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DIAL P FOR POPCORN

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PSYCHO (1960)


Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Esta semana a película em análise é um dos filmes mais reconhecidos universalmente, a fantástica obra-prima de Hitchcock, PSYCHO. Espero que gostem, de qualquer forma e que se juntem à conversação - e que vos incite a ver o filme. AVISO: Pode conter 'spoilers' uma vez que não é bem uma crítica mas uma análise ao filme.




O pormenor que considero mais fascinante em torno de PSYCHO é a minha firme crença de que o seu realizador, Alfred Hitchcock, soube desde sempre que este filme, cinquenta anos após a sua produção, iria estar tão enraizado na cultura popular que nunca mais ninguém iria olhar para filmes de terror, para cenas de chuveiro e para o matricídio da mesma forma. PSYCHO é, na sua mais pura essência, uma experiência aterrorizante, excitante, envolvente, que nunca perde o seu poder e potência seja esta a primeira vez que o vemos ou a décima.

 
Quando vemos a mulher à janela na mansão assustadora e de aspecto  decrépito e misterioso onde vivem os Bates pela primeira vez, não podemos deixar de ponderar na sua possível omnipresença na trama daqui para a frente. A expressão de estranheza, de curiosidade leve e cautelosa (tendo em conta o que sabemos hoje em dia de vultos em janelas sombrias no meio da noite, não seria a nossa expressão facial também parecida?) no rosto de Marion Crane (uma interpretação imensamente detalhada por parte da talentosa Janet Leigh), que havia fugido de Phoenix com 40,000 dólares roubados e que, em direcção a Fairvale para se encontrar com o seu amante Sam, por se encontrar cansada e assustada da viagem, decide pernoitar no Motel Bates, é também ela denunciadora. 

 
Mal sabia Marion que se encontrava a meros minutos de sofrer uma das mortes mais infames da história do cinema; no entanto, parece que ela adivinhava que, depois de todas as tribulações e confusões na viagem (uma das grandes delícias da sua interpretação são as diversas expressões faciais que exibe enquanto é perseguida pela polícia e quando está a abandonar a cidade e o seu patrão a vê de relance, denunciando o seu crime), seria esta a mulher que lhe iria trazer o seu triste fim.


Antes de morta, porém, Marion trava conhecimento com Norman Bates (Anthony Perkins), o responsável pelo motel. Bates é um sujeito invulgar. Tenta fazer passar-se o máximo por uma pessoa normal e quase consegue - isto é, até ao momento que Marion começa a fazer-lhe perguntas pessoais. A psique de Bates é uma coisa fascinante de se observar - a forma despreocupada com que fala do seu dia-a-dia, da sua solidão, da sua paixão pela taxidermia, é trocada de repente por gélidos olhares, fala entredentes, sorrisos nervosos e confusão e incongruência no discurso. Impressionante é ver que Janet Leigh consegue usar esses traços de personalidade de Bates para contar mais acerca da sua própria personagem: as dentadas nervosas que dá na sanduíche, os olhares de soslaio que faz, o contacto íntimo que procura até perceber que falou demasiado... Muito perspicaz.


Eventualmente, como em qualquer filme do senhor Alfred Hitchcock, temos que chegar à parte dos assassinatos. E falando de mortes... Esta é uma daquelas que impressiona. Para azar e infortúnio de Marion Crane, a sua jornada acaba aqui - este é o seu destino - e parece-nos a nós que sempre o fora desde o momento em que ela pôs os pés neste motel. A inocente e ingénua Marion toma despreocupadamente banho de chuveiro quando tudo acontece. O resto, é história. A banda sonora de Herrmann alterna entre a melodia sombria e arrepiante que pauta toda a película para uns sons mais estridentes e assustadores. Um vulto aproxima-se por detrás da cortina, segurando uma faca. Marion grita. Ninguém ouve. Repetidas facadas são vistas (como se sabe, Hitchcock decidiu filmar esta cena sem que uma facada ou jorro de sangue se visse, porque achava que o público da altura não suportava ver grande quantidade de sangue) e o fim prematuro de Marion chegou. Num último movimento, ela puxa a cortina da banheira. Simbolicamente, sangue a jorrar da vítima  é lavado pela água do chuveiro e ambos rodopiam pelo cano abaixo. Um close-up final do olho cintilante, sem vida de Marion é-nos proporcionado.


Quando Bates (ouvimos) descobre a mãe coberta de sangue, corre até à cabana procurando impedir o pior, mas este já está feito - e quando ele a desvenda, não há como não ficar horrorizado pelo cenário atroz e macabro. Atrás de Marion já anda meio mundo e dias depois é a ver de Arbogast (Martin Balsam), um investigador privado, chegar ao Motel Bates. Também ele iria ser surpreendido pela Morte, pouco depois de ter informado Lila Crane (Vera Miles), a irmã, e Sam Loomis (John Garvin), o amante, que ela teria aí sido vista pela última vez. Quando ele não regressa, não havia como Lila e Sam ficarem desconfiados e procurarem fazer justiça pelas próprias mãos.


É nestas cenas de busca dos dois na casa dos Bates que dá para ver melhor aquilo que eu mais gosto nos filmes de Hitchcock - a forma como testa o índice de medo da audiência, a forma ilimitada com que aborda os nossos medos mais primários, mais básicos, mais fundos da nossa alma. O jogo de espelhos que tanto aterroriza Lila numa cena funciona de forma semelhante às várias vezes que Marion, mais cedo na película, olha para o espelho para conferir se alguém a segue, e depois quando o polícia surge em repetidas frames à porta da loja de carros usados.  Este estudo do comportamento e da natureza humana que Hitchcock faz em todos os seus filmes é notável - quem diria que nos podemos assustar tanto com algo tão elementar como a ideia de termos alguém a perseguir-nos quando fazemos algo de errado? E a situação em que Lila se encontra - ela que anda a bisbilhotar uma casa que não é sua, a invadir a privacidade de outrem - e ainda por cima numa casa tão mal iluminada, tão assustadora, tão estranha e peculiar - e que a qualquer momento pode ser apanhada... é perfeitamente natural que se tenha assustado ao ver o seu reflexo no espelho por trás dela, pensando que era outra pessoa. Quem é que nunca experienciou sentimentos semelhantes? Certamente já se passou com todos nós. Todos nós já fizermos algo que sabemos que era errado e tememos ser apanhados por fazê-lo.


Mas o que tema ela em concreto? Desde o primeiro momento que surge no grande ecrã que se torna bastante claro que no fim tudo iria girar em torno de Norman Bates. Anthony Perkins interpreta-o de forma magnífica, transformando o que já era uma personagem complexa no papel numa verdadeira sombra humana. Variando entre a personalidade jovem, enternecedora e divertida de algumas cenas e a tristeza, melancolia, dúvida e mistério que pairam no seu rosto noutras, o seu Norman Bates é claramente alguém que não dá para confiar a sério. A forma como pronuncia algumas falas é brilhante. E é fantástico, como disse acima, vê-lo perder-se totalmente quando se aborda assuntos muito pessoais. Ele escapa para outro mundo. Parece ter a cabeça na lua. Perde-se na coerência do seu discurso. Ri-se nervosamente. Fala entre dentes. E perde completamente as estribeiras e a polidez por alguns momentos.  Apesar de achar que o filme dispensava  as cenas com o psiquiatra, sendo que para mim devia ter terminado logo após a mãe ter sido revelada, esta última cena, frente a frente com o assassino, de olhar frio e cruel, de sorriso ironicamente satisfeito, qual louco envolvido pelo seu próprio delírio, é absolutamente preciosa, como que a lembrar-nos de que nem sempre o demónio está nos sítios mais óbvios. Norman Bates tinha uma alta doce e gentil. É pena que esta estivesse consumida e destruída.

No fim de contas, PSYCHO é um melodrama/thriller de grande qualidade e efeito, recheado de interpretações curiosas e poderosas mas onde o realizador é que é a verdadeira estrela. Desde os close-ups do ponto de vista da personagem (em particular a visão dentro do carro), da forma desconcertante de introduzir ironia nos diálogos mais sérios, da surpreendente lata de fazer as personagens sorrir nas situações mais inapropriadas, da extraordinária direcção artística (pássaros assustadores empalhados, anyone?) e escolhas de casting (todos os actores são aquilo que as suas personagens precisavam - mesmo em termos físicos; não há escolhas ao acaso aqui) e a edição perfeita, PSYCHO é realmente uma obra emblemática, uma sinfonia estrondosa de horror e suspense; numa frase, é tudo aquilo que os grandes filmes esperam ser: um filme para todo o sempre, um  filme que resista ao teste do tempo, um filme que desafie e estimule a audiência e, sobretudo, um filme que tenha o orgulho e prazer de se auto-intitular como um dos melhores já alguma vez feitos.

Nota Final:
A

Informação Adicional:
Realização: Alfred Hitchcock
Elenco: Janet Leigh, John Gavin, Vera Miles, Anthony Perkins
Fotografia: John L. Russell
Banda Sonora: Bernard Herrmann
Duração: 109 minutos
Ano: 1960

Trailer:

A STREETCAR NAMED DESIRE (1951)


Este artigo faz parte da minha participação na rubrica do The Film Experience Blog de Nathaniel Rogers, "Hit Me With Your Best Shot", na qual é-nos requerido escolhermos uma imagem icónica do filme em discussão nessa semana e justificar a nossa opinião. Esta semana dedicamo-nos a A STREETCAR NAMED DESIRE, a obra-prima de Elia Kazan baseada na peça imortal de Tennessee Williams, cujo centenário do seu nascimento nos encontramos a celebrar esta semana. Uma vez que esta rubrica é feita para um sítio inglês, o artigo tem que ser colocado nas duas línguas. Espero que gostem, de qualquer forma. [N.B.: O texto tem 'spoilers'].



Há tanta coisa que gosto no A STREETCAR NAMED DESIRE (invariavelmente, a obra-prima de Tennessee Williams e um dos melhores filmes do enorme Elia Kazan) que torna tão difícil resumi-lo em meras poucas palavras. É seguramente um dos maiores dramas de sempre. É um dos maiores exemplos de um trabalho de elenco de qualidade da História. É uma peça indissociável do clima cinematográfico dos anos 50, considerado demasiado risqué, controverso, inconveniente, provocante, mas que parece bastante sedado em relação aos tempos de hoje. Nele está presente um confronto interessantíssimo entre dois dos maiores intérpretes que o grande ecrã alguma vez já viu: o defensor do 'method acting', Marlon Brando, num dos seus primeiros papéis de relevo; e a rainha da Velha Hollywood e lenda cinematográfica, Vivien Leigh, que já nos tinha oferecido uma das maiores personagens da História do cinema (estou a falar, claro, de Scarlett O'Hara). Ambos conseguem magníficas interpretações que iriam conduzir, eventualmente, a nomeações para os Óscares da Academia para os dois (aliás, os quatro actores principais da trama viriam a ser nomeados, resultando em três vitórias; só Brando perdeu).


A STREETCAR NAMED DESIRE conta a história de Blanche DuBois, uma dama do Sul  que decide visitar a sua irmã Stella, que vive em Nova Orleães com o seu marido, Stanley Kowalski, um homem rude, animalesco, bruto e mal-educado. Durante a sua estadia na casa da irmã, Blanche é testemunha do forte abuso que a sua irmã tem de aturar por parte do marido, sem esboçar esta qualquer reacção (ela ama-o perdidamente, o que poderá explicar parte desta passividade) - abuso este do qual ela mais tarde virá a ser vítima. O abuso e a tortura que Stanley impõe sobre a doce e sonhadora Blanche destrói o pouco de sanidade que esta ainda possui, levando a que ela seja institucionalizada.


Tennessee Williams tem um dom para escrever para mulher. Consegue ver para lá do óbvio e mostra-nos a sua vulnerabilidade, o seu sofrimento, o seu orgulho, de forma crua e honesta, real.  Blanche DuBois é uma mulher fracassada. Decadente e desavergonhada, como os habitantes de Auriol, a terra onde vivia, fazem questão de a descrever. Narcisista, histérica, pomposa e artificial, Blanche é uma criação mítica que muitas actrizes matariam para interpretar. Que Vivien Leigh tenha sido tão bem sucedida no papel (ainda para mais porque era a única dos quatro principais que não tinha ligação com o espectáculo na Broadway, tendo substituído Jessica Tandy na transformação da peça em filme) diz muito da sua verdadeira qualidade como actriz. Vivien incorpora a sua Blanche de tanta falsa felicidade (as cenas com Mitch (Karl Malden) são uma delícia, tal é  o desvario da sua cabeça), de tanta necessidade e urgência e desejo, balanceando-o com o graciosidade, charme e delicadeza, enquanto nos proporciona uma visão priveligiada da sua dor, da sua psique, que é fenomenal observar a sua abordagem muito única às suas personagens. A peça está desenhada para nos fazer sentir pena dela e da sua irmã; contudo, Leigh imprime sentimentos e emoções e reacções em Blanche que nunca nos permite identificar e simpatizar com a sua história, dando-nos oportunidade para perceber o porquê de tanta implicância de Stanley. Imensamente irritante numas cenas, enternecedora noutras, assim é  Blanche DuBois. Uma criação incompleta - talvez para sempre assim. Uma grande interpretação, de qualquer forma. 


Marlon Brando é também brilhante. Stanley Kowalski é um homem atroz, sem dúvida. Ele bate na mulher, ele berra e discute, ele parte e atira coisas pelo ar, ele mete-se em confusões e lutas só porque lhe apetece e ainda por cima decide que é sua missão torturar mental e fisicamente a sua cunhada. A sua personagem é tão vil, tão violenta e real, tão complicada de ler que se torna impressonante imaginar de que forma vai reagir da próxima vez. A cena em que ele é abandonado na sua casa, no escuro, bêbedo e a chorar por ter batido à sua mulher e os gritos de "Stella!" que se seguem, é de arrancar o coração. Algo que nem devia ser posto em questão (afinal, ele acabara de bater à mulher!), Brando consegue fazer-nos sentir pena e compaixão pela personagem. Um desempenho fantástico.


Curiosamente, o elemento surpresa da história e sem dúvida a figura mais interessante do filme é a terceira parte deste triângulo: Stella (Kim Hunter). Impossível de desvendar o que pensa, o que sente. Por que razão está ainda com Stanley, quando toda a gente no seu bairro conhece como ele é? Como é que ela aguenta com tanta parvoíce que a sua irmã profere? Hunter torna Stella uma mulher enigmática, emotiva, reactiva, a sua face iluminando-se nalguns momentos cruciais na película. Comporta-se ingenuamente a maior parte do tempo, todavia de repente exibe uma espécie de despreocupação, temeridade, non-chalance, uma capacidade de abstracção que me fascina na personagem.  No início é-nos óbvio que quando Stella, depois de espancada, abandona a sua casa, que ela voltará. Ela deseja Stanley ardentemente e por ele faz tudo. É chocante apercebermo-nos que ela não o teme; ela até o compreende. Tudo isto torna a cena final, em que Stella volta a abandonar o seu domicílio depois do internamento da irmã, desta vez "de uma vez por todas", segundo ela, tanto ou mais imperiosa - será mesmo de vez?


E agora a minha escolha para melhor imagem. A que representa, para mim, o melhor que este triângulo de relações nos oferece no filme. Blanche torturada por Stanley. Stanley, bruto, sem noção de como é. Stella agindo como mediadora, nunca escolhendo lados neste feudo. E Blanche procurando segurança numa irmã que não sabe em quem confiar mais.




Nota Final:
A

Informação Adicional:
Realização: Elia Kazan
Argumento: Tennessee Williams
Elenco: Vivien Leigh, Kim Hunter, Marlon Brando, Karl Malden
Ano: 1951



BLACK SWAN (2010)






"He picked me, Mommy!"


Depois de em The Wrestler o realizador Darren Aronofsky nos ter mostrado o dano físico e psicossocial que a devoção à arte podem causar a uma pessoa, eis que ele volta a terreno conhecido em Black Swan, arrancando uma interpretação memorável de Natalie Portman, daquelas feita para ganhar montanhas de prémios, na qual se vê todo o esforço que a actriz teve que exercer para conseguir interpretar convincentemente uma bailarina de uma companhia de dança com alta reputação e, em simultâneo, actuar ao longo do filme, mostrando  como tanto o desequilíbrio emocional como a obsessão inocente de Nina (em conjunto com outros factores), a nossa protagonista, contribuíram para agravar o complicado estado mental da personagem.


Um visionário inexcedível, Darren Aronofsky sucede em fugir a um argumento com uma história bastante óbvia, transformando o que poderia resumir-se à perda de lucidez de uma bailarina num estudo complexo e intenso sobre a fragilidade da psique de um bailarino, o artista que desempenha o papel principal naquela que é considerada, por muitos, a "arte maior" da dança, a que mais dada é a grandiosas e elaboradas coreografias, a que explora a musicalidade própria das composições clássicas e a usa para grande efeito. Nina Sayers é uma metáfora interessante para o que é ser uma bailarina: uma psique frágil, vulnerável, destruída pelas inúmeras rejeições, pelo esforço mental que requer, pela concentração e atenção ao detalhe e ao pormenor de uma performance imaculada, sem falhas, escondida por detrás de um corpo altamente muscular, que sofre dano ao mesmo tempo que a mente, dano este que pelo contrário é bastante visível. O perfeccionismo paga-se caro.


O filme reside em linhas narrativas muito simples: Nina Sayers (Natalie Portman) é uma das bailarinas mais antigas de uma renomada companhia de ballet norte-americana que vê a sua grande oportunidade chegar quando Thomas (Vincent Cassel), o excêntrico mas enormemente talentoso director da companhia, decide reformar a sua antiga prima ballerina, Beth (Wynona Ryder), e preparar o seu glorioso retorno à proeminência com o seu moderno remake do bailado mais famoso de Tchaikovsky, o Lago dos Cisnes. Nina, atormentada já por si só pelas expectativas ridiculamente elevadas que a sua mãe, Erica (Barbara Hershey), que outrora também fora bailarina, coloca nela, vê o seu estado mental deteriorar-se enquanto se perde numa competição, que até ao fim não sabemos bem se se passa verdadeiramente ou se é só apenas fruto da sua mente, com Lily (Mila Kunis), a nova bailarina da companhia.


Lily é tudo aquilo que Nina sonhava ser e não é; Nina é operática, perfeccionista e trabalhadora, com movimentos delicados e suaves, perfeitos para desempenhar o papel do Cisne Branco, que requer uma inocência e vulnerabilidade que Nina exuma naturalmente. Já o Cisne Negro, que se quer sensual, livre de movimento e mais descontraído, torna-se um desafio titânico para Nina superar. Na sua busca pela perfeição e ideal no que é, invariavelmente, o papel que definirá para sempre a sua carreira como bailarina, Nina perde-se na fina linha entre a realidade e o imaginário, conduzindo-nos com ela pelo mundo competitivo do ballet e pelas exigências físicas e psicológicas que este papel lhe vão impôr.

 
O elenco funciona de forma maravilhosa, com Wynona Ryder em pleno modo neurótico a proporcionar-nos pequenos momentos de prazer, ao vê-la assumidamente representar aquilo que é, hoje em dia, um espelho da sua vida enquanto actriz e Barbara Hershey a elevar o nível de cada cena que protagoniza. Vincent Cassel e Mila Kunis não têm muito mais que explorar fora das linhas de principais propulsores do desabrochar social e sexual de Nina. Sedutores e enigmáticos, contudo pouco mais que isso.

Weisblum e Libatique continuam a colaboração frutífera com Aronofsky, que tão bons resultados vem dando e que atinge um novo máximo em Black Swan, com ambos a realizar um excelente trabalho dando asas à criatividade do mestre e trabalhando em seu prol, com uma fotografia impecável e um trabalho de edição notável a serem os grandes destaques, em termos técnicos, desta película (uma nota de parabéns também à produção artística - o jogo de espelhos, as salas a meia-luz, a casa de Erica e Nina - cheia de pormenores deliciosos, com ar de cela mas também convidativo à intimidade e à relação estranhíssima que as duas possuem). Clint Mansell, o compositor de serviço de Aronofsky, também brilha aqui, com uma adaptação irreverente e irresistível da obra-prima de Tchaikovsky, explorando os mais finos detalhes e transformando-a quase num pesadelo que nos persegue muito depois de abandonarmos o cinema, convertendo o Lago dos Cisnes numa experiência selvagem, pesada, emocionante. E, no fim de contas, há que dar o braço a torcer a Aronofsky. Ninguém consegue revirar tanto o jogo como ele. Mantendo-nos sempre na beira do assento, excita-nos e maravilha-nos a cada minuto que passa, subindo-nos o nível de adrenalina até culminar naquele orgásmico final.

 
Neste pas de deux entre a dança e a vida, entre a realidade e o sonho,  entre a técnica e o talento, Nina (a pessoa) procura libertar-se do enjaulamento e repressão social que a sua mãe lhe impõe, enquanto Nina (a artista) procura libertar-se da perfeição técnica que tantos anos de rigoroso treino lhe impuseram para alcançar o próximo nível: a perfeição artística, capaz de nos ludibriar e encantar ao mesmo tempo. Conseguirá Nina lá chegar? E que preço terá de pagar? É o que Aronofsky nos tenta contar.



Nota Final:

 A-/B+


Informação Adicional:
Realizador: Darren Aronofsky
Argumento: Mark Heyman, Andrew Heinz, John McLaughlin
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Barbara Hershey, Wynona Ryder, Vincent Cassel
Fotografia: Matthew Libatique
Banda Sonora: Clint Mansell
Ano: 2010


Trailer:




ANOTHER YEAR (2010)



"Life is not always kind, is it?"


Que diriam vocês se alguém decidisse entrar dentro de vossa casa, no seio da vossa família e entre os vossos amigos, e começasse a filmar o vosso dia-a-dia, durante um ano inteiro? Parece... aborrecido, não é? Sem qualquer propósito. Afinal, as nossas vidas nada têm de especial. É, talvez, este ingrediente que mais atrai ao virtuoso realizador Mike Leigh, que volta a pegar na rotina diária de pessoas ordinárias, sem qualquer feito de relevo, para nos mostrar todo o tipo de lições sobre o que é ser feliz e como lá chegar. 

 
Relembro que este é o mesmo homem que nos presenteou há dois anos com o magnífico "Happy-Go-Lucky", que nos proporcionou um valente soco no estômago com "Vera Drake" e que produziu clássicos intemporais como "Secrets and Lies", "Naked" e "Topsy-Turvy", um homem brilhante a explorar o que há de mais puro e impressionante no drama da vida  que tem um olho e um instinto certeiros para a comédia humana, um observador fascinante do comportamento humano e sobretudo com um genuíno talento para uma forma invulgar de fazer cinema: sem julgamentos. 

O filme segue o dia-a-dia de um casal ao longo de um ano, com vizinhos e amigos e família a aparecerem em diferentes momentos ao longo das quatro estações do ano. Não há muito mais que aconteça no filme. Contudo, no que algumas pessoas preferem ver aborrecimento e monotonia, eu prefiro ver realismo, porque a nossa vida, a vida da grande maioria das pessoas que passa por este mundo, é assim. Não se passa muita coisa. Gerri e Tom (Ruth Sheen e Jim Broadbent) são um casal de meia-idade feliz, que faz questão de aproveitar o melhor que a vida tem para oferecer, que tem as portas sempre abertas a visitas. De uma felicidade genuína e palpável, inteligentes, amáveis e carinhosos, fornecem um excelente contraste em relação às visitas que lá aparecem por casa, não tão ajustados e com a vida resolvida como eles. 

 
A química e a empatia que Sheen e Broadbent conferem aos seus personagens é incrível, dotando-os igualmente de uma fascinante cumplicidade, de modo que muitas vezes só uma troca de olhares ou de uma palavra entre eles diz milhões de coisas que pensam mas não ousam dizer. Tudo isto transforma-os num convincente casal que fica contente por receber os amigos e que verdadeiramente torna a sua estadia o mais agradável possível. É impossível ver o filme e não pensar o quão divertido e reconfortante seria visitá-los neste preciso momento.


A interpretação de Sheen e Broadbent tem ainda outro condão: o de deixar a Lesley Manville a possibilidade de explodir com o cenário. Que interpretação formidável. Possivelmente a melhor que vi, em termos de actrizes secundárias, este ano. Mary está completamente perdida. Está tão perdida que já nem sequer parece ter conserto - algo que dá para perceber logo que a vemos, nem precisávamos que Tom e Gerri, na cama à noite, após mais uma das visitas de Mary, comentassem: "It's so sad". Mary é uma mulher na casa dos quarenta, divorciada, que bebe demasiado, que é completamente inapropriada a maioria das vezes que fala (diz sempre o que pensa), que repete a mesma piada milhares de vezes, que comete imensos faux-pas em socialização normal e que, sem noção da sua situação real, continua convencida que está no pico da sua vida e portanto que o homem perfeito há-de vir ter com ela - e tanto assim é que ela se julga capaz de afastar Kenny, mais um dos amigos de Gerri e Tom que aparece para visitar, também ele solteiro (melhor, divorciado) e que busca em Mary uma companhia para o resto dos seus dias.


Trágica mas divertidíssima, frágil mas humana, neurótica a ponto de fingir despreocupação para se convencer a si própria do contrário, impossível de agradar e aturar em certas alturas mas também impossível de enxotar quando já bebeu mais do que uns dois, três copos, Mary é simplesmente inesquecível. Uma interpretação electrizante, hábil a fugir da caricatura e transformando Mary numa roda viva de emoções e transportando-nos a nós com ela, Lesley Manville é magistral.

O argumento é genial. Construído a pensar em momentos superficiais, triviais do dia-a-dia, é na mensagem que reside no seu interior que se encontra toda a beleza.  A pacatez ingenuamente pode levar-nos a pensar que nada substancial se passa. Não se enganem, este é um filme profundo, pleno de situações cheias de humor mas com vários episódios dotados de maior tristeza e melancolia. Deve ser seguido com a maior das atenções, porque aqui, cada fala, cada olhar, cada variação na forma como cada personagem se comporta em relação às outras, conta. 


E, no fim de contas, não é assim a vida? Às vezes passa a correr, outras vezes leva tempo demais a passar, contudo aquilo que nos fica, no final, não são os acontecimentos que se passaram - são as pessoas com quem os passámos. Lembramos as amizades que fazemos e o tempo que passamos com elas, os abraços e beijos que trocamos com a família, as horas que partilhamos com quem trabalha connosco ou com quem estuda connosco. Os melhores momentos da nossa vida são, invariavelmente, aqueles que passamos com as pessoas que dão significado à nossa existência. E é isso que Mike Leigh tenta, afinal, transmitir.



Nota:
A-



Informações Adicionais:
Realizador: Mike Leigh
Argumento: Mike Leigh
Elenco: Jim Broadbent, Ruth Sheen, Lesley Manville, Karina Fernandez, Oliver Maltman, Peter Wight
Fotografia: Dick Pope
Música: Gary Yershon


Trailer:


THE KIDS ARE ALL RIGHT (2010)


Os miúdos estão bem. Arriscaria dizer, os miúdos e os graúdos estão bem. "The Kids Are All Right” é um retrato fascinante das famílias dos tempos modernos, uma das melhores comédias do cinema independente americano que há já algum tempo precisava de um filme como este: desinibido, leve, inconvencional, alegre, reconfortante, divertido, agradável, inteligente, bem-humorado, enquanto lida com problemas sérios do mundo actual como a disfuncionalidade da unidade familiar, o casamento homossexual, a inseminação artificial, as falhas nas relações interpessoais e o crescimento e a partida para a universidade.


Lisa Cholodenko é, de facto, uma brilhante observadora das relações e das pessoas. Especialmente dotada em colocar à prova as suas personagens perante situações onde elas não se sentem confortáveis, a realizadora consegue explorar a humanidade, emoção e a racionalidade por detrás de cada tipo de pessoa, nunca fornecendo uma visão redutora do que se passa com elas e expondo as suas imperfeições bem a nu. A forma fabulosa como ela consegue transformar a nossa visão de casamento e união, passando-nos a mensagem de que neste caso a relação errada é a heterossexual, não deve passar despercebida.

 
A história de “The Kids Are All Right” decorre em Los Angeles, onde uma família composta por duas mães lésbicas, Jules e Nic (Julianne Moore e Annette Bening) e pelos seus dois filhos, obtidos através de inseminação artificial, Laser e Joni (Josh Hutcherson e Mia Wasikowska) se vê confrontada com a entrada na sua unidade familiar do pai biológico dos jovens, Paul (Mark Ruffalo), após Joni, que acaba de completar dezoito anos e está de partida para a universidade, ter feito a vontade ao irmão mais novo de descobrir a identidade do seu verdadeiro pai.


Ao saber dos encontros secretos com o pai, ambas as mães ficam reticentes em permitir-lhe entrada na sua vida, mas decidem estabelecer contacto com ele de qualquer forma. Paul dá-se genuinamente bem com os dois miúdos e com Jules (Moore), com quem se sente completamente à vontade. Já Nic (Bening), a ganha-pão da família, uma bem-sucedida, determinada e controladora médica com queda para o dramatismo e para a ingestão de largas quantidades de vinho e que vem negligenciando a sua companheira, muito mais aventureira, despachada e relaxada, vem gerindo a sua neurose disparando palavras ríspidas em todas as direcções e deixando a restante família, em particular Jules, numa pilha de nervos. A ida de Joni para a universidade vem complicar ainda mais as coisas, com as mães a terem problemas de comunicação com a filha, que nem sempre as compreende e vice-versa.


O distanciamento entre as duas mães e a contínua aproximação de todos menos Nic a Paul vem criar uma rotura na unidade familiar que se torna difícil de reparar, oferecendo inevitáveis mas nem sempre agradáveis surpresas, inúmeros conflitos e mal-entendidos e complicando a história de mil e uma divertidas maneiras.


Um filme com excelente argumento e uma cuidadosa realização, acompanhado de excelentes interpretações, em particular de Julianne Moore e Annette Bening, com material aqui para mostrar variadas nuances e oferecer-nos das melhores interpretações da sua carreira, complexas, mágicas e magnetizantes, de nos fazer chorar a rir e de nos fazer chorar por nos partir o coração, conseguindo transmitir pela sua linguagem corporal e expressão facial tanta cumplicidade, tantos segredos e tantas cicatrizes, próprias de um casamento de 20 anos, ambas merecedoras de atenção nos prémios de fim-de-ano, e de Mark Ruffalo, uma performance surpreendentemente relaxada, 100% dentro da natureza da sua personagem, nunca esquecendo porém também o papel dos miúdos na história, pois Hutcherson e Wasikowska são sem dúvida dois dos melhores jovens a trabalhar em Hollywood hoje em dia. Um filme irresistível para qualquer fã de comédia bem feita, para qualquer fã de filmes familiares e em especial para fãs dos actores, a trabalhar aqui no topo da sua forma.

Nota Final:
A-

Trailer:


Informação Adicional:
Realização: Lisa Cholodenko
Argumento: Stuart Blumberg, Lisa Cholodenko
Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Josh Hutcherson, Mia Wasikowska
Fotografia: Igor Jadue-Lillo
Banda Sonora: Carter Burwell, Nathan Larson, Craig Wedren


CABARET (1972)

 

«Leave your troubles outside.
So life is disappointing, forget it!
In here life is beautiful.»
 

A citação acima pertence à música introdutória de "Cabaret", o filme mais famoso do realizador-coreógrafo Bob Fosse. É através dessa música, "Willkommen", brilhantemente escrita e composta por Ebb e Kander que o Mestre de Cerimónias do clube nocturno Kit Kat Klub (interpretado magnificamente por Joel Grey) nos dá as boas-vindas ao mundo do Cabaret.

Este musical tão fora do habitual é um deleite de ir desvendando, apresentando-nos tanto detalhe, tanta cor, tanta imaginação, tanta alma, que é impossível não nos contagiarmos e nos deixarmos levar, precisamente abandonando os nossos problemas durante as duas horas do filme.


"Cabaret" passa-se na antecâmara da II Guerra Mundial, na Berlim de 1931, numa altura em que, enquanto se assistia à ascensão do Partido Nazi, se vinha assistindo a um aumento na ambiguidade sexual, na decadência e em que locais como os cabarés eram francamente apreciados pela sua falta de pudor em expor o que a protagonista, Sally Bowles, viria a caracterizar como "divina decadência". Este paralelismo entre, por um lado, todo uma parte do filme mais política, mais séria, mais machista, existe a outra parte, a alegre, a descontraída, a sensual é o que mais me fascina no filme. E aqui entra o génio de Bob Fosse, que consegue aliar as duas histórias que pretende contar e interrelacioná-las, fazendo-nos perceber que este filme é, sobretudo, um filme sobre as pessoas. 


O argumento do filme segue a personagem principal das "Histórias de Berlim" de Christopher Isherwood, a cantora de cabaré Sally Bowles, uma das personagens mais fabulosas que o Cinema alguma vez teve a oportunidade de conhecer. Por entre a sua falta de tacto e de educação, o seu narcisismo, os seus amuos, a enorme aura de diva que paira sobre ela, os seus mil defeitos e as suas generosas qualidades, a sua falsa vitalidade e devassidão apercebemo-nos que ante nós se desvenda uma das maiores interpretações de sempre. Liza Minnelli cria um monstro perante os nossos olhos. Além dos fantásticos números de dança e canto, Minnelli confere a Sally Bowles uma vulnerabilidade que a personagem, ao tentar esconder, nunca falha em nos mostrar, quer pelo meio da "divina decadência" a que tanto se refere, quer pela forma teatral com que reage à maioria das situações, quer pela forma como guarda para si a maioria dos seus receios, dos seus traumas, das suas desilusões e até quer pela forma como só se dá às pessoas até certo ponto. Emocional e excitável, é certo, mas bastante frágil e secreta. Soberba ao ponto de nos conseguir convencer sempre de que ela, de facto, é apenas uma rapariga que vive o momento, sem preocupações, que acredita fielmente no lema do Cabaret, não levar nada a sério e viver para sempre o presente. E quanto ela se dá a conhecer na totalidade a nós audiência, no seu mais exposto é de partir o coração.


O filme conta-nos portanto a história da relação entre Sally Bowles e Brian (Michael York), um jovem professor de Inglês que se perde na vida nocturna do cabaré e depois a relação destes com dois alunos de Brian, Fritz e Natalia (fazendo depois com esta personagem o paralelismo para o nazismo e para a influência que teve na vida dos Judeus alemães, comunidade da qual Natalia faz parte) e em seguida de Sally e Brian com um milionário excêntrico, bissexual (interpretado de forma muitíssimo interessante por Helmut Griem). A exploração deste amor aparentemente incompreendido e deste triângulo amoroso tão fora do ordinário é o que dá ao filme força motriz. Pelo meio, vão-se entrelaçando situações da vida destas personagens com números de dança e canto no clube nocturno, números esses ricos de realismo, sempre relacionados com o momento em que a acção principal pára. É a este nível que se consegue sentir a enorme interpretação de Joel Grey como o Mestre de Cerimónias de cara pintada e sorriso aberto, que serve de ponto de ligação entre as várias partes do filme, quer esteja a cantar e a dançar, quer esteja a saltar, quer esteja a atirar lama para duas das suas dançarinas que estão envolvidas numa luta em pleno palco, quer esteja a contar-nos a história do seu ménage à trois, ele continua o divertimento e as festividades no cabaré, fazendo-nos sentir todo o entusiasmo, a força, a pujança e a alegria que normalmente pautaria tais estabelecimentos. Joel Grey é fascinante de acompanhar, pois rouba toda a atenção nas cenas em que surge e oferece-nos uma performance completamente bestial.


A acompanhar as prestações do grande elenco temos números musicais intemporais, melodias de uma exuberância e brilho tal que serão amadas para sempre, como "Money Makes The World Go Round", "Mein Herr", "If You Could See Her", "Maybe This Time" e o magnífico final, "Life is a Cabaret"; uma fotografia bastante poderosa, muito pormenorizada, com uma paleta de cores infindável; um argumento muito bem explorado e incisivo, que nos permite acompanhar esta história melancólica e elégica sem nunca perder o norte ao real, inventivamente teatralizado nos números musicais no cabaré; e uma realização extraordinária de Bob Fosse, que lança um olhar bastante cínico e frio às pessoas que habitavam esta Berlim dos anos 30.


Quando o filme chega ao seu fim, percebemos finalmente que este não é um filme feliz e nem o seu número final, "Life is a Cabaret", é uma canção sobre a alegria do cabaré, onde todas as preocupações são abandonadas, como poderia parecer. É, sim, uma elegia, uma canção de lamento, uma canção de desespero, de tristeza, que não só se refere à falsa felicidade patente nestes locais, como também serve como forma de análise ao futuro sombrio que a Alemanha Nazi iria trazer ao mundo, um mundo onde personagens como Sally Bowles e o Mestre de Cerimónias deste cabaré não irão ser toleradas.

E a despedida é feita da mesma forma que fomos introduzidos em cena, pelas palavras melódicas do Mestre de Cerimónias, que de facto nos leva a concordar com ele, dizendo: «Where are your troubles now? Forgotten? I told you so. We have no troubles here. Here life is beautiful.» e despede-se dizendo, antes das cortinas caírem uma última vez: «Auf Wiedersehen, À bientôt».

NOTA:
A

"Cabaret" viria a vencer 8 Óscares na cerimónia de 1972, sendo o filme com maior número de troféus da noite. Venceu Melhor Actriz (Minnelli), Melhor Actor Secundário (Grey), Melhor Edição, Melhor Direcção Artística,  Melhor Som, Melhor Música, Melhor Fotografia e, tendo "The Godfather: Part I" vencido Melhor Filme, conseguiu ficar com o prémio de Melhor Realização (Fosse).

Ficha Técnica:

Realização: Bob Fosse
Elenco: Liza Minnelli, Joel Grey, Michael York, Helmut Griem, Marisa Berenson
Fotografia: Geoffrey Unsworth

Banda Sonora: Fred Ebb (musical "Cabaret") e John Kander
Argumento: Jay Allen



BLACK NARCISSUS (1947)

O grande cinéfilo Nathaniel Rogers, que mantém na Internet o blogue "Film Experience", tem vindo a desafiar os seus leitores (nos quais me conto obviamente - e se forem inteligentes, vocês também o serão) com uma nova rubrica chamada "Hit Me With Your Best Shot", que vai na sua terceira publicação (as duas primeiras eu falhei, "Angels in America" - tele-filme em duas partes da HBO que é dos meus filmes favoritos de todos os tempos - e bem gostava eu de ter visto a peça na Broadway ao vivo! - que eu vou redimir publicando para a semana uma crítica completa sobre os seis capítulos da obra-prima - e "Showgirls", filme que nunca vi, daí que não o possa discutir). A ideia base é simples: ele escolhe um filme e todos os que quiserem participar escolhem a imagem (ou imagens) do tal filme e ele faz um link a todos os posts dos participantes, a cada semana.

Esta semana calhou portanto falarmos de "BLACK NARCISSUS" (1947) (o post dele no seu blogue aqui) e eu sabia que não podia faltar de novo, até porque é dos melhores filmes daquela década e de qualquer década e no qual Deborah Kerr é magnífica.


Antes de mais, aconselho-vos a ver o filme primeiro, antes de discutirem comigo, pois é uma experiência incrível. De verdade. Pode não parecer uma grande história, mas acreditem que é. E se a minha recomendação não vos convencer, digo-vos agora: tem 100% no Rotten Tomatoes e tem 8.0 no IMDb. E deixo-vos ainda com o trailer abaixo:


Então vamos à parte que realmente interessa. Para a rubrica do "Film Experience" então eu não consegui só seleccionar uma imagem. Escolhi oito. A minha ideia inicial era de escolher sete, o número perfeito, porque "perfeito" é uma característica que cai bem ao filme, pois este possui talvez das fotografias mais perfeitas e das direcções artísticas mais cuidadas que eu já vi num filme pré-anos 90 (e claro que é fácil apontar uns vinte exemplos deste novo século que, diríamos, são superiores, mas o facto é que nos anos 40 apresentar tal poderio visual e tal habilidade de recriar toda uma atmosfera e background, só através de técnicos bastante capazes - e tão assim é que o filme teve duas nomeações para Óscar, precisamente nestas duas categorias, vencendo ambas).


Falemos do filme e das imagens. A premissa é simples: somos convidados a acompanhar um grupo de freiras que parte para os Himalaias, onde são ordenadas a erigir uma comunidade religiosa e a construir um convento, o Convento da Santa Fé. O que torna o filme interessante é mesmo a simplicidade da história, complicada mais tarde de formas curiosíssimas. Durante a sua permanência no local, as freiras vão ter que enfrentar não só a forte resistência dos habitantes locais, mas também vão ter que lidar com algumas situações incómodas dentro do seu próprio grupo. Esta primeira imagem, na qual nos apresentam o palácio que virará convento, é verdadeiramente icónica, fruto da sua omnipresença ao longo do filme (até à noite a fotografia é belíssima), pelo que não podia nunca de a deixar de colocar aqui.


O filme começa então por apresentar-nos a protagonista da história, a Irmã Clodagh (Sister Clodagh) - Deborah Kerr num dos seus primeiros e inesquecíveis papéis - a ser convocada pela sua superior, a Madre Dorothea (Mother Dorothea) e informada da sua missão e de quais as Irmãs freiras que partiriam consigo. A forma de apresentação das Irmãs é bastante original a nível visual, intercalando a descrição feita pela Madre com o aparecimento de cada uma das Irmãs, com cenas que retratem o que elas significam para a missão. Temos então: Irmã Briony (Sister Briony, "por causa da sua força"), Irmã Philippa (Sister Philippa, "por causa da jardinagem"), Irmã Blanche - apelidada carinhosamente de Irmã "Mel" (Sister Honey, precisamente "por causa da sua popularidade") e, por último, a Irmã Ruth (Sister Ruth). E aqui está a raiz, a fonte de sarilhos do filme. E podemos logo perceber isso pela forma como é apresentada, quer pela descrição, quer pela imagem que a retrata - um banco vazio:



"And Sister Ruth".
"But Sister Ruth is ill..."
"That is why I want her to go."
"[...] Do you think our vocation is her vocation?"
"Yes, she's a problem. I'm afraid she'll be a problem for you too. [...] Give her responsibilities. She badly wants importance."


Depois de introduzidos no filme, conhecemos logo à chegada das freiras a Mopu, nos Himalaias, que a reacção dos locais a elas não será nunca muito favorável. E percebemos também logo que a Irmã Ruth não é, de todo, flor que se cheire. Ela vai funcionar como a força motriz do filme, complicando-o de forma espectacular. Um bom momento que define impecavelmente a sua personalidade é a forma como reage no seu primeiro encontro com Mr. Dean, uma espécie de capataz, no qual ela se encontra cheia de sangue e obviamente envergonhada por se encontrar assim perante o primeiro homem atraente que a vê em muito tempo. E passamos nós a perceber por esta cena que o problema da Irmã, mais que uma crise de fé, é uma desesperada necessidade de voltar à vida normal.


Como o meu objectivo com isto é levar-nos a ver o filme, não me alongarei muito mais na história, só dizer mesmo que quando o Convento começava a ganhar forma e a cooperação com os habitantes da aldeia estava finalmente a frutificar, tudo muda inesperadamente com um acontecimento que leva  o caos a instalar-se, com os locais a recusarem-se a frequentar o Convento e a exigir o abandono da terra por parte da Missão. Em simultâneo, a Irmã Ruth começa a perder o controlo emocional e mental, o que acarreta mais problemas e mais preocupações para a Irmã Clodagh, que se vê numa situação insustentável.


O clímax final do filme acentua ainda mais a minha opinião favorável acerca de toda a obra, com este duelo inesperado (mas não imprevisível, pois dava para perceber que Ruth iria eventualmente fazer algo maluco) a duas, qual das duas a mais perdida na imensidão dos seus pensamentos, qual das duas a mais afastada da sua causa, da sua fé.


Um filme irrepreensivelmente filmado, com elevada qualidade de fotografia, genial na forma como emprega o simbolismo e o iconicismo (algumas imagens surgem como que omnipresentes em vários momentos no filme, como a abertura das portas, como o sino no precipício, como os jardins floridos, entre outros) e como consegue recriar, negativo a negativo, cena a cena, tanto detalhe e tanta coisa para ver e saborear; uma história que mescla a histeria, a tensão sexual, a crise de fé e de identidade e nos presenteia com uma Índia diferente, exótica, bizarra, sensual, perigosa que, apesar de muito simplista, é bastante eficaz, crua, directa; e uma direcção artística de excelência, balanceando o opulente (algumas das salas do palácio) com o sombrio e o frio (a capela é um bom exemplo disso), fazem deste filme um deleite de ver. 


A realçar ainda as boas interpretações de todo o elenco, com especial foco em Kathleen Byron (a sua Ruth ainda me assombra dois dias depois de ver o filme) e em Deborah Kerr. Uma actriz extraordinária, com uma expressividade facial raríssima nos dias de hoje, que o realizador Michael Powell aproveita - e bem - nos frequentes close-ups que pede a Cardiff. Neles, Kerr mostra choque, surpresa, receio e zanga, tudo na mesma expressão, na mesma face. Parece que a sua cara conta mil histórias e nos fornece tudo o que precisamos de saber sobre a pessoa, sobre o seu mundo, sobre o que se passa na sua mente. Formidável.

Uma obra-prima digna de todos os elogios recebidos que eu gostei imenso. E se Kerr já me tinha enchido o olho nos (poucos) filmes que vi dela, neste ela fascinou-me de vez.

E agora... A minha escolha para THE BEST SHOT / A MELHOR IMAGEM:


NOTA:
A-

Abaixo deixo o texto publicado acima mas em Inglês e reduzido, pois como eu já disse esta crítica vem no seguimento de uma rubrica num blogue que fala Inglês e, como tal, eu tenho que traduzir para quem a decida ler.


For my first participation on the hit "Film Experience" series, I haven't managed to select only one image. I tried but I failed. So I went with eight. My initial idea was to pick seven, because 7 is the number of perfection and "perfection" is an attribute that suits the film very well, since it has one of the most accomplished combinations of  excellent photography, art direction and score that I've seen in films prior to the 90s (of course it's easy to bring up immediately 20 examples from this past decade that we'd consider superior and that may be right, but we have to think that it's amazing that this quality work has been made in the late 1940s). Such visual lush and power was obviously worthy of reward and the Academy did gave them 2 Oscars, for Photography and Art Direction.  
Now let's discuss the film. Its premise is quite simple actually: we are invited to accompany a group of nuns that leaves for the Himalayas, where they are told to build a religious community by turning an old palace into a convent, the Saint Faith Convent. What makes the film so interesting to follow is in fact the simplicity of the story, further complicated in beautiful and curious ways. It is rather evident from early on that this mission wouldn't work out well, with the nuns having to face not only local resistance but also problematic situations among their group.
The movie first introduces us to Deborah Kerr's character, Sister Clodagh, who is ordered by her superior, Mother Dorothea (who clearly dislikes Clodagh and considers her unsuited for the job), to leave for Mopu in the Himalayas and erect a Convent there. Then the film uses her to introduce us to the other nuns that are going to accompany Sister Clodagh on her mission, in an original, refreshing way, by showing a scene involving them that fit the description that the Mother Superior offers of them: Sister Briony ("her strenght" - and she is shown holding a heavy jar), Sister Philippa ("the garden" - she appears to be analising a tomato), Sister Blanche (nicknamed Sister Honey because of "her popularity" which she indeed seems to be, surrounded by a big group of nuns giggling) and Sister Ruth. Sister Ruth's "illness" is very omnipresent throughout her remaining scenes in the movie, making perfect sense that she'd be so intelligently portrayed in this introduction scene, where an empty bench is shown, followed by a lovely exchange of dialogue ("Do you think our vocation is her vocation?";"Yes, she's a problem. I'm afraid she'll be a problem to you too";"She badly wants importance"), making us aware of the trouble she can bring to Sister Clodagh's assignment.
The movie then carries on and lets us perceive exactly the kind of personality of each nun, focusing especially on Sister Ruth. A great moment that impeccably defines her personality is the way she reacts on her first encounter with Mr. Dean, utterly embarrassed not only because she is covered with blood, but also by the fact that she's quite charmed by him (of course it helps that he may be the first man she sees in a long time). This helps us understand that this woman's problem, more than her obvious loss of faith and lack of commitment to her vows, is a desperate need to go back to a normal life. 
Since I want you to see the movie for yourselves, I'm not going to expand my tell on the story. I'm just going to say that as the movie continues, we begin to experience a bit of a twist in the peaceful relationship between the locals and the nuns, which gets messy because of a misfortunate event, one that will eventually cause the departure of the nuns. Moreover, Sister Ruth loses more and more of her grip, showing progressive loss of emotional and mental control, all this eventually leading to an unbearable situation for Sister Clodagh. The film ends with a sour note after an extraordinary final climax: an unplanned (yet predictable) duel between the two nuns, which made me realise what a fantastic build-up to this moment the movie was: two opposites, but both with their endless, melancholic thoughts, both yearning to go back in time to their pasts, to their regular lives, both lacking faith.


A film irreprehensibly, beautifully shot, on the hands of a brilliant photograph and art director, applying here a delicate fusion of the shadow, the dark and the opulent, resorting to the symbolism and iconicism of some amazing images (omnipresent throughout the film, like the doors opening, the bell in the cliff, the flowery gardens, the cold, crude look of the church, among other examples) and offering us so much to explore, to experience, to savour. A simple story, very well constructed, that mixes sexual tension and lust, hysteria and a faith and identity crisis, while introducing us to an exotic, bizarre, sensual, dangerous India. And very good performances from all the cast, especially Kathleen Byron and my new love Deborah Kerr, which embodies in perfection a breed of actresses that rarely exists nowadays: a complete performer, with a fantastic arsenal of facial expressions - when Powell closes up on her, she tells us everything we need to know about her character and her world through her face: it's shock, it's surprise, it's anger, it's fear, all in the same expression. Genius. Formidable.


All in all, this film was a delightful experience worth every minute of my time.

TOY STORY 3 (2010)

«O nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade» - C. Chaplin

Se a frase de Chaplin é, por si só, verdadeira, sê-lo-á muito mais quando falamos dos argumentistas e realizadores da Pixar. Que grupo de homens de expecional talento e de ainda mais extraordinário sentido de contar histórias. E histórias que não são só para crianças, que abordam assuntos do quotidiano, problemas da vida adulta.


E quando eu pensava que "Up!" tinha encerrado um ciclo fabuloso de grandes filmes em sucessão ("Ratatouille" em 2007, "Wall-E" em 2008 e "Up!" em 2009 - que ainda por cima não foi o primeiro destes ciclos para Pixar, que já tinha tido um semelhante anteriormente - "Monsters, Inc." em 2001, "Finding Nemo" em 2003 e "The Incredibles" em 2004 - e que teria chegado imaculado até aos dias de hoje não fosse o fracasso de "Cars" em 2006), eis que a Pixar saca do chapéu mais uma obra-prima, surpreendendo-me principalmente porque não achava possível dar novo ar a uma franchise cuja história me parecia, até ver, satisfatoriamente encerrada. Contudo, é óbvio que John Lasseter e a Pixar a ela voltariam, uma última vez.



Como muitos, já tinha dado como certo que "Inception" seria o recipiente do título de Melhor Argumento Original do ano. Depois de ver este "Toy Story 3", acho que vai ser uma luta renhida. Além da brilhante (e já característica) forma de revelar o enredo da história, muito simplificada, sem grandes reviravoltas, sem criar grandes tensões no desenvolvimento das personagens, com uma reduzidíssima quantidade de diálogo e bastante acção. As cenas mais interessantes do filme processam-se de facto a grande velocidade e sem recorrer a muito diálogo, residindo a sua essência nas expressões das personagens e no grande trunfo que a saga Toy Story tem sabido manter e aproveitar: a nossa familiaridade com as personagens. Personagens que conhecemos há década e meia atrás, personagens que abandonámos há onze anos, mas que, não sei como (sem dúvida um dos trunfos deste argumento) nos parecem tão frescas e tão vivas como em 1999, mas rejuvenescidos, amadurecidos, evoluídos. O que é impressionante. Mesmo a apresentação de novas personagens parece-nos tão natural e tão desafiante que não admira o sucesso que o estúdio de facto tem. É que tudo parece tão fácil e tão simples num filme deles. E depois claro, todas as personagens foram alvo de uma caracterização na mouche, conferindo-lhes uma personalidade que poucos julgariam identificar-se com o aspecto exterior (veja-se o exemplo do Ken) e uma originalidade que só pode ter a marca Pixar.


E para este filme a Pixar guardou o que melhor aprendeu a fazer com as experiências passadas de "Wall-E", "Ratatouille" e "Up!" - vários verdadeiros "socos no estômago", momentos dramáticos que nos reviram as entranhas e nos fazem sentir o pior dentro de cada um de nós. Começamos por encarar a dura realidade: Andy tem que abandonar os seus brinquedos. Quem nesse momento não começou a pensar nos seus antigos brinquedos e onde os tem arrumados e não se sentiu mal por os ter esquecido. Depois, o que fazer com eles: mais cenas enternecedoras - e ver a união que se criou, perante os nossos olhos, entre aqueles brinquedos, é desconcertante. Andy escolhe o sótão em vez do lixo, mas num acaso do destino (como não podia deixar de ser, obviamente), os brinquedos acabam todos numa creche. Sunnyside aparenta ser o paraíso e todos os brinquedos, excluindo o sempre desconfiado (mas bem intencionado) Woody, se sentem maravilhados com tudo o que vêem.  Depois de sermos introduzidos às novas personagens, novo soco no estômago: elas não são tão boazinhas como parecem e os nossos brinquedos sofrem cruelmente nas mãos das crianças mais novas (enquanto os outros brinquedos novos a que fomos apresentados se divertem na outra sala, a das crianças da pré-escola, mais velhas. Woody consegue fugir mas, como seria (de novo) de esperar, parte em auxílio dos seus companheiros. Após uma incrível cena de fuga, o impensável acontece (e novo momento fulcral no filme, de uma intensidade dramática incrível - de vir lágrimas aos olhos): os nossos brinquedos vão ter um fim antecipado num aterro sanitário. 


O que se seguiu foi... indescritível (é inacreditável como a saga Toy Story mexe tanto com as nossas emoções, explorando um ponto que nos é a todos comum, que é do mais inerente do nosso ser: a compaixão por aqueles brinquedos, pois todos os tivemos e, de uma forma ou outra, os fomos abandonando). Os brinquedos safam-se e terminam assim a sua jornada, num lugar onde finalmente se sentem pertenças de alguém, de novo. E eu, que não era um apaixonado pela saga, fiquei irremediavelmente perdido de amores. E saí do cinema numa sensação de extasia e alegria tal que jurei chegar a casa e também eu pegar de novo, uma última vez, nos meus antigos brinquedos. E assim fiz. Este rol de cenas, bastante provocador e, claro, manipulativo, serve como uma espécie de janela ao nosso passado, isto é, permite-nos ver o nosso passado, as nossas memórias de infância, com olhos de adulto (claro que só será assim para quem foi crescendo acompanhando os filmes Toy Story, como é o meu caso). E isso é algo deste filme que eu vou guardar para sempre com carinho.


E, por muito difícil que tenha sido para Andy abandonar estes seus brinquedos (tendo-nos presenteado com uma introdução, nas suas palavras, a cada um deles), não nos será menos a nós. Quinze anos volvidos, a história de brinquedos mais famosa de sempre chega a um fim. E nós... temos que  nos sentir simplesmente honrados por termos sido escolhidos para vivenciar tão grande aventura.

Nota: A-

Certamente quem viu o filme vai perceber a piada deste vídeo:

INCEPTION (2010)



Peço desculpa pelo LONGO comprimento do artigo mas acabei por juntar a Antevisão e a Crítica e deu nisto. Não volta a suceder.


Foi há dez anos (em Outubro de 2000) que um até então desconhecido realizador chamado Christopher Nolan estreou o seu segundo filme, chamado "Memento". Nunca adivinharia ele que esse viria a ser o filme que lhe daria a hipótese de voos mais altos, mas foi. O filme ganhou a admiração dos críticos e do público, conseguiu-lhe a nomeação para Melhor Argumento Original nos Óscares e terá estado muito próximo de ser nomeado para Melhor Filme e Melhor Realizador. Um filme de pequena dimensão, com algumas mas poucas ambições, sobre um homem com perda de memória a curto-prazo, protagonizado por um Guy Pearce em claro declínio de carreira. Foi, ainda, por volta dessa altura que começou a escrever o argumento para este seu novo filme, "Inception".


Entretanto, teve que se entregar a novos projectos, mantendo-se contudo sempre dentro do mesmo género, o thriller. Optou por se dedicar ao remake do filme nórdico de 1997 "Insomnia", conseguindo ultrapassar alguns dos pontos fracos que o seu antecessor possuía e alcançando boas prestações por parte de Al Pacino e Robin Williams. Seguiu-se a recuperação, milagrosa diriam alguns, da franchise de super-heróis mais querida de sempre, com "Batman Begins" em 2005, um filme extraordinário e que veio, em certa medida, complementar a virada no estilo de filmes de super-herói que já tinha começado com Sam Raimi e o seu Spider-Man, novamente pegando num actor mal usado, Christian Bale e conseguindo uma interpretação fenomenal e provando que, com o material e a direcção adequados, os blockbusters podem ter qualidade e agradarem ao público. Entre o primeiro e o segundo Batman ele escolheu "The Prestige" para realizar, um filme sobre a rivalidade entre dois mágicos em que Nolan usa em seu detrimento a ilusão sem nunca nos menosprezar enquanto audiência. Depois eis que chega "The Dark Knight", a sequela ao seu "Batman Begins". Desde a escolha perfeita para vilão (uma que muitos questionaram veementemente - Heath Ledger como The Joker, uma das melhores interpretações de sempre), passando por um argumento impenetrável do seu irmão Jonathan e de David S. Goyer, pela impressionante fotografia de Wally Pfister (que devia ter ganho um Óscar com todo o mérito), pelo belo elenco que ele conseguiu juntar (a troca, mesmo que forçada, de Katie Holmes por Maggie Gylenhaal fez uma diferença colossal e a adição de Aaron Eckhart e Heath Ledger a um elenco que já continha os nomes de Bale, Caine, Oldman e Freeman só trouxe ainda mais qualidade) e chegando até à genial banda sonora de Zimmer e Newton Howard, excluída pela Academia (no que raio estavam a pensar?) mas agraciada com um Grammy, o filme foi um sucesso enorme, com largos elogios tanto da crítica como do público. Conseguiu 8 nomeações para Óscar (venceu 2), mas não conseguiu as que mais merecia (Melhor Argumento Adaptado, Melhor Banda Sonora, Melhor Filme e Melhor Realizador). A terceira parte da saga já está marcada para continuar em 2012.

Eis que chegamos pois a 2010 e a este seu novo filme... "INCEPTION".



Um argumento que levou dez anos a escrever, um filme que inicialmente se pensava ser uma espécie de filme de reserva, para ocupar tempo antes de se voltar a entregar ao "seu" Batman, uma história que foi mantida em sigilo absoluto até ao dia da estreia e mesmo assim um filme que mesmo que se fôssemos contar a alguém o final da história, eles continuariam a não perceber nada. É assim este "Inception". São duas horas e meia do mais alucinante que há, com um enredo multifacetado e repleto de camadas de complexidade, ao qual devemos dedicar a nossa máxima atenção e concentração com pena de perdermos o fio à meada.



Não se pense, contudo, que é um corte com o que ele tinha vindo a fazer. Não. Chris Nolan mantém-se no seu género predilecto, o thriller, só que decide criar um subgénero dentro do seu próprio género - segundo a sua definição, este filme relata, muito simplesmente, um crime, um assalto, que decorre na arquitectura da mente, do sonho. Não podia ter caracterizado melhor. Não é bem ficção científica mas é quase. É talvez o filme dele que mais penetra nesse género. E é também talvez o filme dele mais incompreendido de todos.



Em "Inception", conseguimos vislumbrar partes dos seus filmes anteriores, desde a grandiosidade dedicada às cenas de acção de "The Dark Knight" até o fascínio com a mente e a ilusão de "Memento" e "The Prestige". Além do mais, "Inception" mantém-se dentro das duas premissas principais dos seus antecessores: Nolan adora fazer filmes sobre anti-heróis, homens desesperados, derrotados pela vida e sobre os momentos que os levam ao extremo (aqui, mais uma vez, não é excepção, pois é a morte de Mal, a mulher de Cobb, que o corrói por dentro), sobre o renascimento dos indivíduos (Bruce Wayne vira Batman, Harvey Dent vira Two-Face, Leonard de Memento renasce a cada alguns minutos, os dois protagonistas de Prestige, Alfred e Robert, também se debruçam sobre o renascimento contínuo e o renascimento é o tema principal de "Inception", pois na mente é tudo possível, como uma personagem do filme bem colocou, "It's just... pure creation") e sobre a dualidade dos homens, isto é, as personagens nos seus filmes são sempre reflexos umas das outras (como o Batman e os seus rivais - Two-Face e Rhas Al Ghoul são antíteses de Batman no sentido em que representam o que Bruce Wayne seria se decidisse optar pelo mal em vez do bem; The Joker é também um oposto a Batman na essência em que enquanto o primeiro é maléfico mas não tem qualquer plano ou agenda ou regra, o segundo defende a prevalência do bem mas é pautado por regras e planificações) - aqui em "Inception", o Cobb é atormentado pela sua própria projecção da sua mulher Mal, que funciona como a sua antítese, o seu oposto, o seu rival, digamos.


O enredo do filme envolve assim, uma equipa de ladrões de sonhos, contratados por grandes empresas, que penetram nas mentes das pessoas e roubam as suas ideias. Uma equipa tão invulgar quanto esta necessita de vários membros talentosos e especialistas no que fazem: temos então Cobb (DiCaprio), que é "The Extractor", quem rouba a ideia; Arthur (Gordon-Levitt), bastante bem descrito por Eames como sem imaginação, oco, que é o "The Point Man", responsável pela logística e braço-direito de Cobb; Ariadne (Page), que é "The Architect", o criador do mundo do sonho (será coincidência esta personagem ter o nome de Ariadne, que é a mulher na mitologia grega que ajudou Teseus a fugir do labirinto do Minotauro?); Eames (Hardy), "The Forger", capaz de se transformar no sonho por razões puramente estratégicas; e finalmente Yussuf (Rao), "The Chemist", que é quem produz o sedativo para os pôr a dormir. Além destes nomes, o elenco inclui ainda o Michael Caine, num papel pequeno, de mero conselheiro; Cillian Murphy é Robert Fischer, o alvo ("The Mark") da equipa, numa interpretação bastante interessante; Marion Cotillard, que é Mal, a falecida mulher de Cobb ("The Shade") e que vai surgindo durante a missão como projecção da mente de Cobb, de longe a personagem que mais me chamou a atenção no filme; e Ken Watanabe, que é Saito, o cliente ("The Tourist"). Esta equipa parte para um último trabalho, o trabalho que iria redimir o foragido Cobb e permitir-lhe juntar-se à sua família. Este último trabalho, no entanto, é diferente de todos os outros, pois o que lhes é pedido é a implantação (daí "inception" - mais um título horrivelmente traduzido para português) de uma ideia e não a extracção, que é a sua especialidade.



O filme é incrivelmente complexo a início de perceber (a primeira meia-hora é de alguma confusão) mas felizmente com um pouco de concentração e com a entrada de Ariadne em cena (e com a reunião da equipa) tudo fica mais facilitado, pois Nolan usa-a para nos introduzir ao mundo dele - ela funciona como a voz do público, sendo através do seu treino por Cobb e Arthur e pelo seu diálogo com os restantes membros da equipa que ficamos a perceber como funciona a actividade deles e como é que eles conseguem operar dentro do sonho. Além do mais, o filme é exuberante o suficiente para nos manter fascinados com o que se está a passar, portanto concentração não deverá ser um problema.

É-nos (e a Ariadne) então depois explicado que os sonhos têm vários níveis, com sonhos dentro de sonhos e por aí em diante, cada vez mais complexos (introduzindo aqui uma interessante perspectiva da flexibilidade do tempo, com 5 minutos a durar 1 hora de sonho no nível um, 1 dia de sonho no nível dois e 1 semana no nível três - as cenas com os três níveis de sonho em intersecção são bestiais) e que dentro do mundo dos sonhos existem projecções do subconsciente que funcionam como os anticorpos no sistema imunitário, atacando os invasores se detectados.



O principal ponto forte de "Inception" é fugir ao que poderia ser uma armadilha fácil, focar-se mais na acção do que nas personagens, mas a verdade é que Nolan, qual mestre que é, prefere dar atenção às caracterizações (pouco detalhadas, é verdade) das suas personagens (há que dizer aqui, contudo, que há algumas personagens bem menos trabalhadas que outras) e prefere trazer-nos para o mundo dentro do cérebro delas do que no sonho do alvo da equipa. Assim, percebemos como cada um reage às situações e entendemos porquê. Simpatizamos com o sofrimento de DiCaprio e as constantes perturbações que o assomam. Entre outras coisas. A acção serve meramente para dar lugar às interacções entre as pessoas, que é afinal o propósito deste filme, funcionando como labirinto onde cada uma das personagens se perde nos seus demónios e nas suas qualidades. 


As três interpretações mais fortes do filme, além da de DiCaprio (se bem que já chega de personagens traumatizados pelas mulheres psicologicamente perturbadas, sim?), são a de Marion Cotillard (que eu amo indefinidamente a partir de agora) como Mal, a esposa, capaz de provocar tanta intriga e comoção a partir de duas-três cenas (e mesmo enquanto ela não está no ecrã, é quase omnipresente, sempre como a sombra, como o demónio, como a cruz que Cobb tem de suportar), a de Joseph Gordon-Levitt, que teve a sorte (ou não) de participar na melhor cena de acção do filme, a gravidade zero, e a de Tom Hardy, que vai dando um ar humorístico e irónico no que seria pelo contrário um filme extremamente pesado. Finalmente, há que dizer coisas boas também de Ellen Page, muito diferente do habitual aqui mas com a mesma graça de sempre, e de Cilian Murphy, que consegue ser bastante expressivo em poucos momentos e com pouquíssimo diálogo.


All in all, o filme consegue manter-nos on the edge of our seat durante as duas horas e meia, é de uma beleza e riqueza visual (e auditiva) como poucos há, aguentando sempre o ritmo e a dinâmica da acção muito elevado, contribuindo muito para isso a fortíssima banda sonora de Hans Zimmer (do melhor que ele já fez - será que me cheira a Óscar #2?) e a soberba fotografia de Wally Pfister (Óscar, anyone?) - a sequência final do filme é de uma tremenda qualidade, mexendo imenso comigo a nível emocional, enquanto a acção decorria a um ritmo alucinante.



Gosto particularmente deste pormenor para o qual me chamaram à atenção na banda sonora. De génio, realmente.


Fazer um filme que altere a linearidade do tempo e do espaço e que consiga explorar tão bem a dicotomia fina entre a percepção e a realidade, entre o que é o sonho e o que é verdadeiro, expondo as nossas concepções e noções de realidade e imaginação a paradoxos, brincando com a ilusão da mente humana e a natureza insidiosa das ideias (como muito bem disse Pete Hammond na sua crítica na Variety), não é para todos. Fazer da mente, do sonho, um puzzle metafísico, metafórico, não é para todos. Nolan conseguiu-o. Terminando quase como comecei... "It's just... pure creation". A ideia mais original de sempre? Talvez.


Nota: A-



DOGVILLE (2003) - Crítica Dupla



por Jorge Rodrigues



Depois de ONDAS DE PAIXÃO (1996) e DANCER IN THE DARK (2000), eis que o génio de Lars von Trier surge em alta mais uma vez em DOGVILLE. Ancorado por mais uma magnífica interpretação de Nicole Kidman na sua fase mais áurea — tendo mesmo viajado para a Dinamarca no dia seguinte a receber o Óscar — DOGVILLE rouba inspiração a Brecht e a Wilder para criar uma fábula contra a americanização e, mais que isso, uma alegoria interessante sobre a crueldade e egoísmo da condição humana.

Von Trier reinvigora as suas temáticas habituais de opressão e realismo com uma radical abordagem à história, inventando um cenário despido, com as paredes das casas da pequena aldeia onde a narrativa decorre simplesmente desenhadas a giz. Este efeito de alienação, foi amplamente discutido e aplicado por Brecht no seu teatro por obrigar o espectador a focar-se nos temas e ideias em discussão ao invés dos cenários ou do ambiente. A crítica está lá, como sempre, acutilante, agressiva e ousada, bem ao estilo do provocateur dinamarquês. John Hurt, que narra o conto, apresenta-nos Grace (Kidman) que ao fugir das autoridades dá de caras com a pequena aldeia de Dogville, nas Rocky Mountains, nos anos 30. Quando os cidadãos da isolada e retrógada pequena comunidade não a recebem da forma mais calorosa, Tom (Bettany), filósofo e filho do médico da aldeia, vê-se obrigado a interceder por ela, pedindo que lhe seja dado abrigo e uma oportunidade. Grace, buscando ardentemente a aprovação dos seus pares, sujeita-se ao seu escárnio, discriminação e escravidão, ganhando esforçadamente o afecto e admiração de todos ao longo do tempo perdendo a sua identidade e personalidade até se tornar definitivamente um deles. Mal sabia ela que quando dados do seu passado se revelassem a tortura e opressão aumentaria e aquela pequena e dócil comunidade revelaria a sua real personalidade. Desde o mais mesquinho ao idealista Tom, cada um assume as suas cores verdadeiras e todos, da sua forma, condescendem e maltratam Grace.

DOGVILLE nem sempre consegue executar as ideias e ambições a que von Trier se propõe. Nem sempre o seu conceito resulta na prática e partes do filme parecem esforçar-se para encaixar e muito depende da capacidade que o espectador tenha para analisar criticamente e absorver o que está a ser exposto em ecrã. Não deixa nunca de ser uma obra viva, elegante, experimental e incrivelmente original. A exposição do dinamarquês sobre a injustiça que reina na sociedade contemporânea, violenta, desumana, fechada e antipática, em que muitas vezes julgamos os outros pela sua aparência e não damos oportunidade a quem é diferente de nós, é pertinente, actual e justificada. O seu voraz apetite para introduzir missivas contra os americanos, apesar de desnecessário, não retira valor ao resultado final do filme. Desafiador e profundo, DOGVILLE deve ser comemorado, porque além de uma obra-prima singular, de cunho indelével do cineasta dinamarquês, procura algo mais: fazer o espectador pensar criticamente, para variar.




por João Samuel Neves


"This is the sad tale of the township of Dogville. Dogville was in the Rocky Mountains in the US of A, up here where the road came to its definitive end, near the entrance to the old abandoned silver mine. The residents of Dogville were good honest folks, and they liked their township. And while a sentimental soul from the East Coast had once dubbed their main street Elm Street, though no elm had ever cast its shadow in Dogville, they saw no reason to change anything. Most of the buildings were pretty wretched, more like shacks, frankly. The house in which Tom lived was the best, though, and in good times, might almost have passed for presentable. That afternoon, the radio was playing softly, for in his dotage, Thomas Edison senior had developed a weakness for music of the lighter kind."


Assim começa Dogville, ao som da voz de um Narrador que nos acompanha por todo o filme, servimdo de elo de ligação entre os vários momentos e as várias fases que este filme atravessa.

Após um Prólogo de introdução e apresentação da pequena aldeia de Dogville, a acção (leia-se, a chegada de uma estranha e misterosa mulher, Grace) inicia o primeiro de nove capítulos, nos quais a história se vai desenvolver.




Marcado pelo seu característico cenário (digno do seu realizador, Lars von Trier), o filme é todo ele criado à volta das relações inter-pessoais que se estabelecem entre Grace e os restantes membros da aldeia. De entre estes sobressai Tom, filho de um médico na reforma, aspirante (falhado) a escritor e rapaz que se julga dotado de um dom superior que lhe alimenta ideias infelizes e projectos falhados. Entre estes, está a integração de Grace na comunidade. Fico-me por aqui em relação a Dogville, esperando ter criado algum interesse neste fantástico filme sobre aquilo que é o ser humano e sobre as consequências que a falta de valores, a inveja ou a gula, acabam por ter, não só em quem pratica como também em quem os rodeia.

Na minha opinião, 10/10 (A). Um óptimo argumento e realização levados a cabo por Lars Von Trier (A) e uma óptima interpretação não só de Nicole Kidman (A) como também de Paul Bettany (B) e de Stellan Skarsgård (B).


Frase
: "There's a family with kids. Do the kids and make the mother watch. Tell her you'll stop if she can hold back her tears. I *owe* her that."


Trailer:


Informações Adicionais:
Direcção: Lars Von Trier
Argumento: Lars Von Trier
Produção: Vibeke Windelov
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Desenho de Produção: Peter Grant
Tempo de Duração: 177 minutos
Ano de Lançamento (França): 2003