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DIAL P FOR POPCORN

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EASTER PARADE (1948)



Nos anos 40 e 50, os musicais eram um dos géneros cinematográficos mais populares e mais requisitados juntos dos grandes estúdios. Muitas grandes estrelas desse tempo entraram ou fizeram carreira em musicais e foram estes que imortalizaram estrelas de cinema tão grandes como Judy Garland, Gene Kelly, Fred Astaire ou Ginger Rogers. Infelizmente, quantidade não equivale a qualidade e por cada dez musicais produzidos nessa época, um ou dois tinham sucesso, invariavelmente aqueles que tinham uma boa história ou, melhor que isso, onde entravam as maiores estrelas de cinema musical de então. Como este "EASTER PARADE", um musical muito divertido e alegre, com números musicais agradáveis e luminosos engrandecidos pela presença da parelha Garland e Astaire que infelizmente não almejam a mais que um bom filme graças à falta de originalidade e fraqueza da narrativa.


Hoje em dia, é engraçado pensar que este par esteve para não acontecer. Gene Kelly era o escolhido para protagonista masculino, mas devido a uma perna partida, teve que ser substituído. O próprio propôs Fred Astaire que, apesar de aparentemente reformado na altura, abraçou a oportunidade de trabalhar com Judy Garland. Ele não o sabia então, mas foi este filme que lhe reacendeu a carreira, dando-lhe mais dez anos de ouro com a MGM. Judy Garland foi sempre a única escolha para o papel feminino, mas ela vinha de uma experiência profissional complicada com o seu marido Vicente Minnelli (filmaram juntos "The Pirates" um ano antes) que o obrigou mesmo a passar a realização deste filme, que era para ser realizado por si também, para Charles Walters. Além disso, os problemas de Garland com a depressão, o excesso de trabalho, o alcoolismo e o abuso medicamentoso - que culminaram numa tentativa falhada de suicídio - estavam a tomar o melhor dela. Ela mal recuperou para filmar "Easter Parade", tendo que ser internada numa clínica de reabilitação logo depois. Desde essa altura que Garland nunca mais se recompôs e "Easter Parade" tornou-se não só o seu último filme com a MGM como também um dos seus últimos filmes de sempre. Também Ann Miller teve sorte, porque o seu papel era originalmente de Cyd Charisse. Entretanto, a actriz torceu um ligamento e foi obrigada a ser trocada. O casting de Miller provou ser um sucesso, uma vez que a actriz é o ponto alto da película.


"EASTER PARADE" narra a história de Don Hewes (Fred Astaire), um dançarino de excelência que, em conjunto com a formosa e talentosa Nadine Hale (Ann Miller), forma o duo "Hale & Hewes". Quando Hale o troca pela chance de ter o seu próprio espectáculo no Ziegfeld Follies, num misto de raiva e bebedeira, Hewes escolhe à sorte a sua próxima parceira de entre as dançarinas do bar que frequenta. A escolhida foi a cintilante Hannah Brown (Judy Garland), que se revela um óptimo complemento - e também um belo sarilho - para o 'comandante' Hewes. Embora a sua parceria no início deixe muito à imaginação, aos poucos e poucos os dois entendem-se e com o tempo ganham bastante sucesso. O que fica por contar é que ao mesmo tempo que a sua parceria profissional floresce, também os sentimentos que nutrem um pelo outro crescem, mas ambos recusam teimosamente dizer o que sentem.

 
É esta a simplista história de "Easter Parade", que pega nos habituais clichés de filmes como "A Star is Born" - rapariga simpática tornada estrela por homem mais experiente - e nos lugares comuns das comédias românticas - Hannah (a rapariga boa) gosta do Don; o Don gosta da Nadine (a rapariga má que o rejeita e o humilha); Nadine gosta de Jonathan; o Jonathan gosta da Hannah - e cria um twist final para fazer avançar a história, levando os dois parceiros a desvendar o que sentem um pelo outro.


Com uma banda sonora do Oscarizado Irving Berlin, que compôs novas canções para este filme e uma fotografia impressionante do veterano Harry Stradling, Jr. (o mesmo que filmou "A Streetcar Named Desire", "Funny Girl", "My Fair Lady", "Gypsy" e muitos outros títulos), "EASTER PARADE" é, mesmo com as suas falhas (e são muitas, especialmente no argumento horrendo de Hackett e Goodrich, reescrito por Sheldon), um dos musicais mais infecciosamente alegres e entretidos que já vi e qualquer cena com Garland e Astaire é incandescente e colorida. Os seus passos de dança são verdadeiramente espectaculares (como no número "Drum Crazy") e a voz cheia de alma e vida dela é, como sempre, fenomenal.



Ann Miller está óptima também, sendo a grande revelação do filme. Um dos problemas que tive com o filme foi mesmo o de não perceber como alguém trocaria - que Deus me perdoe, mas é verdade - Miller por Garland. À pessoa que faz 'aquilo' em "Shaking the Blues Away" eu dava tudo, mesmo que me tratasse mal e humilhasse, para vocês verem o quão extraordinária é Miller nas suas poucas cenas.



Apesar de ser uma pena, de facto, ter ficado a pensar que o filme poderia ter sido bem melhor, algo mesmo muito especial, não nos podemos queixar. Afinal, como pode alguém queixar-se quando passa duas horas na companhia inolvidável de Astaire, Miller e Garland? Não podemos, como é óbvio.



Nota:
B

Informação Adicional:
Realização: Charles Walters
Argumento: Sidney Sheldon, Frances Goodrich, Albert Hackett
Elenco: Judy Garland, Fred Astaire, Ann Miller, Peter Lawford
Fotografia: Harry Stradling, Jr.
Música: Irving Berlin e Conrad Salinger
Ano: 1948



Hit Me With Your Best Shot: EASTER PARADE (1948)

Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Fazemos sempre um duplo artigo, bilingue, com a versão inglesa em primeiro lugar e a tradução no português logo de seguida. Não pudemos participar nas duas primeiras sessões da terceira temporada, mas para esta semana estamos a postos e o filme em discussão é... EASTER PARADE (Walters, 1948), o último musical de Judy Garland na sua imortal casa, a MGM.



During the 1940s and 1950s, the musical genre was one of the most popular and on-demand kind of pictures that Hollywood could produce. Many great stars of that era got a start or an upwards push from appearing in one of these musicals and those were the movies that immortalized outstanding actors and actresses such as Judy Garland, Gene Kelly, Fred Astaire or Ginger Rogers. Unfortunately, given the immense quantity of musicals produced each year, back in the day, only a few of them found moderate success. Usually, the ones with these big stars would thrive. Such is the case of "EASTER PARADE", a musical with a slim and cliché'd narrative, with very little story to tell but one that is compensated by swoony and joyful song-and-dance numbers that survive because of the excellent pairing of Judy Garland and Fred Astaire.

It's fun to look back and remember that this pairing almost didn't happen. Gene Kelly was the actor first cast in the male lead role. However, a broken leg pave way to Fred Astaire, nominally retired at the time. He didn't know it then, but this musical would reignite his career at MGM. Judy Garland was the first and only choice to star in the movie, but her struggle with overwork, depression, alcoholism and addiction to prescription drugs - which led to an unsuccessful suicide attempt the year before - were destroying her. She barely recovered to film "Easter Parade", which would end up being her last film with MGM and one of the last movies of her career. Even Ann Miller got lucky, because her part was to be played by Cyd Charisse. Nevertheless, the actress tore a ligament on the rehearsals and had to be replaced. Miller's casting proved to be tremendously spot-on, as she is the true highlight of the movie.


"EASTER PARADE" tells the story of Don Hewes (Fred Astaire), a theatre performer known for his extraordinary song-and-dance numbers alongside Nadine Hale (Ann Miller), who form the famous duo "Hale & Hewes". When Hale leaves to star in her own show in the Ziegfeld Follies, Hewes, in a spur of anger and drunkness, picks one of the dancers performing at a bar to be his next partner. The girl turns out to be the fantastic Hannah Brown (Judy Garland) and although their partnership in the beginning leaves much to be desired, after a while they start to become a huge hit. Moreover, despite loving each other, Hannah and Hewes try to maintain their relationship strictly professional. This is the simplistic plot behind "Easter Parade". It's a very straightforward story - Hannah loves Don; Don loves Nadine; Nadine loves Jonathan (Peter Lawford); Jonathan loves Hannah - until the story twists and the two big movie stars finally discover their true feelings for one another.

With old and new songs by Oscar winner Irving Berlin, "EASTER PARADE" is, even with all its flaws (its screenplay by Hackett and Goodrich, rewritten by Sheldon, is horrendous), one of the most entertaining, cheerful musicals I've seen and every scene with Garland and Astaire is bright and colourful. His dance moves are really spectacular (as exemplified in the "Drum Crazy" number) and her vibrato, soulful voice is always amazing ("Better Luck Next Time", y'all! Love it). Ann Miller was, for me, the true revelation from the movie. One of the issues I had with the movie was how someone could turn down this person who sings and dances beautifully (besides looking pretty as hell) in "Shaking the Blues Away" and prefer Judy Garland (and I love Judy Garland), so I have to ask: am I crazy to think this, especially given how badly Nadine treated Don? Probably. But Miller was nothing short of brilliant in her few scenes. 


 
A Diva is a Diva, even in 1912.

It's sad that the movie is not more original; however, how can one complain when he's being entertained by Garland, Miller and Astaire's singing and dancing moves? One cannot, obviously. 


As for Best Shot... 

I had a hard time picking one single moment as it's not a very memorable movie. But seriously, how can you deny Judy Garland for this SINGLE MOMENT OF AWESOMENESS?


Also, there's this:


And this:


You're such a genius, woman!


THE MALTESE FALCON (1941)



Humphrey Bogart era um daqueles para quem a tela de cinema era demasiado pequena para tanta qualidade. Era daqueles que, sozinho, fazia o filme. Era daqueles que enchia o ecrã. Tudo porque era fantástico e porque a sua qualidade está à vista em praticamente todos os filmes em que entrou. Casablanca deve-lhe uma fatia do seu sucesso. E Maltese Falcon deve-lho todo. Sem Bogart, este seria mais um filme interessante do início da década de 40, com algumas ideias originais e momentos agradáveis. Bogart deu-lhe o toque de arte que só está ao nível de uma meia dúzia de predestinados, que nasceram para ser lendários.


Samuel Spade (Humphrey Bogart) reparte com Miles Archer uma sociedade de detectives com sucesso em alguns dos mais mediáticos casos de San Francisco. Quando contratados por Brigid O'Shaughnessy (Mary Astor), Archer é assassinado e Floyd Thursby, o homem que este investigava, aparece morto. De imediato, Spade é acusado da morte do seu colega devido aos rumores de um suposto envolvimento com Iva Archer. Na tentativa de refutar todas acusações, Spade procura Brigid e aos poucos começa a montar o puzzle da morte do seu companheiro.


Esta explica-lhe que estava em San Francisco com o seu companheiro, Floyd Thursby, e que ambos procuravam um dos mais desejados tesouros da antiguidade: O lendário falcão maltês feito de jóias valiosíssimas e ouro, oferecido pelos Cruzados ao Imperador Romano, como retribuição pela sua generosa oferta das terras de Malta. É aí que Spade é contactado por Joel Cairo, um misterioso homem que o persegue e ameaça com a necessidade de encontrar o tão desejado Falcão, a grande obcessão do seu poderoso chefe, Kasper Gutman, que há muitos anos procura a valiosa estatueta.


Numa luta contra o tempo, contra a polícia e contra o poderoso submundo do contrabando de mercadorias, Spade faz uso do seu charme e da sua capacidade de argumentação, para ludibriar aqueles que o confrontam. E é tão bom no que faz, que consegue escapar a tentativas de homicídio e ameaças de prisão, acabando por resolver um caso que à partida parecida perdido. E toda esta engenhosa personagem é embelezada, engrandecida e imortalizada por uma habilidade natural única na arte de representar. Humphrey Bogart é muito grande em The Maltese Falcon.


Nota Final:
B+


Trailer:





Informação Adicional:
Realização: John Huston
Argumento:
John Huston
Ano:
1941
Duração:
100 minutos

Especial Animação: A ternura de DUMBO (70º Aniversário)

Nesta semana especial, que abre o mês de festividades, pedimos a amigos próximos e colaboradores de outros blogues que nos ajudassem a abordar um dos nossos temas preferidos: a animação. Todos eles foram limitados a um máximo de dez imagens ou um vídeo para a sua tarefa. Sete dias, sete colaboradores, sete títulos que festejam este ano o início de uma nova década de vida. Muita diversão, emoção e magia é prometida. A ver se cumprimos. 

A terminar, o brilhante Gonçalo Trindade (colaborador de vários espaços mas mais conhecido, em termos de cinema, pela sua colaboração no Ante-Cinema) ficou de falar de um clássico que encantou várias gerações: DUMBO - que celebra 70 anos de vida a 23 de Outubro deste ano. Eis o Gonçalo:


Sendo um dos mais simples, adoráveis e inocentes filmes da Disney, Dumbo é frequentemente considerado uma das maiores obras-primas do estúdio e, quer ascenda ou não a esse patamar (não ascende, a meu ver) é totalmente inegável que este é, simplesmente, um filme absolutamente lindíssimo.
É difícil não gostar de um filme assim, que vive à base de uma personagem tão mágica e inocente como Dumbo, aquele elefante bebé de orelhas grandes que não fala (uma inspiração para Wall-E, talvez), e que não compreende o porquê de todo o mal que lhe acontece, seja esse mal os que com ele gozam, ou o aprisionar da sua mãe que tem como consequência aquela que é, muito provavelmente, uma das mais tocantes cenas alguma vez feitas pelo estúdio de animação: aquela em que a mãe de Dumbo o embala com a tromba de dentro da carruagem onde está presa, enquanto ao mesmo tempo lhe canta uma canção. Todo o filme é, aliás, profundamente tocante na forma como retrata a relação mãe-filho, raramente abordade tão acertadamente num filme de animação. A cena, logo perto do início, em que a senhora elefante recebe da cegonha o jovem Dumbo é, por si só, um verdadeiro prodígio, que ainda hoje coloca facilmente um sorriso na face de cada um.
Se é verdade que este é o filme com a personagem mais adorável de todos os filmes da Disney (desculpa, Bambi, mas o Dumbo ganha), e que todos os amigos que vão surgindo na vida do pequeno elefante são encantadores (com destaque dado, claro, a Timothy, o rato), é também verdade que não é só aí que reside o triunfo do filme: o seu grande valor existe antes na forma como, através de um filme tão simples, que nem aos 80 minutos chega, e que tem uma personagem principal que nem sequer emite uma palavra, se conseguem mostrar alguns dos maiores males do mundo e ensinar algumas das mais belas lições da Humanidade. A forma como o grupo de elefantes diz mal da mãe de Dumbo após esta ter sido presa, por exemplo, ou a forma como os rapazes puxam as orelhas do jovem elefante enquanto gozam com ele, são momentos de cinema em que está ali exposto mais do que ao início pode parecer. Dumbo é, em grande parte, um filme sobre o preconceito e a forma como este afecta aqueles que, simplesmente, não o compreendem nem o merecem. Daí que tenha sido um golpe de génio em criar Dumbo como uma criança que nem falar sabe: é um paralelismo directo a um mundo onde muitos jovens nascem marcados desde o início, seja pela raça ou o que for, sem compreenderem o porquê dessas marcas. Marcas essas que podem ser trasnformadas em dons; afinal de contas, aquilo que mais dor causa a Dumbo, acaba por ser exactamente aquilo que o faz voar.

É uma lição de vida poderosa e importante, abordada de forma perfeita naquele que foi o quarto filme do estúdio, feito para recuperar as perdas geradas pelo incrível Fantasia. Foi o filme mais barato do estúdio até àquela altura, e acabou por ser um verdadeiro milagre monetário para Disney. É, no geral, sem dúvida um dos seus filmes mais simples, sem grande inovação a nível visual (os cenários não são muito elaborados, e não há cenas que sejam realmente espectaculares nesse aspecto, exceptuando talvez a cena em que o jovem elefante fica bêbado e… vê elefantes cor-de-rosa), sendo possível ver esse orçamento mais pequeno com que foi feito, mas é ainda assim uma pequena pérola visual nem que seja, claro, pelo próprio Dumbo, que encanta e parte corações com os mais belos olhos azuis que o cinema de animação alguma vez viu. Talvez seja essa mesma a palavra que melhor descreve o filme: é uma pérola. Pequeno, simples, mas de uma enorme beleza e uma complexidade moral que pode ser comparada à audacidade de ter, diga-se, uma personagem principal que nem abre a boca e que tem de criar uma ligação com o espectador apenas pelo seu aspecto e pelos seus movimentos (é necessário relembrar que este foi o quarto filme do estúdio: fazer algo assim tão cedo é, no mínimo, arriscado). E as canções, ainda que muito, muito longe do melhor que o estúdio já fez (excepção dada a "Baby Mine", a música da cena já mencionada em que a mãe embala o filho), são completamente encantadoras.


Uma história de amor entre mãe e filho, uma história de preconceito, e uma história de inocência, este "Dumbo" é, de longe, um dos mais encantadores filmes da Disney. Sim, não tem a complexidade visual de um "Branca-de-Neve", nem a trama bem-pensada de um "Rei Leão" ou um "Bela e o Monstro", mas tem uma alma do tamanho do mundo, uma inocência presente do primeiro ao último segundo, e uma personagem principal que tornaria qualquer filme mau num bom. Lindíssimo e tocante, é uma obra intemporal que deverá, se houver justiça e sabedoria no mundo, fazer parte da infância de muitas mais gerações ao longo de longos, longos anos. Afinal de contas, não é só o facto de ser adorável: Dumbo é, também, uma lição de vida ensinada de uma forma que consegue chegar a todos. Se isso não é sinal do triunfo de um filme (seja ele de animação ou não), então não sei o que o será.



Obrigado, Gonçalo, por teres aceite o convite! Belo texto!
E a vocês, também comove assim ver a história de Dumbo?

 

LADRI DI BICICLETTE (1948)


Um filme profundamente triste e estrondosamente comovente. Uma história simples, eternamente actual e sem precisar de grandes recursos. O argumento do filme é excelente.


Ladri di Biciclette é um filme que nos fala dos tempos de crise numa Itália ainda a recompor-se dos efeitos da Segunda Guerra Mundial, em que Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um jovem chefe de família, encontra finalmente trabalho como (e agora a minha ignorância remete-me para este termo rudimentar) "afixador de posters", que o obriga a vender o enxoval da sua mulher para comprar uma bicicleta. Maravilhado com a compra e perspectivando um futuro melhor para si e para os seus, parte para o seu primeiro dia de trabalho com o seu filho, uma amorosa criança de seis anos que para ajudar às despesas da casa, engraxa sapatos nas ruas de Roma.


Antonio está decidido a vingar na sua nova profissão e durante o primeiro dia concentra-se na sua tarefa de colocar os posters como lhe foi ensinado. No entanto, a distracção e a imprudência de quem é novato e ingénuo, leva a que a sua bicicleta seja roubada. Assim que se apercebe, Antonio corre até as suas forças lhe faltarem, entrando inclusivamente num taxi, onde conta com a "ajuda" de um parceiro do assaltante, que o desvia para uma trajetória diferente da do assaltante. Desesperado, procura por toda a cidade a sua bicicleta, até que ao cair da noite regressa a casa, infeliz e derrotado.


E é aí que decide que não irá virar a cara à derrota. Juntamente com o seu filho, iniciam uma busca incansável pela bicicleta, calcorreando todas as feiras e oficinas de Roma, investigando todos os becos e ruelas. Se terão sucesso na sua investida, é algo que o leitor terá que descobrir por si próprio. Seria criminoso da minha parte divulgar-vos os melhores e mais intensos momentos de um filme que é todo ele uma lição de vida. Ladri de Biciclette é um filme que merece a reflexão do espectador e um lugar de destaque na prateleira dos seus filmes.


Nota Final: A-


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Vittorio De Sica
Argumento
: Adaptação de Cesare Zavattini do livro de Luigi Bartolini
Ano
: 1948
Duração
: 93 minutos

IMDB Top250

Acho que não existe nenhum amante de cinema que não tenha o desejo de completar a famosa lista dos 250 melhores filmes do site IMDb.com. Como todas as listas, é discutível e nunca será consensual.

No entanto, e no meu entender, é uma lista com vários filmes muito bons e que é uma óptima porta de entrada para o mundo do cinema. No meu caso pessoal, que  fui conhecendo o cinema praticamente sozinho, esta lista foi um fantástico cartão de visita, que me ajudou a separar o trigo do joio e a perceber porque existe tanta paixão e admiração em relação a alguns filmes.

O que me proponho a fazer é algo simples, que certamente já foi feito por outros blogues. Faço-o porque quero-o no nosso blogue e porque espero que, com esta separação e breve introdução, consiga ajudar outros que, tal como eu, precisam de um pequeno empurrão para começar esta fantástica viagem pela sétima arte.

Ainda não consegui ver todos os 250 filmes e como tal não vou poder opinar sobre todos. No entanto, em todas as décadas tentarei salientar o filme que, para mim, é mais interessante e sobressai entre os restantes.

SÉCULO XX

Década de 20:


A única década onde ainda não vi qualquer filme. Sempre ouvi referências ao Metropolis como sendo um grande filme. Depois desta divisão, fico com os filmes organizados e já sei por onde começar. Vi o The Kid quando era pequeno e recordo-me dele com saudade. É difícil um filme de Charles Chaplin ser mau, embora The Kid não seja para mim o seu melhor filme.

Metropolis (1927)
The General (1926)
Aurora (1927)
The Gold Rush (1925)
The Kid (1921)
La passion de Jeanne d'Arc (1928)


Década de 30:


Grandes e memoráveis filmes. Vi City Lights e Modern Times há algum tempo, quando a nostalgia da infância me atingiu e senti vontade de rever os clássicos de Charles Chaplin. Qualquer um deles é genial e qualquer um deles é um marco na história do cinema. No entanto, temos também aqui o famoso M, que com pena nunca vi! O grande problema destas primeiras três décadas de cinema do Top250 está na dificuldade que existe em encontrar os filmes em versões de qualidade. Mais uma década a ter em atenção e que espero em breve conseguir actualizar por completo.

M (1930)
City Lights (1931)
Modern Times (1936)
Mr. Smith Goes to Washington (1939)
The Wizard of Oz (1939)
It Happened One Night (1934)
Gone with the Wind (1939)
All Quiet on the Western Front (1930)
Duck Soup (1933)
King Kong (1933)


Década de 40:


Uma década com grandes clássicos! Casablanca, It’s a Wonderful Life, Citizen Kane, The Third Man… É dificil escolher um favorito. Adoro o Casablanca, mas é inevitável não colocar no topo o Citizen Kane. É um dos filmes que mais me marcou até hoje, de que gosto intensamente. Ladri di Biciclette é um filme que vou ver muito em breve, sobre o qual tenho tido óptimas referências e cuja presença neste Top me despertou a atenção. Em breve estará no nosso blogue.

Casablanca (1942)
It's a Wonderful Life (1946)
Citizen Kane (1941)
Double Indemnity (1944)
The Third Man (1949)
The Treasure of the Sierra Madre (1948)
The Great Dictator (1940)
Ladri di biciclette (1948)
The Maltese Falcon (1941)
Rebecca (1940)
Notorious (1946)
The Big Sleep (1946)
The Grapes of Wrath (1940)
The Best Years of Our Lives (1946)
Kind Hearts and Coronets (1949)
His Girl Friday (1940)
Arsenic and Old Lace (1944)
The Philadelphia Story (1940)
Rope (1948)
Shadow of a Doubt (1943)


Década de 50:


E à medida que avançamos nas décadas, os filmes vão aumentando em quantidade e qualidade. Numa década com bastantes filmes de Hitchcock, fico dividido entre 12 Angry Men e Rear Window para a escolha de filme de destaque. Temos All About Eve (o filme da vida do Jorge), Ikiru, Rashomon e um filme que adoro perdidamente, Les quatre cents coups... Quero deixar bem claro que não vi todos os filmes e portanto a escolha que faço hoje pode muito bem não ser a mais justa e pode, perfeitamente, ser alterada quando vir todos os filmes desta década. Mas opto por Rear Window, para mim o melhor filme de Hitchcock e o ponto mais alto da sua carreira. É um filme com um argumento fantástico, que não tem falhas e que é construído com uma imaginação de levar ao céu. Mas que grande década esta de 50!

12 Angry Men (1957)
Seven Samurai (1954)
Rear Window (1954)
Sunset Blvd. (1950)
North by Northwest (1959)
Vertigo (1958)
Paths of Glory (1957)
Singin' in the Rain (1952)
The Bridge on the River Kwai (1957)
Some Like It Hot (1959)
Rashômon (1950)
All About Eve (1950)
On the Waterfront (1954)
Det sjunde inseglet (1957)
Touch of Evil (1958)
Strangers on a Train (1951)
Witness for the Prosecution (1957)
Smultronstället (1957)
High Noon (1952)
Ben-Hur (1959)
Le salaire de la peur (1953)
Les diaboliques (1955)
Ikiru (1952)
The Night of the Hunter (1955)
The Killing (1956)
A Streetcar Named Desire (1951)
Les quatre cents coups (1959)
La strada (1954)
Stalag 17 (1953)
Dial M for Murder (1954)
Le notti di Cabiria (1957)
Harvey (1950)
Roman Holiday (1953)

Década de 60:


Embora constituída por grandes filmes, a escolha é, para mim, óbvia! The Good, The Bad and The Ugly, o meu filme favorito, merece totalmente o destaque que aqui lhe faço. Com grandes filmes como 8 ½, Dr. Strangelove, 2001: A Space Odyssey ou C’era una volta il West, a década de 60 é também ela uma década muito rica.

Il buono, il brutto, il cattivo. (1966)
Psycho (1960)
Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964)
C'era una volta il West (1968)
Lawrence of Arabia (1962)
To Kill a Mockingbird (1962)
2001: A Space Odyssey (1968)
The Apartment (1960)
The Great Escape (1963)
Per qualche dollaro in più (1965)
Yôjinbô (1961)
Cool Hand Luke (1967)
Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969)
The Manchurian Candidate (1962)
The Graduate (1967)
8½ (1963)
Judgment at Nuremberg (1961)
The Hustler (1961)
The Wild Bunch (1969)
Persona (1966)
La battaglia di Algeri (1966)
Who's Afraid of Virginia Woolf? (1966)
Rosemary's Baby (1968)
The Man Who Shot Liberty Valance (1962)


Década de 70:


A Clockwork Orange. Assim que olhei para esta lista, o nome de imediato me veio à atenção. Adorei este filme de Kubrick e dou-lhe o destaque da década. É também uma década que marca o aparecimento de grandes lendas vivas do cinema, como Copolla, Scorcese, James Cameron ou George Lucas. Aqueles que são, para muitos, os inventores da comédia moderna, Monty Python, têm também aqui o seu reconhecimento e acho que Life of Brian é a melhor crítica que alguma vez vi à religião cristã.

The Godfather (1972)
The Godfather II (1974)
One Flew Over the Cuckoo's Nest (1975)
Star Wars (1977)
Apocalypse Now (1979)
Taxi Driver (1976)
Alien (1979)
A Clockwork Orange (1971)
Chinatown (1974)
Monty Python and the Holy Grail (1975)
The Sting (1973)
Jaws (1975)
Annie Hall (1977)
The Deer Hunter (1978)
Life of Brian (1979)
Dog Day Afternoon (1975)
The Exorcist (1973)
Network (1976)
Rocky (1976)
Manhattan (1979)
Barry Lyndon (1975)
Patton (1970)
Sleuth (1972)


Década de 80:


E o destaque vai para Scarface. Embora na ordem do Top não esteja nos primeiros lugares, o papel que Al Pacino faz (para mim, o actor com mais qualidade do famoso trio Pacino, De Niro e Nicholson, embora este último seja o meu favorito) marcou-me tanto que o filme se tornou para mim inesquecível. Uma década onde me sinto bastante ignorante (talvez porque muitos dos títulos não me chamem à atenção), recordo com saudade o dia em que vi Nuovo Cinema Paradiso, uma história linda e singular de amizade.

Star Wars: Episode V - The Empire Strikes Back (1980)
Raiders of the Lost Ark (1981)
Shining (1980)
Aliens II (1986)
Das Boot (1981)
Back to the Future (1985)
Raging Bull (1980)
Nuovo Cinema Paradiso (1988)
Amadeus (1984)
Once Upon a Time in America (1984)
Full Metal Jacket (1987)
The Elephant Man (1980)
Indiana Jones and the Last Crusade (1989)
Star Wars: Episode VI - Return of the Jedi (1983)
Die Hard (1988)
Blade Runner (1982)
Ran (1985)
Hotaru no haka (1988)
Platoon (1986)
Scarface (1983)
The Terminator (1984)
Stand by Me (1986)
The Thing (1982)
Gandhi (1982)
The Princess Bride (1987)
Tonari no Totoro (1988)
Fanny and Alexander (1982)
A Christmas Story (1983)


Década de 90:


É tão dificil escolher um. São tantos e tão bons. A década de 90 fica para a história como a década em que um rapaz de vinte e poucos anos, desconhecido e sem grandes recursos, atirou para os cinemas um filme feito numa garagem. Reservoir Dogs marca o início da carreira de um dos melhores realizadores de sempre, que já deu (e certamente continuará a dar) muitíssimo ao cinema. Escolho Pulp Fiction para o destaque desta década porque é o seu ponto alto e é impossível falar desta década sem falar de Quentin Tarantino. Recomendo também todos os outros títulos (dos quais apenas não vi dois ou três) e em que quase todos merecem o reconhecimento deste top.

The Shawshank Redemption (1994)
Pulp Fiction (1994)
Schindler's List (1993)
Goodfellas (1990)
Fight Club (1999)
The Usual Suspects (1995)
Matrix (1999)
Se7en (1995)
Forrest Gump (1994)
The Silence of the Lambs (1991)
Léon (1994)
American Beauty (1999)
American History X (1998)
Terminator 2: Judgment Day (1991)
Saving Private Ryan (1998)
L.A. Confidential (1997)
Reservoir Dogs (1992)
La vita è bella (1997)
The Green Mile (1999)
Braveheart (1995)
Unforgiven (1992)
Mononoke-hime (1997)
Fargo (1996)
Heat (1995)
The Sixth Sense (1999)
The Big Lebowski (1998)
The Lion King (1994)
Toy Story (1995)
Trainspotting (1996)
Groundhog Day (1993)
Lock, Stock and Two Smoking Barrels (1998)
Casino (1995)
Twelve Monkeys (1995)
Good Will Hunting (1997)
Ed Wood (1994)
Magnolia (1999)
Festen (1998)
The Truman Show (1998)
Trois couleurs: Rouge (1994)
Toy Story 2 (1999)
The Nightmare Before Christmas (1993)


SÉCULO XXI

Década de 00:


Uma escolha fácil. There Will Be Blood é o melhor filme desta década. Ponto. É um dos melhores filmes da história do cinema, com uma das melhores actuações da história do cinema, protagonizado por um dos melhores actores da história do cinema – Daniel Day-Lewis. Uma década muito rica, que peca pela ausência de grandes títulos, principalmente do cinema europeu e asiático, que acabam por não estar presentes devido à constante e inevitável americanização que o cinema sofre actualmente. Embora seja uma lista muito boa, há alguns filmes que podem deixar uma certa mágoa em quem os vê. Esta é a década em que aparece um grande e muito promissor realizador: Christopher Nolan. Dele aconselho-vos o seu melhor filme, Memento. Um quebra-cabeças criado com perfeição e inteligência. Tal como com Tarantino, também Nolan teve um início de carreira brilhante e é actualmente, um dos poucos realizadores que nunca falha e que nunca está mal. Não me vou perder em recomendações, porque acabaria por repetir quase toda a lista.

O novo milénio trouxe-nos muito cinema bom, e recordo com particular saudade o grande ano de 2007, onde Paul Thomas Anderson e os irmãos Coen tiveram uma luta de cavalheiros como há muito não se via!

The Dark Knight (2008)
The Lord of the Rings: The Return of the King (2003)
Cidade de Deus (2002)
The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring (2001)
Memento (2000)
The Lord of the Rings: The Two Towers (2002)
Le fabuleux destin d'Amélie Poulain (2001)
WALL·E (2008)
Sen to Chihiro no kamikakushi (2001)
The Pianist (2002)
Das Leben der Anderen (2006)
The Departed (2006)
Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2004)
Requiem for a Dream (2000)
El laberinto del fauno (2006)
The Prestige (2006)
Inglourious Basterds (2009)
Der Untergang (2004)
Up (2009)
Gran Torino (2008)
Gladiador (2000)
Sin City (2005)
Oldboy (2003)
Batman Begins (2005)
Slumdog Millionaire (2008)
Hotel Ruanda (2004)
No Country for Old Men (2007)
District 9 (2009)
Avatar (2009)
Donnie Darko (2001)
Snatch (2000)
Kill Bill: Vol. 1 (2003)
There Will Be Blood (2007)
Into the Wild (2007)
Million Dollar Baby (2004)
The Wrestler (2008)
The Bourne Ultimatum (2007)
Finding Nemo (2003)
Amores perros (2000)
V for Vendetta (2006)
Ratatouille (2007)
El secreto de sus ojos (2009)
Star Trek (2009)
The Incredibles (2004)
In Bruges (2008)
Le scaphandre et le papillon (2007)
Children of Men (2006)
Låt den rätte komma in (2008)
Big Fish (2003)
Mystic River (2003)
Kill Bill: Vol. 2 (2004)
Letters from Iwo Jima (2006)
Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl (2003)
Mou gaan dou (2002)
Mary and Max (2009)
Fa yeung nin wa (2000)
Hauru no ugoku shiro (2004)
Monsters, Inc. (2001)
Mulholland Dr. (2001)

Década de 10:


Um início promissor com belos filmes. Inception será naturalmente a minha escolha, numa década que espero, sinceramente, nos traga muito e bom cinema. Que a quantidade seja tão boa como a qualidade. Daqui a dez anos aqui estarei, para vos falar dela.

Inception (2010)
Toy Story 3 (2010)
The Social Network (2010)
How to Train Your Dragon (2010)
Kick-Ass (2010)



Concluída esta retrospectiva, fico feliz por saber que ainda me faltam ver alguns filmes desta lista. Espero que esta divisão vos ajude tanto como me vai ajudar a mim. Que vos sirva de apoio para se iniciarem na descoberta do cinema ou que vos ajude, tal como a mim, a completarem os filmes que vos faltam.

Como desafio final, peço-vos a vossa opinião. Qual a melhor década do cinema? E mais importante que isso, que valor atribuem vocês a este tipo de listas?

Depois desta análise, e embora me faltem alguns filmes, a minha opinião fica dividida entre a década de 50 e a década de 90. Ambas são ricas em quantidade e em qualidade. Mas vou jogar pelo seguro, e atribuir o meu voto à década de 90.

 

 

Grandes Posters: the Hitchcock edition


Há muito tempo que não pegava na nossa rubrica de Posters e fazia uma edição baseada nas principais obras de um realizador. Depois de analisar Malick e Cameron, exemplos claros de realizadores com filmes brilhantes que conseguem sucesso mesmo com fraco merchandising, vamos pegar num expoente claro do contrário: excelentes peças de arte que atiçam ainda mais a nossa atenção para os filmes em questão.

Dos muitos filmes da vasta filmografia de Alfred Hitchcock, resolvi ressalvar estes. Alguns antiquados, é certo, mas há que perceber que para os anos 40 e 50 estes posters estavam já muito à frente do que se fazia na época. Há por aqui um ou outro poster que é na verdade de uma edição comemorativa, portanto bem mais recente, mas na maioria o que dá para perceber é que as imagens que Hitchcock usava nos posters dele são todas muito inventivas, muito curiosas, apelando à nossa atenção, normalmente focando-se em expressões faciais ou gestuais das personagens. Senão vejamos:


The Lady Vanishes (1938) / Rebecca (1940)

  
Shadow of a Doubt (1943) / Notorious (1946)


Rope (1948) / Strangers on a Train (1953) 



Dial M For Murder (1954) / Rear Window (1954)


To Catch a Thief (1955) / The Man Who Knew Too Much (1956)


Vertigo (1958) / North By Northwest (1959)


Psycho (1960) / The Birds (1963) 



Além de vários posters que aprecio, outra coisa fica-me bem clara. Haverá outro realizador com uma filmografia tão rica? E vocês, que pensam? 

BLACK NARCISSUS (1947)

O grande cinéfilo Nathaniel Rogers, que mantém na Internet o blogue "Film Experience", tem vindo a desafiar os seus leitores (nos quais me conto obviamente - e se forem inteligentes, vocês também o serão) com uma nova rubrica chamada "Hit Me With Your Best Shot", que vai na sua terceira publicação (as duas primeiras eu falhei, "Angels in America" - tele-filme em duas partes da HBO que é dos meus filmes favoritos de todos os tempos - e bem gostava eu de ter visto a peça na Broadway ao vivo! - que eu vou redimir publicando para a semana uma crítica completa sobre os seis capítulos da obra-prima - e "Showgirls", filme que nunca vi, daí que não o possa discutir). A ideia base é simples: ele escolhe um filme e todos os que quiserem participar escolhem a imagem (ou imagens) do tal filme e ele faz um link a todos os posts dos participantes, a cada semana.

Esta semana calhou portanto falarmos de "BLACK NARCISSUS" (1947) (o post dele no seu blogue aqui) e eu sabia que não podia faltar de novo, até porque é dos melhores filmes daquela década e de qualquer década e no qual Deborah Kerr é magnífica.


Antes de mais, aconselho-vos a ver o filme primeiro, antes de discutirem comigo, pois é uma experiência incrível. De verdade. Pode não parecer uma grande história, mas acreditem que é. E se a minha recomendação não vos convencer, digo-vos agora: tem 100% no Rotten Tomatoes e tem 8.0 no IMDb. E deixo-vos ainda com o trailer abaixo:


Então vamos à parte que realmente interessa. Para a rubrica do "Film Experience" então eu não consegui só seleccionar uma imagem. Escolhi oito. A minha ideia inicial era de escolher sete, o número perfeito, porque "perfeito" é uma característica que cai bem ao filme, pois este possui talvez das fotografias mais perfeitas e das direcções artísticas mais cuidadas que eu já vi num filme pré-anos 90 (e claro que é fácil apontar uns vinte exemplos deste novo século que, diríamos, são superiores, mas o facto é que nos anos 40 apresentar tal poderio visual e tal habilidade de recriar toda uma atmosfera e background, só através de técnicos bastante capazes - e tão assim é que o filme teve duas nomeações para Óscar, precisamente nestas duas categorias, vencendo ambas).


Falemos do filme e das imagens. A premissa é simples: somos convidados a acompanhar um grupo de freiras que parte para os Himalaias, onde são ordenadas a erigir uma comunidade religiosa e a construir um convento, o Convento da Santa Fé. O que torna o filme interessante é mesmo a simplicidade da história, complicada mais tarde de formas curiosíssimas. Durante a sua permanência no local, as freiras vão ter que enfrentar não só a forte resistência dos habitantes locais, mas também vão ter que lidar com algumas situações incómodas dentro do seu próprio grupo. Esta primeira imagem, na qual nos apresentam o palácio que virará convento, é verdadeiramente icónica, fruto da sua omnipresença ao longo do filme (até à noite a fotografia é belíssima), pelo que não podia nunca de a deixar de colocar aqui.


O filme começa então por apresentar-nos a protagonista da história, a Irmã Clodagh (Sister Clodagh) - Deborah Kerr num dos seus primeiros e inesquecíveis papéis - a ser convocada pela sua superior, a Madre Dorothea (Mother Dorothea) e informada da sua missão e de quais as Irmãs freiras que partiriam consigo. A forma de apresentação das Irmãs é bastante original a nível visual, intercalando a descrição feita pela Madre com o aparecimento de cada uma das Irmãs, com cenas que retratem o que elas significam para a missão. Temos então: Irmã Briony (Sister Briony, "por causa da sua força"), Irmã Philippa (Sister Philippa, "por causa da jardinagem"), Irmã Blanche - apelidada carinhosamente de Irmã "Mel" (Sister Honey, precisamente "por causa da sua popularidade") e, por último, a Irmã Ruth (Sister Ruth). E aqui está a raiz, a fonte de sarilhos do filme. E podemos logo perceber isso pela forma como é apresentada, quer pela descrição, quer pela imagem que a retrata - um banco vazio:



"And Sister Ruth".
"But Sister Ruth is ill..."
"That is why I want her to go."
"[...] Do you think our vocation is her vocation?"
"Yes, she's a problem. I'm afraid she'll be a problem for you too. [...] Give her responsibilities. She badly wants importance."


Depois de introduzidos no filme, conhecemos logo à chegada das freiras a Mopu, nos Himalaias, que a reacção dos locais a elas não será nunca muito favorável. E percebemos também logo que a Irmã Ruth não é, de todo, flor que se cheire. Ela vai funcionar como a força motriz do filme, complicando-o de forma espectacular. Um bom momento que define impecavelmente a sua personalidade é a forma como reage no seu primeiro encontro com Mr. Dean, uma espécie de capataz, no qual ela se encontra cheia de sangue e obviamente envergonhada por se encontrar assim perante o primeiro homem atraente que a vê em muito tempo. E passamos nós a perceber por esta cena que o problema da Irmã, mais que uma crise de fé, é uma desesperada necessidade de voltar à vida normal.


Como o meu objectivo com isto é levar-nos a ver o filme, não me alongarei muito mais na história, só dizer mesmo que quando o Convento começava a ganhar forma e a cooperação com os habitantes da aldeia estava finalmente a frutificar, tudo muda inesperadamente com um acontecimento que leva  o caos a instalar-se, com os locais a recusarem-se a frequentar o Convento e a exigir o abandono da terra por parte da Missão. Em simultâneo, a Irmã Ruth começa a perder o controlo emocional e mental, o que acarreta mais problemas e mais preocupações para a Irmã Clodagh, que se vê numa situação insustentável.


O clímax final do filme acentua ainda mais a minha opinião favorável acerca de toda a obra, com este duelo inesperado (mas não imprevisível, pois dava para perceber que Ruth iria eventualmente fazer algo maluco) a duas, qual das duas a mais perdida na imensidão dos seus pensamentos, qual das duas a mais afastada da sua causa, da sua fé.


Um filme irrepreensivelmente filmado, com elevada qualidade de fotografia, genial na forma como emprega o simbolismo e o iconicismo (algumas imagens surgem como que omnipresentes em vários momentos no filme, como a abertura das portas, como o sino no precipício, como os jardins floridos, entre outros) e como consegue recriar, negativo a negativo, cena a cena, tanto detalhe e tanta coisa para ver e saborear; uma história que mescla a histeria, a tensão sexual, a crise de fé e de identidade e nos presenteia com uma Índia diferente, exótica, bizarra, sensual, perigosa que, apesar de muito simplista, é bastante eficaz, crua, directa; e uma direcção artística de excelência, balanceando o opulente (algumas das salas do palácio) com o sombrio e o frio (a capela é um bom exemplo disso), fazem deste filme um deleite de ver. 


A realçar ainda as boas interpretações de todo o elenco, com especial foco em Kathleen Byron (a sua Ruth ainda me assombra dois dias depois de ver o filme) e em Deborah Kerr. Uma actriz extraordinária, com uma expressividade facial raríssima nos dias de hoje, que o realizador Michael Powell aproveita - e bem - nos frequentes close-ups que pede a Cardiff. Neles, Kerr mostra choque, surpresa, receio e zanga, tudo na mesma expressão, na mesma face. Parece que a sua cara conta mil histórias e nos fornece tudo o que precisamos de saber sobre a pessoa, sobre o seu mundo, sobre o que se passa na sua mente. Formidável.

Uma obra-prima digna de todos os elogios recebidos que eu gostei imenso. E se Kerr já me tinha enchido o olho nos (poucos) filmes que vi dela, neste ela fascinou-me de vez.

E agora... A minha escolha para THE BEST SHOT / A MELHOR IMAGEM:


NOTA:
A-

Abaixo deixo o texto publicado acima mas em Inglês e reduzido, pois como eu já disse esta crítica vem no seguimento de uma rubrica num blogue que fala Inglês e, como tal, eu tenho que traduzir para quem a decida ler.


For my first participation on the hit "Film Experience" series, I haven't managed to select only one image. I tried but I failed. So I went with eight. My initial idea was to pick seven, because 7 is the number of perfection and "perfection" is an attribute that suits the film very well, since it has one of the most accomplished combinations of  excellent photography, art direction and score that I've seen in films prior to the 90s (of course it's easy to bring up immediately 20 examples from this past decade that we'd consider superior and that may be right, but we have to think that it's amazing that this quality work has been made in the late 1940s). Such visual lush and power was obviously worthy of reward and the Academy did gave them 2 Oscars, for Photography and Art Direction.  
Now let's discuss the film. Its premise is quite simple actually: we are invited to accompany a group of nuns that leaves for the Himalayas, where they are told to build a religious community by turning an old palace into a convent, the Saint Faith Convent. What makes the film so interesting to follow is in fact the simplicity of the story, further complicated in beautiful and curious ways. It is rather evident from early on that this mission wouldn't work out well, with the nuns having to face not only local resistance but also problematic situations among their group.
The movie first introduces us to Deborah Kerr's character, Sister Clodagh, who is ordered by her superior, Mother Dorothea (who clearly dislikes Clodagh and considers her unsuited for the job), to leave for Mopu in the Himalayas and erect a Convent there. Then the film uses her to introduce us to the other nuns that are going to accompany Sister Clodagh on her mission, in an original, refreshing way, by showing a scene involving them that fit the description that the Mother Superior offers of them: Sister Briony ("her strenght" - and she is shown holding a heavy jar), Sister Philippa ("the garden" - she appears to be analising a tomato), Sister Blanche (nicknamed Sister Honey because of "her popularity" which she indeed seems to be, surrounded by a big group of nuns giggling) and Sister Ruth. Sister Ruth's "illness" is very omnipresent throughout her remaining scenes in the movie, making perfect sense that she'd be so intelligently portrayed in this introduction scene, where an empty bench is shown, followed by a lovely exchange of dialogue ("Do you think our vocation is her vocation?";"Yes, she's a problem. I'm afraid she'll be a problem to you too";"She badly wants importance"), making us aware of the trouble she can bring to Sister Clodagh's assignment.
The movie then carries on and lets us perceive exactly the kind of personality of each nun, focusing especially on Sister Ruth. A great moment that impeccably defines her personality is the way she reacts on her first encounter with Mr. Dean, utterly embarrassed not only because she is covered with blood, but also by the fact that she's quite charmed by him (of course it helps that he may be the first man she sees in a long time). This helps us understand that this woman's problem, more than her obvious loss of faith and lack of commitment to her vows, is a desperate need to go back to a normal life. 
Since I want you to see the movie for yourselves, I'm not going to expand my tell on the story. I'm just going to say that as the movie continues, we begin to experience a bit of a twist in the peaceful relationship between the locals and the nuns, which gets messy because of a misfortunate event, one that will eventually cause the departure of the nuns. Moreover, Sister Ruth loses more and more of her grip, showing progressive loss of emotional and mental control, all this eventually leading to an unbearable situation for Sister Clodagh. The film ends with a sour note after an extraordinary final climax: an unplanned (yet predictable) duel between the two nuns, which made me realise what a fantastic build-up to this moment the movie was: two opposites, but both with their endless, melancholic thoughts, both yearning to go back in time to their pasts, to their regular lives, both lacking faith.


A film irreprehensibly, beautifully shot, on the hands of a brilliant photograph and art director, applying here a delicate fusion of the shadow, the dark and the opulent, resorting to the symbolism and iconicism of some amazing images (omnipresent throughout the film, like the doors opening, the bell in the cliff, the flowery gardens, the cold, crude look of the church, among other examples) and offering us so much to explore, to experience, to savour. A simple story, very well constructed, that mixes sexual tension and lust, hysteria and a faith and identity crisis, while introducing us to an exotic, bizarre, sensual, dangerous India. And very good performances from all the cast, especially Kathleen Byron and my new love Deborah Kerr, which embodies in perfection a breed of actresses that rarely exists nowadays: a complete performer, with a fantastic arsenal of facial expressions - when Powell closes up on her, she tells us everything we need to know about her character and her world through her face: it's shock, it's surprise, it's anger, it's fear, all in the same expression. Genius. Formidable.


All in all, this film was a delightful experience worth every minute of my time.