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DIAL P FOR POPCORN

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DAFA 2010: Melhor Filme Animado




Bem-vindos à primeira edição dos Dial A For Awards, a cerimónia de prémios de cinema do nosso blogue, Dial P For Popcorn. Iremos revelar, categoria a categoria, os nossos seis nomeados e três vencedores entre aqueles que foram, para nós, os melhores filmes de 2010.

Vamos a mais uma categoria - já faltam poucas! - destes prémios que eu me vou entretendo a atribuir - e esta é capaz de ser a mais controversa, sem dúvida. Melhor Filme Animado teve como vencedor, na minha cabeça, cada um destes seis nomeados numa altura ou noutra. Finalmente, tive que apelar ao coração e, mesmo que muitos considerem este um vencedor sentimental, a verdade é que as preferências são isso mesmo - preferências. São muito pessoais. E assim, sem mais demora, os meus nomeados para animação do ano:



MELHOR FILME ANIMADO:
HOW TO TRAIN YOUR DRAGON - #1
IDIOTS AND ANGELS 
L'ILLUSIONISTE - #3
MY DOG TULIP
TANGLED
TOY STORY 3 - #2

Idiots and Angels é mais uma prova - como se fossem precisas mais - que Bill Plympton é dos mais dotados criadores de animações que anda no cinema moderno, bem lá no topo com Miyazaki, Stanton, entre outros. Um filme sério, com um tema bem mais para adultos do que para crianças, que joga com as nossas inseguranças na nossa vida. My Dog Tulip é, sobretudo, uma escolha sentimental. Arrasta-nos as lágrimas sem que as peça, alegra-nos e padece-nos a alma em igual medida, é uma das boas surpresas do ano. Tangled foi também uma boa surpresa mas por outros motivos - depois de uma horrorosa campanha de marketing por parte da Disney, é bom ver que o género dos contos de fada ainda não está morto lá para os lados do tio Walt. Divertida, aventureira e muito, muito especial, a película de Rapunzel e Flynn faz as delícias dos mais novos enquanto encanta os mais velhos. Toy Story 3 tem dois filmes de bagagem que aproveita muito bem - tal como a distância temporal entre eles - para fechar com chave de ouro esta nossa viagem pela infância, com os nossos brinquedos favoritos. Para mim, Toy Story 3 é particularmente notável pela forma como transcende a barreira do real e do imaginário e nos faz amar meros objectos inanimados. Woody e Buzz estarão sempre no meu coração. Depois do magnífico - e incrivelmente melancólico "Les Triplets de Belleville", eis que Sylvain Chomet pega num manuscrito de Jacques Tati e une a beleza e singularidade do seu traço de animação e o espírito e os temas muito próprios do grande mestre Tati e cria um filme ímpar, sobre a solidão, o desprezo e a indiferença, a crise e o sofrimento, sobre um velho mágico que vive aflito para tentar ainda espalhar um pouco de magia por um mundo que o maltrata e pouco quer saber da sua arte. L'Illusioniste é lindíssimo. Finalmente, How To Train Your Dragon. Não consigo espelhar o quanto eu me sinto próximo deste filme. Não sei se é por causa do excelente trabalho dos animadores com Toothless, se é pelas cenas de acção cheias de adrenalina, se é pelos extraordinários cenários ou se é pela história em si, a verdade é que este filme envolve-me e eleva-me e tornou-se um caso muito engraçado de paixão. É uma escolha pessoal, mas o coração quer o que o coração quer.




E vocês: acham que perdi a cabeça ao nomear "How To Train Your Dragon" como melhor animação à frente de "Toy Story 3"?

DAFA 2010: Melhores Efeitos Visuais e de Som e Melhor Edição




Bem-vindos à primeira edição dos Dial A For Awards, a cerimónia de prémios de cinema do nosso blogue, Dial P For Popcorn. Iremos revelar, categoria a categoria, os nossos seis nomeados e três vencedores entre aqueles que foram, para nós, os melhores filmes de 2010.

A ver se isto não se arrasta para sempre, vou tentar acabar nos próximos dias com as categorias que faltam revelar dos meus prémios. Vamos a três categorias de uma vez só: Melhores Efeitos Visuais, Melhores Efeitos de Som e Melhor Edição.



MELHORES EFEITOS VISUAIS:
ENTER THE VOID - #3
HOW TO TRAIN YOUR DRAGON
INCEPTION - #1
MONSTERS
SCOTT PILGRIM VS. THE WORLD - #2
TRON: LEGACY

O ano agraciou-nos (e ainda bem) com vários filmes dignos de fazerem parte desta lista de nomeados para Melhores Efeitos Visuais. Além dos meus seis nomeados, conseguia pensar facilmente em mais seis que de igual forma aqui mereciam ter sido mencionados. Infelizmente, só podia decidir-me por seis. Enter The Void foi uma surpresa - não porque já não esteja habituado a que Gaspar Noé nos surpreenda constantemente, mas porque nunca imaginei que um dos meus nomeados para efeitos visuais estivesse ali. A verdade é que a qualidade do filme, desde a fabulosa cena de créditos de abertura até ao seu delirante fim, depende muito do primor visual da película. E a verdade é que este nunca desaponta. How To Train Your Dragon era uma escolha óbvia, dado a forma brilhante como retratou as cenas de vôo/acção de Hiccup e Toothless os cenários impressionantes que funcionam como pano de fundo da cena - e que belo e colorido retrato pintam da habitualmente enfadonha e fria Escandinávia. Inception dobrou literalmente os limites da realidade, construindo um mundo à parte digno de um sonho através dos seus brilhantes efeitos especiais. Monsters foi a maior surpresa do ano, sem grandes efeitos especiais mas com muita imaginação, conseguindo passar a mensagem através do seu poderio técnico mesmo que este não seja baseado em alta tecnologia de ponta. Scott Pilgrim vs the World foi, digamos, o caso especial do ano, um filme ultra-imaginativo no qual os efeitos especiais - visuais e de som - foram usados de forma mágica para ampliar o efeito de estarmos realmente dentro de um mundo de banda desenhada. Escusado será dizer: resultou em pleno. Finalmente, Tron: Legacy. Não é preciso ir muito longe para perceber esta nomeação. Basta ver a cena de batalha ao som de 'Derazzled'.




MELHORES EFEITOS DE SOM:
BLACK SWAN
HOW TO TRAIN YOUR DRAGON - #2
INCEPTION - #1
MONSTERS - #3
SCOTT PILGRIM VS. THE WORLD
TRUE GRIT

Poderia ter dividido a categoria de Som em duas categorias separadas, Edição e Mistura de Som, mas preferi mantê-lo simples e juntar ambas as técnicas numa só categoria. Mais uma vez, havia aqui um grupo grande de potenciais candidatos a uma nomeação e qualquer um seria merecedor de menção. No fim, depois de muita consideração, ficaram estes seis: Black Swan junta à arrepiante banda sonora de Mansell e à rápida e rodopiante fotografia de Libatique vários pequenos toques sonoros que aprimoram ainda mais a obra-prima, fazendo-nos não só sentir como também ver e ouvir a entrada de Nina na loucura e na perdição. How To Train Your Dragon merece só cá estar apenas pelos vários sons dos diversos dragões, cada um mais original e inventivo que o outro. Vários silêncios bem aplicados, vários efeitos sonoros bem aproveitados, principalmente nas cenas de acção, fazem deste filme um dos grandes destaques entre o que de melhor se faz nesta área em animação. Inception é, do princípio ao fim, uma experiência sensorial de outro mundo. Seja na realidade ou no sonho, seja em gravidade zero ou a cair numa carrinha ao rio, seja a erigir edifícios ou a dobrar cidades inteiras, o trabalho de som aqui é excepcional. Monsters consegue informar tanto acerca dos seres alienígenas que servem de pano de fundo à história sem nunca os mostrar que sem o extenso trabalho de som realizado o filme não teria metade do pulso que tem. Lembram-se de ter referido acima de agora eu saber mesmo como é viver numa banda desenhada? Pois, é graças a Scott Pilgrim vs. the World e o seu maravilhoso mundo visual e sonoro. Finalmente, o último lugar nos nomeados é ligeiramente conquistado por True Grit a The Social Network, dois filmes excitantes de ver e ouvir. A razão pela escolha do primeiro? Porque os filmes dos irmãos Coen têm sempre esplêndidos efeitos sonoros.




MELHOR EDIÇÃO:
BLACK SWAN - #2
BLUE VALENTINE
SCOTT PILGRIM VS. THE WORLD - #3
SOMEWHERE
THE FIGHTER
THE SOCIAL NETWORK - #1


Foi por um triz que True Grit e Inception não entraram neste grupo de nomeados, mas no final tive que dar os parabéns a dois filmes que aqui constam que não seriam propriamente escolhas convencionais. Da edição de Black Swan já muito foi dito, principalmente sobre como é ela que quase inteiramente confere a robustez e o suspense com que o filme prende o espectador do início ao fim, daí que nem precise de me alongar nas razões da sua nomeação. De Scott Pilgrim vs the World a mesma história; o filme não funcionava sem a sua estupenda edição - de uma surpreendente tirada comédica genial. The Fighter tem um editor muito inteligente, que preferiu conferir ao filme o nervosismo inerente nas cenas de Dicky, que gosta de filmar a "arena" nas cenas da matriarca Alice, que opta por olhar de longe o relacionamento de Micky e Charlene, conferindo por isso um sentido de familiaridade que quase não se nota mas funciona muito bem dentro do filme. A edição de Blue Valentine vale ouro - senão tornar-se-ia complicado acompanhar um filme que salta tantas vezes entre o passado e o presente. Bónus: o carácter intimista mas revelador alcançado pela edição nas cenas entre Cindy e Dean. Somewhere é um caso muito particular de edição - mesmo ao jeito de Sofia Coppola. Longos planos, cenas compridas e vistas de longe, na languidão, à espera de um momento, um singelo e perfeito momento de melancolia e solidão. Finalmente, o vencedor: The Social Network. Uma edição a marca-passo, rápida, eficaz e sobretudo muito perspicaz, não deixa saltar uma linha de humor, não deixa de marcar terreno nas cenas mais dramáticas, não deixa um foco num olhar mais distraído passar ao lado. Brilhante a forma como condensam um filme que tinha mais de 4 horas de potencial argumento em 1h30 de puro génio.


E vocês, que pensam destas categorias?

MONSTERS (2010)



Eu não sou um fervoroso adepto da ficção científica, da idílica paixão que muitos argumentistas e realizadores têm de criar um mundo imaginário, com criaturas mutantes dos mais recônditos lugares do universo. Acho até, que a tentativa de criar uma nova história sobre um tema já sobejamente trabalhado, leva a carreira de um realizador (e, por vezes, até mesmo de um actor), para um risco desnecessário, onde são poucos os benefícios.


Monsters é o projecto arriscado, mas bem sucedido, de Gareth Edwards. Uma história simples, sem uma ambição desmedida de dar um passo maior do que a própria perna, conta-nos uma aventura agradável, que o espectador acompanha com boa disposição, sentido uma natural empatia por Samantha Wynden (Whitney Able) e Andrew Kaulder (Scoot McNairy), os dois protagonistas deste filme.


A viagem de uma nave espacial, que percorre o Universo à procura de vida extra-terrestre, culmina num final trágico. Um acidente devido a uma aterragem mal calculada, algures no interior do México, leva à libertação das várias espécies recolhidas, que se perdem na imensidão das florestas mexicanas. Aos poucos, a vida das populações que habitam as regiões mais próximas do incidente começa a mudar. Animais nunca antes observados, com numerosas pernas e de uma altura assustadora, espalham o terror e a destruição por onde passam.

É então criado um perímetro de segurança, que obriga à evacuação das populações. Samantha Wynden, filha de um poderoso homem da imprensa americana, encontra-se na zona que será evacuada. O seu pai contacta então Andrew Kaulder, um fotógrafo que trabalha para o jornal de Wynden, que se compromete a transportar Samantha, em segurança, até ao seu país.


Como em todas as viagens, as aventuras mais inesperadas acabam por acontecer e os percalços tornam-se inevitáveis. De uma forma ligeira, sem tornar a cadência da história monótona ou previsível, Monsters fala-nos de dois comuns mortais, que combatem as adversidades e os problemas com engenho e bravura, sempre confinados à sua condição de humanos atirados para uma arena à qual não pertencem, que demonstram que se pode criar uma história de heróis sem envolver super-poderes de catálogo. Referência ainda para a belíssima fotografia deste filme, um dos seus pontos mais positivos.


Nota Final:
B/B+


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Gareth Edwards
Argumento:
Gareth Edwards
Ano: 2010
Duração:
94 minutos

DAFA 2010: Melhor Peça Musical




Bem-vindos à primeira edição dos Dial A For Awards, a cerimónia de prémios de cinema do nosso blogue, Dial P For Popcorn. Iremos revelar, categoria a categoria, os nossos seis nomeados e três vencedores entre aqueles que foram, para nós, os melhores filmes de 2010.


Hoje vamos a mais duas (bem, quatro!) categorias dos prémios, a ver se terminamos antes de Abril terminar. A primeira dessas categorias serve de encerramento da minha avaliação à música no cinema em 2010. Como não consegui limitar-me a seis nomeados, nesta categoria (excepcionalmente) vamos ter dez nomeados. Aqui vos apresento os meus nomeados para Melhor Peça Musical em Banda-Sonora:



"Dream is Collapsing"
INCEPTION

O mundo desaba. O sonho acaba. Revolução total.



"Flow Like Water"
THE LAST AIRBENDER - #3

Um potente tónico à mais fantástica cena de acção do filme.



"Forbidden Friendship"
HOW TO TRAIN YOUR DRAGON - #2

Enternecedora e fantasiosa, aventureira e enérgica.



"Intriguing Possibilites"
THE SOCIAL NETWORK

Tão rápida e deliciosamente recheada de pequenos pormenores quanto o diálogo que acompanha.



"Illusionist Theme"
L'ILLUSIONISTE

De fazer chorar.



"Monsters Theme"
MONSTERS

A melhor apresentação de sempre de monstros num filme de ficção científica.



"Obliviate"
HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS, PART 1

Queriam música mais perfeita a servir de introdução a esta última parte? Não havia.



"Perfection"
BLACK SWAN - #1

Imersão total na escuridão sombria da partitura de Tchaikovsky alterada por Mansell. Sublime.



"Ride to Death"
TRUE GRIT

Tudo aquilo que se poderia esperar de um hino protestante adaptado a rito funerário por Carter Burwell.



"The Ghost Writer"
THE GHOST WRITER

O Fantasma espia no silêncio da noite. A música sugere desde logo que algo vai correr inesperadamente mal.




MISTÉRIOS DE LISBOA a 1 de Maio na RTP1

Depois de ter encantado muitos espectadores nas salas de cinema nacionais e internacionais, o épico "Mistérios de Lisboa", do realizador Raul Ruiz, cuja acção se passa entre França e Portugal, chega agora à televisão portuguesa, em formato de mini-série de seis episódios de aproximadamente 50-60 minutos cada (a duração total da mini-série ultrapassa a do filme, uma vez que incluirá cenas adicionais que não constam do filme). Contando com um elenco nacional e internacional recheado de estrelas, desde Maria João Bastos, Ricardo Pereira, São José Correia e Adriano Luz a Catarina Wallenstein, José Afonso Pimentel e Margarida Villa-Nova, "Mistérios de Lisboa" baseia-se na obra de Camilo Castelo Branco.


A estreia far-se-á na RTP1 dia 1 de Maio (domingo) com duplo episódio ("O Menino Sem Nome" e "O Conde de Santa Bárbara") por volta das 22 horas. Como saberão, "Mistérios de Lisboa" venceu vários prémios em diversos festivais, como o prémio da Concha de Prata para Melhor Realizador do Festival de San Sebastián e o prestigiadíssimo Prémio Delluc e foi, inclusivamente, votado o filme #1 da lista da Indiewire de filmes estrangeiros ainda sem distribuição norte-americana (que entretanto assegurou a sua distribuição pela Music Box, para o segundo semestre deste ano).
(Fonte: Split Screen)

DAFA 2010: Melhor Actriz Secundária



Bem-vindos à primeira edição dos Dial A For Awards, a cerimónia de prémios de cinema do nosso blogue, Dial P For Popcorn. Iremos revelar, categoria a categoria, os nossos seis nomeados e três vencedores entre aqueles que foram, para nós, os melhores filmes de 2010.


Cá vais mais uma. Desta vez, são as minhas nomeadas para Melhor Actriz Secundária:
 
 
Amy Adams, THE FIGHTER - #3
Maricel Alvarez, BIUTIFUL
Marion Cotillard, INCEPTION
Melissa Leo, THE FIGHTER
Lesley Manville, ANOTHER YEAR - #1
Jacki Weaver, ANIMAL KINGDOM - #2


Amy Adams é luminosa no papel de Charlene, transformando-se completamente da mulher frágil e inocente que tem por hábito interpretar para uma sobrevivente e lutadora empregada de bar que, por muitos erros que tenha cometido na vida, nunca se vai deixar ir abaixo. Uma interpretação feroz, muito humana e honesta (uma visão e aproximação maior do que a sua personagem talvez precisava), é na cena em que discute com Dicky (Bale) que me fez apaixonar-me por ela e pela sua causa. Difícil de ler mas fácil de entender, Charlene consegue ser, ao mesmo tempo, durona e enternecedora. É a magia de Adams que faz isto possível. Mais uma grande interpretação.

Poucas vezes se vê um actor ou actriz mergulhar tão fundo na caracterização de um personagem. Em BIUTIFUL, Innarritú consegue essa proeza com os seus dois protagonistas. Se Bardem está brilhante, Maricel Alvarez não é menos impressionante como a drogada, alcóolica, negligente ex-mulher de Uxbal (Bardem). Um retrato avassalador de uma alma perdida nas dificuldades da vida, Marambra é imensamente observável. Uma interpretação de encher o olho.

Não se percebe o que Mal (Cotillard) está a tentar fazer em INCEPTION até bem quase ao final do filme, à excepção de assombrar Cobb (Leonardo DiCaprio), o seu ex-marido. Mas mesmo que não entendamos, não dá para fugir do facto que é uma gigante interpretação por parte da actriz, cuja presença se propaga por toda a película, mesmo nas cenas em que ela não surge. Capaz de provocar tanta intriga e comoção a partir de duas-três cenas e tornando-se quase omnipresente quando não está no ecrã, sempre como a sombra, como o demónio, como a cruz que Cobb tem de suportar, Marion Cotillard dá-nos mais uma prova que o seu talento é infindável.

É importante transbordar na caracterização quando a nossa personagem é, de facto, "um personagem". Melissa Leo leva essa lei ao extremo com a sua Alice, a progenitora que olha mais para o seu umbigo que o dos outros em THE FIGHTER. Ela berra, ela atira pratos, ela insulta os filhos, ela maltrata o marido - ela faz tudo aquilo que pode para lhe darem aquilo a que ela acha ter direito. Quase tão cómica como dramática, ela funciona de forma perfeita como o catalisador necessário para a interpretação fenomenal de Bale, com vários tiques dele e a sua forma de estar e personalidade histriónica e nervosa, imprevisível, a imitar a dela.

Lesley Manville, por sua vez, enche o ecrã em ANOTHER YEAR por direito próprio - ela não é a personagem mais importante da história, mas transforma-a de modo a sê-la. Como disse na minha crítica então, "[a sua] Mary está completamente perdida. Está tão perdida que já nem parece ter conserto. Trágica mas divertidíssima, frágil mas humana, neurótica a ponto de fingir despreocupação para se convencer a si própria do contrário, impossível de agradar e aturar em certas alturas mas também impossível de enxotar quando já bebeu mais do que uns dois, três copos, Mary é simplesmente inesquecível. Uma interpretação electrizante, hábil a fugir da caricatura e transformando Mary numa roda viva de emoções e transportando-nos a nós com ela, Lesley Manville é magistral.". Ela pura e simplesmente explode com o cenário.

Jacki Weaver não desperdiça um momento ou um ângulo com a sua Smurf, a ameaçadora matriarca da família Cody. Impecável na forma como entrega as suas falas, uma linguagem corporal aterradoramente bizarra, com os beijos e afectos inapropriados e fabulosa na forma como esconde dos outros o que realmente pensa e diz, aquela pequena e aparentemente fofinha e enternecedora mulher transforma-se, pelo final do filme, num monstro abominável, enganador e sem compaixão nem misericórdia. Que Janine 'Smurf' Cody seja tão memorável e consistente deve-se inteiramente à qualidade da performance de Weaver.


DAFA 2010: Melhores Argumentos




Bem-vindos à primeira edição dos Dial A For Awards, a cerimónia de prémios de cinema do nosso blogue, Dial P For Popcorn. Iremos revelar, categoria a categoria, os nossos seis nomeados e três vencedores entre aqueles que foram, para nós, os melhores filmes de 2010.


Numa tentativa de terminar estes prémios ainda este mês (meu Deus, sou péssimo para prazos!), vou tentar revelar 2-3 categorias por dia. As duas próximas a anunciar estão relacionadas com algo vital para o sucesso de um filme. Sem um bom argumento, por muito bons que sejam os actores ou por muito visionário que seja o realizador, é (quase) impossível que o filme seja tão bom quanto poderia ser. Este ano trouxe-nos vários exemplos de qualidade para serem nomeados, mas nem todos o podem ser. Assim sendo, passo a anunciar os meus nomeados para Melhor Argumento Original:




ANIMAL KINGDOM
ANOTHER YEAR - #3
BLUE VALENTINE
INCEPTION
THE KIDS ARE ALL RIGHT - #1
TOY STORY 3 - #2


Não fogem muito dos meus 20 filmes favoritos do ano, como se percebe. ANIMAL KINGDOM surpreendeu-me pela forma como nos conta uma história sem nunca exagerar nalgumas situações que seria fácil escorregar para tal, pela forma inteligente como confere reviravoltas meio inesperadas, pela riquíssima caracterização das suas personagens e por ser um filme - e um argumento - tão maduro tendo em consideração que é a película de estreia do seu realizador/argumentista. Bónus: a avó Smurf. Brilhante toque de génio. ANOTHER YEAR só vem comprovar que Mike Leigh é um mestre da escrita. Desta vez, este argumento parece vir mais de dentro que os seus anteriores, como se a mensagem que Leigh quer passar é uma que ele aprendeu recentemente. Todas as personagens desta história têm a sua própria história a contar, o seu próprio passado a revelar. E nenhuma é mais interessante que a outra. O que torna o argumento, no seu todo, um processo fascinante de desvendar. O argumento de BLUE VALENTINE parece orgânico, natural, avança e recua no tempo de forma sublime para nos mostrar o evoluir de uma relação sempre destrinçando bem a situação das personagens numa e noutra altura e o que as move então e agora.  INCEPTION é algo diferente de tudo aquilo que vimos este ano. Alterar a linearidade do tempo e do espaço e conseguir explorar tão bem a dicotomia fina entre a percepção e a realidade, entre o que é o sonho e o que é verdadeiro, expondo as nossas concepções e noções de realidade e imaginação a paradoxos, brincando com a ilusão da mente humana e a natureza insidiosa das ideias (como muito bem disse Pete Hammond na sua crítica na Variety), não é para todos. Fazer da mente, do sonho, um puzzle metafísico, metafórico, não é para todos. Nolan conseguiu-o. THE KIDS ARE ALL RIGHT tem, para mim, o argumento original mais perfeito do ano. Delineia as relações entre as personagens de forma impecável, a caracterização de cada é imaculadamente efectuada e as motivações de cada bem exploradas. Pelo meio, encontramos um texto cheio de situações propositadamente engraçadas que não foge ao humor com assuntos delicados e sérios. Resumidamente, uma estrutura perfeita para uma comédia invulgar. Finalmente, estive numa luta interior para decidir como categorizar TOY STORY 3; depois de muito ponderar, decidi considerá-lo um argumento original, se bem que seja um que tem grande ajuda dos outros dois que o precederam para ajudar à choradeira e à nostalgia ao longo do filme. Apesar de tudo isto, não há como não elogiar o texto inteligente que escreveram para concluir a mais excelente trilogia do cinema moderno. Continua a tradição da Pixar de fazer escolhas inteligentes e divertidas em todos os seus filmes, de criar personagens inesquecíveis (Ken, Lotso) e de escrever diálogos puramente hilariantes.

Quanto aos meus nomeados para Melhor Argumento Adaptado:



HOW TO TRAIN YOUR DRAGON
RABBIT HOLE - #2
THE GHOST WRITER - #3
THE SOCIAL NETWORK - #1
TRUE GRIT
WINTER'S BONE


As cenas de acção são potentes, mas é nas cenas mais enternecedoras que o argumento de HOW TO TRAIN YOUR DRAGON se revela, mostrando uma qualidade no diálogo, na exploração da caracterização das personagens (tão atípico dos outros títulos da Dreamworks) e na criação de um dos melhores animais de estimação que há memória que me chocou positivamente. TOY STORY 3 pode ter sido o mais inteligente, TANGLED o mais divertido e L'ILLUSIONISTE o mais sentimental, mas o que mais apela ao coração é este. RABBIT HOLE já era, só por si, uma valente peça. A adaptação cinematográfica desta pelo próprio autor, David Lindsay-Abaire, tem o condão de conseguir manter todo o seu poder na transição do teatro para o cinema e ainda explorar outras pequenas histórias que no teatro não teriam tanta atenção. Um argumento de qualidade inegável que consegue ser sério e bem-disposto sem nunca exagerar na dose e que nos trouxe personagens completas, maduras, sinceras, honestas. THE GHOST WRITER é outro que não perde pitada da sua qualidade ao passar de livro para filme. Polanski viu bem o potencial que o livro, com a sua caracterização detalhada de todas as personagens menos de uma - o Fantasma - tinha para se transformar num drama/thriller excelente, com imensos twists, que nos prende até ao fim - tinha. Com o dobro das páginas de um argumento normal, Aaron Sorkin cria uma obra-prima de um argumento,  pura poesia verbal, imensamente citável, inesquecivelmente tragicomédico, que obriga os seus actores a darem tudo de si para fazerem transcender este simples texto num diálogo grandioso e imponente. Não importa o que me digam, dentro de cinquenta anos este argumento vai ser considerado um dos dez mais valiosos de sempre. Também ajuda, digo eu, que em THE SOCIAL NETWORK toda a gente tenha trabalhado a 200% para nos proporcionar esta experiência especial de ver um argumento transformar-se em tanto mais.  Falta-me falar de mais duas adaptações literárias: TRUE GRIT conserva todo o espírito da obra de Charles Portis, ao qual se soma o típico e indelével estilo literário dos irmãos Coen - tudo junto dá um western clássico muito melhor que o seu antecessor de 1969. WINTER'S BONE é adaptado de forma maravilhosa por Granik e Rossellini para o ecrã, mantendo toda a tempestuosidade e o peso da narrativa.

TROPA DE ELITE 2 - O INIMIGO AGORA É OUTRO (2010)



“Vocês engordaram o porco, agora nós vamos assar!”


Raras são as sequelas que superam os seus antecessores. No caso de Tropa de Elite 2, acredito estarmos perante um filme mais bem conseguido, trabalhado, elaborado e consistente do que o filme que em 2007 surpreendeu o público brasileiro com um retrato fiel da vida de um BOPE no combate ao tráfico e ao crime nas favelas do Rio de Janeiro.


Coronel Roberto Nascimento (Wagner Moura) regressa para o combate de um crime muito mais sofisticado, complexo e poderoso do que aquele que derrotou em Tropas de Elite. Como o título sugere, agora o inimigo é outro e a luta, que antes de caracterizava pelas intensas cenas de tiroteio nas poeirentas favelas, é transportada para as estratégias dos bastidores, para as jogadas de escritório, para o crime em grande escala. Neste filme, o grande inimigo do BOPE e do Coronel Nascimento é a corrupção. Desde os polícias de favela aos mais altos cargos políticos, a corrupção ataca a credibilidade de um estado que se quer justo e responsável e a luta de um só homem contra um império inviolável, preparado e profundamente difundido pela sociedade brasileira, transforma-se numa desigual luta de David contra Golias.


Diogo Fraga (Irandhir Santos) é um ativista brasileiro, popular no Brasil pela sua defesa em prol de um Brasil justo e igual, crítico feroz da violência praticada pela política em relação aos mais desfavorecidos. Casado com a ex-mulher de Roberto Nascimento, rapidamente se transformou numa das mais populares vozes contra as medidas de Nascimento, levando a que o mesmo acabasse despedido da direcção do BOPE depois de um mal sucedido trabalho na Prisão de Bango 1.


Arrastado para fora do trabalho (que se tornou inevitavelmente a sua vida), sozinho, abandonado, Roberto Nascimento recebe um convite do Governador do Rio de Janeiro (o mesmo que havia despedido) para ingressar no Departamento de Segurança Interna e, com a entrega e dedicação pela justiça que o levaram a liderar uma das forças policiais mais mortíferas do mundo, rapidamente promove alterações no seu Departamento e inicia a sua perseguição aos criminosos da cidade.


Aos poucos, Roberto começa a perceber o significado da sua demissão. Começa a perceber o significado de duvidosas promoções. Começa a perceber a verdadeira utilidade que as favelas têm e, aos poucos, a função dos pequenos traficantes de rua que o BOPE prende às centenas e que parecem nunca acabar. Roberto começa, aos poucos, a perceber a verdadeira lei das favelas. Juntamente com Diogo Fraga, começam uma batalha que tem tudo para ser inglória. Uma batalha que, vista de fora, muitos rejeitariam e ignorariam, pela estrondosa dificuldade de combater uma rede criminosa tão poderosa. Mas felizmente para o Brasil que a personagem de Roberto não se fica pelo ecrã de cinema. Tropa de Elite 2 levanta-nos o véu de algo que ultrapassa a nossa imaginação. De algo tão enraizado na sociedade brasileira que, só muito tempo, dedicação e coragem conseguirão destruir. É um filme trabalhado ao pormenor, revelador de uma dedicação e coragem enormes por parte de quem o escreve, realiza, produz e edita. E Wagner Moura revela-se muito mais do que um grande actor. A personagem do Coronel Nascimento é a personificação de um homem de ideais, cujo exemplo certamente impulsionará o combate ao crime organizado no Brasil.


Nota Final: B+



Trailer:




Informação Adicional:
Realização: José Padilha
Argumento:
José Padilha
Ano: 2010
Duração:
116 minutos

Os Melhores de 2010, por João Samuel Neves

Antes da publicação daqueles que, para mim, são os melhores filmes do ano de 2010, informo apenas que o atraso na divulgação desta lista se deveu unicamente ao facto de alguns filmes que são registados como pertencentes a 2010 (segundo o site imdb.com) se encontrarem, muitas das vezes, indisponíveis para visualização durante o referido ano. Aquilo que aqui vos deixo é uma opinião pessoal, e como tal, perfeitamente discutível.



1 - Biutiful A

2 - I Saw The Devil A

3 - Incendies A-
4 - True Grit
A-
5 - The Fighter
A-
6 - Four Lions A-

7 - Haevnen A-
8 - Inception
B+
9 - Another Year B+
10 - Blue Valentine
B+
11 - The Social Network B+
12 - Inside Job
A-
13 - The Man From Nowhere B+
14 - Tropa de Elite 2
B+
15 - Confessions
B+
16 - 127 Hours
B+
17 - I’m Still Here
B
18 - Kick-Ass
B
19 - The King Speech
B
20 - Black Swan B

Os Melhores de 2010, por Jorge Rodrigues

Ainda nem a meio vamos dos prémios que tenho andado a atribuir aos melhores do ano passado (espero tê-los concluído nos próximos dias) - os Dial A For Awards (DAFA) 2010; contudo, uma vez que já passou da altura de vos revelar quais são, para mim, os melhores filmes de 2010, vou fazê-lo - mas ordenados alfabeticamente. Assim retém-se o suspense para quando revelar as minhas categorias de Melhor Filme.


Finalistas:

Esta lista de filmes que aqui segue são de filmes que gostei muito mas que não consegui incluir entre os meus vinte melhores. "Exit Through The Gift Shop" poderia ser um dos vinte, mas optei por não incluir documentários porque penso que a minha avaliação deles é muito subjectiva e nunca os sei comparar bem com longas-metragens. O mesmo tenho a dizer, em menor grau, de "Last Train Home", "Wasteland", "Gasland", "Joan Rivers: A Piece of Work", "Restrepo", "Inside Job" e "Catfish". "Biutiful", "Copie Conforme", "The Edge", "In A Better World" , "Dogtooth" e "Incendies" são todos filmes estrangeiros que apreciei bastante, cada um à sua maneira, mas que também não têm qualidade suficiente para eu os colocar dentro dos meus vinte melhores. Também "Fish Tank" e "Winter's Bone" ficaram perto de entrar na lista, mas no fim de conta eu percebi que o meu amor pelos seus intérpretes é bem maior do que o filme no seu todo. Ainda assim, das melhores surpresas que o ano me trouxe. Uma obra-prima visual, "I Am Love" falha um pouco a nível da sua história, mas tem em Tilda Swinton um timoneiro de excelência. Assim, também neste caso optei por premiar a intérprete e os aspectos técnicos em prol do filme em si. "Kick-Ass" também ficou perto, mas no caso de Matthew Vaughn a verdade é que não fiquei tão enfeitiçado como outros. Gostei do que vi, mas esperava mais. Dos melhores eu espero sempre mais. O mesmo posso dizer de "Made in Dagenham", "Somewhere" e de "Never Let Me Go", que também têm diversos aspectos merecedores de elogio mas outros bem em défice. E finalmente: "The King's Speech". Era o meu #21 da lista. Foi difícil cortá-lo. Mas tive de o fazer. É deste modo que vos apresento... 


Os meus melhores filmes de 2010:
(ordenados alfabeticamente)


ANIMAL KINGDOM (r. Michod)

Uma história fascinante, personagens frescos e originais, uma família que impõe respeito e tresanda a segredos e traições. Um filme irreverente, belíssimo e um grande começo para David Michod. Jacki Weaver entrega-se por completo a 'Smurf' Cody, a matriarca desta horripilante família, um monstro com cara angelical, uma mulher que não é de confiança, uma predadora incessante. Uma formidável descoberta.

ANOTHER YEAR (r. Leigh)

Por esta altura, já estamos habituados a que tudo o que Mike Leigh faça, faça bem. Este "Another Year" volta a trazer-nos uma proeminente interpretação feminina, por uma actriz até então pouco conhecida do grande público. Lesley Manville incendeia a tela - e o espectador fica-lhe eternamente grato.
 
BLACK SWAN (r. Aronofsky)

Finalmente, um Aronofksy que vem rivalizar, em termos de popularidade, com a sua indiscutível obra-prima, "Requiem for a Dream". Sem atingir o nível deste, contudo, "Black Swan" é do mais envolvente que esteve nas salas de cinema este ano; brilhante, ousado, invulgar, com uma Natalie Portman em topo de forma, foi um prazer de ver, escutar, sentir. Vibrante, trágico, aterrorizador, louco e tóxico, "Black Swan" é imperdível.

BLUE VALENTINE (r. Cianfrance)

Mexe com as nossas emoções em sítios muito pessoais, põe-nos face a face com uma situação que decerto todos já passámos. Williams e Gosling formam um par inesquecível - que espero que se repita no futuro. Um filme surpreendente - pela positiva, claro.



FOUR LIONS (r. Morris)

Já é costume sermos todos os anos maravilhados por uma pérola cómica britânica. Depois do fabuloso "In The Loop" em 2009, este ano trouxe-nos o primeiro trabalho de Chris Morris, "Four Lions". Irreverente, irrepreensível, sem medo de desafiar convenções ou fazer troça de pré-conceitos, é uma obra-prima de desatar a rir.

HOW TO TRAIN YOUR DRAGON (r. Sanders, DuBois)

Qual não foi a minha surpresa quando me vi irremediavelmente apaixonado por este filme? Integralmente dedicado a despertar o nosso amor pelos nossos próprios animais domésticos, "How To Train Your Dragon" é mesmo o melhor filme que a Dreamworks já produziu para rivalizar com a Pixar. Inteligente, carinhoso, bonito, com cenas de acção impressionantes e muito bem executadas, com uma banda sonora de sonho, é um filme animado a sério, não só para os amantes da animação mas para todos aqueles que pretendem um grande filme.

INCEPTION (r. Nolan)

Neste momento, penso que Hollywood já aprendeu a lição: querem um blockbuster inteligente que não tem medo de desafiar a sua audiência? Chamem o Christopher Nolan. Depois de consolidar o seu valor como um mestre contador de histórias depois da sua estreia com "Memento" e depois de revitalizar de forma extraordinária uma franchise que estava em águas mortas, eis que a sua grande oportunidade de realizar algo que ele queria surge: e ele acerta em cheio. "Inception" é, em suma, uma ideia francamente original, brilhantemente explorada por um dos senhores da sétima arte no momento.

L'ILLUSIONISTE (r. Chomet)

Por vezes, a beleza das coisas está no quão singelo um momento consegue ser capturado. Chomet já o fez antes em "Les Triplets de Belleville" e volta a realizá-lo em "L'Illusioniste". Os últimos momentos do filme, em que seguimos um desapegado mágico sem nada que o prenda à sua vida antiga deixar tudo e todos e partir com fim incerto, abandonando assim subitamente a arte que tanto promoveu por tantos anos, são de trespassar o coração com uma faca. O resto do filme não é igualmente fácil de engolir - uma incrível metáfora de como tudo na vida, inclusive os gostos e as pessoas, mudam; só Chomet é que não muda o seu modo tão pouco usual de fazer animação. Um filme mais para adultos do que para crianças, mas que irá pôr todos, de igual modo, a chorar.



 LOLA (r. Mendoza)

Uma história de luta, de sobrevivência, "Lola" é mais uma peça inolvidável que Brillante Mendoza nos traz. A história de duas avós a combater para defender os seus netos é do mais precioso e enternecedor (e também triste, diga-se) que 2010 nos ofereceu. As feridas profundas nunca fecham - e a nossa mente, depois de ver este filme, também não.

MONSTERS (r. Edwards)

Fiquei estupefacto ao ver este filme. Fiquei chocado como um realizador estreante, com apenas 500,000 $ de orçamento e dois actores, decidiu filmar ilegalmente em vários países um filme artístico de ficção científica e ainda editá-lo, tratar da sua fotografia e direcção artística e pagar integralmente os custos extra de produção e ter isto como resultado. Um mundo rica e vividamente criado (uma experiência sensorial levada ao extremo), com personagens complexas e completas, que aborda uma história fascinante. Bónus: uma das melhores bandas sonoras do ano, a cargo de Jon Hopkins.


RABBIT HOLE (r. Cameron Mitchell)

Ao contrário do que meio mundo pensa, a melhor interpretação feminina do ano não está em "Black Swan". Infelizmente, como em tudo na carreira de Nicole Kidman, a sua interpretação em "Rabbit Hole" junta-se a mais uma daquelas dela que são impressionantes e inesquecíveis mas que aparentemente não são boas o suficiente para merecerem ser devidamente premiadas. Que o elenco secundário a suporte de tão brilhante forma é só mais um testemunho à qualidade que o fantástico John Cameron Mitchell juntou para o filme mais invulgar da sua filmografia até agora. Um primor. Um dos melhores filmes do ano. E que lida com um dos piores assuntos da vida humana da melhor maneira possível - a honesta.

SCOTT PILGRIM vs THE WORLD (r. Wright)

Sinceramente, depois de "Hot Fuzz" e "Scott Pilgrim vs. The World", como é que Edgar Wright não tem todos os estúdios a bater-lhe à porta e a oferecer-lhe mundos e fundos? Um realizador sempre à procura de se reinventar, buscou inspiração na banda desenhada canadiana de sucesso internacional e disto resultou o filme mais distinto, original e inventivo que eu alguma vez vi. Com algumas falhas? Decerto. Incrível de qualquer forma? Sem dúvida.



TANGLED (r. Howard, Greno)

Não era suposto eu ter gostado tanto deste novo conto de fadas da Disney, mas enfim, cá o temos. A fugir às antiquadas convenções sobre princesas em perigo, ousa ser diferente e mais divertido, com dois dos melhores parceiros de aventura que uma história destas podia ter - Maximus e Pascal - e com uma das cenas mais belas de sempre da animação e do cinema, a rivalizar com a cena da dança de "Beauty and the Beast", o clamor de Ariel em "The Little Mermaid", a introdução de "The Lion King" ou a definição da dança em "Wall-E" (estou a falar da cena das lanternas, claro), "Tangled" cumpriu o seu grande propósito: encantar.

THE FIGHTER (r. O. Russell)

Repleto de coração e humanidade num filme que fala de força e perseverança (atributos de qualquer bom filme de boxe), este está mais preocupado em focar-se nas pessoas do que no desporto em si. Ainda bem. Não dá para seleccionar só um momento deste filme que mais parece um documentário, tal é o realismo criado nas situações e nas relações. Uma enorme interpretação de Christian Bale, auxiliado por um nobre elenco de grandes actores, proporciona-nos uma das mais interessantes surpresas do ano.

THE GHOST WRITER (r. Polanski)

Como que a mostrar que o mestre do drama, Roman Polanski, está de volta, "The Ghost Writer" é, de longe, o trabalho recente que mais próximo fica das suas obras-primas dos anos 70, como "Chinatown" e "Rosemary's Baby". Uma obra estrategicamente explorada, explorada até à exaustão do mínimo detalhe, com memoráveis e sinistros cenários, que avança de forma intrigante mas excitante para um fim absolutamente tremendo: um último grande acto, uma demonstração do que vinha sendo, desde o início, inevitável: o Fantasma não é mais do que isso, uma sombra, um vulto; tão importante é que facilmente se prescinde dele. E foi isso que Polanski fez.

THE KIDS ARE ALL RIGHT (r. Cholodenko)

Um filme que surpreende pela sua familiaridade, pela generosidade com que aborda os defeitos das nossas complicadas personagens e pela forma fácil como nos proporciona uma agradável e satisfatória resolução emocional ao mesmo tempo que não foge a mostrar-nos quão adversas as circunstâncias da vida podem ser. Um elenco notável, uma realização cuidada e talentosa e uma história intrincada, pessoal e muito divertida. Uma excelente combinação.



THE SOCIAL NETWORK (r. Fincher)

"The Social Network" é, para mim, a epítome de tudo aquilo que um grande filme representa. Nos seus melhores momentos, explora quem somos enquanto pessoas, a forma como nos interrelacionamos e a forma como hoje em dia deixámos a socialização para o meio digital e que explora, particularmente, como o criador desta ferramenta magnífica que nos aproximou dos nossos amigos optou por se afastar dos dele. É um filme que usa a sua curiosidade pela tecnologia para contar uma história nada ou praticamente nada relacionada com o desenvolvimento tecnológico. As suas personagens são diferentes das de qualquer mero filme; não são movidas por um objectivo vulgar, como dinheiro ou vingança ou ganância - o seu objectivo é escapar à mediocridade, ficar na história graças à sua ideia genial, buscar a aceitação do mundo. Isto não seria possível se toda a equipa por trás, do realizador ao argumentista, dos compositores aos editores, não estivesse a trabalhar no topo da sua forma. É, por isso, que "The Social Network" é muito mais do que um simples filme; é um clássico dos tempos modernos, um ensaio exemplar da vida dos nossos dias.

TOY STORY 3 (r. Unkrich)

Em "Toy Story 3", uma história que esteve mais de dez anos em gestação culmina não explosivamente, carregada de grandes efeitos especiais ou através de uma enorme batalha, mas da forma mais perfeita que se poderia esperar: numa expressão perfeita de amor e carinho. O filme coloca os nossos conhecidos heróis em risco atrás de risco, fá-los atravessar a sua própria jornada de sofrimento e dúvida para no fim nos arrancar as entranhas e fazer-nos sentir pena e compaixão de objectos inanimados como estes brinquedos. Nunca pensei sentir-me assim. Nunca pensei que poderia manifestar estes sentimentos para com algo que não é humano; pior - para com algo que não é humano e que está no grande ecrã. Mas sentimos. E choramos. E arrepiamo-nos. E ficamos com um grande buraco no sítio onde o nosso coração costuma estar quando nos temos que despedir para sempre. Woody, Buzz, vocês são eternos. São mais do que brinquedos, mais do que personagens. Fazem o meu coração querer explodir do meu peito. São companheiros na minha jornada, na minha vida, como que a lembrar-me de maravilhosos tempos que já lá vão.

TRUE GRIT (r. irmãos Coen)

Um western puro, bem escrito, bem realizado, bem fotografado e bem editado, como já é apanágio. A juntar a isto, está uma infusão do familiar humor e ironia sarcástica que os irmãos Coen emprestam ao fabuloso romance de Charles Portis, transformando uma história curiosa de perseguição e vingança numa aventura épica ímpar, que nos relembra o quão divertido pode ser um western se bem feito, mas que também nos mostra as verdadeiras consequências de uma disputa sangrenta. Bónus: excelentes interpretações dos protagonistas Jeff Bridges, Matt Damon e Hailee Steinfeld (esta, um belo achado; a ver no que dá a seguir).

WHITE MATERIAL (r. Denis)

Isabelle Huppert como força indomável. Claire Denis, uma das maiores e melhores realizadoras da actualidade, tem de novo em suas mãos um portentoso argumento e espreme-o ao máximo. Não é tão desconcertante como "Beau Travail" ou tão desconfortável como "35 Shots of Rum", contudo é um filme magnífico por si só. Paisagens apaixonantes, mensagem apolítica, enigmática e bizarra película. Mesmo pairando a sensação de perigo eminente e revolução, Isabelle Huppert aí continua, firme, serena e impávida, como se nada a deitasse abaixo. Um filme extraordinário. Uma interpretação prestigiosa.


E agora é com vocês, caros leitores... Que filmes vos impressionaram? Que filmes pensam que deixei escapar? Que filmes acham que não lhes foi dado o merecido valor?