertido e reconfortante seria visitá-los neste preciso momento.


A interpretação de Sheen e Broadbent tem ainda outro condão: o de deixar a Lesley Manville a possibilidade de explodir com o cenário. Que interpretação formidável. Possivelmente a melhor que vi, em termos de actrizes secundárias, este ano. Mary está completamente perdida. Está tão perdida que já nem sequer parece ter conserto - algo que dá para perceber logo que a vemos, nem precisávamos que Tom e Gerri, na cama à noite, após mais uma das visitas de Mary, comentassem: "It's so sad". Mary é uma mulher na casa dos quarenta, divorciada, que bebe demasiado, que é completamente inapropriada a maioria das vezes que fala (diz sempre o que pensa), que repete a mesma piada milhares de vezes, que comete imensos faux-pas em socialização normal e que, sem noção da sua situação real, continua convencida que está no pico da sua vida e portanto que o homem perfeito há-de vir ter com ela - e tanto assim é que ela se julga capaz de afastar Kenny, mais um dos amigos de Gerri e Tom que aparece para visitar, também ele solteiro (melhor, divorciado) e que busca em Mary uma companhia para o resto dos seus dias.


Trágica mas divertidíssima, frágil mas humana, neurótica a ponto de fingir despreocupação para se convencer a si própria do contrário, impossível de agradar e aturar em certas alturas mas também impossível de enxotar quando já bebeu mais do que uns dois, três copos, Mary é simplesmente inesquecível. Uma interpretação electrizante, hábil a fugir da caricatura e transformando Mary numa roda viva de emoções e transportando-nos a nós com ela, Lesley Manville é magistral.

O argumento é genial. Construído a pensar em momentos superficiais, triviais do dia-a-dia, é na mensagem que reside no seu interior que se encontra toda a beleza.  A pacatez ingenuamente pode levar-nos a pensar que nada substancial se passa. Não se enganem, este é um filme profundo, pleno de situações cheias de humor mas com vários episódios dotados de maior tristeza e melancolia. Deve ser seguido com a maior das atenções, porque aqui, cada fala, cada olhar, cada variação na forma como cada personagem se comporta em relação às outras, conta. 


E, no fim de contas, não é assim a vida? Às vezes passa a correr, outras vezes leva tempo demais a passar, contudo aquilo que nos fica, no final, não são os acontecimentos que se passaram - são as pessoas com quem os passámos. Lembramos as amizades que fazemos e o tempo que passamos com elas, os abraços e beijos que trocamos com a família, as horas que partilhamos com quem trabalha connosco ou com quem estuda connosco. Os melhores momentos da nossa vida são, invariavelmente, aqueles que passamos com as pessoas que dão significado à nossa existência. E é isso que Mike Leigh tenta, afinal, transmitir.



Nota:
A-



Informações Adicionais:
Realizador: Mike Leigh
Argumento: Mike Leigh
Elenco: Jim Broadbent, Ruth Sheen, Lesley Manville, Karina Fernandez, Oliver Maltman, Peter Wight
Fotografia: Dick Pope
Música: Gary Yershon


Trailer:


ÚLTIMA HORA: Nomeados dos BAFTA 2011


Um par de dias complicados este. A ver se retomamos o trabalho normal hoje ou amanhã (e responder aos vossos comentários). Entretanto, espero vir cá comentar os resultados dos Globos de Ouro e dos BFCA Critics' Choice Awards, que decorreram, como sabem, no fim-de-semana (quem me segue pelo Twitter sabe que comentei a cerimónia por lá; não pude fazer liveblogging). E ainda hei-de ver se arranjo tempo para fazer um comentário geral aos prémios dos críticos americanos e aos Guilds (DGA/PGA/WGA).


Mas vá, pegando no que me trouxe aqui... Foram anunciados há pouco os nomeados para os British Academy Film and Television Awards (BAFTA) 2011 (há cerca de algumas semanas haviam sido reveladas as longlists, que já faziam prever várias destas nomeações), que nos trouxeram algumas surpresas que eu deixo em discussão abaixo:

Melhor Filme:
“Black Swan”
“Inception”
“The King’s Speech”
“The Social Network”
“True Grit”

Melhor Filme Britânico:

“127 Hours”
“Another Year”
“Four Lions”
“Made In Dagenham”
  “The King’s Speech”

Melhor Realizador:
Darren Aronofsky, “Black Swan”
Danny Boyle, “127 Hours”
David Fincher, “The Social Network”
Tom Hooper, “The King’s Speech”
Christopher Nolan, “Inception”

Melhor Actor:
Javier Bardem, “Biutiful”
Jeff Bridges, “True Grit”
Jesse Eisenberg, “The Social Network”
Colin Firth, “The King’s Speech”
James Franco, “127 Hours”

Melhor Actriz:
Annette Bening, “The Kids Are All Right”
Julianne Moore, “The Kids Are All Right”
Natalie Portman, “Black Swan”
Noomi Rapace, “The Girl With the Dragon Tattoo”
Hailee Steinfeld, “True Grit”

Melhor Actor Secundário:
Christian Bale, “The Fighter”
Andrew Garfield, “The Social Network”
Pete Postlethwaite, “The Town”
Mark Ruffalo, “The Kids Are All Right”
Geoffrey Rush, “The King’s Speech”
 
Melhor Actriz Secundária:
Amy Adams, “The Fighter”
Helena Bonham Carter, “The King’s Speech”
Barbara Hershey, “Black Swan”
Lesley Manville, “Another Year”
Miranda Richardson, “Made In Dagenham”

Melhor Argumento Adaptado:

“127 Hours”
"The Girl With the Dragon Tattoo”
“The Social Network”
“Toy Story 3″
“True Grit”

Melhor Argumento Original:
“Black Swan”
“Inception”
“The Fighter”
“The Kids Are All Right”
“The King’s Speech”

Melhor Filme Estrangeiro (não em língua inglesa):
“Biutiful”
“I Am Love”
“Of Gods and Men”
“The Girl With the Dragon Tattoo”
“The Secret In Their Eyes”

Melhor Filme Animado:
“Despicable Me”
“How To Train Your Dragon”
“Toy Story 3″

Melhor Fotografia:
“127 Hours”
“Black Swan”
“Inception”
“The King’s Speech”
“True Grit”

Melhor Direcção (Produção) Artística:
“Alice In Wonderland”
“Black Swan”
“Inception”
“The King’s Speech”
“True Grit”

Melhor Guarda-Roupa:
“Alice In Wonderland”
“Black Swan”
“Made In Dagenham”
“The King’s Speech”
“True Grit”

Melhor Edição/Montagem:
“127 Hours”
“Black Swan”
“Inception”
“The King’s Speech”
“The Social Network”

Melhor Maquilhagem:
“Alice In Wonderland”
“Black Swan”
“Harry Potter And The Deathly Hallows Part 1″
“Made In Dagenham”
“The King’s Speech”

Melhor Banda Sonora Original:

“127 Hours” (A.R. Rahman)
“Alice In Wonderland” (Danny Elfman)
“How To Train Your Dragon” (John Powell)
“Inception” (Hans Zimmer)
“The King’s Speech” (Alexandre Desplat)

Melhor Efeito de Som:
“127 Hours”
“Black Swan”
“Inception”
“The King’s Speech”
“True Grit”

Melhores Efeitos Visuais:
“Alice In Wonderland”
“Black Swan”
“Harry Potter And The Deathly Hallows Part 1″
“Inception”
“Toy Story 3″

Rising Star Award (Prémio Actor Revelação):
Gemma Arterton
Andrew Garfield
Tom Hardy
Aaron Johnson
Emma Stone

Carl Foreman Award 
(Prémio Revelação para Argumentistas, Realizadores e Produtores britânicos):
Clio Barnard, “The Arbor”
Banksy and Jaime D’Cruz, “Exit Through the Gift Shop”
Gareth Edwards, “Monsters”
Chris Morris, “Four Lions”
Nick Whitfield, “Skeletons”


Vamos então às minhas considerações:


  • Continua a surpreender-me o contínuo apoio (injustificado) a "Alice in Wonderland", que sem dúvida irá continuar nos Óscares (com nomeações certas para Maquilhagem e Direcção Artística e, neste momento, com Banda Sonora também provável) - os BAFTA decidiram ainda ir mais no ridículo e nomeá-lo também para Melhores Efeitos Visuais;

  •  A propósito da categoria de Melhores Efeitos Visuais, o que está lá "Toy Story 3" a fazer? Acima de "Iron Man 2" e "TRON: Legacy"? A sério? E "Scott Pilgrim vs. the World"? Enfim;

  • Na categoria de Melhor Banda Sonora Original, prefiro pegar na saborosa nomeação de John Powell por "How To Train Your Dragon" (só peço que os Óscares imitem) do que pegar na ausência de Trent Reznor e Atticus Ross. Não consigo engendrar na minha cabeça qual a linha de pensamento deles para acharem sinceramente que a banda sonora de "Alice in Wonderland" é melhor. Aliás: se eles não queriam votar em Reznor & Ross, ao menos podiam ter apostado em Rachel Portman, que sempre é britânica, a dar música a um dos filmes britânicos de maior nome do ano. Nem isso;

  • As nomeações para Melhor Actriz deixaram-me completamente confuso e só nos vem mostrar que nada, além de Portman e Bening, é seguro. Não é que dê muita importância aos BAFTA e não é que existam maiores alternativas, mas começo a temer um pouco pela vulnerabilidade de Kidman e de Lawrence (embora ache que as duas estarão nomeadas). Seria interessante se Moore conseguisse a nomeação (mais curioso ainda é achar que Rapace pode ter pedalada para lá chegar - tem-se mantido surpreendentemente dentro da conversação);

  • Por falar nisso, a Academia Britânica gostou realmente de "The Girl With the Dragon Tattoo", ou não lhe tivesse dado a nomeação para Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Actriz e, algo que me apanhou de surpresa, Melhor Argumento Adaptado. Na lista longa era "Winter's Bone" o quinto classificado - o que ainda me deixa mais chocado, porque era tão mais merecedor da nomeação (e do empurrão que isso significaria em termos de Óscar);


 
  • Entretanto, Hailee Steinfeld ("True Grit") continua a passos largos a sua ubiquidade, seja como Actriz principal ou Actriz Secundária. Tirando os BFCA, foi nomeada para tudo. Começo a achar impossível que ela falhe a nomeação para Óscar, se bem que começo a pensar também que o quinto lugar na categoria de Melhor Actriz é dela, abrindo lugar para Jacki Weaver ser nomeada. Daria os parabéns aí à Academia, como dou agora à Academia Britânica: se se gosta de uma interpretação, é bom que se lhe dê valor onde ela pertence. Infelizmente, num ano de magníficas interpretações femininas, não percebo porque se há-de ir buscar essa;

  • Já que pegamos em "True Grit", dizer também que estou admirado com a sua forte presença em várias categorias, com "The Social Network", aqui, a conseguir pior do que costume (o que já era previsto). "The King's Speech", muito devido à custa do seu forte contingente britânico, é o cabeça das nomeações com 14 no total;


  • Uma das categorias mais intrigantes do dia é a de Melhor Actriz Secundária, com a actual favorita e eventual vencedora do Óscar (Melissa Leo) a ser ignorada completamente na lista final (o que se deve provavelmente ao forte voto nas compatriotas Lesley Manville e Miranda Richardson, que conseguiram lugar entre os nomeados). Além disso, também Mila Kunis ("Black Swan") é trocada pela veterana Barbara Hershey (algo com que já se contava, dado ela ser uma das mais votadas da lista longa). Uma vitória de Amy Adams ou Helena Bonham-Carter faria maravilhas para espicaçar um pouco a corrida, não? Bem precisa;

  • Há que dar os parabéns pelo gesto bonito dos BAFTA em nomear Pete Postlethwaite, recentemente falecido, para Melhor Actor Secundário por "The Town", nomeação essa que deveria ser (e será nos Óscares, em princípio) de Jeremy Renner. A Postlethwaite se juntam os favoritos Garfield, Rush e Bale e, algo que me agradou imenso, Mark Ruffalo (que muitos diziam estar a cair na corrida);

  • Também Javier Bardem, além de Ruffalo, Moore, Hershey, Richardson e Manville veio ganhar um pouco de revitalização na sua campanha, com uma nomeação para Melhor Actor - aqui, não houve surpresas além desta, com os quatro candidatos às nomeações nos Óscares (Firth, Franco, Eisenberg e Bridges) a pontuar. A luta será realmente entre Bardem, Gosling e Duvall para aquele quinto lugar; 



  • Há que queixar-me ainda da nomeação de "Despicable Me", que por muito engraçado que seja, é uma pálida comparação em termos de qualidade ao lado de "Tangled" e "L'Illusioniste" e que cada vez mais me preocupa que os vá ultrapassar e tornar-se o terceiro nomeado para os Óscares também. Se isso acontecer, não me vão calar por um mês;
  • É, finalmente, curioso o forte apoio (quase que funciona como campanha) a "127 Hours", coisa que não consigo conceber sem olhar para lá do facto de ser de Danny Boyle e de ser britânico. A nomeação deste para Melhor Realizador pode ser um indicador interessante que ainda há gente disposta a votar nele em vez de O'Russell ou dos irmãos Coen. Aliás, este é um dado que considero interessante: ambos os filmes foram nomeados em várias categorias, mas com esta particularidade: "127 Hours" não conseguiu ser nomeado para Melhor Filme contudo foi para Melhor Realizador; já "True Grit" foi nomeado para Melhor Filme não conseguindo no entanto nomeação para Melhor Realizador.

E é isto, meus caros. Os BAFTA são entregues a 13 de Fevereiro.