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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

TANGLED (2010)



"And at last I see the light, [...]
All at once everything looks different,
Now that I see you"
 

Podemos dizer... a Disney está de volta! Desde que comprou a antiga rival Pixar e a colocou debaixo da alçada Disney e se passou a dedicar a animação por CGI, os estúdios Walt Disney têm sofrido com projectos maus, com maus resultados de bilheteira e com queda de prestígios. O ano passado iniciou uma espécie de remontada rumo a melhores tempos, com "The Princess and the Frog", mas esse filme sempre pareceu mais uma homenagem nostálgica a outros tempos de glória da Disney do que propriamente um filme que se possa orgulhar de si próprio.


Quando muitos se preparavam para declarar o fim da Disney enquanto terra de princesas e de contos de fadas, eis que Nathan Greno e Byron Howard  (os responsáveis, juntamente com Chris Williams e Dan Fogelman, por "Bolt") se propuseram a ressuscitar o género dedicando-se à única princesa derradeira que faltava no currículo da Disney: Rapunzel. Com eles voltou Alan Menken, disposto a criar música que relembrasse os seus melhores dias, e um elenco fabuloso, composto por três excelentes vozes e personalidades que encaixam como luva nas suas personagens. A isto se junta uma enorme alma e vontade de fazer as coisas bem, revigorando o género dos contos de fada com uma muito necessitada modernidade, tornando as coisas frescas, cómicas, divertidas mas simultaneamente inteligentes e interessantes. Mesmo com as mensagens e lições de sempre, o filme consegue ser absolutamente original e mágico.


Do conto dos irmãos Grimm, Howard e Greno mantiveram o básico: Rapunzel, a princesa, é raptada pela egoísta e egocêntrica Mother Gothel que a prende numa torre no meio de uma floresta nas montanhas, para poder usufruir do dom do seu cabelo mágico, capaz de rejuvenescer uma pessoa e de curar feridas. Rapunzel abandona a torre após um casual encontro com um ladrão chamado Flynn Rider, por volta do seu 18º aniversário e descobre que é uma princesa desaparecida. Até aqui, tudo igual à história original. Howard e Greno pegam depois neste conceito e conferem-lhe uns pequenos ajustes. A história de Rapunzel e Flynn passa a ser a de uma aventura na estrada, encontrando alguns perigos, encontrando algumas personagens estranhas ao longo do caminho e inevitavelmente apaixonando-se no fim.

A adição de algumas personagens, como o cavalo Maximus que faria Sherlock Holmes corar pela sua dedicação ao seu papel de investigador e que parece saído de um dos antigos cartoons da Disney, e o toque de irreverência que deram na vilã da história, a Mother Gothel, que consegue ser malévola não pelo seu abuso de poder e intimidação mas pela forma passivo-agressiva com que controla a vida de Rapunzel e lhe dedica o seu amor (pelo menos, a sua "ideia" de amor), tornam-na numa personagem imensamente agradável de assistir, tão deliciosamente diva e bem-humorada a vemos a orquestrar os seus planos.


O casting dos actores foi impecável - Mandy Moore (na versão portuguesa: Bárbara Lourenço) empresta a Rapunzel uma doçura na voz e uma delicada ingenuidade e infantilidade que encaixam bem na personagem; Donna Murphy (na versão portuguesa: Rita Alagão) é fenomenal nas poucas cenas em que aparece, transformando "Mother Knows Best" numa das melhores músicas de vilões Disney de sempre, alternando o cómico e o sério de forma bestial; Zachary Levi (na versão portuguesa: Pedro Caeiro) é engraçado e cómico e confere ao "seu" Flynn um ar charmoso e confiante. É bonito ver a excelente relação e calor humano que Levi e Moore conseguem emprestar às suas personagens, ainda por cima se considerarmos que nunca se encontraram antes de gravarem o dueto musical com Menken.


As músicas de Alan Menken, mesmo não estando ao nível de "Beauty and The Beast" ou "The Little Mermaid", são ainda assim do melhor que a Disney já viu em muito tempo, com "I See The Light" a trazer memórias de grandes clássicos musicais da Disney como "An Ideal World" e "Can You Feel The Love Tonight". A cena desta música é, sem sombra de dúvidas, uma das melhores cenas que vi no cinema este ano. Capaz de nos derreter com tanta beleza e ternura (SPOILER ALERT: deixo parte da cena abaixo).



Tudo tido em consideração, "Tangled" é um relato moderno, divertido e curiosíssimo de uma das mais antigas histórias de contos de fada, trazendo a ideia de princesa para os dias de hoje, oferecendo-nos uma princesa confiante, determinada e independente e um príncipe fora das convenções, que teve que aprender a sobreviver num mundo que nunca lhe deu a mão. É um conto tão antigo quanto o tempo, contudo é contado de forma tão bela, tão maravilhosa, tão fresca, que o transforma num feito tão especial e brilhante.




NOTA FINAL:
B+/A-


Informação Adicional:
Realização: Nathan Greno, Byron Howard
Elenco: Mandy Moore, Zachary Levi, Donna Murphy
Argumento: Dan Fogelman (adaptado do conto dos irmãos Grimm)
Banda Sonora: Alan Menken


Abaixo vos deixo as principais canções do filme:







THE KIDS ARE ALL RIGHT (2010)


Os miúdos estão bem. Arriscaria dizer, os miúdos e os graúdos estão bem. "The Kids Are All Right” é um retrato fascinante das famílias dos tempos modernos, uma das melhores comédias do cinema independente americano que há já algum tempo precisava de um filme como este: desinibido, leve, inconvencional, alegre, reconfortante, divertido, agradável, inteligente, bem-humorado, enquanto lida com problemas sérios do mundo actual como a disfuncionalidade da unidade familiar, o casamento homossexual, a inseminação artificial, as falhas nas relações interpessoais e o crescimento e a partida para a universidade.


Lisa Cholodenko é, de facto, uma brilhante observadora das relações e das pessoas. Especialmente dotada em colocar à prova as suas personagens perante situações onde elas não se sentem confortáveis, a realizadora consegue explorar a humanidade, emoção e a racionalidade por detrás de cada tipo de pessoa, nunca fornecendo uma visão redutora do que se passa com elas e expondo as suas imperfeições bem a nu. A forma fabulosa como ela consegue transformar a nossa visão de casamento e união, passando-nos a mensagem de que neste caso a relação errada é a heterossexual, não deve passar despercebida.

 
A história de “The Kids Are All Right” decorre em Los Angeles, onde uma família composta por duas mães lésbicas, Jules e Nic (Julianne Moore e Annette Bening) e pelos seus dois filhos, obtidos através de inseminação artificial, Laser e Joni (Josh Hutcherson e Mia Wasikowska) se vê confrontada com a entrada na sua unidade familiar do pai biológico dos jovens, Paul (Mark Ruffalo), após Joni, que acaba de completar dezoito anos e está de partida para a universidade, ter feito a vontade ao irmão mais novo de descobrir a identidade do seu verdadeiro pai.


Ao saber dos encontros secretos com o pai, ambas as mães ficam reticentes em permitir-lhe entrada na sua vida, mas decidem estabelecer contacto com ele de qualquer forma. Paul dá-se genuinamente bem com os dois miúdos e com Jules (Moore), com quem se sente completamente à vontade. Já Nic (Bening), a ganha-pão da família, uma bem-sucedida, determinada e controladora médica com queda para o dramatismo e para a ingestão de largas quantidades de vinho e que vem negligenciando a sua companheira, muito mais aventureira, despachada e relaxada, vem gerindo a sua neurose disparando palavras ríspidas em todas as direcções e deixando a restante família, em particular Jules, numa pilha de nervos. A ida de Joni para a universidade vem complicar ainda mais as coisas, com as mães a terem problemas de comunicação com a filha, que nem sempre as compreende e vice-versa.


O distanciamento entre as duas mães e a contínua aproximação de todos menos Nic a Paul vem criar uma rotura na unidade familiar que se torna difícil de reparar, oferecendo inevitáveis mas nem sempre agradáveis surpresas, inúmeros conflitos e mal-entendidos e complicando a história de mil e uma divertidas maneiras.


Um filme com excelente argumento e uma cuidadosa realização, acompanhado de excelentes interpretações, em particular de Julianne Moore e Annette Bening, com material aqui para mostrar variadas nuances e oferecer-nos das melhores interpretações da sua carreira, complexas, mágicas e magnetizantes, de nos fazer chorar a rir e de nos fazer chorar por nos partir o coração, conseguindo transmitir pela sua linguagem corporal e expressão facial tanta cumplicidade, tantos segredos e tantas cicatrizes, próprias de um casamento de 20 anos, ambas merecedoras de atenção nos prémios de fim-de-ano, e de Mark Ruffalo, uma performance surpreendentemente relaxada, 100% dentro da natureza da sua personagem, nunca esquecendo porém também o papel dos miúdos na história, pois Hutcherson e Wasikowska são sem dúvida dois dos melhores jovens a trabalhar em Hollywood hoje em dia. Um filme irresistível para qualquer fã de comédia bem feita, para qualquer fã de filmes familiares e em especial para fãs dos actores, a trabalhar aqui no topo da sua forma.

Nota Final:
A-

Trailer:


Informação Adicional:
Realização: Lisa Cholodenko
Argumento: Stuart Blumberg, Lisa Cholodenko
Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Josh Hutcherson, Mia Wasikowska
Fotografia: Igor Jadue-Lillo
Banda Sonora: Carter Burwell, Nathan Larson, Craig Wedren


SCOTT PILGRIM VS. THE WORLD (2010)




O ano de 2010 tem sido bondoso comigo. Não me tem trazido uma grande quantidade de maus filmes, tem-me proporcionado algumas surpresas agradáveis (“I Am Love”, “Dogtooth”, “Fish Tank”, “Kick-Ass”, “Animal Kingdom”, “Winter’s Bone”, “The Kids Are All Right”) e os grandes filmes têm correspondido às expectativas (“Inception”, “The Social Network”, “Toy Story 3”, “The Ghost Writer”, “The Town”). “Scott Pilgrim vs. The World” vinha, por isso, com a enorme responsabilidade de continuar esta senda positiva. Felizmente para mim, o filme surpreendeu-me e deu-me muito mais do que o que lhe poderia pedir.


Se querem imaginação à solta, se querem poderio visual, se querem estética apurada, se querem diversão aliada a inteligência, se querem qualidade acima de quantidade, chamem Edgar Wright. Não percebo como é que mesmo depois de “Hot Fuzz”, “Shaun of the Dead” e de “Scott Pilgrim vs. The World”, o homem não tem livre arbítrio e um orçamento avantajado para fazer o que bem lhe apetece.


“Scott Pilgrim vs. The World” é baseado na série de seis volumes de arte gráfica (BD, se preferirem) de Bryan Lee O’Malley, que conta a história de um rapaz, Scott Pilgrim, de 23 anos e da sua luta para conquistar o amor de Ramona Flowers, “a” rapariga da sua vida, tendo para isso que derrotar os seus sete ex-namorados. Sim, leram bem, derrotar, em batalha, os seus sete ex-namorados. Uma batalha ao bom jeito de videojogo, com pontuação, com vidas extra, com efeitos visuais espectaculares e com sons e ruídos alucinantes. Uma coolness irresistível. 


Todavia, não é só à conta disto que o filme é excelente. Também para as contas entra um elenco sem pontos fracos. Tudo bem que a grande maioria das personagens é claramente unidimensional, mas todos os actores conseguem aproveitar o que têm e acrescentar-lhes um colorido que, no meio de um ambiente tão interessante de explorar, de observar, de presenciar, as torna fascinantes de seguir. Michael Cera era, sem qualquer sombra de dúvida, a melhor escolha para o papel de Scott. Ele encarna a personagem na perfeição, até na maioria dos seus tiques e dos seus quirks, vivendo e respirando o Scott Pilgrim. Mary Elizabeth Winstead (Ramona), Allison Pill (Kim) e Kieran Culkin (Wallace) também merecem a ressalva, por tornarem as suas personagens tão infinitamente impressionantes e interessantes quanto a sua caracterização no romance gráfico prometia. A presença dos “grandes nomes” Anna Kendrick, Brie Larson, Brandon Routh, Jason Schwartzmann e Chris Evans pouco acrescentam, em papéis algo pequenos. Finalmente, chegamos à minha personagem favorita: Knives Chau (Ellen Wong). Wong é notável num papel imensamente suculento, de facto e transforma o triângulo amoroso que envolve Scott Pilgrim em algo de muito especial e cómico de acompanhar.


Falta aqui uma palavra sobre a extraordinária banda sonora, que também acrescenta pontos extra de coolness a tudo o resto, com Beck a fornecer um pano de fundo apropriado para as entusiasmantes cenas de acção e em particular para as cenas que envolvem a banda de Pilgrim, Sex Bom-Omb.


Esta união de qualidade na história, na forma de contar a história, nas interpretações, na inventiva fotografia e edição e na banda sonora transforma uma adaptação de BD com muito potencial mas sem se levar muito a sério num dos melhores filmes do ano. Este filme pode ser cool, pode ser sofisticado, pode ser jovem, mas consegue ter o que poucos filmes que virão de Hollywood este ano terão: alma e alegria.



Nota Final:
B+

Trailer:





Informação Adicional:
Realização: Edgar Wright
Argumento: Edgar Wright, Michael Bacall
Elenco: Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead, Brandon Routh, Chris Evans, Jason Schwartzmann, Brie Larson, Ellen Wong, Kieran Culkin, Anna Kendrick, Mark Webber, Johnny Simmons, Aubrey Plaza
Fotografia: Bill Pope
Banda Sonora: Nigel Godrich

DUE DATE (2010)


Em noite de estreia, a sala estava cheia e com muita gente ansiosa por ver "Due Date". Depois do sucesso que foi "The Hangover", Todd Phillips tinha tudo para que "Due Date" corresse pior, não fosse tão bom e saísse uma espécie de rascunho do seu filme anterior. E infelizmente, isso aconteceu.


Senti que estava a ver uma cópia do "The Hangover", pior do que o seu original e menos bem conseguida. Admito que o "Due Date" tem momentos e cenas bem conseguidas, de puro e duro entretenimento, que levam o espectador a rir com muita vontade. Mas também tem momentos péssimos, de quem tenta levar a comédia a um extremo irracional e a cena do cão que se masturba é uma das piores que vi este ano (e possivelmente nos ultimos anos) no cinema. Um lado positivo do filme é a sua banda sonora, que só peca por ser escassa. Os momentos em que é utilizada são bem escolhidos e as músicas embalam-nos na história.



Quanto ao argumento, não é nada de outro mundo. Peter Highman (Robert Downey Jr.) é um arquitecto de sucesso que está de partida de Atalanta em direcção a LA, onde a sua mulher está prestes a dar à luz o primeiro filho de ambos. Na chegada ao aeroporto, conhece por puro acaso Ethan Tremblay (Zach Galifianakis), a grande mais valia desta história, que acaba por encontrar novamente no avião. Sentado atrás de Peter, Ethan arma uma confusão completamente ridícula e que os leva a serem expulsos do avião.


Sem carteira, documentos, mala ou dinheiro, Peter vê-se perdido em Atalanta. Até que Ethan passa por ele de carro e o convence a entrar numa boleia até LA, para onde este vai com o objectivo de ser actor. Numa corrida contra o tempo, para tentar estar em LA a tempo do parto da mulher de Peter, tudo lhes corre mal e tudo lhes acontece. "Due Date" consegue ir do 8 ao 80 a nível da qualidade das suas cenas. E por isso é um filme mediano, do qual não gostei.


Nota Final: C

Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Todd Phillips
Argumento: Alan R. Cohen, Alan Freedland, Adam Sztykiel e Todd Phillips
Ano: 2010
Duração: 95 minutos.

LET THE RIGHT ONE IN (2008) / LET ME IN (2010)


Por ocasião da estreia nacional do novo filme de Matt Reeves (Cloverfield), "Let Me In", decidimos embarcar em mais uma edição da nossa rubrica, Crítica Dupla. Anteriormente fizemo-lo com os dois "Wall Street" e com "The Departed / Infernal Affairs" e, como correu bem, decidimos voltar a experimentar.


LET THE RIGHT ONE IN (2008)
por Jorge Rodrigues:



"Let the Right One In" e eu temos uma história engraçada. É que foi dos poucos filmes estrangeiros que vi de livre e espontânea vontade. Bem, explicando melhor: são raras as vezes que me incito a ver filmes estrangeiros sem estes terem uma forte razão a recomendá-los (seja aclamação crítica, excelentes reviews, potencial para Óscares e outros prémios, actores conhecidos ou realizadores prestigiados por trás, entre outras). É por isso que ainda mais me surpreende que eu, conhecendo o tema do filme e conhecendo esta minha tendência, tenha ido ver o filme. Um filme que então era um pequeno filme suueco, que tinha feito furor em Gotemburgo e estas ondas de entusiasmo se estavam a espalhar para outros países europeus. Um filme que ainda não sonhava com o estatuto de clássico moderno com que agora é rotulado, muito antes de ter alcançado o outro lado do globo, muito antes de lhe choverem elogios em cima.

Antes de mais, quero relembrar que este filme foi lançado no ano em que a mania dos vampiros invadiu o mundo - portanto, no mesmo ano em que a magnífica "True Blood" faz a sua estreia em televisão e em que o fenómeno "Twilight" chega finalmente aos cinemas. Pelo meio disto tudo, surge este "Let the Right One In". Era natural que fosse olvidado. Felizmente mais e mais pessoas estão a aperceber-se do quão fantástico este filme é. 



A história introduz-nos a personagem de Oskar, um rapaz louro, de aspecto pálido, com doze anos de idade, que vive com a sua mãe divorciada (aliás, os seus pais são das pessoas mais horríveis que já alguma vez vi retratadas em filme) num apartamento nos subúrbios de Estocolmo. Oskar é um rapaz solitário e infeliz que sofre de bullying na escola. Este vê a sua vida mudar repentinamente com a chegada de Eli, uma rapariga de aspecto misterioso, que parece diferente de todas as outras, com quem Oskar vai travar uma forte amizade. A sua cena de apresentação é tão sublime quanto assustadora. Eli surge acompanhada de uma figura paternal que vemos auxiliá-la em obter tudo quanto necessita para ela sobreviver.

O filme depois assume os contornos de filme de terror, mostrando-nos Eli a atacar várias pessoas da região. O que é atípico nestas cenas é a qualidade e o cuidado demonstrados pelo realizador em dar um ar de sofisticação. As cenas de violência são vivas, duras, pesadas, é verdade, mas em todas existem momentos de graciosidade e de beleza. Manchas de sangue cuidadosamente empregues, imagens das planícies suecas invadidas por neve, árvores com ramos cobertos de neve, flocos de neve a pairar no ar... Belíssimo.


Esta amizade bizarra torna-se o coração e a acção motriz do filme, acompanhando o pequeno Oskar até este ser levado ao limite por Eli, impossível de ser parada. Ao longo do filme este vai-se apercebendo cada vez mais do quão difícil é escolher entre a amizade e o afecto que nutre por Eli e a impossibilidade de actuação perante a sua cognisciência do que ela faz aos outros indivíduos. A sua passividade, a sua permissividade, a sua falta de emoção, de reacção, faz-nos também a nós sentir tudo à flor da pele, enquanto assistimos impávidos ao que se passa no ecrã.

Um brilhante argumento de John Lindqvist, adaptando o seu próprio bestseller, uma realização fabulosamente bem orquestrada de Thomas Alfredson e estupendas interpretações dos miúdos Hedebrant e Leandersson e uma fotografia assombrosa de van Hoytema, que confere ao filme todo um ar soturno, sombrio, frio, algo elégico até, que o filme necessita para estabelecer o tom que quer conferir ao enredo e nos dar a perceber que este não é o típico filme de vampiros.
 

Finalmente, é altura de fazer um desabafo: com um filme tão bom quanto este, que apenas tem dois anos de existência, qual é o motivo que Hollywood me apresenta (aparte de fazer mais dinheiro) para justificar o investimento neste remake, sabendo de antemão que a grande maioria dos remakes não chega aos pés da qualidade do seu antecessor (ver: "Brodre"/"Brothers") ou, miraculosamente, consegue com esforço igualar a qualidade do original (ver: "The Departed"/"Infernal Affairs")? Não entendo. Há-de ser sempre uma mania que eu não consigo perceber.


Nota Final:
B+


Trailer:



Informação Adicional:

Realização: Thomas Alfredson
Argumento: John Lindqvist
Elenco: Kare Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Ika Nord
Fotografia: Hoyte van Hoytema
Banda Sonora: Johan Soderqvist
Ano: 2008
Duração: 115 minutos



LET ME IN (2010)
por João Samuel Neves:


"Let Me In", a versão americana do sucesso sueco "Låt den rätte komma in" (que infelizmente ainda não vi por um conjunto de circunstâncias) foi um filme que me agradou. Não ficará para a história nem será lembrado dentro de alguns meses, mas valeu o bilhete do cinema.


Peca, como era já natural e esperado, pelo facto de não ser uma ideia original e de me ter deixado no ar a ideia de que "isto nas mãos dos suecos deve estar um mimo". Alimentou-me, muito, a curiosidade para ver o filme sueco.


No entanto, falemos de Let Me In. É uma boa adaptação do cinema americano e merece o meu reconhecimento. Os americanos têm uma tendência natural para transformar o "nu e cru" em "kiss and hugs" e em Let Me In essa tradição conseguiu, parcialmente, ser posta de parte. Repito, não vi o filme original e toda a crítica é feita apartir daquela que me parece ser a ideia do argumento original e daquelas que são as potencialidades do cinema sueco.


Tal como no original, tudo começa com a chegada de uma misteriosa rapariga Abby (Chlöe Moretz) ao condomínio de Owen (Kodi Smit-McPhee). Owen, um rapaz solitário e tímido, passa grande parte dos seus dias no pátio do seu condomínio, onde alguns dias após a chegada de Abby, esta acaba por meter conversa com ele. Juntos começam a construir uma amizade bonita, que para Owen era até então algo completamente inimaginável com alguém. Os conselhos de Abby sobre como Owen se deve defender na escola dos rapazes que constantemente o agridem dão resultado e Owen apaixona-se por Abby. No entanto, o modo como Abby vive e todo o mistério à volta dos seus hábitos (e dos do seu "pai") começam a tornar-se demasiado estranhos para Owen que se decide a descobrir o que se passa por detrás das frases misteriosas que Abby lhe vai deixando.



Com belas prestações tanto de Kodi Smit-McPhee (foi uma grande escolha para o papel de rapaz oprimido e ostracizado que desempanha) como de Chlöe Moretz (uma rapariga que promete muito!), Let Me In é uma tentativa que passa com nota positiva. De referir que os cartazes feitos para a publicidade do filme são bastante pobres e acabam até por lhe retirar algum público. Têm pouco a ver com a ideia do filme e não são nada cativantes.
Num comentário final, e sem menosprezar a qualidade que o filme tem, penso que viveríamos bem sem esta adaptação que, perante a qualidade do filme original, se torna um pouco desnecessária. Era, à partida, uma adaptação condenada a ser pior do que o original. E, na minha opinião, para se fazer pior, mais valia a pena terem estado quietos.



Nota Final:
B

Trailer:


Informação Adicional:

Realização: Matt Reeves
Argumento: Adaptação de Matt Reeves do argumento original de Lindqvist
Elenco: Richard Jenkins, Kodi Smith-McPhee, Chlöe Moretz
Fotografia: Greig Fraser
Banda Sonora: Michael Giacchino
Ano: 2010
Duração: 116 minutos

WINTER'S BONE (2010)



A prova de que um bom filme não tem necessariamente que ter uma grande história. Sei que "Winter's Bone" colecciona fervorosos fãs por esse mundo fora, mas no meu entender a sua história é monótona. No entanto, Debra Granik transformou uma história simples, num belo filme, intenso e forte.

Começo por realçar aquilo de que mais gostei: Fotografia. Winter's Bone prima pela fantástica qualidade das suas imagens. Toda a atmosfera dramática da história é transportada para o ecrã, onde vemos retratada uma América triste, infeliz, fria e cinzenta. Não é, porém, um cinzento morto e sem vida. Por detrás de um aglomerado de árvores despidas pela invernia, vemos força e carácter em pequenos pormenores. Debra Granik retrata paisagens e momentos que marcam a diferença. Que tornam este filme, num filme que será recordado como um dos bons momentos de 2010.


Volto a referir que a história de Winter's Bone é, para mim, medíocre. Não quero com isto dizer que seja má ou não tenha qualidade. Apenas considero que está muito bem potenciada e aproveitada, já que a grande maioria dos realizadores não conseguiriam fazer disto um filme interessante. O filme conta-nos uma história triste. Jennifer Lawrence (numa grande prestação) é Ree Dolly, uma jovem de dezassete anos que, por doença da mãe e desaparecimento súbito do pai por problemas com a justiça, acaba por ter que cuidar dos seus dois irmãos mais novos, Ashlee e Sonny, tentando fazer de tudo para que nada lhes falte. Uma história, infelizmente, muitas vezes repetida e vivida nos mais diversos países que parte para a acção quando Ree é informada que, se o pai não comparecer no tribunal dentro de quinze dias, a casa e todos os seus bens serão utilizados para pagar a sua fiança.


Ree, com receio do que poderá acontecer aos seus irmãos, inicia então uma luta pela descoberta do paradeiro do seu pai. Terá que enfrentar muitos e difíceis obstáculos, já que todos os que a rodeiam (inclusivé o seu pai) estão envolvidos no tráfico de droga e aquilo que Ree procura é algo demasiado importante para lhe ser entregue de mão beijada. Contará, nesta longa caminhada, com a ajuda do seu tio Teardrop (John Hawkes), irmão mais velho do seu pai e a personagem de que mais gostei neste filme.



Nota Final:
B

Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Debra Granik
Argumento: Debra Granik, Anne Rossellini, adaptando o livro de Daniel Woodrell
Elenco: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Dale Dickey, Garret Dillahunt
Fotografia: Michael McDonough
Banda Sonora: Dickon Hinchliffe
Ano: 2010
Duração: 100 minutos

THE TOWN (2010)


"You grew up right here, same rules that I did."


Três anos depois da sua estreia como realizador ("Gone Baby Gone"), Ben Affleck volta à sua Boston para provar que não só é um dos melhores realizadores em crescimento em Hollywood, como também é um actor sólido, sério e, quando bem seleccionado para um papel, eficaz.

"The Town" denota sobretudo esse crescimento enquanto realizador. É um filme mais maduro, mais sério, mais concretizado. Contudo, perde um pouco em liberdade e energia em relação ao filme anterior de Affleck. É mais sombrio, mais contraído, mais limitado por regras. Claro que isto também se deve ao facto de ser uma adaptação de um romance policial ("Prince of Thieves" de Chuck Hogan) sobre a cultura e as regras e o protocolo instaurados no mundo do crime.



O filme surpreendeu-me imenso pela positiva e posso até dizer que foi dos filmes que mais gozo me deu ver este ano. No entanto, é um filme longe da perfeição. Comete, na minha opinião, três erros capitais, que me impedem de lhe dar melhor nota, não obstante todo o entretenimento que me proporcionou. O primeiro, já o referi, parece muito mais limitado que o seu predecessor na filmografia de Affleck. O segundo é o diálogo. Grandes e aborrecidos discursos, diálogo arcaico, usado, cheio de clichés, típico de um qualquer filme de acção que se pegue num videoclube. Com melhorias significativas na segunda hora, só que isto tem mais a ver com o surgimento de cenas de perseguição que dão alma e vivacidade ao filme do que propriamente com a elevação de nível do argumento. 


O terceiro é a história em si, que funciona na base de múltiplas coincidências (e espera que tudo o que nos revela dessa forma seja plausível). O filme leva-nos numa viagem pelo mundo do crime de Boston, focando-se mais precisamente em Charlestown (carinhosamente apelidada somente de "The Town" pelos habitantes da zona, ou townees, como lhes chamam lá), nos subúrbios de Boston e num grupo de quatro amigos, que desde cedo aprenderam que o crime é, naquela região, negócio de família ao qual não se pode fugir. Será por isso que essa é a zona do país que tem maior índice de criminalidade? Provavelmente. Este grupo de quatro amigos é encabeçado por dois amigos de infância, Doug MacRay (Affleck) e James "Jem" Coughlin (Renner). O que o primeiro possui de introspecção e firmeza o outro compensa com loucura e imprevisibilidade. Acompanhamos pois este grupo de criminosos em três assaltos: a um banco, onde Jem comete o erro crasso de trazer com eles uma refém, Claire (Hall); a uma carrinha de transporte de dinheiro; e a Fenway Park, estádio dos Boston Red Sox.



Descobrimos mais tarde no filme que a refém que Jem trouxe vive perto dos nossos quatro amigos, o que o deixa reticente. Doug oferece-se então para vigiar Claire, tratando de arranjar forma de estabelecer uma relação com ela. O que ele não esperava é que acabasse por gostar mesmo dela e que esta relação lhe provocasse vontade de abandonar a vida de criminoso e mudar de ares. O filme apresenta-nos depois ao chefe da máfia local, Fergie (Postlethwaite) e ao pai de Doug, Stephen (Cooper), que havia sido previamente condenado por ter assassinado dois polícias no decorrer de um assalto. A introdução destas duas personagens serve-nos como força motriz para entendermos mais a fundo a razão da vontade de mudar de Doug, perfeitamente justificada depois de conhecermos estas duas personagens. Pelo meio ainda surge a personagem de Blake Lively (famosa devido ao seu papel principal em "Gossip Girl"), a drogada e prostituta Krista, que consegue ser, na minha modesta opinião, das pessoas mais interessantes que o filme nos apresenta (se bem que o seu papel é francamente unidimensional).

Tudo isto ocorre na primeira hora de filme. Da segunda, pouco há mais a realçar excepto o ponto forte do filme: as duas extensas cenas de acção, maravilhosamente enquadradas, idealizadas, executadas e filmadas. Era mais do que óbvio que o nosso gangue não iria safar-se impune, sendo apanhado e encurralado pela equipa de FBI comandada pelo irredutível Agente Especial Frawley (Hamm).


Além das excelentes cenas de acção, as interpretações servem também muito bem o filme (os elogios que Affleck recebeu do seu elenco em relação ao seu processo de elaboração das personagens e ao seu talento comunicativo - e a qualidade, no ecrã, das interpretações - são mais uma prova do seu calibre e potencial como realizador), em particular a de Renner. O seu Jem é uma força bruta da natureza, implacável se deixado à solta. Gostei imenso de o ver completamente irreconhecível em relação ao seu sargento em "The Hurt Locker" e com um estilo tão peculiar quanto asqueroso, por vezes. A fotografia também é bastante impressionante, bem como a banda sonora que acompanha o filme.



Do final não vou revelar nada, só dizer que é extraordinariamente pouco inteligente e demonstra a qualidade ímpar que este filme - e Affleck - tenta atingir, sem infelizmente nunca o conseguir. É um bom filme, mas falha redondamente nalguns aspectos. Apesar de tudo isto, "The Town" é mais um passo na caminhada firme e acertada que Ben Affleck tem feito na transição entre actor e realizador e parece cada vez mais merecer as comparações feitas com outro grande actor-realizador norte-americano, Clint Eastwood. Esperemos que lá chegue.




Nota:
B


Informação Adicional:
Ano: 2010
Realização: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Blake Lively, Chris Cooper, Jeremy Renner, Jon Hamm, Peter Postlethwaite, Rebecca Hall
Argumento: Chuck Hogan, Ben Affleck, Peter Craig
Fotografia: Robert Elswit
Banda Sonora: Harry Gregson-Williams, David Buckley





EAT PRAY LOVE (2010)


"Attraversiamo". Esta palavra, que é como Liz (Roberts) se auto-define, no final do filme, e que usa para convidar Felipe (Bardem) para com ela atravessar o Pacífico e voltar a Nova Iorque com ela, já havia sido utilizada no início do filme numa cena sem qualquer interesse nem sentido, apenas para ilustrar o quão bonita é a língua italiana.


Infelizmente, "Eat Pray Love" também funciona assim - pega em cenas vindas do nada, atribuindo-lhes depois um significado desmesurado mais à frente no filme, como se fossem "eventos chave" que servirão de aprendizagem para Liz. Sem qualquer profundidade e cheio de futilidade, descreve-nos Itália através da comida e da união familiar, descreve-nos a Índia através da devoção religiosa e da contemplação meditativa e descreve-nos Bali como um eterno paraíso perdido entre as ilhas de Java indonesianas. Pelo meio, tenta manipular-nos com os eternos clichés sentimentalistas dos filmes tipicamente femininos - exactamente como o realizador Ryan Murphy faz na sua série televisiva "Glee" (embora aí a história seja parte menos fundamental que os números musicais, logo não importa muito para os fãs) -, tenta sensibilizar-nos para a experiência que Liz Gilbert vai tendo e tenta provocar em nós a vontade de também nós nos perdermos numa viagem destas. O que fica, duas horas e meia depois, é muito pouco.


Bom, o primeiro passo de Murphy foi conseguido: fazer-me identificar com a protagonista, com a sua auto-análise, fazer-me até concordar que uma mudança radical na sua vida é necessária, mesmo quando ela tem pura e simplesmente a vida que sempre quis, o marido que sempre quis e até a profissão que muitos desejariam ter. Mencionam-se discussões, menciona-se falta de entendimento entre os dois membros do casal, mas isso o filme nunca nos mostra. Ou porque está a querer ser condescendente connosco, ou porque acha que não interessa para nada (não sei, mas talvez me interessasse mais isso do que ver 30 minutos de comida italiana a ser-me atirada para a cara - não sei, talvez ajudasse a construir uma melhor caracterização da personagem principal, talvez desse para perceber o que correu tão mal na vida). Claro que no livro o assunto deve ter sido explorado muito melhor, mas isto é um filme e não é suposto eu ter que ler no subtexto (já nem digo entrelinhas, que este diálogo insípido não tem) coisas que Murphy devia ter-nos contado.


O problema de Murphy (passando agora para o segundo passo) foi não ter antevisto que ao não aprofundar a caracterização de Liz, tornou o personagem desagradável, insuportável e até mesmo detestável em certos momentos (então ela e os homens que lhe surgem, enfim). Julia Roberts trabalhou bem acima do material que lhe foi dado, isso é certo, conseguindo converter esta personalidade horrorosa que o argumento de Murphy lhe conferiu em desespero frântico e desejo de mudar de vida. Well done, cara Julia. Mas este problema de Murphy já não é de agora, como quem acompanha "Glee" e vê Lea Michele não ter pernas para andar com a terrível falta de personalidade da sua personagem, Rachel.


Vamos ao terceiro problema, que para mim é o pior. As personagens secundárias. Nenhuma (e friso o nenhuma), à excepção do texano Richard (Jenkins, numa interpretação cuidada, dedicada e sobretudo subtilmente complicada - isto é, com várias camadas de complexidade) que Liz encontra na Índia, contribui para ampliar a história. O marido Stephen (Crudrup) é puramente unidimensional e inacreditável; a melhor amiga Delia (Davis) de pouco mais serve - parece inicialmente servir de suporte mas não é em dois minutos de tempo de ecrã que conseguimos comprová-lo; David (Franco) é capaz de ser a pior personagem do filme; e Felipe (Bardem, com um brasileiro bacoco e terrível) é usado de todas as piores maneiras possíveis - será possível que alguém assim exista? Duvido muito. Já nem pego nas outras personagens secundárias estrangeiras, porque só servem para provar ao público a bipolaridade (queira-se dizer dualidade, vá) da protagonista.

Único real ponto positivo: a banda sonora. Dario Marianelli é um génio, já se sabe.

Depois de tudo considerado, penso que foi uma óptima oportunidade perdida. Senti-me definitivamente conectado com Liz, senti vontade de partir em viagem pelo mundo como ela e de facto admito que viajar com ela teria sido fabuloso - longe de fabuloso foi ver três horas de filme sobre isso. Que desperdício.



Nota:
B-/C+

Informação Adicional:
Ano: 2010
Realizador: Ryan Murphy
Argumento: Ryan Murphy, Jennifer Salt
Elenco: Julia Roberts, Javier Bardem, Viola Davis, Mike O'Malley, James Franco, Billy Crudrup, Richard Jenkins
Fotografia: Robert Richardson
Banda Sonora: Dario Marianelli

WALL STREET (1987) / WALL STREET 2 (2010)

Como pensámos que seria curioso fazer uma espécie de comparação entre os dois filmes, fizemos uma espécie de crónica dupla. Cá vão as duas:


WALL STREET (1987), por Jorge Rodrigues:


"The point is, ladies and gentleman, that greed, for lack of a better word, is good.
Greed is right, greed works.
Greed clarifies, cuts through, and captures the essence of the evolutionary spirit."


"Wall Street" é, à falta de melhor palavra (e usurpando a citação do grande Gordon Gekko), bom. Nada de fantástico, nada de surpreendente, nada de inovador, apenas e só bom. É um filme mediano nas palavras e nas imagens, até mediano nalgumas das interpretações (Daryl Hannah, estou a falar de ti!), mas grande em termos de história e em termos de ambição.


Ambição tão grande como a de Buddy Fox (Charlie Sheen), um corrector de Wall Street, que sonha com vôos maiores. Sonha em ser um dos protegidos de Gordon Gekko (Michael Douglas), um investidor privado e empresário de grande sucesso com um olho intuitivo para grandes investimentos e apostas. Pois bem, sai-lhe a sorte grande e, subitamente, o jovem vê-se a ser ensinado por Gekko, que lhe explica como todo o sistema funciona e como retirar lucros dele. Rapidamente o jovem, fiel a Gekko, começa a usar as suas conexões na bolsa e a trocar informação ilegal para ajudar o seu mentor a realizar alguns dos seus projectos e começa também, sem se aperceber muito bem disso, a viver uma vida de luxo, nada a ver com a sua antiga, perdendo-se nos vícios, na luxúria, no sexo - com Darien (Daryl Hannah), mais uma das aliadas de Gekko - e no estatuto que a sua amizade com Gekko lhe dá.


Quando finalmente se apercebe do quão fundo está enterrado, Buddy vê-se numa enorme encruzilhada: trair o pai... ou trair o mestre? Até aqui, o filme é engraçado, entretido, um bom filme mainstream com uma história bem contada e com estrutura. Desde esta altura, o filme transforma-se numa verdadeira confusão que, ainda por cima, termina demasiado desconsoladamente (e previsivelmente) para quem esperava um grande desfecho, típico dos restantes filmes de Oliver Stone. Oliver Stone já nos trouxe grandes filmes de guerra, como "Platoon" e "Born on the Fourth of July" e neste "Wall Street" ele volta a tentar pegar na dicotomia entre as incongruências que existem no bem e no mal; contudo, desta vez, o filme falha o objectivo por entre a constante moralização dos personagens que Stone faz.


Uma interpretação fascinante de Michael Douglas (que mesmo assim não me parece meritória de um Óscar) - confere a Gekko uma irascível falta de moral e capacidade de manipulação que perturba e dá tudo o que tem em cada one-liner que Stone o manda despejar da boca para fora -  não compensa pela falta de alma e pela falta de emoção do resto do filme. Sheen (uma inocência e ingenuidade que não pegam num personagem ambicioso e egoísta como Buddy Fox é) e Hannah (se o seu objectivo era só ser alvo de atenções masculinas, objectivo conseguido) estão completamente errados para os seus papéis e Spader e Holbrook não têm material com que brilhar, sendo meros peões secundários para alavancar uma história bem elaborada mas muito mal desenvolvida. Salva-se a interessantíssima vida dos correctores de bolsa e empresários de então e a mais que óbvia relevância história e económica do filme (auxiliada pela bastante contemporânea banda sonora), bem a meio da década de 80, bem a par com a terrível crise financeira que se instalou na altura (a famigerada quebra da bolsa de valores, intitulada Segunda Feira Negra, que teve lugar a 19 de Outubro de 1987) e que tornou este filme num dos maiores relatos cinematográficos de um tempo, de uma época, de um estilo de vida. E já agora, tenho a dizer: o filme não envelheceu nada bem.

Nota Final:
B


Trailer:


Informação Adicional:

Ano: 1987
Realização: Oliver Stone
Elenco: Charlie Sheen, Michael Douglas, Daryl Hannah, James Spader, Hol Holbrook, Martin Sheen
Argumento: Stanley Weiser e Oliver Stone
Fotografia: Robert Richardson
Banda Sonora: Stewart Copeland
Duração: 126 minutos


WALL STREET 2: MONEY NEVER SLEEPS (2010), por João Samuel Neves:


"Stop telling lies about me and I'll stop telling the truth about you."

Monótono, Entediante, Confuso, Previsível. Fraco, Fraco, Fraco.


Foi com este sentimento que saí da sala de cinema na ultima quinta-feira. Fui ver "Wall Street 2" na tentativa de que Oliver Stone, de quem só consigo gostar do filme "Natural Born Killers" (uma espécie de prendinha de aniversário de Quentin Tarantino a Stone), me convencesse e me fizesse mudar a forma como encaro todos os seus filmes. Wall Street 2 é um filme que realmente bem podia ter ficado na gaveta. 5 euros deitados fora e mais de 2 horas do meu tempo completamente perdidas.


Neste filme, Jake Moore (Shia LaBeouf) é um jovem irreverente e promissor de Wall Street, que não se sabe muito bem como é que lá foi parar nem como se protege de todo o peito feito com que encara os altos cargos da bolsa. Como se isto não bastasse, é namorado de Winnie Gekko (Carey Mulligan) que, claro, é filha do lendário Gordon Gekko (Michael Douglas), algo que não é nada previsível e que fica tão bem num filme de domingo à tarde.


A história do filme resume-se em poucas linhas: Jake Moore trabalhava para Louis Zabel (Frank Langella), por quem era protegido e que o considerava como um filho. Após o suicídio de Zabel, Jake descobre que a culpa da ruína do seu patrão se deve à interferência de Bretton James (Josh Brolin) que utilizou a especulação para fazer as acções da Keller Zabel Investments cairem a pique e levarem Zabel ao desespero do suicídio. Decidido a arruinar o império de Bretton James, procura a ajuda e os conselhos de Gordon Gekko, que agora fora da prisão se limita a publicitar o seu livro. Em troca da sua ajuda, Jake convence Winnie a reunir-se novamente com o pai.



"Wall Street 2" é um verdadeiro jogo do gato e do rato, onde os escrúpulos e as boas intenções são postas de parte. Pontos positivos do filme? A fotografia e a banda-sonora.


Nota Final:
D

Trailer:


Informação Adicional:

Ano: 2010
Realização: Oliver Stone
Elenco: Michael Douglas, Shia La Boeuf, Frank Langella, Josh Brolin, Carey Mulligan
Argumento: Allan Loeb e Stephen Schiff
Fotografia: Rodrigo Prieto
Banda Sonora: Craig Armstrong
Duração: 133 minutos


THE EXPENDABLES (2010)


Sim, recomenda-se. Mas só para os fans da acção pura e (naturalmente) dura. Principalmente se esses fans tiverem como ídolo essa lenda chamada Sylvester Stallone. São 103 minutos de "pancada de criar bicho", com belas inovações (conto pelo menos 2 cenas em que fiquei surpreendido pela forma como Stallone deu a volta à situação), mas que conta com um argumento pobrezinho, diálogos (que em alguns momentos) nos dão pena e um desenrolar previsível.


Mas quem vai para o cinema ver um filme de Stallone, não vai certamente a pensar no argumento nem na qualidade dos diálogos. Eu pelo menos não fui. Nesses aspectos e depois de ver o último Rocky e o último Balboa, tinha as expectativas já niveladas por baixo e encontrava-me esclarecido. Quem entra naquela sala quer ver pancada, quer ver acção, quer ver sangue, quer ver os melhores artistas do ramo a fazerem aquilo em que se tornaram célebres. E nisso, o filme não desilude!




Com um elenco de luxo (vejam o Cartaz do filme), como nunca antes um filme de acção teve, Stallone deu asas à sua imaginação e realizou aquele que era certamente um sonho antigo.
A história resume-se em poucas palavras: Os mercenários são um grupo liderado por Barney Ross (Sylvester Stallone) e que conta com Lee Christmas (Jason Statham), Ying Yang (Jet Li), Toll Road (Randy Couture) e Hale Caesar (Terry Crews). O seu trabalho sujo, ficou conhecido por ser letal e eficaz. São contractados por um homem misterioso (Bruce Willis) para destruir o império construído por James Munroe (Eric Roberts) na ilha de Vilena a troco de 5 milhões de euros. Após se deslocar à ilha para uma primeira abordagem Barney fica impressionado com a dificuldade do trabalho que terá que realizar, mas a presença de Sanda (Giselle Itié), uma bela e misteriosa jovem, convence-o e este decide salvar não só a ilha, mas principalmente Sandra.
O resto meus caros, o resto é história.




Nota Final: B

Trailer:


Informações Adicionais:
Realização: Sylvester Stallone
Argumento: Sylvester Stallone
Ano: 2010
Duração 103 minutos