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DIAL P FOR POPCORN

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DAS BOOT (1981)




Um daqueles filmes que se tornam épicos, inesquecíveis, memoráveis e eternos. Este é daqueles filmes sobre o qual se fala hoje com o mesmo entusiasmo de há 10 anos atrás. Uma das obras mais portentosas e magníficas sobre a Segunda Guerra Mundial (um tema que eu adoro e que, penso, é praticamente inesgotável) e a difícil luta dos marinheiros que combateram em submarinos. Pessoalmente, a vida num submarino transcende-me. Não me sinto capaz de imaginar o enorme sofrimento e ansiedade passados durante tantas horas, num local tão apertado e claustrofóbico, rodeado de toneladas de água sob a constante ameaça de navios poderosos e com artilharia suficiente para, a qualquer momento, ditar o fim das vidas de tantos homens.


Neste filme, sobressaem três personagens de vital importância. O Comandante Henrich Lehmann-Willenbrock (Jürgen Prochnow) é o homem mais experiente a bordo, habituado à vida do mar, dos submarinos e das lutas entre nações. É ele que coordena um conjunto de jovens ambiciosos, que lutam pela pátria e que partem numa aventura para a qual não foram preparados e que desconhecem por completo. À habitual tripulação, junta-se o Tenente Werner (Herbert Grönemeyer), um jovem jornalista (correspondente de guerra), que viaja com o objectivo de criar um romance histórico baseado na viagem do submarino 96. Por último, uma personagem cuja força e presença vão crescendo com o passar do filme e que se transforma num inesperado herói nos momentos mais críticos de todo o filme: O Engenheiro Fritz Grade (Klaus Wennemann) a quem é entregue a responsabilidade de corrigir os diversos problemas que o submarino vai sofrendo e que combate toda e qualquer adversidade com bravura, calma e firmeza. É a ele que todos os homens devem a sobrevivência de uma jornada tão longa e tão perigosa.


Com a tradução para o português de Odisseia do Submarino 96, Das Boot (na versão Director's Cut que eu tive oportunidade de ver) é realmente uma obra de arte marcante. É um dos grandes filmes de guerra que o espectador pode ver, mesmo que para isso tenha que disponibilizar quase 200 minutos do seu tempo. Vale todos esses minutos. Das Boot é um filme longo e demorado, pois tudo é pensado ao pormenor e nada é tratado ao desbarato. O seu suspense é cortante e aumenta de forma dramática nos seus momentos finais. Uma obra onde se nota um trabalho de produção e edição excelentes, que transmite com bastante veracidade as adversidades e o terror de uma batalha dentro dos oceanos.

Nota Final:
A



Trailer:





Informação Adicional:
Realização:
Wolfgang Petersen
Argumento: Wolfgang Petersen e Lothar G. Buchheim
Ano: 1981
Duração: 199 minutos

Especial Animação: THE LITTLE MERMAID (1989)



"Watch and you'll see... One day I'll be... Part of your world."


Em busca de renascer de um período negro de parca qualidade a nível dos seus estúdios de animação, a Disney decidiu, em 1989, fazer regressar um dos tipos de histórias mais queridos do seu público-alvo: os contos de fadas. E para isso apostou numa história que já havia passado pelas mãos de Walt Disney e por vários argumentistas dos estúdios mas que havia sido arquivada e descartada. Era uma história baseado num conto algo sombrio de Hans Christian Andersen sobre uma sereia que sacrificava os seus dons mais preciosos para poder viver uma vida normal como humana ao pé do homem que amava. Essa história era, como hoje sabemos, "The Little Mermaid" e seria ela que iria trazer uma nova alma e glória aos velhos estúdios Disney e provocar uma revolução que culminaria no seu período mais inspirado de sempre.


Até em termos do processo de desenvolvimento e produção do filme se nota uma diferente inspiração e positivismo no ar. Howard Ashman e Alan Menken juntaram-se de bom grado ao projecto para produzir uma das melhores bandas sonoras que um filme de animação alguma vez viu; Glen Keane, um dos maiores animadores dos estúdios, que normalmente se dedicava a desenhar e animar figuras mais masculinas e normalmente vilãs pediu veementemente que o deixassem animar a protagonista Ariel. E muitos outros exemplos - se estiverem interessados - podem ser vistos no documentário "Waking Sleeping Beauty", que conta a história da nova era da animação Disney.


"THE LITTLE MERMAID" é, mais que um retorno ao grandes velhos clássicos de animação de outros tempo, uma divertida (diria festiva até) e curiosa aventura repleta de sonhos, de criatividade, de imaginação que nos deixa encantados e hipnotizados. O filme narra a história de Ariel, uma sereia diferente do habitual, cujo sonho era virar humana para poder encontrar-se com o homem que amava, o príncipe Eric, que ela uma vez salvara de morte certa e por quem ele se apaixonou ao ouvir cantar. Claro que tal conto de fadas era impossibilitado pela diferença de espécies de ambos. É aqui que a história do filme diverge do conto de Christian Andersen, criando um fio narrativo secundário no qual nos apresenta a malvada vilã Úrsula, permitindo a Ariel trocar o seu maior dom pela possibilidade de viver uma vida normal como humana. O que Ariel não sabe é que Úrsula deseja o trono do seu pai, Tritão, rei dos sete mares e pretende assim usá-la como moeda de troca.



O que tantas vezes falhou nos filmes dos estúdios que precederam este "The Little Mermaid" é, neste caso, o seu ponto forte: a caracterização das personagens, em especial de Ariel e Úrsula. Ariel é, acima de tudo, uma protagonista realista e credível. Não é uma heroína passiva, que desespera sem nada fazer em busca do seu príncipe encantado e que é impedida, de alguma forma, pelo vilão, de atingir o seu objectivo. Não. Ariel é rebelde, tem defeitos, nem sempre toma as melhores decisões e não aceita injustiças. Ela pensa e age independentemente, o que nos leva desde logo a simpatizar com a sua história e com a sua angústia. Para isso ajuda muito que Ashman e Menken tenham ressuscitado um dos velhos costumes dos grandes clássicos de outrora: a canção central que estabelece o objectivo da protagonista e em que ela nos abre as portas do seu coração. E ajuda sobretudo que essa canção seja "Part of Your World", uma lindíssima balada que nos despedaça o coração pela cintilante e alegre voz de Jodi Benson. 


O outro grande ponto forte é, sem dúvida, o detalhe e o cuidado que os animadores e os argumentistas tiveram em conferir bagagem ao vilão. Úrsula é, também ela, uma personagem realista e completamente formada, com uma história e um fio narrativo bem estabelecidos e, com uma grande actriz e voz por detrás como Pat Carroll, uma brilhante comediante e diva dramática. Cada fala que sai da sua boca é dita com tanta faísca, tão carregada de segundas intenções, que nos faz sorrir mesmo não querendo. E, claro, mais uma vez Ashman e Menken realizam um fabuloso trabalho criando aquela que é, para mim, a melhor canção que a um vilão alguma vez foi permitido cantar num filme da Disney: "Poor Unfortunate Souls". A canção é rica em piadas, em mensagens nas entrelinhas, em poder, força e vigor. Três minutos depois e Úrsula é, perante nós, igual a uma qualquer pessoa que todos nós conhecemos (ou vamos conhecer) ao longo da nossa vida: uma diva diabólica, invejosa, vaidosa, manipuladora, descarada e ambiciosa.



Apesar destes indiscutíveis méritos, o argumento nunca deixa esmorecer o calibre do filme. Inteligente e cheio de reviravoltas mais ou menos inesperadas, tem ainda o mérito extra de nos apresentar mais personagens secundárias que nos envolvem ainda mais no filme, como o stressado e disciplinador caranguejo Sebastião e o alegre e engraçado Linguado (Flounder na versão original) e a distraída e precipitada gaivota Sabidão (Scuttle) que providenciam vários momentos de descontracção e de riso, bastante necessários para dosear os momentos mais sérios da segunda metade da película. A animação, essa, é energética, refrescante, colorida e inovadora, que explora na perfeição os belíssimos cenários marítimos e cria um majestoso e impressionante castelo para o príncipe Eric, conferindo um pano de fundo riquíssimo em termos visuais para a história se desenvolver. Finalmente, voltar a falar (porque nunca é demais) de Howard Ashman e Alan Menken. Prodigiosos talentos da música, Ashman e Menken foram uma verdadeira lufada de ar fresco na animação contemporânea (como se veio a comprovar mais tarde), contribuindo, além da música, com várias ideias e mudanças a nível da animação do filme. "Part of Your World" e "Poor Unfortunate Souls" seriam razão suficiente para aplaudir uma fantástica banda sonora, mas quando esta ainda contém músicas tão inesquecíveis como a contagiante e reggae-esca "Under The Sea", cantada sublimemente por Samuel Wright e as maravilhosas músicas de abertura e encerramento do filme, é um acontecimento mesmo raro.


Muitas vezes se usa descuidadamente as palavras "inspiração" e "êxito" para definir muita coisa na vida. No entanto, no caso de "The Little Mermaid", somos obrigados a admitir: é o clássico da Disney mais orgânico e apaixonado, mais contagiante e envolvente, mais inspirado e revolucionário. Não é por nada que num ano bastante competitivo chegou a ser considerado como um dos grandes candidatos ao Óscar de Melhor Filme (criando o buzz que levaria a que isso acontecesse para o próximo filme da dinastia Disney, "Beauty and the Beast"). E não é por nada que, ainda hoje, muitas crianças se deixem levar e encantar pelas aventuras de uma marota sereia que só queria, na verdade, ser parte do nosso mundo, ser igual a qualquer um de nós.



Nota: 
A-

Ficha Técnica:
Realização: Ron Clements, John Musker
Ano: 1989
Elenco: Jodi Benson, Kenneth Mars, Pat Carroll, Samuel Wright, Rene Auberjonois, Buddy Hackett
Música: Alan Menken, Howard Ashman

Especial Animação: Sondagem - Studio Ghibli


A acompanhar os sete artigos dos nossos convidados para a nossa Semana de Apreciação à Animação, vamos ter outros artigos especiais dedicados ao tema, que se debruçarão sobre diversos componentes que fazem da animação dos géneros mais excitantes do cinema contemporâneo. Hoje é um dia dedicado aos Estúdios Ghibli, da rica animação japonesa e, como tal, vamos ter alguns artigos dedicados aos fantásticos filmes que nos proporcionaram.

Para encerrar definitivamente o dia dedicado aos estúdios Ghibli, pensei que seria interessante questionar os nossos visitantes sobre o quão familiarizados estão com os estúdios de animação nipónicos, uma vez que a maior parte das pessoas desconhece a existência de grande parte dos filmes do estúdio, conhecendo porventura um ou outro título de Miyazaki, mas pouco mais. Aqui ficam então as duas perguntas...

Resta-me só avisar que incluo o "Nausicaä of the Valley of the Wind" mesmo sabendo que ele antecede a existência do Studio Ghibli, sobretudo porque muita gente o considera dentro das produções dos estúdios e até porque para muitos foi esse o início do estúdio.



E já agora, a título de curiosidade...


Obrigado pela participação!

Especial Animação: Personagens do Cinema - Totoro

A acompanhar os sete artigos dos nossos convidados para a nossa Semana de Apreciação à Animação, vamos ter outros artigos especiais dedicados ao tema, que se debruçarão sobre diversos componentes que fazem da animação dos géneros mais excitantes do cinema contemporâneo. Hoje é um dia dedicado aos Estúdios Ghibli, da rica animação japonesa e, como tal, vamos ter alguns artigos dedicados aos fantásticos filmes que nos proporcionaram.


Uma das personagens mais inesquecíveis, o espírito Totoro, do filme "My Neighbor Totoro" de Hayao Miyazaki, veio a tornar-se um dos seres animados mais adorados pelo mundo inteiro (a ponto de no Japão se fazer fortunas com a merchandising baseada no tão popular ser) e seguramente isso não se deverá apenas ao seu aspecto redondo e fofinho - tipo peluche - mas também à sua enorme e contagiante alegria, ao seu grande carisma e à forma enternecedora como estabelece amizade com as duas crianças.

O contributo das palavras cheias de inteligência e elegância de Miyazaki também é grande no estabelecimento de Totoro como um animal de estimação, um companheiro de sonho. "My Neighbor Totoro" é uma viagem excitante à nossa infância, onde a magia, a emoção, a aventura e, claro, a imaginação à solta estavam sempre presentes, onde fantasmas, dragões, fadas, bruxas, feiticeiros, todos ganhavam vida. Totoro é a representação da inocência, da pureza e deste olhar diferente sobre a vida que todos temos escondido dentro de nós. E todos estes sentimentos e características estão mais do que nunca presentes no ente que Totoro personifica. 

 
Mágico, admirável, inocente e afável, contudo esquecendo a sua mais que profunda humanidade, Totoro é das personagens mais queridas de sempre do mundo do cinema, uma das maiores e melhores fantasias infantis para sempre capturadas em filme. Quem nunca viu não sabe o que perde. "My Neighbor Totoro" é uma viagem alucinante ao melhor e mais primitivo de nós. São duas horas que vale a pena perder à procura do senso de nostalgia inerente de situações evocativas da nossa infância, do nosso passado que já lá vai. E o melhor é que para voltarmos a este mundo perdido no tempo basta só reintroduzirmos o DVD e deixarmo-nos levar. Outra vez. Totoro está à nossa espera.


Especial Animação: GRAVE OF THE FIREFLIES (1988)



Poucos filmes vi eu na minha vida tão profunda e humanamente depressivos como este. E poucos filmes vi eu também com uma mensagem social anti-guerra tão vincada quanto realista.  Um dos primeiros filmes dos nipónicos Studio Ghibli, lançado no Japão a par com o decididamente mais alegre "My Neighbour Totoro" de Miyazaki, como forma de contrabalancear com o seu pesado dramatismo, "Grave of the Fireflies" é a obra definidora de Isao Takahata e, mais que tudo, é o filme que abriu novos horizontes no que é possível fazer com a animação contemporânea (abrindo caminhos para que filmes como "The Lion King", "Princess Mononoke", "The Iron Giant", "Toy Story", "Up!", entre outros, tenham podido abordar temas mais sérios, considerados antes impróprios em filmes para crianças).


"Grave of the Fireflies", baseado no romance semi-autobiográfico com o mesmo nome de Akiyuki Nosaka, conta uma história relativamente simples e directa de sobrevivência e persistência, relatando a história de dois irmãos, Seita e Setsuko, órfãos de pai e mãe, vítimas dos ataques americanos à população de Kobe durante a II Guerra Mundial. A história é contada em analepse, começando no momento em que Seita perece de fome e malnutrição. O empregado de limpeza da estação de comboio atira fora uma lata de rebuçados de cai das mãos de Seita, que continha cinzas e pequenos ossos. Deles surge o espírito de Seita e de Setsuko e uma nuvem de pirilampos e é a partir daqui que a narrativa retrocede no tempo, para nos dar a conhecer a sua história.


Não querendo adiantar grandes pormenores da história, Seita e Setsuko vêem-se privados da sua mãe quando esta é uma das vítimas de um ataque aéreo por avionetas americanas à região, falecendo dias depois por queimaduras múltiplas. Uma vez que o seu pai se encontra na Marinha, são deixados ao cuidado da sua tia. Esta tia é uma das personagens mais curiosas de todo o filme, uma vez que é através da mudança comportamental dela que Takahata nos permite ver como a sociedade, no geral, iria reagir a uma situação de crise, de fome, de pobreza, de guerra. A tia, outrora alegre e contagiante, vai ficando mais triste, com o sorriso cada vez mais cerrado e vai implicando cada vez mais com os dois sobrinhos que adoptou, até ao ponto de praticamente os expulsar de casa. Seita e Setsuko abandonam a casa da tia e improvisam um lar num abrigo anti-bomba abandonado. No entanto, aquilo que seria uma solução alegre para ambos os problemas torna-se um problema em si mesmo, quando as crianças, a passar cada vez mais fome e a ter de recorrer a meios cada vez mais desesperados para conseguir subsistir, descobrem que Setsuko está doente e que, com o final da guerra, o seu pai teria feito parte de um dos navios afundados. 


Extremamente gráfico e com um poder emocional de nos arrancar as entranhas e abraçar o coração, "Grave of the Fireflies" não é para todos. Trágico, deprimente e desprovido de qualquer sentimento positivo, é na sua mensagem anti-guerra que reside a sua riqueza. Ao retratar de forma tão dura, realista e pessimista as consequências negativas da guerra para a sociedade, o filme não procura ser sentimentalista ou melodramático - pretende, isso sim, mostrar as coisas como elas são. A realidade raramente é simpática. Este é um filme sobre a guerra, sobre a fome e a pobreza, sobre a sociedade e sobre a humanidade, que por acaso calhou ser animado. É um filme que não puxa pelas lágrimas; somos compelidos a jorrá-las, tal é a intensidade dramática do que testemunhamos no ecrã.

O filme perde tempo em alguns momentos soberbos, de uma beleza inqualificável, vitais para nos obrigar a reflectir e a meditar, para nos apaixonarmos pelas personagens e temermos pelo seu futuro, para sermos apanhados de surpresa pelo fim pesaroso e percebermos que é, afinal, aquele o fim de muitas famílias apanhadas em território de guerra.


E a relação tão bem caracterizada e estabelecida dos dois irmãos é, para mim, o grande ponto forte e força motriz do filme. A forma como Seita é repetidamente colocado à prova e a sua reacção difere em várias alturas durante o filme é sublime, além de que é verdadeiramente enternecedor - e, sabendo do final, absolutamente avassalador - ver como os dois se são bem e ver a forma como Seita protege Setsuko da realidade alinhando nas brincadeiras e criando uma espécie de mundo à parte só para ela, onde nada lhes acontece e onde tudo fica bem. Não tenho vergonha em admitir que foi um dos filmes que mais vontade me deu de chorar. Lágrimas de luto, de quem tem o seu coração partido pelo que vê suceder sem poder fazer nada. "Grave of the Fireflies" promete ser uma experiência emocional poderosa que vos vai perseguir para sempre. E é por isso, acima de tudo, que eu aconselho toda a gente a vê-lo. Vale a pena - mesmo que depois disso não consigam alegrar-se com nada por umas horas.

Deixo-vos ficar abaixo com o tema final da banda sonora.



Nota:
A

Ficha Técnica:
Ano: 1988
Realizador: Isao Takahata


Especial Animação: Pessoas da Década - Hayao Miyazaki

A acompanhar os sete artigos dos nossos convidados para a nossa Semana de Apreciação à Animação, vamos ter outros artigos especiais dedicados ao tema, que se debruçarão sobre diversos componentes que fazem da animação dos géneros mais excitantes do cinema contemporâneo. Hoje é um dia dedicado aos Estúdios Ghibli, da rica animação japonesa e, como tal, vamos ter alguns artigos dedicados aos fantásticos filmes que nos proporcionaram.

Aproveitando a coincidência de hoje ser terça-feira, ressuscitamos uma rubrica adormecida do blogue - que vai voltar a total funcionamento nas próximas semanas: a das Pessoas da Década. Nesta rubrica, como se lembram, discutimos as grande personalidades cinematográficas que se fizeram, que se valorizaram ou que se excederam nesta década passada, sejam actores, realizadores, compositores, fotógrafos, entre outros.


Era fácil imaginar qual a Pessoa da Década em foco, ainda por cima se tivermos a pista de estar relacionado com os estúdios Ghibli. Um homem que é parte indelével dos estúdios que ajudou a fundar, um homem com uma carreira de trinta anos de actividade, um homem que revolucionou a animação japonesa e que inventou novas formas de contar histórias através da animação, um homem que merecidamente venceu o Óscar em 2003 pelo filme já hoje abordado, "Spirited Away". É óbvio que o homem de que falamos é...



Hayao Miyazaki


Hayao Miyazaki, por muitos considerado o "Walt Disney do Japão", teve a sua primeira grande oportunidade quando conseguiu arranjar trabalho nos estúdios de animação Toei, nos anos 60. Aí trabalhou durante quase vinte anos tendo subido na hierarquia dos estúdios, tendo finalmente realizado o seu primeiro filme em 1979, "Lupin III". Com o moderado sucesso deste filme, Miyazaki conseguiu financiar o seu segundo projecto, uma ambiciosa história que eventualmente seria produzida em 1984, nos primórdios daquilo que seria o Studio Ghibli, intitulada "Nausicaä of the Valley of the Wind".
 

A sua grande amizade com Isao Takahata fez então com que ambos se lançassem na criação do seu próprio estúdio de animação e assim nasceu, em 1985, o Studio Ghibli. O primeiro filme produzido pelo Studio Ghibli foi de Miyazaki - "Castle in the Sky". Este filme, que é ainda hoje um dos filmes mais apreciados de sempre dos estúdios japoneses, marcou uma nova era na forma como se fazia animação na altura. "Grave of the Fireflies", de Takahata, lançado dois anos depois, veio só confirmar o que se previa: que estes dois senhores estavam cá para ficar.


A admiração internacional, contudo, só viria a chegar depois de 1997, quando os irmãos Weinstein adquiriram, através da sua subsidiária na Disney, os direitos de distribuição de "Princess Mononoke", o quinto filme de Miyazaki nos estúdios nipónicos (depois de "Castle in the Sky" viria "My Neighbour Totoro", "Kiki's Delivery Service" - o primeiro filme do Studio Ghibli lançado nos Estados Unidos, debaixo do acordo com a Disney - e "Porco Rosso") e que tinha sido um sucesso estrondoso, a ponto de se tornar, na altura, no filme mais rentável de sempre no Japão.


E assim entramos na década passada. Depois de um curto período de reforma, no qual Miyazaki decidiu ingressar para se focar mais na família, ele retorna ao Studio Ghibli com uma ideia tão original quanto bizarra - a de uma menina que vive num mundo espiritual e mágico no qual tem de aprender a sobreviver sozinha. Dessa ideia inicial brotou "Spirited Away", aquele que é, indiscutivelmente, o filme mais admirado de Miyazaki e da história dos estúdios. O filme, que venceu o Urso de Ouro em Berlim, viria a conseguir a qualificação para o Óscar de Melhor Filme Animado (por não ter cumprido o período de elegibilidade em 2001), que viria merecidamente a vencer. Retém, ainda hoje, uma impressionante nota de 94 no Metacritic e um resultado fabuloso de 97% no Rotten Tomatoes. Um filme propositadamente mais escuro e tenebroso, menos alegre e esperançoso e muito mais introspectivo e reflexivo, que representa a passagem da infância para a adolescência e que contém um comentário social muito vincado, "Spirited Away" é imperdível para qualquer pessoa (faz inclusive parte da lista do BFI dos "filmes que uma criança deve ver até perfazer 14 anos").


Apesar do facto de só o ter realizado "Spirited Away" esta década ser suficientemente merecedor para receber uma menção nesta lista, Miyazaki não parou por aqui e ainda nos presenteou mais duas vezes esta década com dois grandes filmes: em 2004 trouxe-nos o mágico e emocionante "Howl's Moving Castle", sobre uma rapariga transformada em bruxa, também nomeado para Óscar em 2005 e em 2008 o alegre e aventureiro "Ponyo", uma história baseada no conto original de Hans Christian Andersen da Pequena Sereia. Estes três títulos de enorme valor, a juntar a uma carreira brilhante, faz, portanto, com que Miyazaki seja de facto uma presença obrigatória na nossa lista de pessoas da década. 


Um génio, um visionário, uma lenda, Miyazaki será sempre alguém que não pára de inovar e surpreender naquilo que faz. Quase sozinho tornou a casa de animação japonesa numa força poderosa, capaz de lutar taco-a-taco com os dois grandes estúdios americanos e até de lhes vencer ocasionalmente. Mas mais do que isso, a animação de Miyazaki pauta-se pelos temas que aborda, pela forma como constrói a narrativa, pela forma rica e detalhada como caracteriza as suas personagens. As suas histórias não são só para crianças - e é isso, acima de tudo, que o faz estar anos-luz à frente das suas congéneres norte-americanas (que só recentemente se começaram a aperceber disso; por alguma razão Lasseter, Stanton e Docter são fãs de Miyazaki e do seu trabalho - também por aqui se explica parte do sucesso da Pixar).


[Disclaimer: Não detemos os direitos de nenhuma das fotos].


ESPAÇO DE CULTO: Michelle Pfeiffer


ESPAÇO DE CULTO é uma nova rubrica do Dial P For Popcorn que se dedica semanalmente a valorizar, a idolatrar, a adorar uma das nossas actrizes favoritas, tanto pelo seu aspecto físico, como pela sua filmografia.

Vou tentar ir escolhendo uma actriz por década, mais ou menos. A desta semana é...

MICHELLE PFEIFFER




Sem qualquer dúvida uma das minhas actrizes favoritas do final dos anos 80 e início dos anos 90, Michelle Pfeiffer só ainda não tem o seu lugar reservado no panteão da história do cinema porque, como a tantas grandes actrizes como Glenn Close ou Annette Bening, lhe falta o prémio máximo: um Óscar. Pode não parecer importante, mas é. Tanto o é que as três se tornaram conhecidas por isso. São as três grandes actrizes do final dos anos 80 a quem falta ganhar o Óscar. A elas juntaria Julianne Moore e Kathleen Turner. Cinco grandes injustiças, portanto.

 

Dona de uma belíssima voz, proprietária de um dos rostos mais bonitos que alguma vez agraciaram o cinema - que ainda hoje, com 50 anos e algumas rugas, se encontra notavelmente conservado, esta loira que mostrou ao que veio pela primeira vez, a sério, em Scarface de Brian de Palma, no início dos anos 80, viria a revelar toda a sua qualidade com um one-two-three punch no dobrar da década: foi sublime em Dangerous Liaisons de Stephen Frears, um dos meus filmes favoritos de sempre e com não uma, mas duas grandes interpretações femininas (Pfeiffer e Close, ambas enormemente roubadas nos Óscares nesse ano), derreteu-me o coração e enfeitiçou-me para sempre em The Fabulous Baker Boys, o papel que a devia ter lançado em definitivo para a ribalta e dado o Óscar que ela tanto merecia (não fosse o sentimentalismo foleiro da Academia em premiar a octagenária Jessica Tandy) e foi felina e impressionante em Batman Returns de Tim Burton - ainda hoje não consigo imaginar mais ninguém desempenhar aquele papel com tanto instinto, intensidade e personalidade como Pfeiffer (e é, sem dúvida, a melhor vilã da filmografia, a par do The Joker de Heath Ledger).



Depois disto, ainda tentou a sorte com a Academia mais uma vez, num filme feito propositadamente para caçar Óscares (Love Field) e, depois de surgir em The Age of Innocence, a actriz desapareceu. Ou melhor, deixou de tentar. Passou a dedicar-se a comédias românticas foleiras nas quais era, invariavelmente, o único ponto de interesse, sendo que para mim a única excepção a essa regra esteve em One Fine Day, contracenando com George Clooney, que foi para mim o melhor par que Pfeiffer alguma vez teve em filmes, a par de Jeff Bridges.


Esta grande actriz ainda tentou uma espécie de retorno à ribalta por duas vezes: em 2001 e 2002, com I Am Sam que valeu a Sean Penn uma nomeação para Óscar e com White Oleander, uma adaptação de uma obra-prima de grande sucesso, onde Pfeiffer é, sem qualquer dúvida, brilhante mas que não conseguiu grande tracção para prémios; e o ano passado, com Chéri, uma nova parceria com Stephen Frears que desta vez não produziu os resultados esperados. Felizmente, a actriz já disse que quer trabalhar mais esta década; infelizmente, o único grande projecto que tem para já é a continuação da horrível comédia romântica Valentine's Day, de seu nome New Year's Eve. Esperemos ao menos que o rumor de que Tim Burton a quer para Dark Shadows seja verdade.

Seja como for, para mim pelo menos, Michelle Pfeiffer terá sempre um lugar cativo no meu coração e no meu pensamento, mais não seja pela icónica Catwoman que protagonizou:




O Cinema Numa Cena


Bem-vindos a mais uma rubrica semanal aqui no Dial P for Popcorn - "O Cinema Numa Cena" tenta mostrar as nuances de uma interpretação fora-de-série numa cena pivotal do seu filme. 



Depois das últimas edições desta rubrica termos voltado à década passada, eis que damos um passo atrás e caminhamos para os anos 80, para um dos meus filmes favoritos de sempre e, para mim, um dos cinco melhores que Woody Allen já fez - e que por acaso celebrou o seu 25º aniversário esta semana: "Hannah and Her Sisters", que além de ter uma excelente direcção - e um excelente argumento - do próprio Woody Allen, tem um elenco a funcionar no topo da sua forma, com Allen a conseguir três magníficas interpretações das suas protagonistas - e para mim, indubitavelmente, a sua melhor prestação de sempre.

Prova disso:



Nunca a sua neurose teve tanta piada.



BACK TO THE FUTURE (1985)



Quando me aconselharam a ver "Back to The Future" eu torci o nariz, pois reunia um conjunto de características que não me conseguiam convencer:

Década de 80, que para mim consegue ser a pior a nível do cinema, música, arte, moda, política, conseguindo dar-nos coisas tão boas como os Smiths e absoluto lixo como eram as séries americanas (ou portuguesas) da altura (agora a maioria ainda continuam a ser uma verdadeira perda de tempo, no entanto, a qualidade técnica melhora e a não se torna tão violento para o olhar).


Título de blockbuster barato, que nos leva logo a imaginar metade da história só de olhar para o poster de apresentação.

A dificuldade natural de tentar manipular o tempo, transportanto realidades diferentes que necessitam de uma inteligente adaptação e de uma coerente coordenação. São tantos os que desgraçam as suas carreiras quando se metem nestes caminhos...


Mas há uns dias atrás, as excelentes recomendações que tinha sobre ele, convenceram-me a dar-lhe uma hipótese. O que vos tenho a dizer é que fiquei agradavelmente surpreendido. Já esperava que a ideia e a história do filme fosse esta, não o vou negar e é inevitavel não sabermos à partida o que nos espera, mas como já o disse aqui diversas vezes, muitas das vezes a diferença está na maneira como nos contam uma história. A ideia-base do "Back to the Future" é uma história que uma criança de 6 anos pode facilmente imaginar. O toque pessoal que Robert Zemeckis lhe deu, é que o tornou no sucesso que foi, é e certamente sempre será.


"Back to the Future" é um filme divertidíssimo. Um filme para nos fazer relaxar, rir, divertir-nos e fazer-nos sentir uma enorme empatia e amizade pelos protagonistas desta história.


Sem vos revelar muito, Marty McFly (Michael J. Fox) é um jovem cheio de sonhos e ilusões, sem sucesso na escola e com uma família completamente depressiva, em que o pai é um idiota e a mãe uma frustrada com a vida e o casamento. Ao conhecer o Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd) que uma lufada de ar fresco entra na sua vida e, mesmo perante todos os conselhos para que dele se afastasse, Marty acredita nas potencialidades dos projectos de Brown e ajuda-o na concretização dos mesmos.


"Back to the Future" conta a história do mais ambicioso e arrojado projecto do Dr. Emmet Brown: uma máquina do tempo, movida a plutónio, capaz de o transportar para qualquer momento da humanidade.

O que acontece a seguir, obrigo o leitor a descobrir. Este é um daqueles filmes que um dia vou certamente querer mostrar aos meus filhos. É uma história de miudos, que diverte imenso qualquer graúdo.


Nota Final: B+


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Robert Zemeckis
Argumento: Robert Zemeckis e Bob Gale
Ano: 1985
Duração: 116 minutos.