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DIAL P FOR POPCORN

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Falemos da Pixar (uma vez mais)


Amanhã vou ver "Monsters University". Um frio peculiar sobe-me à espinha sempre que penso nisso - já assim foi com "Brave" - porque a Pixar já não é tão infalível como outrora. O que será que vou encontrar? As críticas já vão dando um indício - um bom filme, todas o dizem, não dos melhores da Pixar mas dos mais entretidos. Já o antecessor, "Monsters, Inc." o fora. E definitivamente muito melhor que "Cars" ou "Cars 2", o que chega para me deixar descansado. Veremos no que dá.

Entretanto, lembrei-me de desenterrar, agora que estão volvidos três anos (!) desde a estreia de "Toy Story 3" e, antes de acrescentar a nota de "Monsters University" (em 2010 decidi acrescentar "Toy Story 3" à lista; talvez não o devesse ter feito, porque acho que a visualização mais recente influenciou algumas posições na lista), aproveito para rever as escolhas de então e actualizar a lista com "Brave" e "Cars 2".

Em 2010, o melhor filme da Pixar para mim era "Wall-E", seguido pelo então acabadinho de estrear "Toy Story 3" (que infamemente foi batido por "How To Train Your Dragon" para melhor filme animado desse ano cá nos DAFA) e por "Finding Nemo" e "Ratatouille". "Up", para muitos o melhor filme da Pixar, era o meu quinto favorito, com "Monsters, Inc" logo atrás. Na cauda vinham os óbvios "Cars" e "A Bug's Life", largamente considerados dos piores do estúdio, acompanhados um pouco acima por "Toy Story 2" e "The Incredibles". 

Em 2013...


#13 CARS 2 (Lasseter, 2011) [em 2010: -]
#12 CARS (Lasseter, 2006) [11]

Sem sombra de dúvida os únicos filmes da Pixar sobre os quais só tenho quase coisas negativas a dizer. Por sinal, a sua franchise mais lucrativa (boys will be boys e gostarão sempre de carros). A sequela, por sinal, inspira em mim cada sentimento mais odioso...

#11 A BUG'S LIFE (Lasseter e Stanton, 1998) [10]

Mediocridade. Um bom avanço tecnológico para a altura e o primeiro filme Pixar a criar um microcosmos. Pouco mais que isso. 

#10 TOY STORY 2 (Lasseter, Unkrich e Brannon, 1999) [9]

Merecia mais, mas é da trilogia aquele que menos aprecio. Uma pena, porque para muitos é o favorito. Talvez deva tentar uma nova visualização, afinal já não o vejo há uns bons anos. De qualquer forma, para mim 1999 em animação resume-se a "The Iron Giant". Um dos grandes filmes animados de sempre. De sempre.


#9 BRAVE (Chapman e Andrews, 2012) [-]

Não percebo o ódio. É por a Pixar tentar um conto de fadas, uma especialidade mais adequada à casa mãe Disney? É por ser uma rapariga? É porque decidem passar um filme todo com duas personagens, duas mulheres, se bem que uma delas é um urso? Não entendo. Talvez o Pixar com o melhor e mais complexo protagonista.

#8 UP (Docter, 2009) [5]

E pensar que já achei este o melhor filme da Pixar... Mentira, nunca achei O melhor. Mas sempre esteve nos meus mais cotados. O problema é que retira-se a sequência de "Married Life" que serve de prelúdio à narrativa e o que temos? Um filme muito oco, desengonçado e que não sabe que mais fazer quando a história mais importante do filme foi contada nos primeiros dez minutos. De qualquer forma, muito mérito para o primeiro filme da Pixar a introduzir um protagonista de certa idade. Um risco curioso.

#7 TOY STORY (Lasseter, 1995) [7]

O primeiro. O que abriu a porta à revolução. O filme que mudou a face da animação. Merecia estar mais alto, possivelmente merecia até o primeiro lugar, mas o meu apego é maior aos seis "clientes" acima.


#6 THE INCREDIBLES (Bird, 2004) [8]

Fazer um filme de superherói melhor do que qualquer um que se consiga produzir com actores reais? Podem apostar. E o único Pixar do qual eu gostava de ver uma sequela. O Brad Bird é um enorme cineasta. Edna Mole anyone?

#5 TOY STORY 3 (Unkrich, 2010) [2]

O filme que fecha a trilogia com chave de ouro (uma tristeza que tenham logo ressuscitado as personagens para uma curta; nem um ano durou a retirada!). Era impossível pedir algo mais perfeito.

#4 MONSTERS, INC. (Docter, Unkrich e Silverman, 2001) [6]

Não estaria tão alto não fosse ter apanhado uma transmissão televisiva há pouco tempo. Por acaso fiquei a ver. Não me lembrava de gostar tanto do filme, dos seus temas, da sua simplicidade, da sua ternura e felicidade. É um feito gigante de entretenimento, uma criação muito original e um mundo tão incrível, peculiar e fascinante que nos apresenta. Não tem a perfeição de "Toy Story 3" ou a imensidão de "Finding Nemo" mas é dos mais completos da Pixar.


#3 FINDING NEMO (Stanton, 2003) [3]

Antes de John Carter, eu achava impossível que Stanton fizesse um filme que não fosse impressionante. Errei. Ele também. Somos humanos. Mas as suas duas criações em singular para a Pixar são espantosas obras-primas tanto em escala, como em ambição, como em conteúdo. Vão tão além do que um filme animado se propõe a fazer que é um milagre que por duas vezes a Pixar lhe tenha confiado rédeas para fazer o que ele quis. Da primeira vez, saiu isto.


#2 RATATOUILLE (Bird, 2007) [4]

Bird, outra vez. O melhor Pixar. A todos os níveis. Combina tudo aquilo que a Pixar faz de melhor com o que o cinema de Bird tem de melhor. Extremamente original e divertido e refrescante sem forçar a piada fácil. Não é a minha escolha pessoal para melhor de sempre mas se a razão mandasse mais que o coração, este seria o topo da lista...


#1 WALL-E (Stanton, 2008) [1]

... Todavia estas listas são pessoais e o meu cunho pessoal tinha que se revelar nesta primeira escolha. "Define Dancing". "Wall-E" tem uma segunda parte muito pior que o seu primeiro acto, quase imaculado, é verdade. Não é imune a críticas - a maioria delas eu até as percebo. Mas aos detractores só tenho a perguntar: vocês estão a ver bem ao que é que Stanton e C.ª se propôs, os temas maiores que o filme cobre, o desafio que é para ele - e a Pixar - ter como protagonista (e principal atractivo para o seu público-alvo) um robô que não fala? Lightning in a bottle. A Pixar agora pode fazer as sequelas todas que quiser. Treze anos depois de "Toy Story", atingiu o seu pico criativo (pelo menos para já). Quando dentro de cinquenta anos se fizer uma retrospectiva do melhor cinema de animação de sempre, este (e "Ratatouille" e obviamente "Toy Story", penso eu) serão os três filmes da Pixar mais relembrados.

MADE IN DAGENHAM (2010)

 

"That's how it should be!"


Como sabemos, as mulheres nunca tiveram vida fácil neste mundo. Tudo o que lhes foi concedido, até hoje, foi através de grande esforço, muitas vezes de grandes privações e sobretudo a partir de muita luta contra a desigualdade que existe - mesmo hoje - entre o sexo masculino e o sexo feminino. MADE IN DAGENHAM passa-se em 1968, numa altura em que as mulheres, felizmente, já podiam votar e tinham assegurados os principais direitos humanos mas onde, contudo, eram pagas muito menos em relação aos homens. Estas grandes mulheres, que trabalhavam mais e melhor que todos os homens que conheciam, eram tratadas como amadoras no seu trabalho para que pudessem ser mal pagas e poupar dinheiro às suas fábricas, dominadas todas na generalidade por homens que pouco ou nada tinham em consideração as mulheres trabalhadoras. Mal sabiam eles que tudo mudaria em pouco tempo.


As maquinistas costureiras da Ford de Dagenham iriam iniciar uma revolução a todos os níveis improvável mas com repercussões impressionantes: seriam elas as primeiras mulheres da história a fazer greve por uma melhoria de condições de trabalho e de salários e seriam elas as primeiras mulheres a conseguirem o que queriam. Reclamavam, sobretudo, igualdade. Uma vez que faziam exactamente o mesmo serviço e cumpriam as mesmas horas que os homens, por que razão não haveriam de ganhar o mesmo? Lideradas pela fantástica Rita O'Grady (Sally Hawkins), estas mulheres extraordinárias conseguiram o impossível naquele tempo: triunfar num mundo onde os homens tinham sempre a palavra final. Imensamente divertido e fácil de seguir, encantador e irreverente, descontraído e com uma mensagem importante, MADE IN DAGENHAM é um filme que promete entreter e fazer vibrar quem o vê enquanto passa, de forma grosseira, um olhar pela história da emancipação das mulheres.


É difícil caracterizar a prestação de Sally Hawkins, já o disse anteriormente - é uma actriz completa, uma pessoa cuidada e muito sóbria que quando mergulha na pele das personagens se transforma, tornando-se contagiante, extrovertida, irresistível e impossível de parar de ver. Um verdadeiro camaleão, por outras palavras. Em MADE IN DAGENHAM, mais uma vez, esta capacidade de dotar de um completo realismo as suas personagens volta a dar jeito, com Hawkins a dar ao cinema mais uma personagem inesquecível. Rita O'Grady, com todos os seus defeitos e virtudes, é uma personagem inolvidável. A forma sagaz como Hawkins alterna entre o alegre e divertido, o subtil e sério e o vulnerável e receoso é fabulosa. A viagem de Rita neste filme, passando de uma ordinária mulher, inteligente, que só quer viver o seu dia-a-dia em paz a uma negociadora nata, uma voz inesperada surge de dentro para vir inspirar e comandar estas mulheres a fazer o que é certo.


Felizmente, o elenco que a acompanha não se deixa ofuscar com a sua prestação gloriosa. Andrea Riseborough é deliciosa num papel pequeno mas memorável. Miranda Richardson é uma ameaça que todo o seu ministério já devia ter aprendido a não ignorar; pequena mas autoritária, uma mulher poderosa que usa tudo o que tiver ao seu dispor para vincar a sua opinião. Bob Hoskins é divertidíssimo como o representante de sindicato, inesperadamente do lado destas mulheres em vez de defender a classe masculina a que pertence, porque sabe o esforço que estas mulheres passam, desdobrando-se em múltiplas tarefas nunca sendo recompensadas devidamente. Rosamund Pike é luminosa nos momentos em que se encontra no ecrã. Daniel Mays faz um fantástico par com Hawkins, proporcionando-nos uma cara-metade digna de Rita.


No fim das contas, esta história resume-se a uma coisa apenas: igualdade. Se as mulheres trabalham o mesmo que os homens, cumprem as mesmas horas, realizam o mesmo trabalho, por que razão não haveriam de ganhar o mesmo? É assim mesmo que pensa Rita O'Grady - que sabe o trabalho que faz, sabe o quão bem o faz e sabe perfeitamente quanto recebe ela e quanto recebe o marido, em condições de trabalho semelhantes. E que portanto quer receber o que tem direito. Acompanhada por mulheres com muito fogo na alma e paixão no coração, viria instaurar uma revolução que iria mudar para sempre a forma como as mulheres viriam a ser consideradas no seu posto de trabalho. Depois da conquista de O'Grady e companhia, a grande maioria das empresas e fábricas do mundo inteiro reviu os seus estatutos do trabalhador e melhorou as condições salariais e de trabalho para as mulheres. Tudo partiu de uma pessoa, de uma voz improvável - mas era a voz que era preciso para ser dada razão às mulheres. "That's how it should be" - é bem verdade.

Nota Final:
B/B+

Informação Adicional:
Realização: Nigel Cole
Argumento: William Ivory
Elenco: Sally Hawkins, Andrea Riseborough, Rosamund Pike, Daniel Mays, Bob Hoskins, 
Banda Sonora: David Arnold
Fotografia: John de Borman
Ano: 2010

Trailer:




THE ADJUSTMENT BUREAU (2011)



"All I have are the choices I make"


Aparentemente, segundo os Agentes do Destino, não é bem assim. THE ADJUSTMENT BUREAU é a mais recente adaptação cinematográfica do legado de Philip K. Dick (baseado no seu conto "The Adjustment Team"), chegando-nos às mãos desta vez por George Nolfi, o argumentista de "Bourne Ultimatum". Narra a história do romance entre David Norris (Matt Damon), um político jovem com má fama que vê a sua campanha para o senado norte-americano ruir ao mesmo tempo que encontra o amor da sua vida, Elise Selas (Emily Blunt), uma bela e talentosa bailarina com um futuro risonho pela frente. Este romance, contudo, assume proporções de thriller de ficção científica quando entram em acção os Agentes do Destino, um grupo misterioso de homens cuja função é monitorizar certas pessoas a toda a hora e fazer pequenos "ajustes" na sua vida, para que esta decorra segundo o plano que nos é destinado. O que esta organização não esperava, no entanto, era que David e Elise se revoltassem contra o plano estabelecido e buscassem, contra tudo e contra tudos, ficar juntos. 


Um filme agradável, com dose moderada de suspense e romance, como se quer num filme mainstream de qualidade, engrandecido pela enorme química entre Matt Damon e Emily Blunt (já nem se fala do talento dos dois actores pois esse nem se põe em causa) e pela presença ameaçadora de John Slattery e Terrence Stamp, tem em Anthony Mackie a verdadeira estrela. Desempenhando o seu papel com total eficácia e capacidade, ainda tem tempo para lhe acrescentar uma profundidade emocional e ambiguidade que certamente não estava no argumento. E digo isto porque o argumento é a grande falha do filme. Tenta torná-lo naquilo que não é, por vezes, tenta inventar explicações e associações com base na religião que não eram de todo necessárias e acaba por retirar potência a algumas cenas que mereciam mais rasgo e risco por parte do argumentista e também realizador. Com alguém mais reputado e experienciado, esta ideia genial de Dick poderia ter sido melhor explorada e extrapolada. O risco poderia valer a pena; ou então talvez não. A fotografia de John Toll, impressionante, sai beneficiada pelo realismo, pois todas as cenas foram filmadas mesmo em Nova Iorque, o que se torna divertido de observar por entre o abrir e fechar de portas.


Inesperadamente, o que mais me fascinou no filme, tirando a realização muito cuidada de alguém que ainda se está a iniciar nestas andanças - e que promete - foi a banda sonora brilhante de Thomas Newman. Alguém que já escutou os seus trechos musicais para "American Beauty", "Wall-E" e "Angels in America" vai ficar deliciado com alguns sons que estas partilham com esta banda sonora. Uma sonoridade celestial, pura e bela, que complementa tão bem a acção no ecrã (um bom exemplo aqui).

Nada muito cerebral, complexo ou sofisticado, uma abordagem interessante às temáticas e ao estilo de cinema de suspense e ficção científica de hoje, este é sobretudo um bom filme, que proporciona entretenimento de boa qualidade. Inspiracional e triunfante q.b., THE ADJUSTMENT BUREAU passa-nos uma curiosa mensagem sobre a imprevisibilidade, o destino, a perseverança perante a inevitabilidade e o valor do amor sobre todas as outras coisas que a vida tem para oferecer.



Nota Final:

B/B+

Trailer:


Informação Adicional:

Realização: George Nolfi
Argumento: George Nolfi
Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Anthony Mackie, Terrence Stamp, John Slattery 
Fotografia: John Toll
Banda Sonora: Thomas Newman
Ano: 2011 

JOAN RIVERS: A PIECE OF WORK (2010)


"I'll show you fear. [...] It would mean that nobody wants me and everything I had done in life didn't work."


Um dos melhores documentários que já vi sobre a vida em Hollywood, sobre a vida no show business, JOAN RIVERS: A PIECE OF WORK (vencedor de um prémio no Festival de Sundance) foi dos filmes que mais me surpreendeu na minha vida na sua capacidade de ser profundo, inteligente e incisivo nas críticas a tudo o que os holofotes da fama nos trazem.


Joan Rivers, uma comediante lendária que infelizmente nos últimos tempos tem mais reconhecimento pelas suas múltiplas cirurgias plásticas e pelos programas de crítica ácida que faz para o canal E!, abre as portas a esta equipa e deixa que a filmem durante aproximadamente um ano da sua vida. Ao fazê-lo e ao expôr-se tão genuinamente, a figura que todos conhecemos como Joan Rivers desaparece e a verdadeira persona por detrás da comediante aparece: uma mulher naturalmente engraçada, bem-humorada e divertida, que luta com todas as suas forças para, mais de cinquenta anos depois, continuar a manter-se relevante. Aos setenta e cinco anos, Rivers mantém as suas qualidades cómicas intactas, com um humor de fazer chorar a rir o mais sério dos indivíduos. Ela fala de tudo, não fugindo a nenhum tópico mais pesaroso e até abordando vários dos temas que a tornaram infame, da cirurgia plástica à relação com a filha Melissa Rivers, do seu conflituoso afastamento de Johnny Carson que a lançou para a celebridade até às discussões com o seu ex-marido. Não há temas polémicos, não há tópicos proibidos: de fria e cruel a dócil e compassiva, Rivers não foge a nada e fala de tudo.



A compensar a vertente mais engraçada que os múltiplos espectáculos e sketches que nos permitem analisar e concluir o quão fascinante é Rivers no seu trabalho, naquilo que faz melhor, temos uma parte mais profunda, mais melancólica do filme, que é indubitavelmente aquilo que mais me chocou, mais me apaixonou, mais me emocionou.  De uma forma quase demasiadamente pessoal e confidente, vemos por outro prisma esta mulher e descobrimos o que a move, o que a aborrece, o que a destrói por dentro. A compaixão e pena que vão sentir pela septuagenária não é descritível apenas por palavras; a forma como as lágrimas lhe vêm aos olhos ao folhear a sua agenda cheia de páginas vazias, brancas, é de destroçar o coração. As suas confissões, de que está demasiado velha, de que não tem capacidade para aguentar tanto ódio, tanta má fama na indústria, amolece-nos e toca-nos. Joan Rivers é um caso curiosíssimo numa indústria que tanto se preocupa com o que pensa, com o que diz, com o que faz.



Ela não tem medo, ela não tem problema em se rebaixar, não lhe faz confusão dizer o que pensa e sente, mesmo que isso magoe algumas pessoas. Ser assim tão frontal, tão confiante e conseguir pegar nisso e ser em simultâneo enormemente divertida terão sido, provavelmente, as características que Carson viu naquela rapariga bonita de vinte anos que ele decidiu promover no seu programa. Mal sabia ele o "monstro" da televisão e da comédia que estaria prestes a lançar no mundo. Eu acredito que, lá dentro, Joan Rivers sabia que ia ser assim. Que ela estava destinada a suceder. E quem a conhece desde sempre deve ter pensado o mesmo.





Há pessoas que são famosas para sempre. Há pessoas que têm os seus quinze minutos de fama. E depois há Joan Rivers. Joan Rivers é famosa para sempre, sim, mas isso é devido aos milhares de quinze minutos de fama de que tem usufruído, por nunca voltar as costas a um desafio, por nunca dizer não a nada. Joan Rivers sabe o que é preciso para se manter no negócio e sabe o que é necessário, por vezes, uma pessoa humilhar-se para que lhe voltem a dar respeito. JOAN RIVERS: A PIECE OF WORK é fascinante, é inspirador, eleva-nos ao mostrar ultimamente a capacidade de superação de um ser humano corajoso que teima em não aceitar derrota perante uma indústria que a quer ver enterrada. Podem tentar, mas Joan Rivers não há-de ir sem ir a combate. E assegurem-se: vai ser difícil nocauteá-la.





Nota Final:
B+

Informação Adicional:
 
Realização: Anne Sundberg, Rikki Stern
Ano: 2010

Trailer:

THE KING'S SPEECH (2010)





“If I am King, where is my power? […] They think that when I speak, I speak for them.”

THE KING’S SPEECH acabou por se tornar, sem querer, no filme que mais me custou falar desta temporada de prémios (daí ter adiado esta crítica por tanto tempo; é-me muito difícil abordar este filme sem ser tendenciosamente malicioso). Transformado num vilão tão pouco convencional, um filme que até apreciei bastante – não tanto quanto outros, já francamente mencionados de novo e de novo aqui pelo blogue, como já sabeis – que, por ser tudo aquilo que é, acaba por ser o inevitável vencedor da maior noite do ano, os Óscares e roubar essa distinção ao filme que além de me ter enriquecido mais este ano, mais intelectualmente significativo, mais exemplarmente executado, com maior potencial para ser considerado o “nosso” clássico moderno e que mais requisitos tem para ser um dos clássicos eternos da história do cinema, THE SOCIAL NETWORK. Funciona como THE BLIND SIDE no sentido que defende e parte dos mesmos temas e situações e porque o contributo cinematográfico que dá é quase nulo; é no entanto bem diferente deste porque a produção e o elenco em jogo são de todo um outro nível.

 
E digo que era um vencedor inevitável porquê? Porque THE KING’S SPEECH é aquilo que é – uma película honesta, directa e sincera sobre o valor da amizade e sobre a forma como esta pode surgir das circunstâncias mais imprevisíveis. Sobre o valor do triunfo sobre a adversidade e a desadequação. Sobre o que é estar na mó de baixo e reerguer-se. É um tema que diz respeito a todos nós, que a cada um despertará emoções e sentimentos diferentes, é reconfortante, é familiar, é afável e agradável e depois de o vermos sentimo-nos melhores pessoas. É verdade. É tudo aquilo que a Academia busca para ser um vencedor de Melhor Filme. Uma obra que apele a valores universais, ao poder da Humanidade e à sua capacidade de superação. Se é uma obra-prima? Longe disso. Também não me parece que o tente ser.

 
A cena que mais me diz a mim – de todo o filme – é a cena inicial. THE KING’S SPEECH principia com o discurso do Príncipe Albert – que mais tarde se tornaria Rei George VI (Colin Firth) – na abertura da exposição do Império Britânico no estádio de Wembley. O discurso desastroso é apenas o mais pequeno detalhe em que se repara na cena; os nossos olhos estão mais focados na panóplia de emoções que George demonstra num curto espaço de segundos – a raiva, a tristeza, o medo, a exasperação, o sofrimento, a redenção, uma expressão de completa agonia e miséria – e na expressão facial da sua mulher, aquela que viria a ser Rainha Elizabeth (Helena Bonham-Carter), encobrindo o pior sentimento que uma mulher pode manifestar pelo seu homem, a pena, através de uma falsa simpatia e encorajamento que na realidade escondem a sua revolta por não poder fazer mais por ele senão estar ao seu lado.

 
Elizabeth decide então pôr mãos à obra e procurar os serviços de Lionel Logue (Geoffrey Rush), um australiano que tenta desesperadamente ter o reconhecimento dos britânicos, um homem frustrado pelo seu insucesso como actor, que aplica a sua teatralidade nos exercícios de terapia da fala que realiza com os seus pacientes. O pano de fundo do filme, o que lhe confere textura e ressonância emocional, se quisermos, advêm daqui, da relação entre Logue e George, no início bastante acidentada dada a resistência inicial do Príncipe aos métodos ortodoxos do australiano, que começa a evoluir a partir do momento em que Logue se torna, para George, mais do que o seu médico, o seu confidente, o seu amigo de todas as horas e ambos abandonam as diferenças de hierarquia e poder que existem entre eles.

 
Eu admito que é francamente fácil enquadrar THE KING’S SPEECH como uma história simples mas poderosa de triunfo sobre as adversidades: afinal, é da história de um monarca que teve de ultrapassar um impedimento que o afligia e o inferiorizava para se tornar no líder que a Grã-Bretanha precisava na alvorada da II Guerra Mundial que estamos a falar. O seu discurso final, por tudo isto, seria sempre um agradável propulsor de alegria e êxtase na audiência que assiste ao filme. Que a história se torna muito mais do que isto é de agradecer a David Seidler, que não escrevendo um argumento tão intrinsecamente detalhado como Lisa Cholodenko ou tão imaginativo e complexo como Christopher Nolan ou tão expositivo como Mike Leigh consegue ainda assim pegar no maior desafio da vida deste homem e mostrar-nos que qualquer um de nós, face a algo que nos incomode, tem a obrigação de perceber que está dentro de nós a força para mudar a situação. A equipa de técnicos por detrás do filme está também de parabéns, seja o fotógrafo por optar por planos mais intimistas e profundos do que o que estamos habituados em outros filmes da realeza, seja a direcção artística por se ter divertido com certos cenários, seja o guarda-roupa com pormenores irrepreensivelmente correctos. 

 
E falta falar de Tom Hooper, o realizador que é conhecido por ser, acima de tudo, um mestre de actores. Nota-se aqui. As interpretações de Rush e Firth funcionam como uma só, sendo que me é impossível dissociar o mérito de um e de outro. Firth terá certamente tido o papel mais exigente – numa interpretação meticulosa, controlada, cuidada mas refrescante e sincera, que tem o condão de comunicar e mostrar imenso sem usar palavras – mas não terá sido fácil a Rush diminuir o nível habitual de força e desenfreio que pautam nas suas performances. O elenco secundário (Helena Bonham-Carter, Timothy Spall, Guy Pearce, Eve Best, Claire Bloom e Michael Gambon) também brilha por entre estas duas interpretações, mas são essas duas que essencialmente constroem o filme.

 
THE KING’S SPEECH resume-se, afinal, a isto: a uma relação muito especial entre dois homens, que serve de base a Hooper e a Seidler para nos contar a história de um tempo no passado em que um homem, que viria a tornar-se rei, sofria de uma complicação que o impedia de ser aquilo que dele era esperado. E foi precisa a amizade de outro homem, tão longe em termos nobres dele, para que ele percebesse que ele possuía todas as armas que necessitava para poder ultrapassar tal complicação. É um filme para todos, que agrada a todos, que nos toca e nos comove, que nos faz sentir que o ser humano é extraordinário na forma como encara e supera os desafios que a vida lhe traz.


Nota Final:
B+

Informação Adicional:
Realizador: Tom Hooper
Argumento: David Seidler
Elenco: Geoffrey Rush, Colin Firth, Helena Bonham-Carter, Guy Pearce, Michael Gambom, Claire Bloom, Eve Best, Timothy Spall
Banda Sonora: Alexandre Desplat
Fotografia: Danny Cohen
Ano: 2010

Trailer:

Grandes Divas do Ecrã


Esta semana, as nossas rubricas semanais foram guardadas para hoje para, em sintonia com a cerimónia de logo dos Óscares, trazerem à memória os filmes nomeados de 2010. Já fizemos a Frase Inesquecível, vem agora a Grande Diva.

E porque uma Diva não tem que ser sempre feminina... cá está a nossa primeira diva masculina. E que diva!




Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), "The Social Network" (2010)


"I think if your clients want to sit on my shoulders and call themselves tall, they have the right to give it a try - but there's no requirement that I enjoy sitting here listening to people lie. You have part of my attention - you have the minimum amount. The rest of my attention is back at the offices of Facebook, where my colleagues and I are doing things that no one in this room, including and especially your clients, are intellectually or creatively capable of doing. Did I adequately answer your condescending question? "

PLEASE GIVE (2010)


Há pouco a dizer sobre Please Give. É um filme engraçado, com alguns momentos engraçados e uma história levezinha, sem grandes complicações e sem grande profundidade.


Num filme com um elenco muito simpático, que facilmente ganha a nossa empatia, temos Rebecca Hall, uma das musas de Woody Allen, num dos papéis mais feios da sua carreira, mal vestida, com um péssimo corte de cabelo e com uma imagem totalmente descuidado. Propositado? Sim. Mas depois de me ter encantado em Vicky Cristina Barcelona (e até o The Town), Rebecca faz o seu papel com profissionalismo e é uma das mais valias deste filme.


Tudo gira à volta de uma senhora idosa, Andra (Ann Morgan Guilbert), avó de Rebecca (Rebecca Hall) e Mary (Amanda Peet), e que é vizinha de um casal feliz: Kate (Catherine Keener) e Alex (Oliver Platt). Embora se conheçam de encontros no elevador, Kate decide reunir a avó e as netas para comemorarem o aniversário de Andra, uma senhora com um humor peculiar, frontal e sem papas na língua. A personagem mais divertida de todo o filme!


Resumindo, Mary é uma rapariga miserável, futil e tremendamente materialista, que acaba por se envolver com Alex e fazer dele o seu cachorro de estimação. Kate é uma mulher indecisa e em desencontro com a vida. Quer muito ajudar quem precisa mas não passa das ideias e não consegue vencer os seus medos. Rebecca, a personagem com mais cabeça e juizo no meio de tudo isto, é uma rapariga simples, que ama e cuida da sua avó, sem vaidades mas que acaba, num puro e engraçado acaso, por encontrar a paixão que sempre pensou não existir.


O meu conselho: Entre a pobreza que está em exibição nos cinemas, esta é sem dúvida uma das melhores opções para ver este fim-de-semana!


Nota Final: B-


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Nicole Holofcener
Argumento: Nicole Holofcener
Ano: 2010
Duração: 90 minutos

Grandes Divas do Ecrã

Já tinha saudades da rubrica... E portanto cá está de volta.
Vá, esta não é bem uma "Diva"... Mas como eu estava necessitado de falar sobre ela...



"You're waiting for a train, a train that will take you far away. You know where you hope this train will take you, but you can't be sure. But it doesn't matter - because we'll be together."


"I'm the only thing you do believe in anymore." 


"You keep telling yourself what you know. But what do you believe? What do you feel?"


"You promised! You promised! You said we'd be together. You said we'd grow old together!"

Mal (Marion Cotillard), INCEPTION



Dá para ver que estou apaixonado por ela, não dá? Bónus: uma excelente interpretação.

O Cinema Numa Cena

De regresso está uma das rubricas semanais mais queridas aqui no Dial P for Popcorn - "O Cinema Numa Cena" tenta mostrar as nuances de uma interpretação fora-de-série numa cena pivotal do seu filme. 


Hoje vamos ter um "O Cinema Numa Cena" especial. Decidi pegar numa cena que não mostra o brilhantismo dos actores mas sim do realizador. Quem me conhece sabe da minha obsessão recente por esta cena. Falo, claro está, da magnífica "Henley Sequence" do extraordinário novo filme de David Fincher, "The Social Network".


Uma cena tipicamente Fincheriana, a servir como que de marca de água para o filme, mostrando que, apesar de Fincher ter obviamente deixado os seus actores e em particular o argumento de Sorkin brilhar, o filme também é dele. Esta cena prova-o. É tão peculiar e tão singular que acaba por se distanciar do resto do filme, parecendo algo desconectada. É natural. É capaz de ser a cena mais evidente do génio de Fincher em todo o filme, muito mais retraído que o habitual nele.

É capaz de ser mesmo isso que torna "The Social Network" tão imaculadamente perfeito. É um trabalho exemplar de todos os quadrantes, incluindo o realizador, que aproveitou as poucas cenas de (alguma) acção que tem para mostrar que quem sabe, não esquece.

Parece-vos até um anúncio publicitário? Isso é porque essa é a base da realização de Fincher. Ele foi responsável por alguns dos maiores anúncios dos anos 90 (já nem falando de videoclipes de músicas - i.e. "Vogue", de Madonna).

Portanto cá temos: puro Fincher...




E a vocês, que vos parece? Que é que "The Social Network" vos pareceu?