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DIAL P FOR POPCORN

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Maratona Meryl Streep: Óscares 1979 e 1980

Este artigo faz parte da nossa semana temporada especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.



Como parte da Maratona Meryl Streep, também vamos abordar as corridas aos Óscares. Uma vez que já encerramos os anos 70 (nem comento o quão atrasada está esta maratona... mas enfim, continuemos), vamos discutir as duas primeiras nomeações de Meryl Streep aos Óscares - mal sabia ela, por esta altura, que um dia viria a ser a recordista do número total de nomeações.



1978


Em 1978, Meryl Streep começou a sua colecção de prémios com um Emmy. Sim, um Emmy, que lhe foi atribuído pela sua nomeação como Melhor Actriz em Mini-Série pela mini-série "Holocaust", da NBC.

A actriz conseguiu uma dupla nomeação nos BAFTA (os BAFTA são os prémios da Academia Britânica - British Academy Film and Television Awards): Melhor Actriz por "The Deer Hunter" e Melhor Actriz Secundária por "Manhattan". Na primeira categoria perderia (merecidamente) para Jane Fonda ("The China Syndrome") e na segunda perderia para Rachel Roberts ("Yanks"), numa daquelas típicas jogadas da Academia Britânica em apoiar talento inglês.

Meryl ganharia alguns prémios de críticos, entre eles o prémio de Melhor Actriz Secundária do NSFCA (National Society of Film Critics Awards), um dos primeiros grandes precursores dos Óscares, por "The Deer Hunter" e "Manhattan".

Mais tarde vieram os Globos de Ouro que se decidiram por Dyan Cannon ("Heaven Can Wait") para Melhor Actriz Secundária, a categoria na qual Meryl Streep estava nomeada. Jane Fonda ganharia Melhor Actriz - Drama por "Coming Home" e Maggie Smith, empatada com Ellen Burstyn ("Same Time, Next Year"), venceria Melhor Actriz - Comédia por "California Suite". 

A corrida começava a ganhar contornos por esta altura, com Jane Fonda a ser uma das grandes candidatas a Melhor Actriz, fosse por "Coming Home" (que eventualmente lhe deu a vitória) ou por "The China Syndrome" e com Maggie Smith a revelar grande pedigree por "California Suite" (por entre as várias nomeações como Actriz ou como Actriz Secundária, os Óscares decidiram dar-lhe a estatueta pela segunda categoria - correctamente, devo dizer). As senhoras de "Manhattan" (que só viria a estrear em 1979 nos Estados Unidos mas era elegível para os BAFTA) conseguiram três nomeações nos BAFTA mas para os restantes prémios teriam que vir a esperar mais um ano e por isso as outras candidatas na corrida para Melhor Actriz eram: Ellen Burstyn ("Same Time, Next Year"), Ingrid Bergman ("Autumn Sonata"), Jill Claybourgh ("An Unmarried Woman"), Glenda Jackson ("Stevie") e Geraldine Page ("Interiors"), Jacqueline Bisset ("Who's Been Killing The Great Chefs in Europe?"), Olivia Newton-John (contava com o voto popular pelo sucesso "Grease") e Goldie Hawn ("Foul Play"). Os Óscares conservariam quatro das cinco nomeadas para Melhor Actriz - Drama nos Globos mais Ellen Burstyn (que ocupava então o lugar de Glenda Jackson).

E para Melhor Actriz Secundária, além de Streep, Cannon e de Smith, tínhamos Maureen Stapleton ("Interiors"), Carol Burnett ("A Wedding"), Mona Washbourne ("Stevie) e Stockard Channing ("Grease"). Os Óscares ver-se-iam livres de Burnett e Washbourne (nomeadas para os Globos de Ouro com Streep e Cannon) para dar lugar a Smith e a Penelope Milford ("Coming Home") - uma nomeação que veio do nada, fruto do grande amor da Academia pelo filme, que viria a vencer os dois Óscares de Actor e Actriz.

Na noite dos Óscares, então, tivemos:



Dyan Cannon, Heaven Can Wait
Penelope Milford, Coming Home
Maggie Smith, California Suite
Maureen Stapleton, Interiors
Meryl Streep, The Deer Hunter




Nesse ano, ganhou a maior estrela do conjunto: Maggie Smith já vinha construindo um palmarés impressionante de grandes interpretações (e já tinha vencido antes, por "The Prime of Miss Jean Brodie") e tinha grande buzz, fruto da vitória nos Globos de Ouro. Além disso, foi sempre nomeada em todos os precursores, tenha sido quer em Melhor Actriz como em Melhor Actriz Secundária. Deste grupo, vi quatro das cinco interpretações - a de Meryl Streep, a de Penelope Milford, a de Maggie Smith e a de Maureen Stapleton - e tenho a dizer que provavelmente daria o prémio a Maggie Smith também. Com esta primeira derrota, Meryl Streep tornou-se na predilecta para ganhar um Óscar logo que a oportunidade surgisse. E esta não tardou muito.


1979


O ano de 1979 foi bastante diferente para Meryl Streep. Venceu o prémio de Melhor Actriz Secundária do NBR (National Board of Review) pela tripla de interpretações em "Manhattan", em "The Seduction of Joe Tynan" e em "Kramer vs. Kramer". Pelas mesmas interpretações ganhou (novamente) o prémio de Melhor Actriz Secundária nos NSFCA e venceu o Globo de Ouro nesta mesma categoria. Juntou-lhes vários prémios de grupos de críticos importantes, entre eles o de Los Angeles (LAFCC Awards) e o de Nova Iorque (NYFCC Awards).

Nos Óscares seria nomeada com duas das suas quatro companheiras dos Globos de Ouro (Candice Bergen, "Starting Over" e Jane Alexander, "Kramer vs. Kramer") tendo Kathleen Beller ("Promises in the Dark") e Valerie Harper ("Chapter Two") sido preteridas pela Academia a favor de Mariel Hemingway ("Manhattan") e Barbara Barrie ("Breaking Away"). Além destas, a corrida via Jessica Lange e Ann Renking ("All That Jazz"), Shirley MacLaine ("Being There") e Doris Roberts ("The Rose") desvanecer por entre os precursores e poucas hipóteses tinham todas as outras quando comparadas com o buzz que tinha Meryl Streep (significado: vitória asseguradíssima).

Na cerimónia dos Óscares de 1979, tínhamos então estas nomeadas:



Jane Alexander, Kramer vs. Kramer
Barbara Barrie, Breaking Away
Candice Bergen, Starting Over
Mariel Hemingway, Manhattan
Meryl Streep, Kramer vs. Kramer


O resultado: Meryl Streep ganhou, como é óbvio. Incontestavelmente.


(vídeo cortesia de YouTube e do canal Oscars, propriedade da AMPAS)



E vocês? Que acham das corridas aos Óscares desses anos?

Maratona Meryl Streep: THE DEER HUNTER (1978)

Este artigo faz parte da nossa semana especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.



THE DEER HUNTER (Cimino, 1978)



"A deer's gotta be taken with one shot."


"The Deer Hunter" é um daqueles raros filmes de guerra que consegue ser livre de moral, livre de politicismos, livre de ideologias.  Não é um filme anti-guerra, não é um filme pró-guerra; é, na realidade, um relato excruciante, violento, pesaroso e bastante real dos efeitos que a guerra tem nas pessoas, tanto nos que vivem a guerra como nos que os rodeiam quando - e se - estes voltam à vida que abandonaram quando partiram para zona de combate. É um filme sobre pessoas: sobre um grupo de amigos, os três muito jovens, que partem para a guerra; sobre casamentos e funerais como partes normais da vida e do tempo de guerra; sobre indivíduos cujas vidas ficam drasticamente modificadas pela guerra.

É um filme emocionalmente desgastante, que nos tortura até ao fim com o sofrimento exterior e, mais tarde, interior dos seus personagens, imersos nas suas feridas internas, imersos nos seus problemas, incapazes de voltar a uma vida normal.

O filme começa por nos mostrar o dia-a-dia de uma pequena cidade na Pennsylvania, focando a nossa atenção no quão rotineiro e vulgar é a vida da gente desta cidade, tão mal habituada a que coisas de grande dimensão lhe aconteçam.  São pessoas normais, criadas em famílias com valores tradicionais, contentadas com o seu empregozinho e com a sua vidinha pacata. O filme introduz-nos então aos três protagonistas do filme, Nick, Michael e Steven, todos de partida para o Vietname após se terem alistado no exército. Enquanto saem do seu trabalho na mina de carvão e se deslocam até ao bar mais próximo, onde os acompanhamos a divertirem-se, a cantar e a dançar inclusivé, percebemos logo o quão diferentes estas pessoas vão ficar depois da guerra chegar e arrancar-lhes o espírito.

Coincidentemente, este dia em que os acompanhamos vem a culminar no casamento de Steven, um dos rapazes que parte para o Vietname, com Angela, uma das raparigas da cidade (todas caracterizadas, até então, como inocentes, alegres da vida, sem nada substancial nas suas vidas para elas apreciarem e darem valor). A sequência do casamento é uma das cenas mais brilhantemente executadas em todo o filme e a dicotomia que faz com a cena de funeral que encerra o filme mostra bem a excelente narrativa e o fio condutor que Cimino empregou no filme. Nesta cena, há tempo para toda a gente manifestar a sua alegria, a sua excitação, dá tempo para todos beberem e celebrarem e festejarem efusivamente a partida dos seus três homens e o casamento de um deles. 


E encerramos aqui a porção alegre do filme. O tom do filme torna-se muito mais sério já nesta cena seguinte, em que assistimos a um diálogo imensamente interessante - e imensamente rico de subtexto sobre o que significa caçar veados - e, num dos truques de edição mais famosos da história do cinema, a película corta para o meio da acção no Vietname.

O filme mostra os nossos bravos homens a serem capturados e torturados e é claramente visível nas suas caras o sofrimento, o suplício, a dureza e a exaustão que a guerra imprimiu nas suas vidas, de repente, e nós audiência sentimos quase que imediatamente que o chão nos é arrancado, enquanto os três homens são obrigados a participar num jogo de roleta russa, em que os seus captores apostam em quem vai ou não explodir os seus miolos. Nick e Steven começam a perder um pouco a sanidade e é Michael, que até então pouca personalidade tinha mostrado, tendo mesmo começado a exibir rótulo de anti-herói, que com a sua grande vontade de viver impulsiona os outros dois homens para uma fuga improvável. A cena em que os homens clamam liberdade é tão magnetizante quanto gélida e serve muito bem para ilustrar o quão mudados eles se encontram.


Longe da guerra, os três amigos vêm a sofrer destinos bastante distintos: Nick fica em Saigão; Steven, agora deficiente, tendo perdido ambas as pernas, encontra-se num hospital de veteranos de guerra; e Michael é, então, o único que volta a casa. Este regresso a casa, contudo, nunca chega a acontecer, uma vez que o Michael que retorna à Pennsylvania não é o mesmo Michael que de lá saiu. Este Michael é ainda mais contido, ainda mais tímido, imerso numa raiva silenciosa que não lhe permite voltar a reconectar-se com os amigos e, mais importante, que o impede de ter uma vida normal com Linda, antiga namorada de Nick por quem Michael sempre teve sentimentos (e Linda, percebe-se desde sempre, nunca se soube bem decidir por qual dos dois homens; teve que vir a guerra para decidir-se por ela). Não havia forma de ele conseguir contar, de conseguir explicar o que lá viu, o que lá passou, o que eles não sabem que aconteceu.

Após visitar Steven no hospital (algo que levou a Michael imenso tempo a fazer) e descobrir que Nick ainda se encontrava por terras asiáticas - e relembrando uma promessa antiga de nunca abandonar o amigo para trás -, Michael parte de volta ao Saigão para recuperar Nick. O clímax final do filme é bastante potente, que tem na sua cena final, as gentes a cantar "God Bless America" num funeral, um culminar que é fiel ao tom e à linha narrativa do filme. 

Num filme com extraordinárias interpretações de Savage, de Streep, de Walken (que venceu o Óscar de Melhor Actor Secundário) e principalmente de DeNiro, é  da realização de Cimino, da edição de Zinner, da fotografia de Zsigmond e do argumento de Washburn que se fala quando pegamos nos pontos fortes do filme.


Trágico mas belo, melancólico mas profundo, "The Deer Hunter" acaba por explorar os traços de personalidade que constroem o que cada um de nós é, que nos fazem reagir de forma diferente aos eventos na vida, que nos levam a superar os obstáculos de diferentes modos. É um filme sobre amizade, é um filme sobre a desumana condição de vida nas zonas de combate, é um filme sobre patriotismo, sobre heroísmo, sobre a vida e sobre a vontade de viver. Não é a guerra que toma o papel principal aqui, como eu já disse; são as pessoas e as experiências devastadoras que nela obtiveram.


"The Deer Hunter" viria a ganhar 5 Óscares em 9 nomeações na cerimónia de 1979, incluindo Melhor Actor Secundário, Melhor Realizador e Melhor Filme.


NOTA:
B+


INFORMAÇÃO ADICIONAL:
Ano: 1978
Duração: 182 minutos
Realização: Michael Cimino
Argumento: Michael Cimino e Deric Washburn
Elenco: Robert DeNiro, Meryl Streep, John Cazale, John Savage, Christopher Walken
Banda Sonora: Stanley Myers
Edição: Peter Zinner
Fotografia: Vilmos Zsigmond



Maratona Meryl Streep: Anos 70

Este artigo faz parte da nossa semana especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.



Vamos então analisar a primeira década de cinema em que Meryl Streep trabalhou. Aviso desde já é que optarei sempre por abordar os filmes que fazem das personagens de Meryl focos de acção ou pelo menos surgem para desenvolvimento, não apenas personagens unidimensionais que surgem uma ou duas vezes em todo o filme.


Mary Louise Streep, que tinha começado a interessar-se pela representação no seu tempo em Vassar (universidade da qual se formou em 1971), tomou essa opção de vida ao ser admitida no curso de Drama em Yale, no qual se formou com distinção. Participou então em diversas peças no panorama teatral nova-iorquino enquanto ao mesmo tempo trabalhava em part-time como empregada de mesa. Contudo, com o seu talento, era mais do que óbvio que faria a transição para outras formas de expressão da sua arte de maior dimensão. Começou por fazer alguns tele-filmes até que o seu primeiro grande papel surgiu.


Em 1977, aos 27 anos, Meryl Streep principia a sua carreira no cinema, no filme "Julia", de Fred Zinnemann, protagonizado por duas gigantes da geração anterior à de Meryl, Vanessa Redgrave e Jane Fonda. A sua Anne Marie torna-se, sem querer, um dos (poucos) pontos de interesse do filme, que, não obstante os cinco Óscares e onze nomeações conseguidos, não foi muito do meu agrado. Meryl, no entanto, através da sua presença, da sua expressividade e da forma impressionante como rouba cenas às duas cabeças de cartaz (coisa que fará habitualmente por mais uns anos, como veremos, até ser considerada uma cabeça de cartaz ela mesma), através da forma cativante, diria até mágica, como lê as entrelinhas das falas que tem que pronunciar, é bestial.


No filme, de resto, salva-se a magnífica interpretação de Vanessa Redgrave, que lhe rendeu (justificadamente) o Óscar. Anne Marie é a típica socialite: aquela que sabe sempre o que dizer não importa a situação; aquela que parece que não se importa com o que os outros pensam; aquela que até compreende os outros, mas a quem não lhe interessa muitos os seus problemas; aquela que tem um pouquinho a mais de egocentrismo. Mas num papel que podia resultar num mero estereótipo ou caricatura, Meryl pega e transforma num indivíduo sobre o qual queremos saber genuinamente mais.

Depois deste sucesso menor, era certo que Meryl Streep procuraria vôos mais altos e uma actriz bonita, charmosa e talentosa como ela teria com certeza grandes papéis a serem-lhe oferecidos. Um ano volvido, em 1978 (nesse mesmo ano casaria com Don Gummer), Meryl vai à caça de um dos maiores papéis femininos desse ano: Linda em "The Deer Hunter", contracenando com Robert DeNiro e Christopher Walken.



"The Deer Hunter" é um dos melhores filmes de sempre, com três excelentes interpretações (uma das quais - Walken - venceu o Óscar), com uma história fantástica e com uma lição inspiracional importante (a de que a guerra muda as pessoas - muda as suas vidas, muda as suas personalidades, muda lugares e destrói-os por dentro.


Meryl Streep faz um excelente trabalho com a sua personagem, Linda, uma belíssima, inocente e divertida rapariga, indiferente ao mundo em seu redor, que vê o seu namorado Nick (Walken) partir para a guerra no Vietname com mais dois amigos, tendo só o seu melhor amigo, Michael (De Niro), voltado (os três fogem à guerra, mas só Michael decide voltar para casa - por causa de Linda).


Os dois, que já possuíam incrível química e tensão quando Nick estava presente, entregam-se por completo um ao outro, funcionando isto como que uma espécie de conforto, de consolo, pela falta do ente querido. Streep joga bem com a caracterização da sua personagem - uma típica mulher que só se consegue ver definida pelo homem que a ama, uma mulher para sempre dividida entre dois amores, uma mulher a quem tinha sido roubada a felicidade e que encontrou noutro homem uma forma alternativa de ser feliz - e aproveita os momentos em que surge no filme para se dar bastante bem a conhecer.

Este trabalho valer-lhe-ia uma nomeação para o Óscar de Melhor Actriz Secundária que, mesmo tendo perdido para Maggie Smith (falaremos disso noutro artigo, dedicado às suas duas primeiras nomeações), faria de Meryl Streep a actriz mais cobiçada da altura e certamente colocava-a em posição priveligiada para da próxima vez que fosse nomeada, ser consagrada. E nem foi preciso esperar muito.


Em 1979, Meryl Streep garantiu três excelentes papéis femininos: foi a amante e colaboradora de Joe Tynan em "The Seduction of Joe Tynan", um papel completamente díspar do de Linda em "The Deer Hunter" (uma mulher independente, com uma carreira) mas que tem um ponto em comum (ser a amante de outro homem); foi a ex-mulher do (personagem de) Woody Allen em "Manhattan" (um dos melhores filmes de Allen, no qual mistura tudo o que sabe fazer melhor, no seu cenário preferido: Nova Iorque), no qual interpretou Jill, a ex-mulher de Isaac, virada lésbica, que ameaça publicar um livro no qual conta todos os segredos da sua relação; e foi Joanna Kramer, a mulher de Ted Kramer (Dustin Hoffman), em "Kramer vs. Kramer".


Neste último, Meryl é estonteante. A sua Joanna Kramer brilha nas poucas cenas em que aparece, mostra-nos em alguns segundos uma quantidade infindável de defeitos e qualidades, faz-nos preocupar com ela, faz-nos odiá-la, faz-nos obcecados em saber porque ela é assim, faz-nos agoniados de ver a transformação que sofreu, faz-nos sentir traídos pelo que faz a Ted e finalmente faz-nos sentir-nos culpados por odiá-la. A cena no tribunal, em que se revela - a ela e à própria Meryl - é de génio. Aquele rosto. Aquela expressividade. A forma como fala. O que deixa transparecer. É talento puro.


A outra cena que eu realço é a inicial, a da sua partida. A forma como começa ternurenta, progride para total acidez e frieza com o marido e termina com ela lavada em lágrimas, cheia de receio mas determinação, cheia de ódio por si própria mas confiante da sua decisão. Ela assombra-nos o filme todo e mesmo após. É uma performance cheia de força, um verdadeiro tour-de-force, que merecidamente lhe deu um Óscar.


Os anos 70 acabavam com Meryl Streep em alta. Era sem dúvida uma das estrelas mais ascendentes de então e os anos 80 só serviriam para consolidar essa ascensão no panteão da glória eterna.

- Na capa da "Times", 1981 -

Maratona Meryl Streep: KRAMER VS KRAMER (1979)

Este artigo faz parte da nossa semana especial dedicada a Meryl Streep, intitulada apropriadamente Maratona Meryl Streep by Dial P For Popcorn. Vamos analisar os títulos mais importantes da sua filmografia e vamos tentar perceber como foi a sua carreira, como foi cada uma das suas nomeações aos Óscares e como é, portanto, a pessoa, a actriz, a mulher que se chama Mary Louise Streep.



Antes de analisarmos a fundo os anos 70 da sua filmografia (que são pequenos, visto que ela só se iniciou no cinema em 1977), vamos rever em extenso dois títulos famosos dessa época dos quais ela fez parte. Começamos por este "Kramer vs. Kramer" (1979):




KRAMER VS. KRAMER (Benton, 1979)



 "I came here to take my son home. And I realized he already is home."


"Kramer vs. Kramer", que esteve para ser realizado por Truffaut (que filme diferente iria ser!) mas que parou nas mãos de Richard Benton após o francês ter desistido do projecto, foi o grande vencedor da noite dos Óscares de 1980, vencendo cinco troféus, entre eles Melhor Actor (Hoffman), Melhor Actriz Secundária (Streep), Melhor Argumento Adaptado e Melhor Realizador (ambos para Benton) e a mais importante de todas, a de Melhor Filme.



"Kramer vs. Kramer" conta a história da família Kramer: do pai, Ted Kramer (Dustin Hoffman), muito ocupado com a sua vida profissional para prestar atenção aos problemas de casa; da mãe, Joanna Kramer (Meryl Streep), egoísta e infeliz a ponto de colocar a sua felicidade acima da do seu filho; e Billy Kramer (Justin Henry), uma criança de sete anos que vê o seu mundo e a sua rede familiar desabar quando a sua mãe, insatisfeita com a vida que tem, abandona a sua casa e a sua família e parte em busca de uma mudança de vida, deixando Ted de mãos a abanar, com um filho para cuidar e com um emprego complicadíssimo de manter.


Quando tudo se parece endireitar e Ted e Billy parecem estar a resolver os seus problemas, eis que o drama familiar nos atira numa reviravolta curiosíssima: Joanna volta para reclamar o seu filho, o filho por quem Ted tanto abdicou. Portanto, um casamento de rastos, cheio de egoísmo, infelicidade, ira e silêncio e uma família à beira da ruína, numa luta a dois, dois adultos numa crise de identidade e de idade com uma inocente e feliz criança pelo meio a necessitar da sua total atenção.


"Kramer vs. Kramer" são pouco mais de hora e meia de filme comoventes e emocionantes nas quais penso que o grande trunfo de Benton é precisamente o não ter escolhido lados nesta guerra a dois. A situação até o pedia (divórcio e custódia de um filho), mas Benton não escolheu o caminho mais fácil e tornou assim o nosso filme infinitamente mais interessante. Permite-nos estudar o comportamento das duas unidades parentais a fundo, permite-nos perceber o que os leva a fazer determinadas coisas, o que os leva a ser assim. É isto que é tão interessante na vida real - e que Benton tão bem retratou no filme: na vida nada é preto e branco, todos temos momentos antagonistas, todos temos bons dias e maus dias. O filme tenta levar-nos muitas vezes a escolher um lado, mas o problema é que não dá para fazermos uma escolha sincera, pois tanto um lado como outro exibe defeitos e qualidades em simultâneo. Quando Streep volta para o clímax final do filme, já ninguém tem dúvidas que é impossível rotularmos uma pessoa de uma maneira ou outra; estas personagens são complexas, diversas e profundas o suficiente para as respeitarmos sem moralismos. 


O filme desenrola-se perante os nossos olhos, as decisões são feitas, parece-nos, em tempo real e notamos as personalidades das personagens sempre a mudar. Isso é fruto do magnífico trabalho de Benton no argumento, uma vez que a maioria das cenas têm o selo inconfundível de vida real. Parece mesmo que filmaram o dia-a-dia desta família, tal o ar de conversa do dia-a-dia e situações rotineiras que sucedem no filme, tendo ao mesmo tempo inigualáveis nuances de revelação de traços de cada uma das pessoas (imagem de marca de Benton, que presta imensa atenção ao que é dito e como é dito). É impressionante. O seu foco na humanização das personagens, na exploração da situação e do comportamento, tornaram este filme um verdadeiro sucesso dramático.


Claro que para este sucesso muito contribuem também as fabulosas interpretações de Hoffman, Henry, Streep e Alexander. Dustin Hoffman é perfeito como o pai de família viciado em trabalho que ignora constantemente as dúvidas e incertezas da mulher e que não sabe como lidar com o seu filho. Pega numa personagem unidimensional e transforma-a numa pessoa completa. Gradualmente desce do irado para o compassionado e é tão surpreendente ver esta subtil mudança. É capaz de ser dos seus melhores trabalhos.


Meryl Streep é fabulosa como a mãe dona de casa presa a um casamento sem amor, presa a uma vida na qual não se sente realizada e desesperada por voltar atrás no tempo, a uma altura em que era livre para se descobrir como pessoa. Rouba todas as cenas em que aparece com o seu olhar, a sua expressividade e a forma irascível, rude e sagaz como diz cada uma das suas falas. Ela, que vira vilã da história, ganha toda a nossa simpatia quando, nas cenas no tribunal, decide mostrar-nos que todas as virtudes da sua personagem ainda lá permanecem, com Streep descascando camada atrás de camada de complexidade a cada segundo da sua interpretação. É devastante de ver mas ainda mais impressionante sentir.

Justin Henry é enternecedor como o miúdo Billy e aparentemente ele e Hoffman usaram improvisação na maioria das suas cenas, o que, a ser verdade, é fantástico, porque nada daquilo parece realmente ensaiado mas as palavras são tão certas, tão corriqueiras, tão normais que parece impossível acreditar que não tenham treinado nada. Estas cenas são tão espontâneas que fazem-nos mesmo crer neste elo de ligação que vai ficar para sempre entre este pai e este filho. Finalmente, Jane Alexander é sempre a pedra de apoio da unidade parental que no momento estamos a observar. Primeiro, defende Joanna; mais tarde, defende Ted. E é soberba nessa tarefa.



No final, o que realmente deixa uma marca indelével é que passámos duas horas e ver pessoas, credíveis e empáticas personagens devidamente construídas por belíssimos actores, numa das situações mais comuns do dia-a-dia, num filme que nunca chega a aproximar-se nem do sentimentalismo (nomeadamente na relação crescente entre o pai e o filho) nem do melodramático (no testemunho da mãe no tribunal) e isso, meus caros, é coisa raríssima hoje em dia.


Nota Final:
B+

Informação Adicional:
Ano: 1979
Realizador: Richard Benton
Elenco: Dustin Hoffman, Meryl Streep, Jane Alexander, Justin Henry
Argumento: Robert Benton (adaptação do romance de Avery Corman)
Fotografia: Nestor Almendros
Banda Sonora: Erma Levin e Roy Yokelson
Duração: 105 minutos


Trailer:



CABARET (1972)

 

«Leave your troubles outside.
So life is disappointing, forget it!
In here life is beautiful.»
 

A citação acima pertence à música introdutória de "Cabaret", o filme mais famoso do realizador-coreógrafo Bob Fosse. É através dessa música, "Willkommen", brilhantemente escrita e composta por Ebb e Kander que o Mestre de Cerimónias do clube nocturno Kit Kat Klub (interpretado magnificamente por Joel Grey) nos dá as boas-vindas ao mundo do Cabaret.

Este musical tão fora do habitual é um deleite de ir desvendando, apresentando-nos tanto detalhe, tanta cor, tanta imaginação, tanta alma, que é impossível não nos contagiarmos e nos deixarmos levar, precisamente abandonando os nossos problemas durante as duas horas do filme.


"Cabaret" passa-se na antecâmara da II Guerra Mundial, na Berlim de 1931, numa altura em que, enquanto se assistia à ascensão do Partido Nazi, se vinha assistindo a um aumento na ambiguidade sexual, na decadência e em que locais como os cabarés eram francamente apreciados pela sua falta de pudor em expor o que a protagonista, Sally Bowles, viria a caracterizar como "divina decadência". Este paralelismo entre, por um lado, todo uma parte do filme mais política, mais séria, mais machista, existe a outra parte, a alegre, a descontraída, a sensual é o que mais me fascina no filme. E aqui entra o génio de Bob Fosse, que consegue aliar as duas histórias que pretende contar e interrelacioná-las, fazendo-nos perceber que este filme é, sobretudo, um filme sobre as pessoas. 


O argumento do filme segue a personagem principal das "Histórias de Berlim" de Christopher Isherwood, a cantora de cabaré Sally Bowles, uma das personagens mais fabulosas que o Cinema alguma vez teve a oportunidade de conhecer. Por entre a sua falta de tacto e de educação, o seu narcisismo, os seus amuos, a enorme aura de diva que paira sobre ela, os seus mil defeitos e as suas generosas qualidades, a sua falsa vitalidade e devassidão apercebemo-nos que ante nós se desvenda uma das maiores interpretações de sempre. Liza Minnelli cria um monstro perante os nossos olhos. Além dos fantásticos números de dança e canto, Minnelli confere a Sally Bowles uma vulnerabilidade que a personagem, ao tentar esconder, nunca falha em nos mostrar, quer pelo meio da "divina decadência" a que tanto se refere, quer pela forma teatral com que reage à maioria das situações, quer pela forma como guarda para si a maioria dos seus receios, dos seus traumas, das suas desilusões e até quer pela forma como só se dá às pessoas até certo ponto. Emocional e excitável, é certo, mas bastante frágil e secreta. Soberba ao ponto de nos conseguir convencer sempre de que ela, de facto, é apenas uma rapariga que vive o momento, sem preocupações, que acredita fielmente no lema do Cabaret, não levar nada a sério e viver para sempre o presente. E quanto ela se dá a conhecer na totalidade a nós audiência, no seu mais exposto é de partir o coração.


O filme conta-nos portanto a história da relação entre Sally Bowles e Brian (Michael York), um jovem professor de Inglês que se perde na vida nocturna do cabaré e depois a relação destes com dois alunos de Brian, Fritz e Natalia (fazendo depois com esta personagem o paralelismo para o nazismo e para a influência que teve na vida dos Judeus alemães, comunidade da qual Natalia faz parte) e em seguida de Sally e Brian com um milionário excêntrico, bissexual (interpretado de forma muitíssimo interessante por Helmut Griem). A exploração deste amor aparentemente incompreendido e deste triângulo amoroso tão fora do ordinário é o que dá ao filme força motriz. Pelo meio, vão-se entrelaçando situações da vida destas personagens com números de dança e canto no clube nocturno, números esses ricos de realismo, sempre relacionados com o momento em que a acção principal pára. É a este nível que se consegue sentir a enorme interpretação de Joel Grey como o Mestre de Cerimónias de cara pintada e sorriso aberto, que serve de ponto de ligação entre as várias partes do filme, quer esteja a cantar e a dançar, quer esteja a saltar, quer esteja a atirar lama para duas das suas dançarinas que estão envolvidas numa luta em pleno palco, quer esteja a contar-nos a história do seu ménage à trois, ele continua o divertimento e as festividades no cabaré, fazendo-nos sentir todo o entusiasmo, a força, a pujança e a alegria que normalmente pautaria tais estabelecimentos. Joel Grey é fascinante de acompanhar, pois rouba toda a atenção nas cenas em que surge e oferece-nos uma performance completamente bestial.


A acompanhar as prestações do grande elenco temos números musicais intemporais, melodias de uma exuberância e brilho tal que serão amadas para sempre, como "Money Makes The World Go Round", "Mein Herr", "If You Could See Her", "Maybe This Time" e o magnífico final, "Life is a Cabaret"; uma fotografia bastante poderosa, muito pormenorizada, com uma paleta de cores infindável; um argumento muito bem explorado e incisivo, que nos permite acompanhar esta história melancólica e elégica sem nunca perder o norte ao real, inventivamente teatralizado nos números musicais no cabaré; e uma realização extraordinária de Bob Fosse, que lança um olhar bastante cínico e frio às pessoas que habitavam esta Berlim dos anos 30.


Quando o filme chega ao seu fim, percebemos finalmente que este não é um filme feliz e nem o seu número final, "Life is a Cabaret", é uma canção sobre a alegria do cabaré, onde todas as preocupações são abandonadas, como poderia parecer. É, sim, uma elegia, uma canção de lamento, uma canção de desespero, de tristeza, que não só se refere à falsa felicidade patente nestes locais, como também serve como forma de análise ao futuro sombrio que a Alemanha Nazi iria trazer ao mundo, um mundo onde personagens como Sally Bowles e o Mestre de Cerimónias deste cabaré não irão ser toleradas.

E a despedida é feita da mesma forma que fomos introduzidos em cena, pelas palavras melódicas do Mestre de Cerimónias, que de facto nos leva a concordar com ele, dizendo: «Where are your troubles now? Forgotten? I told you so. We have no troubles here. Here life is beautiful.» e despede-se dizendo, antes das cortinas caírem uma última vez: «Auf Wiedersehen, À bientôt».

NOTA:
A

"Cabaret" viria a vencer 8 Óscares na cerimónia de 1972, sendo o filme com maior número de troféus da noite. Venceu Melhor Actriz (Minnelli), Melhor Actor Secundário (Grey), Melhor Edição, Melhor Direcção Artística,  Melhor Som, Melhor Música, Melhor Fotografia e, tendo "The Godfather: Part I" vencido Melhor Filme, conseguiu ficar com o prémio de Melhor Realização (Fosse).

Ficha Técnica:

Realização: Bob Fosse
Elenco: Liza Minnelli, Joel Grey, Michael York, Helmut Griem, Marisa Berenson
Fotografia: Geoffrey Unsworth

Banda Sonora: Fred Ebb (musical "Cabaret") e John Kander
Argumento: Jay Allen



Pergunta: Saber cantar é importante nos musicais?

Seis razões que justificam a utilização de actores que sabem cantar e dançar em filmes musicais:

1.

Meryl Streep, "Death Becomes Her" (1992)



2.
Marion Cotillard, "Nine" (2009)


3.

Catherine Zeta-Jones e Queen Latifah, "Chicago" (2002) - cena cortada


4.

Barbra Streisand, "Funny Girl" (1968)


5.

Judy Garland, "The Wizard of Oz" (1939)



6.

Liza Minnelli, "Cabaret" (1972)


Pura e simplesmente fazem um filme muito melhor.