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DIAL P FOR POPCORN

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Grandes Divas do Ecrã



"I'm loud and I'm vulgar, and I wear the pants in the house because somebody's got to, but I am not a monster. I'm not."

"You make me puke."


Martha (Elizabeth Taylor), "Who's Afraid of Virginia Woolf?" (1966)


Estou a dever esta publicação a Elizabeth Taylor desde Março, desde o dia em que este mundo ficou infinitamente mais pobre por perdê-la. Taylor é, ainda hoje, a definição de estrela de cinema. Ousada, ambiciosa, belíssima, com uma vida pessoal a rivalizar com uma história ficcional, criticada por uns, amada por outros, admirada mundialmente como pessoa e como actriz. Vencedora de dois Óscares, um deles por esta interpretação,  Elizabeth Taylor é, simplesmente, uma das maiores criações que Deus alguma vez fez pisar a Terra. 

A rubrica "Grandes Divas do Ecrã" arruma assim a sua primeira temporada. Não sei se a traga de volta daqui a algum tempo, se a remodele, se arranje nova rubrica dentro do género. Questões a repensar para a rentrée, sem dúvida. Aceitam-se sugestões para renovações e para novas rubricas.

WEST SIDE STORY (1961)

"All the world is only you and me."

Por várias vezes, a sétima arte declarou a morte do seu género mais rico e mais prestigiante, o musical. Depois de "Wizard of Oz" ter encantado milhões e "Singin' in the Rain" nos ter dado vontade de sair à rua e cantar enquanto gotas frias de chuva nos caem em cima, alguns falhanços de bilheteira como "Oklahoma!" ou "South Pacific" ou mesmo os cintilantes "A Star is Born" de Cukor e "Gigi" de Minnelli - hoje em dia considerados dos melhores musicais de sempre, galardoados com várias nomeações pela Academia mas ignorados na altura pelo grande público - puseram em causa o quanto o público ainda apreciava um grande espectáculo de luz, cor, música e dança. O que o cinema musical precisava, então, era de um enorme êxito cuja ressonância junto do público faria os estúdios acreditar de novo no poder da música. E eis que é assim que surge o famoso e muito premiado (vencedor de dez Óscares da Academia, só atrás de "Return of the King", "Titanic" e "Ben Hur" que ganharam onze) "WEST SIDE STORY", que pega nos conceitos básicos do romance "Romeu e Julieta" de William Shakespeare e cria uma história para recordar todo o sempre e um dos pares românticos mais inesquecíveis de todos os tempos, Tony e Maria.


Com uma energética e dinâmica Nova Iorque nos anos 50 como pano de fundo, "WEST SIDE STORY" foca-se na relação tempestuosa entre dois gangues rivais: os Jets, compostos por descendentes dos imigrantes europeus que se estabeleceram na América no início do século, liderados por Riff (Russ Tamblyn) e os Sharks, recém-chegados porto-riquenhos em busca do sonho americano, liderados por Bernardo (George Chakiris). O filme transforma assim a disputa de duas famílias rivais numa luta entre duas classes sociais distintas, revolucionando a narrativa em termos da sua mensagem, abordando tópicos como o roubo, a delinquência juvenil, a xenofobia e o racismo e conferindo-lhe um estilo muito próprio, bem diferente do romance trágico de Shakespeare, embora conservando os seus fios narrativos essenciais - e adicionando-lhe um toque bem refrescante e inovador, transmitindo as suas ideias sob a forma de música e dança.


No meio da disputa entre os dois gangues encontram-se Tony (Richard Beymer), o melhor amigo de Riff, que apesar de ter abandonado os Jets e decidido procurar trabalho e subir na vida, vê-se envolvido na confusão a pedido de Riff, que põe em questão a sua amizade, e Maria (Natalie Wood), irmã de Bernardo, trazida há bem pouco tempo para a América para poder desposar Chino, o braço-direito de Bernardo, contrariando a vontade de Maria e da sua namorada Anita (Rita Moreno), amiga e confidente de Maria. A falta de química dos dois protagonistas seria, à partida, essencial para o sucesso da história (e atenção que eu sou um enorme fã de Natalie Wood, por isso custa imenso estar a criticá-la); todavia, o espírito e a graça de Rita Moreno e o estilo e irreverência de Russ Tamblyn e George Chakiris convencem-nos a ignorar essa grande fraqueza e a apreciar outros factores que ajudam, no fim de contas, o filme a capturar na perfeição a ingenuidade e a despreocupação da juventude.

 
Apesar da visão ambiciosa por detrás do filme e do grande potencial que tinha, o resultado final peca em defeito. O diálogo sofre de clara falta de inspiração e talento de escrita, servindo apenas como guideline e intermissão entre momentos de música e dança, mas funciona perfeitamente para o propósito do filme (como conseguiu ser nomeado para Melhor Argumento Adaptado eu nunca hei-de saber). Como que a compensar, as cenas musicais, tão igualmente elogiadas (pela crítica) e criticadas (pelos actores, que viram as cenas ser repetidas vezes sem conta pelo realizador Jerome Robbins, que no seu perfeccionismo acabou por ser despedido por ultrapassar o orçamento), são de absoluto encanto e charme. Se "Tonight" e "I Feel Pretty" fazem hoje parte do nosso imaginário (as gerações mais novas reconhecerão estas músicas seguramente pelas suas adaptações na série televisiva "Glee"), "America", "Cool", "Prologue" e "Something's Comin'" são, para mim, os três números musicais definidores do ambiente do filme, a tresandar de paixão, de alma, de fogo e de alegria. As vozes que Marni Nixon e Jimmy Bryant "emprestam" a Natalie Wood e Richard Beymer fazem maravilhas em "Tonight", é certo, mas é a exuberância e a energia de Rita Moreno e George Chakiris em "America" que fazem deste filme tão especial. Curiosamente, as quatro músicas que preferi destacar são as quatro coreografias que Jerome Robbins completou antes de abandonar o filme. São hilariantes, excitantes e fortíssimas, geniais no seu conceito e execução, de facto. Às músicas mencionadas junto ainda a brilhante sátira feita à idiotice e inércia das forças policiais em "Gee, Officer Krupke". Stephen Sondheim e Leonard Bernstein são, sem dúvida, dois dos maiores compositores de sempre.


Merecido vencedor, em 1962, dos Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador (a primeira de apenas duas vezes que uma parceria de realizadores venceria o prémio; os outros foram os irmãos Coen em 2007), Melhor Actor Secundário (Chakiris) e Melhor Actriz Secundária (Moreno), Melhor Banda Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Direcção Artística, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Edição e Melhor Som, "WEST SIDE STORY" é uma experiência absolutamente inesquecível e indescritível, repleto de momentos musicais arrebatadores e cenas de dança de cortar a respiração, com uma conclusão agridoce que é, contudo, bastante realista (talvez o meu principal problema com o filme, o facilitismo com que chega a empurrar a sua mensagem para o centro da narrativa, perdendo assim o final do filme - quase - toda a sua potência): com o coração cheio de ódio não se vai a lado nenhum. Gostava que o filme tivesse sido mais risqué e menos politicamente correcto e fã do final feliz. Ainda assim, constitui um feito notável e uma das maiores produções de sempre do cinema americano, uma que tem lugar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. Como musical, nunca desaponta. Como filme... Depende do que se pretender retirar dele.


Nota:
A-

Ficha Técnica:
Realização: Jerome Robbins, Robert Wise
Argumento: Jerome Robbins, Arthur Laurents, Ernest Lehman
Elenco: Natalie Wood (voz: Marni Nixon), Richard Beymer, Rita Moreno, George Chakiris, Russ Tamblyn, William Bramley, Ned Glass
Música: Leonard Bernstein, Irwin Kostal
Fotografia: Daniel L. Fapp
Ano: 1961

THE HUSTLER (1961)



Eddie Felson (Paul Newman) é um artista do bilhar. Com arte, mas também muito engenho (que lhe permite rentabilizar apostas contra inexperientes apostadores), consegue uma vida com alguma tranquilidade, viajando pela América à procura de apostas altas e lucrativas contra jogadores à altura das suas capacidades.


Decidido a ganhar, numa só noite, dez mil dólares, desafia o grande nome da cidade de Minnesota, Mr. Fats (Jackie Gleason), um habilidoso jogador capaz de vencer os adversários dentro e fora da mesa de bilhar, que com um fortíssimo jogo psicológico acaba por derrotar Felson após vinte e cinco longas horas de várias partidas de bilhar (onde este chega a perder os dezoito mil dólares angariados durante as primeiras horas do confronto) devido ao álcool, à teimosia, à inexperiência e ao seu mau-perder.


Após a primeira grande derrota da sua carreira, Eddie Felson passeia-se pela cidade e descobre Sarah Packard (Piper Laurie), uma jovem alcoólica que o acolhe e com ele se envolve. É, aliás, a força da sua companhia e uma paradoxal estabilidade resultante da atribulada relação, que lhe dão força para regressar ao bilhar decidido a tentar, novamente, derrotar Minnesota Fats. Eddie conhece Bert Gordon (George C. Scott - aquela que foi a minha personagem favorita de todo o filme), um experiente apostador que o incentiva e subsidia no seu regresso.


Um filme que nos demonstra que, para além do talento, também o trabalho e a inteligência são importantes para se conseguir obter sucesso, The Hustler é um clássico do cinema sobre o mundo das apostas, da vida dependente dos resultados, do futuro que baloiça numa corda bamba insegura e imprevisível.


Nota Final: B+


Trailer:





Informação Adicional:
Realização: Robert Rossen
Argumento:
Robert Rossen e Sidney Carroll
Duração:
134 minutos
Ano:
1961

Especial Animação: A vilã de 101 DALMATIANS (50º Aniversário)

Nesta semana especial, que abre o mês de festividades, pedimos a amigos próximos e colaboradores de outros blogues que nos ajudassem a abordar um dos nossos temas preferidos: a animação. Todos eles foram limitados a um máximo de dez imagens ou um vídeo para a sua tarefa. Sete dias, sete colaboradores, sete títulos que festejam este ano o início de uma nova década de vida. Muita diversão, emoção e magia é prometida. A ver se cumprimos. 

O nosso quinto convidado é dono de um dos espaços mais interessantes e irreverentes da nossa blogosfera, o qual me dá imenso prazer visitar: o Samuel Andrade (Keyser Soze's Place) que, na senda dos clássicos Disney, nos vem falar de um filme que atingiu a meia centena de vida no passado dia 25 de Janeiro, 101 DALMATIANS. Aqui vos deixo com o Samuel:



Rever "101 DÁLMATAS" é reconhecer que, de toda a Sétima Arte de animação, a Disney perfilou um impressionante conjunto de vilãs: a Rainha Grimhilde de "BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES", a Ursula em "A PEQUENA SEREIA", a Yzma em "PACHA E O IMPERADOR", a Mãe Gothel em "ENTRELAÇADOS". Contudo, nenhuma terá sido tão bem construída — e a vários níveis — como Cruella De Vil.

O próprio nome indica estarmos perante uma “criatura” capaz de emprestar pleonasmo ao conceito de antagonismo e, no que toca a vilões, apresenta todo os seus traços habituais: o penteado de um louco, compleição quase inumana, vícios (nomeadamente, o cigarro na ponta de uma boquilha), gargalhada infame e a discutível apetência por casacos feitos a partir da pele de adoráveis cachorrinhos dálmatas.

Mas Cruella é uma vilã particular pelos subtextos que não são imediatamente destacados na sua caracterização, numa provável estreia dos argumentistas da Disney em apelar à consciência social do espectador. A saber, uma tremenda e deliciosa condenação à sociedade consumista dos anos 60, através de uma figura que, a certa altura, parece protagonizar uma campanha publicitária a favor dos casacos de pele: «My only true love, darling. I live for furs. I worship furs! After all, is there a woman in all this wretched world who doesn’t?». Cruella De Vil é, portanto, mais do que a antagonista com um plano diabólico a ser executado pelos seus ineptos empregados que ela agride constantemente; é a extrema caricatura do ideal (bastante mundano, por sinal) de parecer que nunca temos tudo o que precisamos.


No geral, é de lamentar que 101 DÁLMATAS não tenha investido mais tempo neste e noutros conceitos. Afinal de contas, não existe “universo” mais simples e puro que o reino animal. E, por acaso, o filme até é narrado por um dálmata…


Obrigado, Samuel, por teres aceite o convite!
E vocês, que pensam da Cruella? E do filme em si?


PSYCHO (1960)


Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Esta semana a película em análise é um dos filmes mais reconhecidos universalmente, a fantástica obra-prima de Hitchcock, PSYCHO. Espero que gostem, de qualquer forma e que se juntem à conversação - e que vos incite a ver o filme. AVISO: Pode conter 'spoilers' uma vez que não é bem uma crítica mas uma análise ao filme.




O pormenor que considero mais fascinante em torno de PSYCHO é a minha firme crença de que o seu realizador, Alfred Hitchcock, soube desde sempre que este filme, cinquenta anos após a sua produção, iria estar tão enraizado na cultura popular que nunca mais ninguém iria olhar para filmes de terror, para cenas de chuveiro e para o matricídio da mesma forma. PSYCHO é, na sua mais pura essência, uma experiência aterrorizante, excitante, envolvente, que nunca perde o seu poder e potência seja esta a primeira vez que o vemos ou a décima.

 
Quando vemos a mulher à janela na mansão assustadora e de aspecto  decrépito e misterioso onde vivem os Bates pela primeira vez, não podemos deixar de ponderar na sua possível omnipresença na trama daqui para a frente. A expressão de estranheza, de curiosidade leve e cautelosa (tendo em conta o que sabemos hoje em dia de vultos em janelas sombrias no meio da noite, não seria a nossa expressão facial também parecida?) no rosto de Marion Crane (uma interpretação imensamente detalhada por parte da talentosa Janet Leigh), que havia fugido de Phoenix com 40,000 dólares roubados e que, em direcção a Fairvale para se encontrar com o seu amante Sam, por se encontrar cansada e assustada da viagem, decide pernoitar no Motel Bates, é também ela denunciadora. 

 
Mal sabia Marion que se encontrava a meros minutos de sofrer uma das mortes mais infames da história do cinema; no entanto, parece que ela adivinhava que, depois de todas as tribulações e confusões na viagem (uma das grandes delícias da sua interpretação são as diversas expressões faciais que exibe enquanto é perseguida pela polícia e quando está a abandonar a cidade e o seu patrão a vê de relance, denunciando o seu crime), seria esta a mulher que lhe iria trazer o seu triste fim.


Antes de morta, porém, Marion trava conhecimento com Norman Bates (Anthony Perkins), o responsável pelo motel. Bates é um sujeito invulgar. Tenta fazer passar-se o máximo por uma pessoa normal e quase consegue - isto é, até ao momento que Marion começa a fazer-lhe perguntas pessoais. A psique de Bates é uma coisa fascinante de se observar - a forma despreocupada com que fala do seu dia-a-dia, da sua solidão, da sua paixão pela taxidermia, é trocada de repente por gélidos olhares, fala entredentes, sorrisos nervosos e confusão e incongruência no discurso. Impressionante é ver que Janet Leigh consegue usar esses traços de personalidade de Bates para contar mais acerca da sua própria personagem: as dentadas nervosas que dá na sanduíche, os olhares de soslaio que faz, o contacto íntimo que procura até perceber que falou demasiado... Muito perspicaz.


Eventualmente, como em qualquer filme do senhor Alfred Hitchcock, temos que chegar à parte dos assassinatos. E falando de mortes... Esta é uma daquelas que impressiona. Para azar e infortúnio de Marion Crane, a sua jornada acaba aqui - este é o seu destino - e parece-nos a nós que sempre o fora desde o momento em que ela pôs os pés neste motel. A inocente e ingénua Marion toma despreocupadamente banho de chuveiro quando tudo acontece. O resto, é história. A banda sonora de Herrmann alterna entre a melodia sombria e arrepiante que pauta toda a película para uns sons mais estridentes e assustadores. Um vulto aproxima-se por detrás da cortina, segurando uma faca. Marion grita. Ninguém ouve. Repetidas facadas são vistas (como se sabe, Hitchcock decidiu filmar esta cena sem que uma facada ou jorro de sangue se visse, porque achava que o público da altura não suportava ver grande quantidade de sangue) e o fim prematuro de Marion chegou. Num último movimento, ela puxa a cortina da banheira. Simbolicamente, sangue a jorrar da vítima  é lavado pela água do chuveiro e ambos rodopiam pelo cano abaixo. Um close-up final do olho cintilante, sem vida de Marion é-nos proporcionado.


Quando Bates (ouvimos) descobre a mãe coberta de sangue, corre até à cabana procurando impedir o pior, mas este já está feito - e quando ele a desvenda, não há como não ficar horrorizado pelo cenário atroz e macabro. Atrás de Marion já anda meio mundo e dias depois é a ver de Arbogast (Martin Balsam), um investigador privado, chegar ao Motel Bates. Também ele iria ser surpreendido pela Morte, pouco depois de ter informado Lila Crane (Vera Miles), a irmã, e Sam Loomis (John Garvin), o amante, que ela teria aí sido vista pela última vez. Quando ele não regressa, não havia como Lila e Sam ficarem desconfiados e procurarem fazer justiça pelas próprias mãos.


É nestas cenas de busca dos dois na casa dos Bates que dá para ver melhor aquilo que eu mais gosto nos filmes de Hitchcock - a forma como testa o índice de medo da audiência, a forma ilimitada com que aborda os nossos medos mais primários, mais básicos, mais fundos da nossa alma. O jogo de espelhos que tanto aterroriza Lila numa cena funciona de forma semelhante às várias vezes que Marion, mais cedo na película, olha para o espelho para conferir se alguém a segue, e depois quando o polícia surge em repetidas frames à porta da loja de carros usados.  Este estudo do comportamento e da natureza humana que Hitchcock faz em todos os seus filmes é notável - quem diria que nos podemos assustar tanto com algo tão elementar como a ideia de termos alguém a perseguir-nos quando fazemos algo de errado? E a situação em que Lila se encontra - ela que anda a bisbilhotar uma casa que não é sua, a invadir a privacidade de outrem - e ainda por cima numa casa tão mal iluminada, tão assustadora, tão estranha e peculiar - e que a qualquer momento pode ser apanhada... é perfeitamente natural que se tenha assustado ao ver o seu reflexo no espelho por trás dela, pensando que era outra pessoa. Quem é que nunca experienciou sentimentos semelhantes? Certamente já se passou com todos nós. Todos nós já fizermos algo que sabemos que era errado e tememos ser apanhados por fazê-lo.


Mas o que tema ela em concreto? Desde o primeiro momento que surge no grande ecrã que se torna bastante claro que no fim tudo iria girar em torno de Norman Bates. Anthony Perkins interpreta-o de forma magnífica, transformando o que já era uma personagem complexa no papel numa verdadeira sombra humana. Variando entre a personalidade jovem, enternecedora e divertida de algumas cenas e a tristeza, melancolia, dúvida e mistério que pairam no seu rosto noutras, o seu Norman Bates é claramente alguém que não dá para confiar a sério. A forma como pronuncia algumas falas é brilhante. E é fantástico, como disse acima, vê-lo perder-se totalmente quando se aborda assuntos muito pessoais. Ele escapa para outro mundo. Parece ter a cabeça na lua. Perde-se na coerência do seu discurso. Ri-se nervosamente. Fala entre dentes. E perde completamente as estribeiras e a polidez por alguns momentos.  Apesar de achar que o filme dispensava  as cenas com o psiquiatra, sendo que para mim devia ter terminado logo após a mãe ter sido revelada, esta última cena, frente a frente com o assassino, de olhar frio e cruel, de sorriso ironicamente satisfeito, qual louco envolvido pelo seu próprio delírio, é absolutamente preciosa, como que a lembrar-nos de que nem sempre o demónio está nos sítios mais óbvios. Norman Bates tinha uma alta doce e gentil. É pena que esta estivesse consumida e destruída.

No fim de contas, PSYCHO é um melodrama/thriller de grande qualidade e efeito, recheado de interpretações curiosas e poderosas mas onde o realizador é que é a verdadeira estrela. Desde os close-ups do ponto de vista da personagem (em particular a visão dentro do carro), da forma desconcertante de introduzir ironia nos diálogos mais sérios, da surpreendente lata de fazer as personagens sorrir nas situações mais inapropriadas, da extraordinária direcção artística (pássaros assustadores empalhados, anyone?) e escolhas de casting (todos os actores são aquilo que as suas personagens precisavam - mesmo em termos físicos; não há escolhas ao acaso aqui) e a edição perfeita, PSYCHO é realmente uma obra emblemática, uma sinfonia estrondosa de horror e suspense; numa frase, é tudo aquilo que os grandes filmes esperam ser: um filme para todo o sempre, um  filme que resista ao teste do tempo, um filme que desafie e estimule a audiência e, sobretudo, um filme que tenha o orgulho e prazer de se auto-intitular como um dos melhores já alguma vez feitos.

Nota Final:
A

Informação Adicional:
Realização: Alfred Hitchcock
Elenco: Janet Leigh, John Gavin, Vera Miles, Anthony Perkins
Fotografia: John L. Russell
Banda Sonora: Bernard Herrmann
Duração: 109 minutos
Ano: 1960

Trailer:

"Hit Me With Your Best Shot": PSYCHO (1960)


Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Esta semana a película em análise é um dos filmes mais reconhecidos universalmente, a fantástica obra-prima de Hitchcock, PSYCHO. Uma vez que esta rubrica é feita para um sítio inglês, o artigo tem que ser colocado nas duas línguas. Espero que gostem, de qualquer forma e que se juntem à conversação - e que vos incite a ver o filme. [N.B.: O texto tem 'spoilers']. 




What strikes me as the most fascinating about PSYCHO is how I believe its director Alfred Hitchcock knew that one day, fifty years after its release, that movie would have become such an indelible part of pop culture that no one would ever look at horror films, shower scenes and sons damaged by overbearing mothers the same way again. PSYCHO is, at its core essence, an amazing, thrilling experience, one that never loses its power whether you are watching it for the first time or if you have already watched it too many times for your own good. This, however, creates a huge problem for me: how to select only one image as strikingly iconic enough to represent a whole two hours' worth of pure entertainment - and not going for the shower scene?

 
When we first see this woman by the window, in that creepy-looking manor next to Bates Motel, one can't help but wonder about the possible omnipresence it may have on the story development. The facial expression on Marion Crane (an immensely detailed performance by Janet Leigh), our protagonist, that has fled Phoenix with 40,000 $ she stole from her boss and in her way to Fairvale, to meet her lover Sam, after seeing that image is so curious, judgemental yet ambiguous, unaffected but scared, that I couldn't help but to be drawn to it. Hardly does she know she's only mere minutes away from being murdered in one of the most famous scenes in cinematic history; however, it's as if she knew that the woman she saw would spell trouble for her along the way.


Speaking of murder... This is an impressive one. Misfortunately, Marion Crane meets her fate and ends her journey here. What a way to go. After a creepy, bizarre conversation with the motel owner, Norman Bates (an outstanding Anthony Perkins), Marion unknowingly decides to take a shower. The rest, you already know. Bernard Herrmann's delightfully suspenseful score sets the perfect mood for this untimely end. A shadow holding a knife creeps in. Marion screams loudly and  is repeatedly stabbed. In one last movement, she pulls the shower curtains. Symbolically, blood and water spin down the drain and the camera cuts to a close-up of Marion's unmoving eye. When Bates sees her, he (and we) can't help but to be sickened of the whole gruesome picture.


My favorite shot. After her disappearance has been known, a private detective, Arbogast (Martin Balsam) is hired to discover evidence on her whereabouts. He will eventually end up being murdered at the Bates's, not long after he informs her sister, Lila Crane (Vera Miles) and her lover Sam Loomis (John Garvin) that she stayed in that motel on her way to Fairvale. When they didn't hear from him the next few days, Lila and Sam decide to take matters into their own hands and search for her inside the house. Here lies what I believe to be Hitchcock's greatest skill: he worked with our primal fears and keeps testing them every time. It's amazing what frightening feelings he can pull off a car chase by a policeman (that repeated image of Marion looking into the rear mirror and afterwards of the policeman parked outside the used cars department reads as a pitch-perfect notion of human nature - when we do something bad, we are always glancing over our shoulders, almost anticipating that someone will come and be suspicious and reveal that they had known all along what we have done). This is why I love this shot so much. It plays so obvious that Lila would be terrified to see herself in the mirror, mistaking it for somebody else. In an ominous, creepy house like that and taking into account the purpose and the illegality of her presence there, who wouldn't be scared? It's something we all can relate to. Who hasn't been caught in a situation like that before? Who hasn't been caught sneaking up on something when we know we aren't supposed to?


From the first moment when he appears on screen, it's pretty clear that in the end it would all come down to Norman Bates. Anthony Perkins plays him in excellent fashion, transforming a complex character on paper into a doubtful shadow of a person. He conveys that boyish, "joie de vivre" kind of personality perfectly while still managing to sound mysterious and creepy through his line reading of some pivotal sentences. And it's fantastic to see him let go of his grip when things start to get personal. He evades. He giggles nervously. He loses track of his speech. He is not to be trusted. To Hitchcock's credit, although I feel that he should have ended the movie right after the scene where the mother's identity is revealed, this last scene which ends with the imposition of a skeleton over Norman's face is absolutely brilliant (The psychiatrist's lecture? Not so much), as if to remind us that sometimes the devil is in the unlikeliest of places. Norman Bates had one gentle soul. He just happened to have a broken one.


PSYCHO is an effective, full-blown melodrama, filled with interesting performances but where the director is the true star. From the close-ups from the character's point of view, the unsettling way of creating irony in a serious dialogue, the joyful thrill of having your characters smile in the most innapropriate of settings,  the spot-on art direction (stuffed birds, anyone?), casting choices (every actor is everything, physically, which the character requires them to be) and perfect editing, PSYCHO is truly an emblematic masterpiece, a mindblowing symphony of horror and suspense; in a sentence, it is everything the great movies hope for: a movie for the ages, that stands the test of time, that defies and challenges the audience, a movie that can proudly call itself one of the best ever made.

Nota Final:
A

Informação Adicional:
Realização: Alfred Hitchcock
Elenco: Janet Leigh, John Gavin, Vera Miles, Anthony Perkins
Fotografia: John L. Russell
Banda Sonora: Bernard Herrmann
Duração: 109 minutos
Ano: 1960

Trailer:

Personagens do Cinema - Holly Golightly


Hoje decidi aventurar-me a pegar na rubrica que é habitualmente do João. E escolhi esta para começar (e até para balançar a forte presença masculina nas Personagens do Cinema que já abordámos), ela que é uma das personagens mais icónicas da história do próprio cinema.


Estamos em 1961. Introduzam na história uma das grandes actrizes de todos os tempos, em particular naquela época, em que definitivamente Audrey Hepburn era a mulher mais querida em Hollywood (sentimento que se mantém até hoje, com qualquer actriz mais jovem com uma carreira promissora a ser comparada a ela - as últimas duas: as britânicas Knightley e Mulligan, ambas curiosamente estiveram na luta pelo papel principal no remake de "My Fair Lady", um dos grandes papéis de Hepburn). Vencedora de um Óscar em 1954, juntou a essa nomeação mais duas antes de chegar aquele que é, indubitavelmente, o seu maior papel de sempre, o papel que a imortalizou: o de Holly Golightly.


Holly Golightly é uma mulher frágil, solitária e insegura que esconde essa sua fachada com os seus intermináveis serões e festas, com a sua atitude de espírito livre, sofisticada, moral, engraçada, divertida e charmosa, tentando agarrar o prazer fugaz que a vida traz e a que realidade não lhe traz. Audrey Hepburn empresta uma frescura e originalidade a esta personagem a que é impossível ficar indiferente. 


As suas reacções extemporâneas, o seu carácter romântico e sonhador tornam-se curiosos demais para o seu novo vizinho Paul, que acabou de se mudar para o prédio ao lado, resistir. Holly apresenta a Paul o que de facto compõe a sua vida e se bem que tudo isso é muito fascinante, torna-se ainda mais saboroso ver a  ternura, a vulnerabilidade, a simplicidade real de Holly quando está sozinha em casa, quando não está a saltar de festa em festa, em compras e gestos excessivos e chegar à conclusão que tudo aquilo com que ela se diz identificar, tudo aquilo que ela julga ser a sua vida, é uma farsa, uma falsidade. 


É, no fim de contas, a relação com Paul e a paixão que sente por ele que levam a estonteante Holly Golightly a parar para pensar e a avaliar-se a si própria realisticamente, percebendo que a vida que levava não é a vida que ela quer.


Uma personagem fascinante, uma interpretação genial, um papel que fica marcado na história. "Breakfast at Tiffany's" é Audrey Hepburn. Bem, Audrey Hepburn e "Moon River". Mas essencialmente Audrey Hepburn. E foi inesperadamente com este filme que eu fiquei embevecido por ela.

Grandes Posters

Um dos meus filmes favoritos, em termos de design dos posters, é este "2001: A Space Odyssey" de Stanley Kubrick. Originais, inventivos, soberbamente projectados, este que eu seleccionei em particular tornou-se a imagem de marca do filme por acaso, uma vez que a ideia primária de campanha de advertising eram as típicas imagens do espaço. Contudo, após os posters mais tradicionais terem falhado em promoção, Kubrick decidira que tentariam uma abordagem alternativa, com esta imagem de embrião a ser estrela de uma das novas campanhas de marketing - estas sim foram o sucesso que se sabe.

Ainda hoje, esta imagem do embrião, que remete para o tema da evolução humana, me impressiona. É uma excelente ideia e descreve bem o conceito geral do filme.