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DIAL P FOR POPCORN

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LEFF: BEASTS OF THE SOUTHERN WILD (2012)


Peço desculpa por só agora me dedicar aos filmes que vi no Lisbon & Estoril Film Festival, mas pronto, espero ainda ir a tempo:



"In a million years, when kids go to school, they're gonna know: once there was a Hushpuppy, and she lived with her daddy in the Bathtub."


Se anseiam por experiências que vos transcendam numa sala de cinema, não procurem mais – “Beasts of the Southern Wild” é o filme que procuram. Uma película única e francamente original, construída parte realismo, parte misticismo, que nos transporta para o mundo inacreditável e surreal de Hushpuppy, uma pequena, mas forte e dura menina do Louisiana, que habita na “Bathtub”, uma comunidade pobre e abandonada na periferia de New Orleans, constantemente afectada por inundações no pós-furacão Katrina. 


Interpretada pela destemida e segura Quvenzhané Wallis, que tinha sete anos na altura de filmagem, Hushpuppy é uma força da natureza, tal a presença sobrenatural e à vontade que a actriz parece sentir no papel. Treinada por todos em seu redor a estar sempre preparada para sobreviver a qualquer eventualidade e para aprender a conviver lado a lado com a Natureza, o primeiro acto do filme, que nos apresenta o dia-a-dia da radiosa Hushpuppy, é de uma beleza quase inarrável, enquanto somos apresentados uma forma diferente de ver o mundo, um mundo praticamente pós-apocalíptico onde as pessoas se contentam com pouco, onde as pessoas fazem tudo umas pelas outras e onde os laços familiares e de amizade são o mais importante, um mundo ainda onde animais pré-históricos surgem em visões da pequena Hushpuppy como que a representar o mundo ainda desconhecido que Hushpuppy tem de enfrentar quando crescer. 


A visão dos aurochs é tão somente uma curiosa forma de ilustrar a forma como as crianças pensam e observam o seu mundo, onde o fantástico é presença comum. A delicadeza com que os argumentistas Benh Zeitlin e Lucy Alibar aliçercam nesta alegoria esta história sobre crescer e aprender a sobreviver e a lutar por si própria impressiona pela fluidez e facilidade com que o real (cada vez mais negro e pesado) e o imaginário (cada vez mais ténue) se encontram. Pelo final do filme, depois de vários obstáculos ultrapassados, Hushpuppy não mais teme os aurochs – pelo contrário, ela olha-os de frente, como que a espantá-los de vez. Hushpuppy está crescida e o fingimento e o mundo de fantasia já não lhe servem de nada – ela não precisa que mais ninguém tome conta dela. 


A juntar à brilhante interpretação de Quvenzhané Wallis, Dwight Henry (pasteleiro de profissão) confere uma presença calorosa, mas firme ao pai de Hushpuppy, Wink. Uma interpretação convincente, que cria uma imagem de um pai justo e duro, mas muito protector e amoroso, que sapiente da sua condição sofrível, esforça-se ao máximo para obrigar Hushpuppy a crescer mais rápido que o previsto. Aliás, o filme está constantemente repleto de personagens assim, coloridas e complexas, nem sempre fáceis de entender, uma delícia de seguir.  A banda sonora éterea e inspiradora assenta na perfeição como pano de fundo para esta preciosa narrativa, a juntar ao excelente trabalho de produção artística, fotografia e realização da equipa de Zeitlin e Cª, que nos ajudam a facilmente mergulhar neste mundo e a fazer parte do espírito indomável da película. 


Se tudo o que disse até agora não vos convenceu, deixo-vos com esta última recomendação: “Beasts of the Southern Wild” é, com todas as suas virtudes e defeitos, um filme singular, quasi-poético, como não haverá nenhum outro este ano – e possivelmente esta década. É uma pena perderem a oportunidade de presenciar algo tão peculiar, genuíno e original. 

Nota Final:
B+

Realização: Benh Zeitlin
Argumento: Lucy Alibar e Behn Zeitlin
Fotografia: Ben Richardson
Banda Sonora: Dan Romer e Benh Zeitlin
Ano: 2012



ARGO (2012)


Baseado numa história verídica, Argo é mais um passo em frente (acertado e bem conseguido) de um cada vez menos imberbe Ben Affleck realizador. Se ainda não foi desta que me fez ter a certeza de que estamos perante um novo e inesperado fenómeno, Argo é sem dúvidas o mais bem conseguido filme do seu historial enquanto realizador e será um marco muito importante na sua carreira. Depois de The Town (onde tivemos demasiado drama e americanização), Argo resulta de um processo de amadurecimento, correcção de erros e aperfeiçoamento de pequenos detalhes.


Mais uma vez como protagonista (numa interpretação francamente interessante), Ben Affleck é Tony Mendez, um solitário e desesperançado agente da CIA, especialista em resgatar americanos dos locais mais inóspitos e perigosos do planeta. Estamos em 1979 e no Irão, uma revolta popular coloca a embaixada americana sobre cerco e instala uma crise mundial. Com a segurança mundial por um fio e dezenas de americanos feitos como reféns, os Estados Unidos enfrentam uma das maiores crises internacionais do pós-guerra. Mas, no meio de todo este dramático acontecimento, seis americanos conseguem escapar do cerco à embaixada e refugiam-se clandestinamente na embaixada canadiana.


Longe dos holofotes do protagonismo, longe do histerismo da comunicação social, os serviços secretos tentam idealizar o resgate possível para os seis americanos. Projectos e ideias absurdas, trazem ao centro da acção Tony Mendez, que se apresenta com um arrojado e inesperado plano: Juntar-se-á aos seis americanos num Irão inflamado pelo ódio aos Estados Unidos e personificará o papel de um produtor que, juntamente com a sua equipa, se encontram no Irão para desenvolver um filme sobre (na época em voga) extra-terrestres.


Num drama em que a intensidade de cada momento prende o espectador ao ecrã, nada parece seguro, nada é garantido. E até ao último segundo do filme existe uma acção, intrínseca a cada personagem, intrínseca a cada cena, que não deixam o espectador relaxar. Ben Affleck e a sua equipa de argumentistas, conseguiram transformar num drama carregado de suspense e emoção, uma história que facilmente pode ser decifrada numa página da Wikipédia. Mas não vale a pena estragar um filme tão bom com um spoiler. Bonito é descobrir na sala de cinema o que aconteceu no Irão há 30 anos. Argo é um dos melhores filmes de 2012.

Nota Final
A-

Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Ben Affleck
Argumento: Chris Terrio
Ano: 2012
Duração: 120 minutos

Novembro, mês da Música (XVI)


No dia em que se celebra a Semana da Música, mais um dos meus compositores favoritos de sempre. Nino Rota pode não ter o virtuosismo de Bernard Herrmann ou a imponência de Ennio Morricone, pode não criar temas inolvidáveis com a facilidade que John Williams o faz e pode não ser tão prolífico quanto Alfred Newman, mas destes todos é o meu favorito (pese o meu amor às parceiras Herrmann/Hitchcock).

"The Godfather" e "8 1/2" são belíssimos exemplos do seu trabalho (e qualquer um deles podia figurar entre as minhas 30 escolhas para o mês), contudo para mim a sua obra mais triunfal é o delicado e subtil orquestramento que criou para banda sonora de "La Dolce Vita".


Grandes Melodias do Ecrã (IV)


Inspirado pela mais recente edição do Ninho de Cucos do nosso caro Gustavo, a minha escolha de Grande Melodia do Ecrã desta semana é uma canção curiosíssima - nomeada (merecidamente) para o Óscar de Melhor Canção de 1999 - de um dos musicais mais arrojados e inovadores do cinema: "South Park: Bigger, Longer, Uncut", dos criadores da famosa série "South Park", Trey Parker e Matt Stone.

É fácil hoje em dia desprezar o trabalho que é feito por estes senhores (tal como Seth MacFarlane ou Matt Groening, só para citar dois exemplos fáceis de associar) todas as semanas na televisão mas não são todos os que se podem gabar de ter no seu currículo uma nomeação aos Óscares, quatro Emmys (por "South Park") e um Grammy e quatro Tonys (por "The Book of Mormon"). Basicamente, só lhes falta o Óscar para vencer todos os principais troféus das grandes indústrias do entretenimento.

Cá vos deixo, então, com "Blame Canada":


Quando a Academia acerta (III)


Uma rubrica destinada a provar que apesar de algumas decisões questionáveis da Academia, o Óscar é, por mérito próprio, o prémio mais cobiçado pelo mundo do cinema. E quando a Academia acerta... Merece palmas também.


Adrien Brody | Vencedor, Melhor Actor 2002 - THE PIANIST

Ainda bem que a Academia não foi na cantiga dos outros prémios e optou por dar o Óscar à interpretação de uma carreira de Adrien Brody. O próprio Nicholson fez campanha contra si próprio ("About Schmidt") e foi pedindo em entrevistas que toda a gente votasse em Brody. A corrida estava ao rubro em início de 2003, com Nicholson e Day-Lewis na frente como claros favoritos (Nicholson levou o Globo de Ouro, Day-Lewis o SAG). Brody surgiu na reta final, com grande campanha do estúdio e de vários colegas - inclusive todos os companheiros de categoria - que fizeram questão de fazer campanha para Brody receber o Óscar. E Brody acabou por vencer, numa das maiores surpresas da cerimónia (a outra foi o Óscar de Melhor Realizador para Roman Polanski, esse que ninguém previu).