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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

Ninho de Cucos (II)

Aquilo que interessa num filme é a história. A opinião que temos de um filme baseia-se essencialmente na forma como as nossas experiências pessoais anteriores se associam com aquilo que nos é contado, e na maneira como essa relação é capaz de nos gerar emoções. Daí surge a importância do argumento no cinema, pois é a partir dele que este processo de sensibilização e transformação se inicia no espectador e como tal torna-se lógico compreender que o  conteúdo da história é a peça mais elementar de toda a árvore cinematográfica, enquanto que a forma constitui simplesmente o seu adorno.

O cineasta contudo é um ser humano, e como tal encontra-se condenado à fatídica maldição da nossa espécie que nos impede de reportar uma história exactamente da mesma forma que ela nos foi transmitida. Mais do que isso o cineasta é um ser artístico, e portanto vê nessa maldição uma necessidade imperiosa de acrescentar um ponto a cada conto, desvirtuando e transformando a ideia inicial bruta numa peça de arte genuína. Na verdade a forma é o resultado do trabalho do artista representando muito mais que o papel de simples adorno. A forma é, ao fim e ao cabo, aquilo que torna uma boa história num bom filme! 


Na verdade, um filme razoável, mas com bons planos de filmagem e boas interpretações, pode superiorizar-se a uma história épica cantada sem a devida pompa. O prazer de ver um filme bem filmado assemelha-se ao prazer de descobrir interesses em comum com um amigo, ou ao prazer de encontrar uma rapariga cujas formas respeitam na perfeição a sua beleza. Em suma, o estilo pode não dar corpo à história mas dá-lhe acima de tudo interesse. 

Aquilo que quero dizer é que há uma grande diferença entre um bom argumento e um bom filme. Comparemos por exemplo, Goodfellas (1990 - Martin Scorsese), um épico do cinema, com Zodiac (2007 - David Fincher) uma interessante trama protagonizado por Jake Gyllenhall. Ambos os filmes baseiam-se em histórias verídicas relacionadas com o mundo do crime (o primeiro relacionado com a Mafia, o segundo sobre um Serial Killer), já com uma extensa tradição de sucesso no universo da sétima arte. A verdadeira diferença entre um e outro está exactamente na forma como o drama se desenrola. Enquanto que o primeiro explora vários estilos de narração, apresentando os vários momentos da história numa toada sempre encadeada e cativante, o último agarra-se demais à história original levando o desenrolar da mesma para um tom demasiado morno e inconsequente (ainda que entrecortado por cenas de grande suspense), sem preocupação em dramatizar o rumo dos acontecimentos, o que não faz justiça ao argumento original e torna o filme numa desilusão!


E afinal a história não é o mais importante num filme.

Presentemente, com os avanços ao nível dos Audiovisuais, o público mostra-se cada vez mais exigente, e a holywoodização da sétima arte faz com que haja cada vez mais preocupação em satisfazer as necessidades estéticas do auditório, e cada vez menos com o enriquecimento do enredo. O estímulo visual é sobrevalorizado. E assim se justifica o crescente interesse nos HDs, 3Ds e outros Ds que por aí estejam para vir. Não que a estimulação sensorial deva ser menosprezada no cinema, mas deve ser deixada para quem a domina e percebe que esta deve ser feita de forma ponderada e desprovida da intenção de se sobrepor à qualidade da narrativa, mas antes com o intuito de valorizar e enriquecer impacto da mesma.


Avatar, por exemplo, um esforço estético a todos os níveis louvável, uma proeza magnífica ao nível da animação, não deixa de ser uma obra incompleta e obsoleta! O empenho imprimido no alcance de semelhante resultado visual não é de maneira alguma reciprocado na preocupação com a catarse da narrativa, que não passa de uma adaptação da história da Pocahontas com homens azuis e naves espaciais. Para mim ver este filme é como comer cereais sem leite ou ir ao cinema e não comprar pipocas. A desproporção entre a qualidade visual da qualidade narrativa é desmesurada, o que para mim torna o trabalho de James Cameron num desperdício de talento e recursos.

Por outro lado, temos Quentin Tarantino, um mestre nesta área, capaz de conjugar sequências de combate magnificamente coreografadas com sumarentos diálogos em enredos nunca aborrecidos, sem com isto comprometer a excelência cosmética do seu trabalho. Nem mesmo a constante obsessão com violência extrema e vistosos jarros de sangue estraga as brilhantes interpretações que sempre consegue arrancar de actores como Uma Thurman ou Harvey Keitel. Vejamos Kill Bill, um filme onde desde o início se verifica essa preocupação tarantinesca em contar uma história acima de tudo com um estilo inaudito, conseguindo sempre evitar mergulhá-la no ridículo, ao manter o espectador ligado a uma torrente de episódios visceralmente sensibilizantes. Tudo isto acompanhado sempre de uma qualidade de efeitos sonoros e visuais tão superiormente masterizados que hipnotizam o espectador a acreditar que se encontra perante um drama sem par.



E aí reside a essência do argumento que tento escarafunchar neste cortejo de parágrafos. Embora o argumento do filme seja vital para o sucesso do mesmo, a responsabilidade da qualidade (ou inexistência dela) recai sempre naquele a quem cabe a tarefa de fazer a adaptação da história original para a película final, pois o modo como o faz condiciona a forma como o auditório tem acesso ao conteúdo da narrativa, e isto, no cinema, é tudo! E assim se justifica como Tarantino consegue criar um filme de culto, mesmo com uma história vulgar ao ponto de se poder adivinhar o seu desfecho a meio da mesma. 

Agora se querem gastar dinheiro com megalomanias como Avatares, ou esbanjar boas histórias como Zodiacs, podiam era fazer um favor ao adolescente de 13 anos dentro de mim e fazer um American Pie todos os anos.

Gustavo Santos

Ninho de Cucos (I)

Sendo esta a minha primeira intervenção aqui no blog, queria aproveitar para me imiscuir de continuar o trabalho do Axel Ferreira, tendo em conta que o convite que me foi feito, assim mo permite. Posto isto, comprometo-me apenas a expor uma série de baboseiras e ranhosices que um mero amador, bem menos descomprometido de tendências que o seu predecessor, como eu, tiver para partilhar sobre a Sétima Arte.


Bem, e como a inspiração não me auxilia nesta minha estreia, vou começar por recordar um artigo, encontrado no StumbleUpon há dias, em que era pedido aos seguidores para descreverem e publicarem as experiências cinematográficas/televisivas que mais os deixaram fisicamente enjoados. Deparei-me então com uma imponente lista de algumas das mais grotescas e intragáveis cenas da história do cinema, encabeçada por pequenos clips de vómitos, passando depois pelas tradicionais cenas de ingestão acidental de excrementos, e terminando numa género Fear Factor/Jackass, em que um indivíduo corta, e mistura num batido que posteriormente ingere, uma generosa porção de pêlos púbicos de um parceiro. Contudo, como estas, haveriam com certeza muitas mais que teriam ficado por contar por a sua sordidez se sobrepor ao bom senso das políticas do Youtube. Mas este tipo de entretenimento não é novo. Há séculos que a náusea assume o papel de sereia grega, com uma notável capacidade de seduzir o subconsciente e subjugá-lo a uma dependência transcendental. De facto esta revela-se uma arma poderosíssima para captar a perversa essência da nossa existência que de humana parece ter muito pouco. A dicotomia belo-horrível acaba por se revelar tão paradoxal e incompreensível como a do amor-ódio e qualquer mestre do cinema sabe que apelar ao estômago pode ser tão ou mais poderoso que apelar ao coração, pelo que há que saber apreciar, ou pelo menos reconhecer, o génio artístico de quem sabe provocar a náusea com mestria. Contudo o nojo é por vezes exageradamente aproveitado em filmes que se desligam do compromisso universal de contar uma história ou expor uma ideia, e que acabam por se tornar numa odisseia de obscenidades que motivam o seu visionamento pelo simples facto de serem chocantes. Ora isto não só vulgariza o trabalho final, como também o próprio género, o que leva à criação de obras vazias de sentido, sem substância!


Exemplo premente deste género é A Serbian Film, um filme tão intenso e repugnante que dá ideia que a sua realização terá resultado de uma aposta imprudentemente perdida. O protagonista da narrativa Milos, um ex-pornstar de renome, é seduzido a voltar ao activo para um último trabalho antes de voltar à reforma. No entanto, o trabalho para o qual é convidado acaba por estar bem distante do que quer que Milos (ou qualquer pessoa com escrúpulos) possa ter em mente, e dá azo a uma série de cenas de teor sexual extremamente audaciosas, que se revelam marcantes, não pela forma como são exibidas, mas essencialmente pelo contexto que as envolve e que lhes confere um sentido verdadeiramente aterrorizador. Na verdade o que é realmente marcante em A Serbian Film não é a sensação nauseabunda resultante da inexistência de critério ou bom senso na realização destas cenas, mas antes a conceptualização das mesmas, o que torna a sensação de repugnância não só visceral, mas acima de tudo psicológica. De certa forma há que reconhecer a originalidade num trabalho que consegue levar as coisas tão longe sem o deixar de contextualizar numa narrativa, mas que, por outro lado, dá a ideia de que a história serve apenas de pretexto à exibição de cenas cuja idealização é irresponsavelmente negligenciada, e acreditando pela quantidade de pessoas que são necessárias para se aprovar um projecto deste calibre, só um segredo mais impenetrável que o da Santíssima Trindade pode explicar como este hino à indigestão conseguiu chegar às salas de cinema de todo o planeta (se bem que na Noruega e no Brasil ainda há lápis azul a funcionar.)


Honestamente gostava de poder conseguir aconselhar alguém a ver A Serbian Film ou outro qualquer do género, como alguém impiedosamente mo fez, mas o sadismo não faz parte dos meus vícios e apesar de, obviamente, não condenar quem aprecie o género (cada um tem os seus gostos), não consigo deixar de os considerar uma fútil perda de tempo (mais fútil que ouvir Rihanna, ou ir para os copos com os amigos), com a justificação de que há maneiras bem mais interessantes e prazenteiras de satisfazer os sentidos.

Em suma, parece-me que com tanta boa ideia por aí, com tanto génio à procura do seu espaço, ser escusado ter Serbian Films a parasitarem o mundo do cinema, ainda que o ser humano seja dotado de uma insaciável sede por aquilo que mais o repugna, e como tal provavelmente nunca venham a deixar de ser feitos trabalhos destes, há ainda assim que saber ter critério, e da mesma forma que se evita uma música do Justin Bieber ou da Rebecca Black também se devem evitar filmes destes, sob pena de deixar o talento ser levado de vencido pelo exagero!

Gustavo Santos