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DIAL P FOR POPCORN

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Previsões Óscares 2013 (I): Actor Secundário


Como habitualmente, esta promete ser uma categoria difícil de resolver (no que a nomeados diz respeito) mas fácil de premiar (o vencedor é - excepção feita ao ano passado - alguém que costuma fazer uma limpeza geral aos prémios todos do circuito). A categoria do ano passado, apesar de excitante de seguir pelo fluxo de gente a entrar e a sair a cada conjunto de nomeações e prémios anunciados e pelos múltiplos vencedores que foi tendo ao longo da época de premiações, acabou por reunir uma colecção de antigos galardoados com o prémio algo enfadonha, quando um bocadinho de colorido aqui e ali - McConaughey ("Magic Mike"), Samuel L. Jackson ou Leonardo DiCaprio ("Django Unchained") ou Javier Bardem ("Skyfall") - traria mais alguma diversidade e interesse à corrida. A vitória sorriu a Christoph Waltz, que reciclou para "Django Unchained" a sua personagem Hans Landa de "Inglorious Basterds". Pronto, o homem dá-se bem com diálogos do Tarantino - e daí? Quer dizer que o homem ganha um Óscar basicamente sempre que lhe apetece fazer por isso? Daqui a pouco é o novo Daniel Day-Lewis (já não falta muito, só mais uma estatueta).


Muitos dos homens mencionados acima voltam à corrida este ano. Matthew McConaughey terá uma temporada de campanha em cheio, porque seja como actor principal ("Dallas Buyers' Club") seja como actor secundário ("Mud" e "Wolf of Wall Street", provavelmente este último será a sua melhor hipótese, embora terá também que lutar internamente contra Jonah Hill, nomeado em 2011 e que poderá ter possivelmente nova hipótese), tem várias oportunidades para tentar a nomeação. Outro actor roubado de uma nomeação o ano passado  (podemos falar de duas consecutivas, contando com "Shame" o ano antes também) foi Michael Fassbender. O homem regressa à competição tanto em actor principal ("The  Counselor") como em actor secundário - e deverá ser nesta última que terá mais hipóteses, por "12 Years a Slave" de Steve McQueen. O papel clama atenção da Academia (vilão, crueldade para os escravos, filme de época, actor no timing certo - tudo aquilo que eles gostam nesta categoria). Veremos se pega. 


Um recente nomeado de volta é Mark Ruffalo por "Foxcatcher", o novo filme de Bennett Miller que promete fazer estrago na corrida - é um projecto pessoal do próprio (que conseguiu nomeações para filme, actor e um dos seus actores secundários para os seus dois primeiros filmes, "Capote" e "Moneyball"), é uma história verídica perturbante e conta com um elenco fantástico (liderado por Carell - já falado em actor principal, Ruffalo e Channing Tatum, outro com possibilidade de nomeação aqui). Ruffalo é querido pela indústria, já conseguiu o mais difícil - ser nomeado (2010), que parecia que nunca iria acontecer - e portanto pode pensar (o papel também ajuda) em repetir o feito. Outros nomeados recentes a ter em conta também são Bradley Cooper e Jeremy Renner pelo novo filme de O. Russell (se "American Hustle" provar ser tão diverso e dar tanto que fazer como os filmes prévios de O. Russell, é de esperar que algum dos actores secundários - entre Renner, Lawrence e Cooper - consiga um bom papel e respectiva nomeação), Matt Damon ou George Clooney (falta sabermos quem é o real protagonista de "The Monuments Men" e se haverá mais alguém do elenco secundário a roubar cenas, como Bob Balaban ou Bill Murray por exemplo) e Javier Bardem (que já venceu a categoria, tal como Clooney) e Brad Pitt por "The Counselor" de Ridley Scott. George Clooney tem ainda um papel secundário que desperta muita curiosidade em "Gravity" de Alfonso Cuarón (temo que este filme não vá resultar ou não vá ser do agrado da Academia, à la "Children of Men", mas Clooney e Bullock são mel para a crítica e para o grande público por isso pode ser que se dê bem) e Jeremy Renner obteve ainda boas críticas pela sua prestação em "The Immigrant" de James Gray, já discutido previamente. Também falado anteriormente em melhor actor mas de nota aqui é a interpretação de Josh Brolin em "Labor Day" de Jason Reitman - isto porque a interpretação pode tão facilmente ser considerada principal como secundária, como penso que irá acontecer - o que o fará (tendo em conta o papel), se o filme tiver sucesso, um dos favoritos a vencer.


Além da grande percentagem de regressos que comummente pautam as listas de nomeados aos Óscares todos os anos, constam sempre nomes novos (não o ano passado mas, como já referido, foi uma excepção).  Tony Danza ("Don Jon") numa espécie de prémio por uma carreira relevante na indústria (e parcialmente porque toda a gente gosta do homem), Will Forte ("Nebraska") se o filme cativar muitos membros da Academia e arrastar consigo algumas nomeações menos óbvias para lá de argumento, realizador, filme e actor - o mesmo é aplicável a Jared Leto ("Dallas Buyers Club"), Daniel Brühl ("Rush") porque todos os anos há sempre um actor com uma transformação física espantosa na conversação, Tim Roth ("Grace of Monaco") pelas mesmas razões de Will Forte só que muda actor para actriz - o mesmo se aplica a Steve Coogan ("Philomena") e a Benedict Cumberbatch ("August: Osage County"), se bem que este tem ainda o bónus adicional de estar no momento exacto e na transição para A-List para esta premiação suceder. Falta ainda referir o homem camaleão, um dos verdadeiros character actors da actualidade, que surge em vários filmes por ano e em todos é bom mas acaba sempre por não obter reconhecimento - será este o ano de John Goodman? E por que filme? "Saving Mr. Banks", "Inside Llewyn Davis" (pelas críticas, o mais provável) ou "The Monuments Men"?

Pergunta final: e começar a montar uma campanha para Ewan McGregor ser nomeado por "August: Osage County"? É que não é só "Moulin Rouge!", "Trainspotting", "Velvet Goldmine", "Shallow Grave", "Big Fish", "Young Adam"... Já vai numa sequência seguida de grandes interpretações - "I Love You Philip Morris", "The Ghost  Writer", "Beginners", "The Impossible"... Quanto mais tempo demorarem, Academia, maior é a vergonha...


Previsão dos nomeados:
Javier Bardem, "The Counselor"
Bradley Cooper, "American Hustle"
Michael Fassbender, "12 Years a Slave"
Matthew McConaughey, "Wolf of Wall Street"
Mark Ruffalo, "Foxcatcher"

E o Óscar (não) vai para...



É sempre chato ser o perdedor. Ainda para mais quando se é consecutivamente. Always the bridesmaid, never the bride, como reza a expressão inglesa. Em tempos recentes, Meryl Streep era o exemplo consumado de uma perdedora nos Óscares: dezassete nomeações, venceu à segunda (1979) e terceira vez (a primeira como actriz principal, por "Sophie's Choice", 1982) e apesar de anos e anos de contínua excelência e interpretações de mérito, só trinta anos depois ("The Iron Lady", 2011) a sorte lhe voltou a sorrir. Outro exemplo clássico de tempos recentes foi Jeff Bridges, por muitos considerado o maior actor americano vivo, que recebeu a sua primeira nomeação em 1971 ("The Last Picture Show") e precisou de mais quatro e de chegar ao ano de 2009 para receber a sua primeira estatueta. Mais um exemplo comum é o de Kate Winslet, excelente desde que surgiu em "Heavenly Creatures" no princípio da década de noventa e nomeada pela primeira vez em 1995 por "Sense and Sensibility", levou mais de vinte anos de versatilidade e brilhantismo em diversas interpretações para, à sua sexta nomeação, conquistar o troféu tão ambicionado (2008, "The Reader").


Pego neste tema hoje porque estava a vasculhar artigos antigos que tinha guardado para futura memória e veio-me parar às mãos (metaforicamente, vá, porque no fundo, foi através de um clique de rato) este artigo de 2008 do Nathaniel Rogers do The Film Experience que especulava quem seguiria as pisadas de Kate Winslet a vencer um Óscar há muito já merecido. Adoro como o artigo e os comentários funcionam como uma cápsula do tempo de há cinco anos atrás e como tanta coisa mudou desde então. A lista de 2008 reflectia a proeminência, então, de Johnny Depp, que muitos cotavam como um vencedor óbvio a curto prazo. Também antevia que Streep vencesse novo troféu (o que acabou por acontecer) e a terceira aposta mais popular era curiosamente Ralph Fiennes (estupidamente roubado em 1993 por "Schindler's List"). Bridges era o quinto da lista, liderada no topo por Michelle Pfeiffer, a actriz preferida do Nathaniel, que faz uma defesa bastante fundamentada pelo título de actriz mais negada pela Academia. Curiosamente, da lista de 2008, três actores receberam nomeações (mas não os três que Nathaniel apostou): Bridges (que venceu e ainda conseguiu mais uma nomeação), Streep (que conseguiu um Óscar e outra nomeação) e... Annette Bening, nomeada em 2010 por "The Kids are All Right".


Volvidos cinco anos, é engraçado analisar estas premonições. Depp está a atravessar um momento inigualável de seca criativa na sua carreira, parecendo ter perdido toda a imaginação e originalidade que trespassava para as suas antigas interpretações. Terá estado perto de mais uma nomeação em 2009 por "Public Enemies" mas desde então nunca mais fez nada que merecesse consideração. Em 2009 também sucedeu o último ataque de Pfeiffer à estatueta. "Chéri" não resultou em nada. Fiennes virou entretanto realizador e também pouco mais se viu, desde que em 2008 voltou a ser ignorado tanto por "The Duchess" como por "In Bruges".  Ian McKellen e Joan Allen praticamente já não aparecem em filmes. Sigourney Weaver tentou a rota da televisão ("Political Animals") sem sucesso e continua esporadicamente a surgir aqui e ali, sem nota de destaque. Julianne Moore saltou também para o pequeno ecrã para ganhar um Emmy e um Globo de Ouro ("Game Change"), depois de ser negada mais uma nomeação em 2009 ("A Single Man") e outra em 2010 ("The Kids Are All Right"). Annette Bening é a única a trabalhar consistentemente com qualidade lado a lado com Moore.


Outra curiosidade na lista é de Nathaniel ter mencionado que Glenn Close tinha desistido de caçar um Óscar. Cinco anos decorridos e ela juntou mais uma nomeação ao currículo ("Albert Nobbs", 2011) e parece ter regressado para tentar de novo a sorte. Helena Bonham-Carter foi outra das menções honrosas de Nathaniel que também conseguiu mais uma nomeação ("The King's Speech", 2010) e esteve provavelmente próxima da vencedora (Melissa Leo, "The Fighter"). E da lista dos renegados da Academia ("Oscar poison"), dois conseguiram prémios e ambos na mesma categoria e consecutivamente: Christopher Plummer (2011) e Christian Bale (2010).

Depois desta introdução, expliquemos ao que venho: em 2013, quem seriam as vossas apostas para vencer um Óscar a curto prazo por já ter feito para merecer um? Por outras palavras, quem vai conseguir juntar a trifecta buzz, timing e body of work?

Cá vão as minhas dez escolhas.



Menção Henrosa (porque me esqueci dela):
Michelle Williams
Tem três nomeações, só uma delas por um trabalho Oscar friendly ("My Week with Marilyn"). Eu sou da opinião que ou consegue um papel que torne a vitória inevitável (tipo Natalie Portman, "Black Swan") ou então nunca vai ganhar, tudo porque ela não aceita papéis a pensar em prémios, prefere personagens difíceis e complicadas, o que lhe ganha admiradores fervorosos mas não faz a Academia gostar dela como gosta, por exemplo, de Amy Adams. A verdade é que desde 2005 que a moça trabalha a alta rotação: "Brokeback Mountain", "Shutter Island", "Wendy & Lucy", "Synecdoche New York", "I'm Not There", "Meek's Cutoff", "Blue Valentine", "Take this Waltz", "My Week with Marilyn". Vai ter de aceitar mais papéis como o próximo filme, "Suite Française", para ter possibilidade de vencer.




10. e 9. 
Michael Fassbender / Jessica Chastain
Criei aqui um empate, à batoteiro, para mencionar estes dois casos. O primeiro ainda nem sequer conseguiu uma nomeação, mas em termos de popularidade e aclamação crítica e afirmação no panorama cinematográfico estão, diria, mais ao menos taco a taco. Falemos de Fassbender primeiro. "Hunger" e "Shame" são vergonha suficiente para a Academia nem sequer ter tido lata de o nomear. Então pelo segundo filme é qualquer coisa de incrível. Pelo meio junte-se "Fish Tank", "A Dangerous  Method" e "Jane Eyre". Até filmes de género de qualidade ele fez - "X-Men: First Class" e "Prometheus". Do novo Malick, do novo McQueen ou do novo Ridley Scott há-de sair qualquer coisa, não? Agora Chastain. Duas nomeações em três, quatro anos de trabalho contínuo de grande qualidade (em 2011 tinha mesmo quatro, cinco interpretações dignas de nomeação, de "Take Shelter" a "The Tree of Life", de "The Help" a "Coriolanus"). Perdeu por pouco a corrida nas duas vezes que foi nomeada. É a menina querida dos cineastas "a sério" e junta a isso a admiração dos seus pares. Se continuar a este ritmo, a vitória não tardará muito.



8. Robert Downey, Jr.
Adicionem à mistura os ingredientes "rejuvenescimento", "reinvenção de uma carreira dada como perdida", "reabilitação muito aplaudida", "originador da fortuna recente da Marvel", "Sr. Tony Stark" (tão popular como Jack Sparrow no final da década de 2000), "vencedor do Globo de Ouro por Sherlock Holmes" e "nomeado ao Óscar por Tropic Thunder" e o que temos? Um actor que toda a gente quer ver ter sucesso. Bob, escolhe produzir para ti um filme daqueles em que sabes que podes reinar à grande - e o Óscar é teu. 



7. Viola Davis
Só pela humilhação que a Academia deve ter sentido de ter sido acusada de tirar a Viola Davis o Óscar por "The Help" para dar a Meryl Streep ("The Iron Lady") a mulher tem logo uns 100 pontos de vantagem na próxima vez que voltar à corrida. O difícil será conseguir um papel que a coloque em contenção. Será, contudo, só isso que bastará, porque só com uma interpretação titânica (pensemos Mo'Nique em "Precious") é que lhe vão arrancar o Óscar das mãos.



6. Brad Pitt
Três nomeações ("Moneyball" em 2011, "The Curious  Case of Benjamin Button" em 2008, "Twelve Monkeys" em 1995) não reflectem bem a enorme carreira deste homem. "Fight Club" e "Se7en" são óbvias e imperdoáveis omissões. Juntaria "The Tree of Life" e "Inglorious Basterds" à lista, mas poderia também citar "The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford", "Burn After Reading", "Snatch" e "Thelma and Louise" à lista de interpretações de elite. Brad Pitt pertence ainda a um clube especial da indústria, dos membros mais valorizados, como Clooney, DiCaprio ou até a sua cara-metade, Jolie. Também no caso deste é só preciso surgir um papel. Em 2011 esteve muito perto. Arrisco dizer que se a campanha de Dujardin não tivesse sido tão forte e seria ele e não o francês a roubar o Óscar a Clooney. Julgo que acabará eventualmente por vencer, seja como principal ou secundário.




5. Julianne Moore
"[safe]", "Boogie Nights", "Far From Heaven", "The Hours", "Magnolia", "The Kids Are All Right", "The End of the Affair", "Blindness", "Vanya on 42nd Street", "Saving Grace", "A Single Man", "Crazy, Stupid, Love", "Children of Men", "The Big Lebowski", "Hannibal", "I'm Not There", "The Fugitive", "The Hand that Rocks the Craddle", "Shipping News", "Cookie's Fortune" e "Psycho" de Van Sant. Disto tudo resultaram quatro nomeações. Continua a trabalhar com a dedicação, talento, versatilidade e excelência de sempre. Basta um papel certeiro. I rest my case.



4. Annette Bening
Quatro vezes nomeada, quatro vezes terminou em segundo lugar (não se sabe oficialmente mas suspeita-se). "The Grifters", "American Beauty", "Being Julia", "The Kids Are All Right". Duas vezes batida por escolhas consensuais (Portman em "Black Swan", Swank em "Boys Don't Cry"). E duas vezes batida por escolhas popularistas (Whoopi Goldberg em "Ghost" e Swank - a arqui-inimiga - em "Million Dollar Baby"). Tal como a moça acima, mantém o talento e a ambição intactas e apresenta frequentemente interpretações de luxo. Esperemos que algum ano tenha mais sorte, embora a personalidade distante e fria - de senhora sofisticada - seja um obstáculo difícil de ultrapassar. Os Óscares gostam mais das meninas bonitas e simpáticas. Que o diga Jennifer Lawrence.



3. Joaquin Phoenix
Um dos actores mais entusiasmantes dos dias que correm. Depois do fatídico ano de 2005 ("Walk the Line") e da sua segunda derrota dedicou-se a uma fase da sua vida mais experimental, não sem antes virar musa de James Gray (uma pena a Academia ter ignorado "Two Lovers" e "We Own the Night"). Voltou desse período conturbado com revigorada energia, virando a nova musa de Paul Thomas Anderson, que lhe rendeu nova nomeação e derrota este último ano ("The Master") e com nova produção a caminho ("Inherent Vice"). Este ano volta à corrida por "Her" e "The Immigrant". Será desta? Tal como Christian Bale, será mais um enfant terrible triunfador?



2. Leonardo DiCaprio
O mal amado. Tal como Kate Winslet, algum dia terá que ser a vez dele. E ao contrário de Winslet, o Leonardo sempre vai tentando produzir os seus próprios esforços, nunca se cansa, tem sempre mais que um projecto a sair e não se pode dizer que recorra sempre aos meus realizadores e tipos de papéis (se bem que a saga das personagens consecutivas com mulheres mortas e a atormentá-lo já enjoava). Nos últimos tempos foi de Scorsese para um blockbuster de Christopher Nolan, para um biopic de Clint Eastwood, para o mais recente êxito de Quentin Tarantino, para uma adaptação literária estilosa de Baz Luhrmann e de volta a Scorsese. Se isto não é variedade e pedigree, não sei o que será. Pecou pela juventude das três vezes que perdeu. A que mais doeu foi em 2004 ("The Aviator"). Tinha tudo para ganhar mas a Academia achou Ray Charles mais impressionante. Há-de chegar o dia (embora já me tenha passado pela cabeça que o Leo dava um bom "novo Peter O'Toole").




1. Amy Adams
"Junebug", "Doubt", "The  Fighter", "The Master". Sempre que ela esteve num filme popular com as massas ou com os críticos ou, pelo menos, num filme "à Óscar", ela foi nomeada. Pode-se dizer que foi ignorada por trabalho impressionante em 2007 ("Enchanted") mas a Academia nunca tocaria naquele filme nem por sombras. O amor que a instituição tem por ela, no entanto, bate fundo e parece não ter fim (quatro nomeações em apenas oito anos - 2005-2012 e das quatro vezes conseguidas a muito esforço - duas delas a par com uma actriz do seu filme - ou pelo menos assim parecendo mostram que a Academia gosta dela). Algum dia terá sorte. Será este ano com "American Hustle" ou "Her"? É que mesmo quando a moça tira um ano sabático para ter um filho, consegue manter-se sempre pertinente na indústria ("The Muppets" foi uma das grandes histórias de sucesso de 2011). Com o ritmo de trabalho dela, é uma questão de tempo até... lhe darem um Óscar ou esquecê-la de vez.


E para mais um Óscar, alguma aposta? Acho seguro assumir que Clooney, Streep, Seymour Hoffman, Winslet, Lawrence e Hathaway vão vencer mais Óscares. Mesmo Blanchett, Bale e Kidman, se bem que estes nem sempre façam filmes populares. Firth poderá repetir, dependendo do papel. O mesmo digo de Sean Penn, Russell Crowe, Tom Hanks e Denzel Washington. Dos veteranos, acho que DeNiro terá sempre boas hipóteses se - e é um grande se - quiser voltar aos grandes papéis (como este ano vimos, em "Silver Linings Playbook"), bem como as Dames Judi Dench, Maggie Smith e Helen Mirren porque são britânicas e essas trabalham para sempre. 

Isto, no fundo, não quer dizer nada. De repente, sem ninguém esperar, um actor arranja o papel de uma vida e lá chovem estatuetas e mais estatuetas. Quem diria que chamaríamos àquela simpática senhora nomeada por "Frozen River" em 2008 vencedora do Óscar? E quem apostaria que seria Sandy Bullock a ficar com o prémio de Melhor Actriz em 2009? E que Daniel Day-Lewis iria aproveitar um ano fraco para actores e ganhar um terceiro Óscar de Melhor Actor, juntando três prémios no espaço de 23 anos (1989, 2007, 2012) e pouco mais de dez papéis nesse tempo? E que de França viria um Jean Dujardin bater Pitt e Clooney? Lá está, isto das previsões não querem dizer absolutamente nada. Mas é sempre giro especular.



"12 Years A Slave" de Steve McQueen candidata-se a filme do ano


Steve McQueen é um dos mais brilhantes realizadores da nova geração, com os seus dois primeiros filmes, "Hunger" e "Shame", a transformá-lo num dos mais excitantes artistas a seguir no cinema moderno e a converter a sua musa, o alemão Michael Fassbender, num dos actores mais importantes dos últimos anos em Hollywood. Tem sido até agora ignorado pelas principais cerimónias de prémios, o que se percebe em parte pelo conteúdo difícil de digerir das suas duas películas (que também penalizou as fantásticas interpretações do seu protagonista). 

A maré de azar parece estar a mudar, pelo que o trailer do seu novo filme, "12 Years A Slave", indicia. Reunindo-se com a sua estrela (Fassbender), reabilitando (possivelmente) a carreira de um dos maiores actores afroamericanos deste século (Chiwetel Elijofor) e completando um elenco muito sólido com consumados profissionais (Brad Pitt, Paul Dano, Paul Giamatti, Scott McNairy, Garrett Dillahunt, Michael Kenneth Williams, Alfre Woodward e Sarah Paulson, entre outros), McQueen decide pegar no tema da escravatura no final do século XIX, o qual "Django Unchained",  o multi-nomeado aos Óscares o ano passado, também abordou.


Cá fica o primeiro grande trailer do ano. Muita promessa, muita expectativa, a confirmar em Veneza ou nos festivais de Outono (Telluride e Toronto).

KILLING THEM SOFTLY (2012)



"America is not a country, it's a business."

Estreou na semana passada nas salas de cinema portuguesas e é o Filme da Semana no Dial P for Popcorn. Killing Them Softly é a adaptação ao grande ecrã, por parte de Andrew Dominik (Chooper; The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford), do livro do escritor George V. Higgins, Cogan's Trade. Toda a acção se desenrola num curto espaço temporal, com momentos de acção intercalados por momentos de reflexão onde se nota um papel importante e influente do realizador e do principal actor (Brad Pitt), numa bonita e bem conseguida caricatura da sociedade americana. Não é um filme fácil de absorver e, admito, talvez seja necessária uma boa dose de paciência e vontade para alguns (poucos) momentos que têm tanto de monótonos como de supérfulos para toda a história.


Em linhas gerais, tudo começa com um assalto onde dois jovens desengonçados colocam em risco a sua vida por meia dúzia de dólares. Baseado num esquema visionário,  Johnny Amato (Vincent Curatola) contrata Frankie (Scoot McNairy) e Russell (Ben Mendelsohn) - duas surpreendentes interpretações! -  para um assalto ao salão de jogos de Markie Trattman (Ray Liotta), um charlatão que poucos meses antes havia cometido o erro de simular um falso assalto aos seus próprios clientes. Salvaguardados pela ideia de que, a repetir-se a situação, seria sempre em cima de Trattman que acabariam por cair as consequências dos seus actos, JohnnyFrankie e Russell relaxam e aproveitam o pouco dinheiro do assalto para o seu próprio gozo.


Os problemas (e a grande acção de todo o filme) aparecem quando o grupo de homens poderosos e sem escrúpulos, sentindo-se novamente gozados e ultrajados com o caricato assalto, decide contratar Jackie (Brad Pitt), um homem experiente e capaz de resolver os problemas com o à vontade de meia dúzia de balas. Mais uma excelente interpretação de um actor que, infelizmente, parece ainda acusar o fardo da imagem atraente e disponível que cultivou nos primeiros anos da sua carreira, tardando em receber o reconhecimento generalizado das suas versáteis capacidades enquanto actor. 


A caça ao homem é o grande trunfo deste filme, que vai juntando de forma sagaz e pertinente, algumas das frases mais emblemáticas (e comprometedoras) frases de George W. Bush e de Barack Obama. Com uma cena final que resume todo o intuito de um filme que se apresenta em sintonia com a sociedade americana dos dias de hoje, Killing Them Softly é uma surpresa que se torna agradável se o espectador assim o desejar. Volto a repetir. É preciso alguma dose de paciência e de vontade para se perceber e se desfrutar dos objectivos de Andrew Dominik. A partir daí, tem à sua disposição uma história rude, que se desenrola (quase sempre) numa cadência muito rápida e com momentos de grande cinema, interpretações de grande nível e um cunho muito forte de um realizador que vai, aos poucos, criando uma sólida e sustentada carreira no cinema.


Nota Final: 
B


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Andrew Dominik
Argumento: Adaptação de Andrew Dominik do livro de George V. Higgins
Ano: 2012
Duração: 97 minutos

Antevisão de KILLING THEM SOFTLY, de Andrew Dominik

Chegaram as primeiras imagens de Killing Them Softly, do realizador Andrew Dominik (Realizador de The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford), no qual Brad Pitt se apresenta como estrela principal de um filme sobre homens de barba rija. Do pouco que este clip nos deixa ver, fico na expectativa de um filme duro, cruel e intenso, onde a acção será tema central. Com estreia marcada para a próxima edição do Festival de Cannes, a partir dessa altura começaremos a ouvir as primeiras reacções ao mais recente filme de Dominik.




Crítica Dupla: MONEYBALL (2011)

Bem-vindos ao Crítica Dupla, um segmento que fazemos algo irregularmente aqui no Dial P For Popcorn, em que eu e o João nos debruçamos sobre um filme sobre o qual estamos bastante divididos, sobre um filme e a sua sequela, sobre um filme e o seu remake... Bem, penso que já perceberam. O objectivo é proporcionar uma discussão saudável, sem controvérsia, dos méritos do filme (ou dos filmes) de acordo com cada um de nós. Esta semana, o filme em foco é "MONEYBALL", de Bennett Miller, que originou opiniões bastante díspares cá no DPFP.





MONEYBALL, por Jorge Rodrigues:


"MONEYBALL" poderia tentar ser mais um filme sobre o triunfo no desporto, cheio de grandes cenas inspiradoras e elevadoras do espírito humano, que culminaria com uma enorme vitória ou abundante prosperidade ou uma lição de vida aprendida. Os grandes filmes que envolvem desporto (desde "The Fighter" a "Rocky", de "Field of Dreams" a "Remember the Titans") são todos assim. Felizmente, "MONEYBALL" optou simplesmente por ser uma poética homenagem a Billy Beane e aos Oakland Athletics, que independentemente de terem vencido ou perdido, contrariam o ditado que para a história só ficam os vencedores, deixando uma marca indelével, revolucionária, no jogo que tanto amam. Além disso, "MONEYBALL" procura contar ainda uma história mais particular, a da forma como Billy Beane consegue reinventar o jogo que ele era suposto ter dominado, vinte anos antes, e provar a todos que um jogador é mais que um número, é mais que estatística.


Com um diálogo absolutamente vívido e electrizante, igual partes profundo e inteligente - ou não fosse este mais um produto das mãos de Aaron Sorkin, contratado para polir o argumento escrito pelo também Oscarizado Steven Zaillian - que coloca - e bem - o foco não no desporto em si mas nas pessoas que o fazem, com caracterizações muito autênticas que ganham colorida vida nas mãos do talentoso elenco que Bennett Miller tem à disposição, desde um cintilante Philip Seymour Hoffman, uma elegante Robin Wright, uma encantadora Kerris Dorsey, um divertido Jonah Hill e, sobretudo, um extraordinário Brad Pitt, o verdadeiro coração do filme. A auxiliar o poderoso argumento está uma fotografia exemplar de Wally Pfister e uma edição brilhante de Christopher Tellefsen, que condensa o filme de forma exímia, conferindo-lhe um ritmo excitante de seguir. Há que elogiar ainda o trabalho de Bennett Miller ("Capote"), que contribui imenso para o sucesso do filme embora quase não se note, sendo que é nos pequenos detalhes que se nota o seu trabalho. É um trabalho ingrato enquanto realizador, ter que mostrar e não deslumbrar. Mas era o que o filme aqui precisava. E ele cumpriu na perfeição.

Finalmente, toda a gente sabe que Brad Pitt é um dos melhores actores americanos das últimas décadas, arrancando excelentes interpretações de quase todos os seus papéis. Infelizmente, a sua beleza, carisma e a sua fama acabam por ofuscar um pouco o seu talento. Em "MONEYBALL", não há essa preocupação. Despido de quaisquer preconceitos em ser visto como um zé-ninguém (algo que Pitt já não se deve lembrar de ser, dado o seu estatuto de mega-celebridade) derrotado pela vida, o seu Billy Beane sabe, melhor do que ninguém, o risco que corre ao apostar em Peter Brand (Hill), que nunca sequer praticou basebol na vida, para ajudá-lo a dar a volta à injustiça que é o jogo, contratando jogadores que nenhuma equipa queria e, através de um sofisticado sistema estatístico, ganhar pontos através de habilidades particulares que cada jogador tem. Estas decisões controversas e polémicas garantem-lhes a fúria de todos, incluindo a sua equipa de observadores, os comentadores de televisão e da rádio e o treinador, Art Howe (Hoffman), um homem da velha guarda. Pitt desaparece no papel - em 2011 fê-lo novamente noutro papel, em "The Tree of Life" - conferindo a Billy Beane uma graciosidade, um genuíno e humano sentido de estar na vida que é incomum nas suas outras interpretações. Este Billy Beane é uma criação completa, cheia de alma, força e coração (reunindo todas as qualidades de Brad Pitt enquanto actor num só indivíduo).


Um filme tão irreverente como o seu protagonista, "MONEYBALL" não busca respostas, nem procura fazer o espectador sentir-se melhor pessoa por ter visto o filme. Não é um filme com um final feliz. É um filme com um final real. Billy Beane seguiu o seu instinto - aquela palavra que tanto o perturbava inicialmente - como se soubesse que esta revolucionária mudança que estava a tentar implementar fosse realmente a sua última oportunidade de glória. O seu sucesso não foi total - não conseguiu mudar a face do jogo para sempre. Ainda assim, provou que com pouco se pode fazer muito, transformando a sua equipa, das mais pobres da Liga, numa força a ter em conta pelas equipas ricas, basicamente ignorando tudo aquilo que até então lhe tinham ensinado sobre o jogo e as suas regras. Um filme a espaços emocionante, a espaços reflexivo, meditativo, "MONEYBALL" foi uma das boas surpresas do ano, rico, substancial e profundo, a história de um homem imperfeito que só agora descobre finalmente o seu rumo. Mais vale tarde que nunca.



Nota Final:
A-

MONEYBALL, por João Samuel Neves:



Previsível e entediante. Assim é "MONEYBALL". Provavelmente fazendo justiça ao desporto que representa (o basebol) onde só quem gosta percebe o sentido do jogo e saboreia cada um dos seus demorados momentos (desde os preparativos às jogadas propriamente ditas). Podia pontuá-lo com uma nota pior, sem dúvida, mas há pontos positivos que vale a pena ressalvar e que merecem ser tidos em conta. Desde logo, o ambiente do filme. Foi aquilo de que mais gostei e o que me permitiu aguentar o filme até ao seu final. Sente-se a excitação e a intensidade de quem é amante deste desporto. Percebe-se porque é que o desporto é pensado e encarado com enorme responsabilidade e profissionalismo, dá-nos um cheirinho do trabalho hercúleo de gestão e organização de um equipa de alto nível. Coloca-nos dentro da acção e junto dos seus protagonistas.


Desse ponto de vista, "MONEYBALL" é um bom filme. Tem também boas interpretações, com Brad Pitt e (especialmente) Jonah Hill que apimentam a história e lhe dão mais alegria, vida e realismo. Mas depois tem alguns aspectos menos positivos. É tremendamente previsível. É possível perceber-se, desde os primeiros 10 minutos, aquilo que será o filme. E isso, para mim, é algo muito negativo, em especial num filme sobre desporto, em que a emoção e a imprevisiblidade nos alimentam até ao clímax final. A própria história em si (um manager de uma equipa com dificuldades que consegue, graças a um inovador esquema informático, revolucionar a forma como se encara e pensa o jogo) é algo que cativa pouco quem não gostar realmente deste jogo. No final, "MONEYBALL" é um filme jeitoso de 2011. Mas não vai entrar no meu top-10. Nem sequer no meu top-20. 


Nota Final:
C
  


Informação Adicional:

Ano: 2011
Realizador: Bennett Miller
Argumento: Steven Zaillian, Aaron Sorkin
Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Chris Pratt, Robin Wright, Philip Seymour Hoffman
Banda Sonora: Mychael Danna
Fotografia: Wally Pfister

 

THE TREE OF LIFE (2011)



"Father. Mother. Always you two wrestling inside me."


Como explicar a alguém o que é a vida e o que é a morte? Como entender qual o nosso papel aqui na Terra, como encontrar qual o significado da nossa existência? Como definir o bem e o mal, o corpóreo e o espiritual, o princípio e o fim? Estas são perguntas óbvias que qualquer um de nós, em certos momentos da vida, procura incessantemente responder. Uns viram-se para a religião, outros crêem no poder do destino, outros preferem acreditar em acasos. Uns pensam teimosa e repetidamente nestes assuntos, quase obcecando neles; outros optam por esquecer quando estes vêm à baila. E temos outros, como Terrence Malick (e Stanley Kubrick, antes dele) que se propõem a compreendê-los, a simplificá-los e desmistificá-los e, o que é acima de tudo mais impressionante, a filmá-los.


THE TREE OF LIFE é um filme bastante especial. Não é para ser compreendido, percebido ou definido em apenas uma visualização de duas horas. Não é seu objectivo propôr uma teoria ou significado sobre nada. É um filme para ser absorvido e apreciado a longo-prazo e, se tivermos para aí virados, analisado, pensado e teorizado. O tempo dirá se estamos perante uma obra de puro pretensiosismo intelectual e existencial ou se de facto temos perante nós uma obra-prima cujo valor analítico da nossa Humanidade e do nosso papel enquanto filhos do Homem é inestimável. A sua intenção pauta-se por mostrar - algo que é particularmente comum a todas as películas de Malick, mesmo que não no mesmo grau - o quão transcendente e único é o dom da Vida que nos é dado e quais os caminhos e circunstâncias que nos levam, cada um, a percorrê-la de forma diferente. Malick busca, basicamente, o impossível: aliar o filosófico poema existencial que funciona como força motriz do (escasso) fio narrativo ao magnânime pano de fundo visual que nos assombra e inspira ao mesmo tempo. E ele sucede nesse propósito, o que é de facto extraordinário.


A riqueza visual de Terrence Malick, um realizador na plenitude das suas capacidades e indubitavelmente na melhor forma da sua carreira, encontra um digno colaborador em Emmanuel Lubezki, que não se intimida com a tarefa gigantesca que Malick lhe propõe e constrói um retrato visual de meter inveja a muitas pinturas - poderosa, vibrante, observadora e perceptiva e ao mesmo tempo desafiadora e temerária, a fotografia de Lubezski é simplesmente sensacional e é muito por culpa dele que o filme resulta tão bem. Imagem atrás de imagem perfeitamente desenhada e escolhida, momento atrás de momento tão imaculadamente enquadrado e explorado, o requinte que cada segundo do filme nos proporciona não tem par com a vasta maioria dos filmes da actualidade. 


A narrativa principia com um versículo do livro de Job ("Onde estavam vocês quando eu ergui os pilares da Terra?") e, tendo por base a história de uma família texana dos anos 50 e focando-se particularmente no crescimento do filho mais velho, Jack O'Brien (interpretado na sua fase jovem pelo excelente Hunter McCracken, a verdadeira surpresa do filme, em cujos olhos reside muita mais sabedoria e experiência que a sua tenra idade indicaria e, numa fase mais avançada da vida, por Sean Penn) vai avançando o enredo através de muito pouco diálogo, a maioria deste como que segredado, contendo na sua essência diversas verdades indesmentíveis, difíceis de ouvir mas absolutamente reais. A peça fulcral da narrativa da família é a curiosa e facilmente estabelecível dicotomia entre a mãe e o pai, a luz e as trevas, o bem e o mal, o sagrado e o humano. A mãe, Mrs. O'Brien (Jessica Chastain), acredita no bem de todos os entes e que uma vida pautada pela graça, bondade, amor, compaixão e adoração da natureza tem mais valor. O pai, Mr. O'Brien (um brilhante Brad Pitt, numa das melhores e mais introspectivas interpretações da carreira), crê mais na tenacidade, no orgulho e na fibra moral, qualidades necessárias num mundo em que "se és demasiado bom, as pessoas vão abusar de ti". Cada um educa os filhos à sua maneira e é dessa forma que o filme os apresenta a nós, como duas forças inspiradoras diferentes e, claro, que originam acções e reacções completamente distintas no seu primogénito, que não consegue discernir o mundo sem ter em conta as duas filosofias.


Ao seu centro surge uma brilhante e transcendente sequência de imagens a nível astronómico e depois biológico e até microscópico (na qual nem vale a pena entrar em mais detalhes), em que Malick nos mostra como a vida na Terra teve início, do cosmos à célula. De nos deixar boquiabertos mesmo que nem sempre consigamos ter certeza do que estamos a observar, a sublime e portentosa força que vem de cada retrato é suficiente para nos deslumbrar. O aparecimento dos dinossauros, bem como o cataclismo que lhes trouxe o fim, funciona como lembrança que todos os seres vivos neste planeta - mesmo o Homem - têm uma presença finita e um ciclo de vida a cumprir. O nascimento do primogénito da família, a cena que se segue, vem nessa mesma linha de pensamento: Malick entende que cada nascimento, cada infância, cada vida incorpora em si mesma uma história única de criação e, invariavelmente, uma conclusão.
 
O retorno aos efeitos especiais dá-se de novo no fim, quando voltamos finalmente ao personagem de Sean Penn, o qual é visto, na cena final, a ser recebido pela sua família, tal e qual como os lembrava quando era criança, quando a sua alma era pura e a sua existência não estava manchada pela sua Humanidade e, juntos, a caminharem ao longo de uma praia solarenga, numa referência indirecta (considero eu) ao seu reencontro espiritual, como almas em direcção a um Céu onde não há espaço nem tempo, onde existe um continuum e para onde todos iremos, assim, no fim da nossa vida terrena. A última cena, em que retornamos ao presente na Terra, abandona-nos com mil e uma ideias novas na cabeça mas sem nenhuma resposta concreta. Ao contrário do que muitos pseudointelectuais pretensiosos e bacocos (que, infelizmente, na nossa blogosfera há muitos, que pensam que são melhores que os outros só porque na cabeça deles vêem filmes que os outros não vêem e percebem melhor os filmes que os outros) na sua forma de ver o cinema pensam - que aquilo que eles chamam de "selectividade" eu chamo de "necessidade de se sentirem superiores"; mas adiante - Malick não estraga o final do filme a tentar compor um argumento incongruente e secante. É no abstracto que ele nos deixa e ainda bem - o filme é suposto levar-nos a tirar as nossas próprias conclusões e a relação com a religião é suposto ser uma mera provocação de um grande autor.



No final, o que fica é o que pretendermos retirar da história. Um inolvidável - e magnificamente ilustrado - hino à história da Criação, à dicotomia entre a Vida e a Morte e à procura do sentido da nossa existência, é no mistério que afinal reside o grande poder deste conto: esta força que nos move, que nos traz à Terra e que dela nos leva, que nunca ninguém conseguiu explicar - e nunca ninguém irá provavelmente explicar - de que se trata ou porque funciona desta forma. O mistério é, no fim de contas, a sua própria solução e o legado de Malick aqui é apenas pôr à prova a nossa subjectividade e a nossa enigmática insistência de tentar compreender o mundo em nosso redor. A melhor sugestão que o filme me dá mesmo é, afinal, apreciar esta gloriosa e épica jornada a que chamamos vida, porque de tão efémera que ela é, se não a aproveitarmos, um dia quando repararmos ela escapa-se das nossas mãos para todo o sempre.



Nota Final:
B+


Informação Adicional:
Realização: Terrence Malick
Elenco: Jessica Chastain, Brad Pitt, Sean Penn, Fiona Shaw, Hunter McCracken, Tye Sheridan, Laramie Eppler
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Banda Sonora: Alexandre Desplat
Ano: 2011

Trailer:







N.B: Se acharem que a música incomoda, eu retiro-a.

Personagens do Cinema - Chad Feldheimer


É inevitável. Tinha que voltar aos irmãos Coen e a mais uma das suas criações. Uma surpreendente, inesperada, viciante e genuína personagem. É aquelas personagens que marcam a diferença entre um bom realizador e um realizador de classe. É por personagens assim que eu me perco em palavras quando falo sobre eles e é por personagens assim que, para mim, tudo o que vem dos irmãos Coen, vem com selo de qualidade. Eu, pessoalmente, conto as horas para ver True Grit. Falta cada vez menos para o dia 17 de Fevereiro.



Sobre Chad Feldheimer, o que vos posso dizer é que é um palhaço. Desde a ponta dos cabelos até à unha do polegar do pé. Um azeitolas, um bimbo, um parolão. É toda aquela personagem que caminha por este mundo com uma auto-estima interminável e sem preocupações sobre as opiniões que os outros possam retirar da sua figura.


Como não podia deixar de ser, e vejam bem a sua figura, é um autêntico cobardolas. Técnico de ginásio, musculado, com uma aparência vistosa e um porte elegante, foge à primeira ameaça e implora perdão ao primeiro sinal de perigo.


E é toda esta combinação, à qual se junta um disco externo com informação ultra confidencial da CIA e um elenco de luxo (George Clooney, John Malkovich, Frances McDormande Tilda Swinton), que torna Burn After Reading umas das melhores comédias da década. Perdi-me de riso e tive pena que tivesse que acabar. Burn After Reading é Irmãos Coen em modo light. E é tão bom!

Última Hora: "THE TREE OF LIFE" só em 2011!

E cá está, finalmente foi resolvida toda a confusão em volta de "The Tree of Life", o novo filme de Terrence Malick, um dos grandes candidatos aos Óscares deste ano e assumido por toda a gente já ser uma nova obra-prima (o que, olhando para a filmografia do realizador, não é de admirar). 


O grande problema dos filmes de Malick tem sido mesmo a distribuição e com este o caso foi semelhante aos anteriores, com a Apparition a conseguir os direitos de distribuição do filme mas, com tanto problema financeiro a dinamitar a companhia por dentro que, há dias, estava para abrir falência, o filme parecia nunca mais ir ver a luz do dia.

Até que hoje a Fox Searchlight Pictures (os empreendedores da titânica vitória de "Slumdog Millionaire" nos Óscares de 2008) se decidiu a garantir os direitos de distribuição para o mercado norte-americano à Apparition, coisa que efectivamente conseguiu.


Além dos vários elogios feitos ao filme, ao realizador, ao compositor e aos actores, o chefe da Fox Searchlight anunciou os planos de lançamento do filme, a estrear - e agora vem a má notícia - só em 2011.

Tal não só não me admira como até percebo, porque a verdade é que o orçamento para campanha na Fox Searchlight já deve estar a postos para ser gasto nos quatro títulos que tem que promover: "127 Hours", "Never Let Me Go", "Conviction" e "Black Swan". Este ano, de facto, não dava para gastar mais para "The Tree of Life".


Apostaria eu que lamentam tanto isto quanto eu mas bem ao menos sempre vai ser lançado, não é? Todas as três horas de suposto encanto e maravilha e magnificência. E sem as confusões de "The New World". E uma vez que ele já está em pré-produção do seu próximo filme, é sinal que o filme, desta vez, efectivamente, está todo pronto, sem ter que fazer nenhuma alteração.