Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

GONE GIRL, de David Fincher

No cinema há poucas coisas melhores do que um bom filho da mãe.

 

 

Gone Girl tem, muito provavelmente, o melhor argumento americano de 2014. Eu ainda não vi tudo o que anda por aí, ainda há algumas boas histórias por estrear, mas poucas vão desafiar tanto um espectador como o incrível romance de Gillian Flynn. Um sucesso nas livrarias que Fincher transportou para o cinema.

 

 

Uma relação apaixonante, ardente, um casal eletrizante, de uma cumplicidade hipnótica, magnética, deixa tudo para trás na cidade que os juntou, Nova Iorque, para se refugiar no esquecido Missouri, terra natal de Nick Dunne (Ben Affleck). O que para um foi um passo em frente, para outro foi o principio do fim. Amy Dunne (Rosamund Pike) contou cada segundo, conheceu cada recanto da sua nova casa e habituou-se a viver na solidão. Até ao dia em que se fartou de ser elemento de decoração.

 

 

Os problemas de Nick começam no momento em que se esquece da mulher por quem se apaixonou. No cinema há poucas coisas melhores do que um bom filha da mãe. E um filho da mãe não se deixa enganar. Quando Nick chega a casa e se apercebe que a sua mulher desapareceu não imagina o sarilho em que está metido. David Fincher brilha, Gillian Flynn (que adapta o seu romance à grande tela) brilha, Ben Affleck complementa Rosamund Pike (a única nomeação para Oscar que o filme conseguiu - triste academia).

Vertiginoso. Claustrofóbico. Em Gone Girl não existem limites.

Pike, Affleck, Fincher e "Gone Girl"


Estou numa obsessão pouco saudável com este novo projecto de David Fincher. "Gone Girl" é, como provavelmente já terão ouvido falar, a adaptação do bestseller de Gillian Flynn, que colocou os americanos em furor o verão passado e arrisca-se a fazer o mesmo a quem pegue no dito livro por cá, agora que tem começado a aparecer aqui e ali cada vez mais (já se vê inclusive nos hipermercados, sinal que a recomendação está a espalhar-se). O meu entusiasmo triplicou quando soube que é a própria Flynn a adaptar o livro a argumento.


"Gone Girl" é um thriller relativamente negro que foca a sua atenção em Amy e Nick Dunne, um casal nova-iorquino transladado para o meio do Missouri, prestes a celebrar o quinto aniversário de um casamento com muitos altos e baixos (e que inicia a história em mais um momento mau). Eis que o impensável acontece - Amy desaparece - e despoleta a sequência incrível de eventos que se seguirão. Resta-me dizer: é um livro excelente, reviravolta atrás de reviravolta e, quando pensamos finalmente conhecer a verdadeira versão da história, voltamos a ser varridos do tapete. A narrativa é contada primeiramente do ponto de vista de Nick, acoplado a excertos do diário de Amy, mas a meio do livro, com o twist gigante, a estrutura muda. Está assim explicado o mais que óbvio interesse do realizador David Fincher ("Se7en", "The Social Network", "Zodiac", "Fight Club", "Girl with the Dragon Tattoo") no projecto.


O problema desta minha obsessão está na forma como idealizei as personagens e nos actores que têm sido anunciados para os respectivos papéis, principalmente os dois elementos do casal. Curiosamente, muita gente se queixou do casting de Ben Affleck no papel de Nick, algo que confesso não entender minimamente. Pela descrição, Affleck "é" Nick, tal e qual. Alguns anos mais velho (Affleck tem 40, Nick tem 34), mas assenta que nem uma luva no perfil. Outros actores que conseguiria ver funcionar no papel seriam Bradley Cooper, Michael Fassbender e Channing Tatum (não sei é se este tem o talento necessário). As outras propostas de que se falou - Jake Gylenhaal, Ryan Gosling, Joseph Gordon-Levitt, Henry Cavill (são muito novos) e Jeremy Renner (muito velho) - fazem-me pouco sentido. Estranho não ter visto James McAvoy na lista de candidatos (mais uma vez, ridículo). A minha escolha ideal teria sido Peter Sarsgaard, que tem 42 anos e portanto também seria bastante mais velho que a personagem. A segunda opção seria, surpreendentemente, Bradley Cooper - digo surpreendentemente porque nunca me imaginei a achar que o Cooper tem talento. O Garrett Hedlund também daria, parece-me, um óptimo Nick. 

Como explicar o Nick Dunne? Imaginem um cruzamento entre o Harvey Specter e o Don Draper. É dos dois protagonistas aquele que vai exigir menos do actor em questão, é um papel fácil de navegar. A grande característica distintiva de Nick Dunne é o ar de desconfiança que deve gerar e isso não necessita de grande talento, tem que ser apenas um actor que consiga ter ar de não jogar com o baralho todo. Affleck é o escolhido. Parece-me bem, até porque...


O ponto fulcral para o sucesso do filme é, de facto, o casting de Amy Elliot Dunne. Fincher escolheu  a lindíssima Rosamund Pike (aceito que muitos de vós não a conheçam mas já a viram de certeza nalguma coisa) e diz-se até que foi sempre a sua primeira escolha. Não vejo nada de Amy Dunne em Pike, confesso. Quando o projecto estava em desenvolvimento - antes de Fincher entrar em cena - Reese Witherspoon assinou para protagonizar Amy (ela que é também produtora do filme). É uma pena que tenha desistido do papel - seria uma óptima Amy, é aliás a actriz que eu idealmente escolheria para o papel. Amy Dunne é um papel que exige ao seu intérprete enorme versatilidade e expressividade. Amy tem que ser uma personagem que projecte, em simultâneo, um sonho de mulher e o maior pesadelo masculino de sempre (Alex Forrest encontra Clementine Kruczynski) . Tem que ser uma actriz capaz de criar uma mulher inteira, que seja divertida e casual e, noutras ocasiões, absolutamente impossível de aturar. Eu sei, soei imensamente machista. Peço perdão. Continuemos. Amy Dunne tem basicamente de ser frágil e dócil mas também dura de roer e forte. Desafio complicado. Reese era uma excelente escolha. Tem ar de pequenina e ingénua mas quando as garras lhe saem, cuidado! A Charlize Theron foi a principal escolha dos blogues e sítios noticiosos por aí fora. Amy Adams, Rachel McAdams, Mila Kunis, Natalie Portman, Kirsten  Dunst, Scarlett Johansson, Michelle Williams e Claire Danes também conseguiram menções. Percebo a inclusão delas todas. Há que introduzir na equação outra variável, que enviesa as coisas: Amy Dunne tem no livro mais cinco anos que Nick - 39, portanto (essa é outra questão interessante; como vão fazer Affleck parecer ter 29, idade com que Nick conhece Amy no livro?). E a actriz escolhida tem que emparelhar com Affleck. Digam lá se com isto tudo dito, a Reese Witherspoon não é quem vos salta à cabeça como a melhor hipótese (mesmo sendo mais nova que Affleck)? A Gwyneth Paltrow seria outra boa hipótese. E a Charlize também. Em primeira mão diria que Pike não vai triunfar no papel mas, se Fincher acredita nela, que mais posso dizer? Também não dava nada pela Rooney Mara e olha!

É esta a questão que vos trago, caríssimos. Leram o livro? Que acharam? Façam de Fincher e escolham os vossos Amy e Nick. Ou concordam com as duas escolhas?




A relação amorosa de Affleck com os prémios continua nos BAFTA



Mais uma cerimónia de entrega de prémios, nova colecção de troféus para "Argo". Ben Affleck volta a receber o galardão de Melhor Filme, desta vez por parte da Academia Britânica, que entregou os BAFTA neste final de tarde / princípio de noite (a cerimónia pode ser acompanhada, em diferido, aqui).

Além do troféu de Melhor Filme, Affleck também recebeu o prémio de Melhor Realizador, criando uma deliciosa confusão para a noite dos Óscares, para a qual Affleck não se encontra nomeado nesta categoria. Lee, Haneke, Spielberg, Zeitlin ou O. Russell, algum deles vai ter de receber o prémio e nesta altura é impossível prever com exactidão qual. Excitante. 


"Argo" conquistou ainda o troféu para Melhor Edição, perfazendo um total de três galardões. Não foi, contudo, o vencedor com mais prémios da noite - essa honra coube a "Les Misérables", que venceu nas categorias de Melhor Maquilhagem e Cabelo, Melhor Produção Artística (incrível como "Anna Karenina" perde aqui), Melhores Efeitos Sonoros (com "Skyfall" na categoria, a sério que este foi o filme britânico que escolheram?) e Melhor Actriz Secundária, troféu que invariavelmente acaba nas mãos de Anne Hathaway


Curiosamente e mesmo perante tanta demonstração de afecto, foi "Skyfall" quem venceu Melhor Filme Britânico, ao qual juntou a estatueta para Melhor Música (50% dessa estatueta deve-se a Adele, claro) para Thomas Newman (uma das surpresas da noite). "Anna Karenina" teve que se contentar com o triunfo mais que previsível em Melhor Guarda-Roupa. Que esperará repetir nos Óscares. "Life of Pi" ganhou, uma vez mais, duas categorias técnicas: Melhor Fotografia para Claudio Miranda e Melhores Efeitos Especiais. Em ambos os casos, nos Óscares são também muito prováveis.

Tal como "Argo", "Searching for Sugarman" recebeu mais um prémio (que varridela tem sido!) para Melhor Documentário, contra a previsão dos especialistas que apostavam no britânico "The Imposter" para surpreender. Não obstante a derrota, "The Imposter" acabou por triunfar na categoria de Melhor Contributo de um Britânico em Filme.



"Silver Linings Playbook" recebeu o prémio de Melhor Argumento Adaptado (ou prémio de Maior Campanha, que equivale ao mesmo, aparentemente), enquanto na categoria de Melhor Argumento Original foi "Django Unchained" o contemplado (o que me faz perguntar: a Academia leu mesmo estes roteiros? Ou votou pelo nome? Enfim), que também garantiu mais um prémio de Melhor Actor Secundário a Christoph Waltz, que começa a parecer um grande candidato aos Óscares.

A grande história da cerimónia, contudo, ficou para o final. Antes de Daniel Day-Lewis ir receber o seu milésimo troféu de Melhor Actor por "Lincoln", foi a octagenária Emmanuelle Riva ("Amour") a subir a palco (metaforicamente, infelizmente; Riva está-se a guardar para os Césars e os Óscares, diz-se) para ser contemplada com o prémio de Melhor Actriz, batendo Jennifer Lawrence e Jessica Chastain e basicamente a criar mossa na corrida. Finalmente.

A lista completa dos vencedores pode ser consultada aqui.


Affleck leva tudo



Seja DGA, SAG, PGA, Critics' Choice ou Golden Globes. Ben Affleck ganhou-os todos. Na história da Academia só um filme conseguiu essa proeza e, tal como "Argo", não tinha conseguido a nomeação para melhor realizador. "Apollo 13" de Ron Howard limpou os troféus todos mas depois ficou a ver Mel Gibson e a sua ode à violência (chamemos-lhe filme prestígio que passa mensagem importante de luta pela pátria) "Braveheart" a vencer os Óscares todos. 

Será "Apollo 13" a anomalia ou será exemplo para "Argo"? Para já, temos que assumir que o favorito ao Óscar de Melhor Filme está encontrado. Contudo, a corrida a sério só começa dia 8, quando a Academia enviar os boletins de voto. É aí que se soltam os cães, por assim dizer, e a Dreamworks e a The Weinstein Company estão a salivar. E a Fox, bem, é bom que a Fox acorde do coma induzido - "Life of Pi" tem, afinal, 11 nomeações. E o prémio de Melhor Realizador parece tão à mão de semear. Se fosse para Ang Lee era bonito, não?


Tudo isto para informar os mais desatentos que o efeito compressor da película de Ben Affleck continuou ontem à noite na cerimónia do Directors Guild of America, onde Affleck bateu Spielberg, Lee, Hooper e Bigelow pelo medalhão de ouro que certifica o melhor realizador do ano. De realçar ainda as vitórias na categoria de documentário para "Searching For Sugar Man" (que parece lançado tranquilamente para a vitória nos Óscares), Lena Dunham para Realização em Televisão - Comédia ("Girls") e Rian Johnson, premiado pela soberba realização de "Fifty-One", indiscutivelmente o melhor episódio da quinta temporada de "Breaking Bad".

Abaixo ficam todos os vencedores da noite:

Realização em Longa Metragem
Ben Affleck, "Argo"

Realização em Documentário
Malik Bendjelloul, "Searching for Sugar Man"

Realização em Telefilme e Minissérie
Jay Roach, "Game Change"

Realização em Drama Televisivo
Rian Johnson, "Breaking Bad"

Realização em Comédia Televisiva
Lena Dunham, "Girls"

Realização em Programas Ao Vivo/de Variedades Musicais
Glenn Weiss, "66ª Edição dos Tony Awards"

Realização em Programação de Reality TV
Brian Smith, "Master Chef"

Realização em Programa Infanto-Juvenis
Paul Hoen, "Let it Shine"

Realização em Programação de Dia
Jill Mitwell, "One Life to Live"

Realização em Formato Comercial
Alejandro González Iñarritu, "Best Job"

Prémio Carreira
Milos Forman

Outras homenagens:
Michael Apted
Eric Shapiro
Susan Zwerman (Prémio Frank Capra)
Dency Nelson (Prémio Franklin J. Schaffner)


ARGO (2012)


Baseado numa história verídica, Argo é mais um passo em frente (acertado e bem conseguido) de um cada vez menos imberbe Ben Affleck realizador. Se ainda não foi desta que me fez ter a certeza de que estamos perante um novo e inesperado fenómeno, Argo é sem dúvidas o mais bem conseguido filme do seu historial enquanto realizador e será um marco muito importante na sua carreira. Depois de The Town (onde tivemos demasiado drama e americanização), Argo resulta de um processo de amadurecimento, correcção de erros e aperfeiçoamento de pequenos detalhes.


Mais uma vez como protagonista (numa interpretação francamente interessante), Ben Affleck é Tony Mendez, um solitário e desesperançado agente da CIA, especialista em resgatar americanos dos locais mais inóspitos e perigosos do planeta. Estamos em 1979 e no Irão, uma revolta popular coloca a embaixada americana sobre cerco e instala uma crise mundial. Com a segurança mundial por um fio e dezenas de americanos feitos como reféns, os Estados Unidos enfrentam uma das maiores crises internacionais do pós-guerra. Mas, no meio de todo este dramático acontecimento, seis americanos conseguem escapar do cerco à embaixada e refugiam-se clandestinamente na embaixada canadiana.


Longe dos holofotes do protagonismo, longe do histerismo da comunicação social, os serviços secretos tentam idealizar o resgate possível para os seis americanos. Projectos e ideias absurdas, trazem ao centro da acção Tony Mendez, que se apresenta com um arrojado e inesperado plano: Juntar-se-á aos seis americanos num Irão inflamado pelo ódio aos Estados Unidos e personificará o papel de um produtor que, juntamente com a sua equipa, se encontram no Irão para desenvolver um filme sobre (na época em voga) extra-terrestres.


Num drama em que a intensidade de cada momento prende o espectador ao ecrã, nada parece seguro, nada é garantido. E até ao último segundo do filme existe uma acção, intrínseca a cada personagem, intrínseca a cada cena, que não deixam o espectador relaxar. Ben Affleck e a sua equipa de argumentistas, conseguiram transformar num drama carregado de suspense e emoção, uma história que facilmente pode ser decifrada numa página da Wikipédia. Mas não vale a pena estragar um filme tão bom com um spoiler. Bonito é descobrir na sala de cinema o que aconteceu no Irão há 30 anos. Argo é um dos melhores filmes de 2012.

Nota Final
A-

Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Ben Affleck
Argumento: Chris Terrio
Ano: 2012
Duração: 120 minutos

Trailer de ARGO, de Ben Affleck

Acaba de sair o primeiro trailer do mais recente filme de Ben Affleck (um indivíduo de quem gosto cada vez mais) que conta também com a participação do fantástico Bryan Cranston (muito provavelmente, o meu actor favorito do momento), num thriller que promete emoção, acção e grandes momentos de representação. Em plena crise no Médio Oriente, um homem vai tentar salvar um grupo de compatriotas, de forma original e arriscada. Estreia, nos Estados Unidos, a 12 de Outubro. Ainda sem data para Portugal.



THE TOWN (2010)


"You grew up right here, same rules that I did."


Três anos depois da sua estreia como realizador ("Gone Baby Gone"), Ben Affleck volta à sua Boston para provar que não só é um dos melhores realizadores em crescimento em Hollywood, como também é um actor sólido, sério e, quando bem seleccionado para um papel, eficaz.

"The Town" denota sobretudo esse crescimento enquanto realizador. É um filme mais maduro, mais sério, mais concretizado. Contudo, perde um pouco em liberdade e energia em relação ao filme anterior de Affleck. É mais sombrio, mais contraído, mais limitado por regras. Claro que isto também se deve ao facto de ser uma adaptação de um romance policial ("Prince of Thieves" de Chuck Hogan) sobre a cultura e as regras e o protocolo instaurados no mundo do crime.



O filme surpreendeu-me imenso pela positiva e posso até dizer que foi dos filmes que mais gozo me deu ver este ano. No entanto, é um filme longe da perfeição. Comete, na minha opinião, três erros capitais, que me impedem de lhe dar melhor nota, não obstante todo o entretenimento que me proporcionou. O primeiro, já o referi, parece muito mais limitado que o seu predecessor na filmografia de Affleck. O segundo é o diálogo. Grandes e aborrecidos discursos, diálogo arcaico, usado, cheio de clichés, típico de um qualquer filme de acção que se pegue num videoclube. Com melhorias significativas na segunda hora, só que isto tem mais a ver com o surgimento de cenas de perseguição que dão alma e vivacidade ao filme do que propriamente com a elevação de nível do argumento. 


O terceiro é a história em si, que funciona na base de múltiplas coincidências (e espera que tudo o que nos revela dessa forma seja plausível). O filme leva-nos numa viagem pelo mundo do crime de Boston, focando-se mais precisamente em Charlestown (carinhosamente apelidada somente de "The Town" pelos habitantes da zona, ou townees, como lhes chamam lá), nos subúrbios de Boston e num grupo de quatro amigos, que desde cedo aprenderam que o crime é, naquela região, negócio de família ao qual não se pode fugir. Será por isso que essa é a zona do país que tem maior índice de criminalidade? Provavelmente. Este grupo de quatro amigos é encabeçado por dois amigos de infância, Doug MacRay (Affleck) e James "Jem" Coughlin (Renner). O que o primeiro possui de introspecção e firmeza o outro compensa com loucura e imprevisibilidade. Acompanhamos pois este grupo de criminosos em três assaltos: a um banco, onde Jem comete o erro crasso de trazer com eles uma refém, Claire (Hall); a uma carrinha de transporte de dinheiro; e a Fenway Park, estádio dos Boston Red Sox.



Descobrimos mais tarde no filme que a refém que Jem trouxe vive perto dos nossos quatro amigos, o que o deixa reticente. Doug oferece-se então para vigiar Claire, tratando de arranjar forma de estabelecer uma relação com ela. O que ele não esperava é que acabasse por gostar mesmo dela e que esta relação lhe provocasse vontade de abandonar a vida de criminoso e mudar de ares. O filme apresenta-nos depois ao chefe da máfia local, Fergie (Postlethwaite) e ao pai de Doug, Stephen (Cooper), que havia sido previamente condenado por ter assassinado dois polícias no decorrer de um assalto. A introdução destas duas personagens serve-nos como força motriz para entendermos mais a fundo a razão da vontade de mudar de Doug, perfeitamente justificada depois de conhecermos estas duas personagens. Pelo meio ainda surge a personagem de Blake Lively (famosa devido ao seu papel principal em "Gossip Girl"), a drogada e prostituta Krista, que consegue ser, na minha modesta opinião, das pessoas mais interessantes que o filme nos apresenta (se bem que o seu papel é francamente unidimensional).

Tudo isto ocorre na primeira hora de filme. Da segunda, pouco há mais a realçar excepto o ponto forte do filme: as duas extensas cenas de acção, maravilhosamente enquadradas, idealizadas, executadas e filmadas. Era mais do que óbvio que o nosso gangue não iria safar-se impune, sendo apanhado e encurralado pela equipa de FBI comandada pelo irredutível Agente Especial Frawley (Hamm).


Além das excelentes cenas de acção, as interpretações servem também muito bem o filme (os elogios que Affleck recebeu do seu elenco em relação ao seu processo de elaboração das personagens e ao seu talento comunicativo - e a qualidade, no ecrã, das interpretações - são mais uma prova do seu calibre e potencial como realizador), em particular a de Renner. O seu Jem é uma força bruta da natureza, implacável se deixado à solta. Gostei imenso de o ver completamente irreconhecível em relação ao seu sargento em "The Hurt Locker" e com um estilo tão peculiar quanto asqueroso, por vezes. A fotografia também é bastante impressionante, bem como a banda sonora que acompanha o filme.



Do final não vou revelar nada, só dizer que é extraordinariamente pouco inteligente e demonstra a qualidade ímpar que este filme - e Affleck - tenta atingir, sem infelizmente nunca o conseguir. É um bom filme, mas falha redondamente nalguns aspectos. Apesar de tudo isto, "The Town" é mais um passo na caminhada firme e acertada que Ben Affleck tem feito na transição entre actor e realizador e parece cada vez mais merecer as comparações feitas com outro grande actor-realizador norte-americano, Clint Eastwood. Esperemos que lá chegue.




Nota:
B


Informação Adicional:
Ano: 2010
Realização: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Blake Lively, Chris Cooper, Jeremy Renner, Jon Hamm, Peter Postlethwaite, Rebecca Hall
Argumento: Chuck Hogan, Ben Affleck, Peter Craig
Fotografia: Robert Elswit
Banda Sonora: Harry Gregson-Williams, David Buckley