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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

BRITISH TV - ALLO ALLO!



Reservei para este mês uma das mais acarinhadas séries da televisão britânica. Foi com surpresa que descobri que ainda não vos tinha falado sobre ela e a sua ausência é uma falha grande nesta crónica sobre o melhor da televisão britânica. Allo Allo reúne muito daquilo em que os Ingleses são bons: a sátira social, mordaz e negra, associada à humilhação permanente aos franceses e alemães, transformam Allo Allo numa série distinta, não só pela sua qualidade como pela sua ousadia. Poucas séries televisivas foram capazes de trabalhar o polémico tema da II Guerra Mundial de uma forma tão criativa e arrojada, criando uma série de culto, que se estendeu por nove temporadas e que ainda hoje deixa saudades.


Conheçam René Artois (Gorden Kaye), a estrela desta série. Um anti-herói, um homem que não pode, em nenhum momento, ser julgado pela sua aparência flácida e desleixada. Ele é o dono de um pequeno café/restaurante na Paris da década de 40, em plena Grande Guerra. O seu café, frequentado essencialmente por alemães, é um tesouro de surpresas. René é casado, mas o seu apetite pelo sexo feminino não se consegue (nunca!) resumir a uma única mulher. René é galã. No seu café, todas as mulheres são suas e todas as mulheres se perdem de amores pelo seu charme. Inteligente, não só para enganar a sua mulher como cada uma das empregadas, René trabalha em segredo com os Franceses e os Ingleses e, aos poucos, transforma o seu café num dos mais importantes focos de espionagem dos Aliados.


O que nos entretém em Allo Allo! é a versatilidade da personagem de René. Imparável, indomável, inigualável. Esta é uma série que merece ser vista lentamente, aos longo de vários meses. Não aconselho o leitor a vê-la de uma só vez. A qualidade de Allo Allo merece ser saboreada, descoberta gradualmente. Porque esta é uma das mais belas obras-primas que os Ingleses alguma vez fizeram. E acaba de se juntar ao nosso clube do British TV.

Vale a pena ver, quem ainda não viu


Vencedor de dois BAFTA a semana passada (Melhor Documentário e Melhor Edição), "SENNA", o filme de Asif Kapadia sobre o extraordinário piloto de Formula 1 Ayrton Senna, já analisado cá no DPFP (aqui), que tem corrido todo o mundo para grande aclamação crítica, chega agora à televisão portuguesa, para que o possa apreciar no belo conforto do seu lar.


29 de Fevereiro, 22.30, TV Cine 4. Eu vou voltar a ver. E vocês?
 

Crítica Dupla: MONEYBALL (2011)

Bem-vindos ao Crítica Dupla, um segmento que fazemos algo irregularmente aqui no Dial P For Popcorn, em que eu e o João nos debruçamos sobre um filme sobre o qual estamos bastante divididos, sobre um filme e a sua sequela, sobre um filme e o seu remake... Bem, penso que já perceberam. O objectivo é proporcionar uma discussão saudável, sem controvérsia, dos méritos do filme (ou dos filmes) de acordo com cada um de nós. Esta semana, o filme em foco é "MONEYBALL", de Bennett Miller, que originou opiniões bastante díspares cá no DPFP.





MONEYBALL, por Jorge Rodrigues:


"MONEYBALL" poderia tentar ser mais um filme sobre o triunfo no desporto, cheio de grandes cenas inspiradoras e elevadoras do espírito humano, que culminaria com uma enorme vitória ou abundante prosperidade ou uma lição de vida aprendida. Os grandes filmes que envolvem desporto (desde "The Fighter" a "Rocky", de "Field of Dreams" a "Remember the Titans") são todos assim. Felizmente, "MONEYBALL" optou simplesmente por ser uma poética homenagem a Billy Beane e aos Oakland Athletics, que independentemente de terem vencido ou perdido, contrariam o ditado que para a história só ficam os vencedores, deixando uma marca indelével, revolucionária, no jogo que tanto amam. Além disso, "MONEYBALL" procura contar ainda uma história mais particular, a da forma como Billy Beane consegue reinventar o jogo que ele era suposto ter dominado, vinte anos antes, e provar a todos que um jogador é mais que um número, é mais que estatística.


Com um diálogo absolutamente vívido e electrizante, igual partes profundo e inteligente - ou não fosse este mais um produto das mãos de Aaron Sorkin, contratado para polir o argumento escrito pelo também Oscarizado Steven Zaillian - que coloca - e bem - o foco não no desporto em si mas nas pessoas que o fazem, com caracterizações muito autênticas que ganham colorida vida nas mãos do talentoso elenco que Bennett Miller tem à disposição, desde um cintilante Philip Seymour Hoffman, uma elegante Robin Wright, uma encantadora Kerris Dorsey, um divertido Jonah Hill e, sobretudo, um extraordinário Brad Pitt, o verdadeiro coração do filme. A auxiliar o poderoso argumento está uma fotografia exemplar de Wally Pfister e uma edição brilhante de Christopher Tellefsen, que condensa o filme de forma exímia, conferindo-lhe um ritmo excitante de seguir. Há que elogiar ainda o trabalho de Bennett Miller ("Capote"), que contribui imenso para o sucesso do filme embora quase não se note, sendo que é nos pequenos detalhes que se nota o seu trabalho. É um trabalho ingrato enquanto realizador, ter que mostrar e não deslumbrar. Mas era o que o filme aqui precisava. E ele cumpriu na perfeição.

Finalmente, toda a gente sabe que Brad Pitt é um dos melhores actores americanos das últimas décadas, arrancando excelentes interpretações de quase todos os seus papéis. Infelizmente, a sua beleza, carisma e a sua fama acabam por ofuscar um pouco o seu talento. Em "MONEYBALL", não há essa preocupação. Despido de quaisquer preconceitos em ser visto como um zé-ninguém (algo que Pitt já não se deve lembrar de ser, dado o seu estatuto de mega-celebridade) derrotado pela vida, o seu Billy Beane sabe, melhor do que ninguém, o risco que corre ao apostar em Peter Brand (Hill), que nunca sequer praticou basebol na vida, para ajudá-lo a dar a volta à injustiça que é o jogo, contratando jogadores que nenhuma equipa queria e, através de um sofisticado sistema estatístico, ganhar pontos através de habilidades particulares que cada jogador tem. Estas decisões controversas e polémicas garantem-lhes a fúria de todos, incluindo a sua equipa de observadores, os comentadores de televisão e da rádio e o treinador, Art Howe (Hoffman), um homem da velha guarda. Pitt desaparece no papel - em 2011 fê-lo novamente noutro papel, em "The Tree of Life" - conferindo a Billy Beane uma graciosidade, um genuíno e humano sentido de estar na vida que é incomum nas suas outras interpretações. Este Billy Beane é uma criação completa, cheia de alma, força e coração (reunindo todas as qualidades de Brad Pitt enquanto actor num só indivíduo).


Um filme tão irreverente como o seu protagonista, "MONEYBALL" não busca respostas, nem procura fazer o espectador sentir-se melhor pessoa por ter visto o filme. Não é um filme com um final feliz. É um filme com um final real. Billy Beane seguiu o seu instinto - aquela palavra que tanto o perturbava inicialmente - como se soubesse que esta revolucionária mudança que estava a tentar implementar fosse realmente a sua última oportunidade de glória. O seu sucesso não foi total - não conseguiu mudar a face do jogo para sempre. Ainda assim, provou que com pouco se pode fazer muito, transformando a sua equipa, das mais pobres da Liga, numa força a ter em conta pelas equipas ricas, basicamente ignorando tudo aquilo que até então lhe tinham ensinado sobre o jogo e as suas regras. Um filme a espaços emocionante, a espaços reflexivo, meditativo, "MONEYBALL" foi uma das boas surpresas do ano, rico, substancial e profundo, a história de um homem imperfeito que só agora descobre finalmente o seu rumo. Mais vale tarde que nunca.



Nota Final:
A-

MONEYBALL, por João Samuel Neves:



Previsível e entediante. Assim é "MONEYBALL". Provavelmente fazendo justiça ao desporto que representa (o basebol) onde só quem gosta percebe o sentido do jogo e saboreia cada um dos seus demorados momentos (desde os preparativos às jogadas propriamente ditas). Podia pontuá-lo com uma nota pior, sem dúvida, mas há pontos positivos que vale a pena ressalvar e que merecem ser tidos em conta. Desde logo, o ambiente do filme. Foi aquilo de que mais gostei e o que me permitiu aguentar o filme até ao seu final. Sente-se a excitação e a intensidade de quem é amante deste desporto. Percebe-se porque é que o desporto é pensado e encarado com enorme responsabilidade e profissionalismo, dá-nos um cheirinho do trabalho hercúleo de gestão e organização de um equipa de alto nível. Coloca-nos dentro da acção e junto dos seus protagonistas.


Desse ponto de vista, "MONEYBALL" é um bom filme. Tem também boas interpretações, com Brad Pitt e (especialmente) Jonah Hill que apimentam a história e lhe dão mais alegria, vida e realismo. Mas depois tem alguns aspectos menos positivos. É tremendamente previsível. É possível perceber-se, desde os primeiros 10 minutos, aquilo que será o filme. E isso, para mim, é algo muito negativo, em especial num filme sobre desporto, em que a emoção e a imprevisiblidade nos alimentam até ao clímax final. A própria história em si (um manager de uma equipa com dificuldades que consegue, graças a um inovador esquema informático, revolucionar a forma como se encara e pensa o jogo) é algo que cativa pouco quem não gostar realmente deste jogo. No final, "MONEYBALL" é um filme jeitoso de 2011. Mas não vai entrar no meu top-10. Nem sequer no meu top-20. 


Nota Final:
C
  


Informação Adicional:

Ano: 2011
Realizador: Bennett Miller
Argumento: Steven Zaillian, Aaron Sorkin
Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Chris Pratt, Robin Wright, Philip Seymour Hoffman
Banda Sonora: Mychael Danna
Fotografia: Wally Pfister

 

THE IRON LADY (2011)


"It used to be about trying to do something. Now it's about trying to be someone."

Duvido que em 2011 exista alguma interpretação deste nível. Meryl Streep é, sem dúvidas, para muitos dos amantes do cinema, uma das mais carismáticas e completas actrizes da história do cinema. É difícil sair-se mal e é frequente vê-la a ser brilhante. Num mundo justo, esta seria a interpretação vencedora da estatueta dourada para Melhor Actriz. É arrebatador o seu trabalho.



Quanto ao filme, a história é outra. Saiu mal. A intenção foi a melhor (percebe-se isso, pela forma cuidada como se envolve a atmosfera à volta da personagem de Meryl Streep) mas não era assim que o filme deveria ter sido reproduzido. Está tudo errado infelizmente. Pegou-se numa Margaret Thatcher decadente, decrepita, senil e completamente acabada e, a espaços, foi-se reconstruíndo o seu passado, sem lógica e praticamente sem qualquer critério. Para os mais desatentos, The Iron Lady, um filme que tinha tudo para nos contar uma história apaixonante, inspiradora e emotiva, transforma-se num filme cansativo, pachorrento e maçador. Não existe o enorme sentimento de glória, confiança e carisma que se viu na mulher que liderou uma nação. Não é transmitida a sua verdadeira história, não é transmitido o carisma e a força desta mulher de ferro.



Foi pena terem entregue este projecto a Phyllida Lloyd. Margaret Thatcher, a Grã-Bertanha, a interpretação de Meryl Streep mereciam algo melhor. Algo muito melhor. Mereciam, pelo menos, um filme que acompanhasse a qualidade da interpretação da maior diva viva do cinema. Em The Iron Lady, há muita Meryl Streep para tão pouco cinema.


Nota Final:
D+



Trailer:





Informação Adicional:
Realização: Phyllida Lloyd
Argumento: Abi Morgan
Ano: 2011
Duração: 105 minutos.










THE ARTIST (2011)



"Look at what you've become."


Nostalgia. Um sentimento tão familiar e genuíno, igual parte agradável e desconcertante, inerente à realidade humana. Um sentimento que parece ter estado bastante patente ao longo do cinema de 2011, de "Hugo" a "Midnight in Paris", e que parece encontrar o seu expoente máximo em "THE ARTIST". É uma pena que se tenha tentado fazer de "The Artist" a obra-prima que ele não é, que se tenham criado expectativas ridiculamente altas em torno do filme para, no fim, estas saírem defraudadas e se passar a odiar, de forma também exagerada, um filme que mais não quer do que mostrar o quanto está apaixonado e nos quer apaixonar por outra era, por outro tipo de cinema. É um filme enamorado consigo próprio e, nos seus melhores momentos, enamorado com o próprio cinema a que faz homenagem. Infortunadamente, é também um filme incrivelmente previsível e abundante em redundância que o torna, de facto, um mau espécime para servir de porta-estandarte ao ano da celebração do cinema clássico por excelência.  


Filmado integralmente a preto e branco e quase inteiramente mudo, "The Artist" abre inteligentemente com a instrução "Please be silent behind the screen", nos bastidores do cinema onde está a decorrer a exibição inaugural da nova película de George Valentin (Jean Dujardin), "A Russian Affair". Minutos de tensão e suspense seguem o final da projecção, seguidos de alívio e congratulações ao escutar tão estrondoso aplauso. Este tipo de piada subliminar repetir-se-á ao longo de todo o filme, com maior sucesso numas ocasiões que noutras, mas nunca correndo o risco de exagerar.


A história de "The Artist" segue a linha de "A Star is Born" e, em menor grau, de "Sunset Boulevard", com o grande actor da era silenciosa a cair em desgraça com o advento dos filmes falados, ao mesmo tempo que a naïve estreante que outrora ele ajudou no princípio de carreira ascende na hierarquia da fama. Num primeiro encontro epicamente romântico, Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma apaixonada pelo cinema, vê o seu sonho tornar-se realidade ao transformar-se numa sensação da noite para o dia depois de surgir abraçada ao seu ídolo George Valentin numa foto de jornal. Atraente, divertida e cheia de potencial, daí ao estrelato foi um passo e, de um dia para o outro, a sua carreira sobe estratosfericamente, enquanto a de Valentin, que se recusa a acreditar que a forma de arte que lhe era tão querida esteja a desaparecer, declina. A melhor comparação que vi fazer a este filme, na verdade, foi com outro nostálgico filme sobre um homem que se vê subitamente ultrapassado e que passivamente aceita que a sua arte, outrora tão apreciada, seja hoje descartada por uma indústria - e um mundo - em constante evolução: o belíssimo "L'Illusioniste", de Sylvain Chomet. Ambos se servem de um personagem que diz com uma expressão tanto ou mais do que o que diria se pudesse falar. Ambos os filmes acabam por dolorosamente aceitar o destino do seu protagonista. 


Que em "The Artist" este semblante de auto-comiseração resulte tão bem se deve a Jean Dujardin numa cintilante interpretação. Dujardin fornece a Valentin uma dose bem reforçada de magnetismo, magia e carisma mas também de vulnerabilidade e sensibilidade que o tornam impossível de resistir. Bejo, muito criticada pela fraca dimensão da sua personagem e pelo pouco esforço requerido, foi para mim uma revelação: a meu ver, o filme não funcionaria tão bem se Peppy não fosse o vulcão de positivismo e simpatia que é. E é preciso uma actriz incrivelmente convincente nesse papel para em poucos minutos criar empatia suficiente para querermos que esta seja bem sucedida e não a amaldiçoarmos pelo destino de Valentin.


Um cinéfilo inveterado e um mestre da pastiche, Hazanavicius sente-se em casa neste tipo de filmes, como o mostra a sua fascinante direcção, carregada de criatividade, inspiração e audácia. Hazanavicius nunca deixa o seu filme-dentro-de-um-filme alcançar a promessa das cenas iniciais, com o seu incapaz argumento a deixá-lo ficar mal na segunda metade do filme, em que a inovadora e calorosa auto-reflexão crítica a que se propõe é trocada por uns bem conseguidos momentos de sentimentalismo que o filme, entretanto, fez por merecer.


Emotivo e enternecedor, infecciosamente alegre, "The Artist" merece ser celebrado, mais não seja porque, talvez sem o próprio filme se aperceber disso, procura replicar no espectador de hoje, de forma incrivelmente astuta, a reacção que o espectador dos anos 20 deverá ter tido quando, ao fim de tanto tempo sem som, os filmes decidiram finalmente ganhar voz. Um pormenor que hoje em dia pode parecer insignificante, mas que depois de mais de hora e meia privado de som, faz toda a diferença. Se "The Artist" fosse somente um exercício estético redundante de imitação, de simulacro cinematográfico, carregado de clichés e inconsequência, seria ainda assim um maravilhosamente belo e bem executado. Como é, ao som da esplêndida banda sonora de Ludovic Bource, que literalmente tece o pano de fundo do filme (e sem a qual este não subsistia), "The Artist" é uma visão luminosa, entusiasmante e positiva sobre a evolução no cinema, na arte, na vida. Mais deslumbrado que deslumbrante (como bem relembra o Flávio Gonçalves na sua crítica ao filme), concordo, até porque o considero irremediavelmente demasiado elogiado; um enorme e sincero prazer, de qualquer forma.


Nota Final:
B+

Informação Adicional:
Ano: 2011
Realizador: Michel Hazanavicius
Argumento: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, Missi Pyle, James Cromwell, John Goodman, Penelope Ann Miller
Banda Sonora: Ludovic Bource
Fotografia: Guillaume Schiffman
Duração: 100 minutos

THE MUPPETS (2011)





Vai ser complicado falar deste filme sem me empolgar. Foi sem dúvida um dos momentos mais agradáveis que já tive numa sala de cinema. Os Marretas é um filme espectacular! Resume-se numa palavra. Espectacular. Do início, ao final (incluindo os créditos!).



Começamos pelo princípio. Walter é um boneco. Gary (Jason Segel) um jovem. Crescem e vivem como dois irmãos. São os melhores amigos, inseparáveis e companheiros para todos os momentos e aventuras. Partilham, entre outros, uma enorme admiração pela série infantil Os Marretas, um hábito e um interesse que cultivaram durante todo o seu crescimento. Quando Gary decide fazer uma viagem romântica com a sua noiva Mary (Amy Adams), não resiste em convidar o seu eterno amigo. Juntos visitam os antigos estúdios onde a sua série favorita foi gravada e rapidamente Walter percebe que algo de errado se passa com o local que produziu toda a magia que durante tantos anos o maravilhou.


O plano maquiavélico do magnata Tex Richman, que pretende transformar os velhos estúdios numa lucrativa exploração de petróleo é o ponto de partida para uma aventura incrível. Walter decide visitar o Sapo Cocas e convence-o a reunir toda a equipa dos Marretas e juntos trabalham na organização de um mega espectáculo que lhes permita reunir o dinheiro suficiente para recuperarem os velhos estúdios e garantirem que os sonhos e as ilusões dos seus fans para sempre terão um local de culto, onde a realidade se misturará com a ficção.


Inteligentíssimo, feito para enternecer miúdos e graúdos, com uma base muito sólida e construído com muita inteligência (é perfeitamente compreensível para qualquer pessoa que nunca tenha visto qualquer episódio das séries originais, graças ao enorme trabalho de selecção de cenas-chave, que definem e caracterizam cada um dos bonecos da série), Os Marretas é um filme para o qual todos os adjectivos serão brandos. Divertido, hilariante e completamente imprevisível. É rir do princípio ao fim, literalmente. Que fantástico argumento aqui está. E uma banda-sonora tão cativante e viciante, que ainda hoje a ouço com imenso prazer.


Uma óptima escolha para ver em família, com a namorada ou com os amigos. Os Marretas é um dos meus filmes favoritos deste ano.



Nota Final:
A
-



Trailer:





Informação Adicional:
Realização: James Bobin
Argumento: Jason Segel e Nicholas Stoller
Ano: 2011
Duração: 103 minutos

WARRIOR (2011)




Warrior. Título, Poster e Descrição: Foleiros. Mas desenganem-se os mais cépticos. Aqui há filme! E uma das mais agradáveis surpresas deste ano. E há também uma interpretação estupenda: Nick Nolte, enche o ecrã e o filme e deixa-nos a prova de que é possível fazer uma grande interpretação com um pequeno papel.


Warrior é um filme destinado, principalmente, aos fans dos filmes de acção. Mas chama por todos nós. A história trágica da família Colon, onde um pai alcoólico e irresponsável (Nick Nolte) leva à separação precoce de dois irmãos. Brendan (Joel Edgerton), o mais velho, fica com o pai. Tommy (Tom Hardy) acompanha a debilitada mãe, que acaba por morrer anos depois da separação, vítima da angústia e dos maus tratos que sofreu durante o casamento. Separados durante largos anos, Tommy decide um dia voltar a Pittsburgh, a casa do pai, não para o perdoar, mas para lhe pedir que o treine e o prepare para o mais lendário dos torneios MMA de sempre: uma luta mundial, que envolverá os dezasseis melhores lutadores do mundo e cujo prémio final serão uns aliciantes cinco milhões de dólares.


Desconhecendo por completo tudo isto, e de relações cortadas com o seu pai, Brendan vive uma tranquilamente como professor de física. É casado, tem duas filhas que ama e uma vida feliz. Até que a renda da sua casa aumenta bruscamente e Brendan se vê obrigado a regressar aos combates de luta livre e a um passado de lutador profissional que jurou nunca mais abraçar. Contra a resistência da sua esposa (Jennifer Morrison), Brendan volta ao ginásio e arrisca a sua sorte no lendário torneio de MMA. O reencontro é inevitável.



Warrior é surpreendente. Em tudo. Na intensidade e realismo das suas cenas. No profissionalismo dos seus actores. Na interpretação fantástica de Nick Nolte. Na edição e enquadramento de cada momento e de cada cena. Warrior não é só mais um filme. Warrior é um dos melhores filmes de 2011.

Nota Final:
B+



Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Gavin O'Connor
Argumento: Gavin O'Connor, Cliff Dorfman e Anthony Tambakis
Duração: 140 minutos
Ano: 2011








Moore. Harris. Kidman. Owen. HBO em 2012.

Vamos ter batalha aguerrida pelos Emmys na categoria de telefilme este ano, com a HBO a trazer-nos televisão prestigiante uma vez mais aos nossos ecrãs em 2012: 


Nicole Kidman e Clive Owen são Martha Gellhorn e Ernest Hemingway em "Hemingway & Gellhorn", realizado por Philip Kaufman. A eles se junta um elenco composto por Parker Posey, Robert Duvall, David Strathairn, Tony Shalhoub, Connie Nielsen e Molly Parker, entre outros.




Já Julianne Moore encarna Sarah Palin no novo telefilme de Jay Roach ("Recount"), "Game Change", que acompanha os altos e baixos da campanha eleitoral de 2008. Mas Julianne Moore não é a única grande estrela do elenco, pois em "Game Change" também participam nomes como Ed Harris (como o Senador John McCain), Woody Harrelson, Sarah Paulson, Ron Livingston e Peter MacNicol.



E não esqueçamos ainda isto, acabado de estrear na HBO:



Caso para dizer: a HBO mima-nos demais. E agora pergunto: quem das duas enormes actrizes vocês acreditam que leve o Emmy para casa, seguindo os passos de Kate Winslet?

THE DESCENDANTS (2011)



"Paradise? Paradise can go fuck itself."


"Citizen Ruth". "Election". "About Schmidt". "Sideways". Este é o pesado legado que "The Descendants" teria de enfrentar e, como é óbvio, era impossível que fosse corresponder às expectativas de alguém que tem Alexander Payne em elevadíssima consideração e que toma todos os seus filmes como quase perfeitos no conceito e na execução.

"THE DESCENDANTS" conserva, ainda assim, alguns dos toques mágicos de Payne, saindo-se bastante bem com o local escolhido para a rodagem do filme (fotografia excepcional de Phedon Papamichael), com lindas e exóticas planícies havaianas, impacto auxiliado por uma banda sonora absolutamente inspirada que nos transporta facilmente para o ambiente acolhedor, pacato, quente dos trópicos. As interpretações são também bastante sólidas, se bem que estereotipadas: a personagem de Shailene Woodley nunca consegue soar a honesta ou genuína, a personagem de George Clooney tem graves problemas de caracterização - e, por muito que eu admire a qualidade e o talento de Clooney, resta-me sonhar com o que seria esse papel com um actor diferente, porque estou francamente farto que Clooney empreste fragmentos da sua verdadeira personalidade fora dos ecrãs aos filmes que faz - e mesmo Judy Greer tem de emprestar credibilidade a um dos piores personagens secundários que há memória este ano em filmes candidatos aos Óscares.


O problema principal do filme reside no seu argumento, uma pálida comparação em relação aos anteriores filmes de Payne: um argumento confuso, que não sabe bem o que quer, que nem é inteligente nem emocionante, que soa mais a pretensioso do que a autêntico, que transforma quase todas as personagens em indivíduos unidimensionais terrivelmente irritantes e insuportáveis, que espuma falsidade e procura, em vão, um equilíbrio (inexistente) entre o melodrama e a comédia. Preza-se - merecidamente, diga-se - Payne por criar situações e problemas intelectualmente estimulantes dos eventos mais banais do nosso dia-a-dia e com isso construir filmes dotados de razão e empatia, comédias para adultos que sabem conservar bem o toque dramático para deixar uma impressão final memorável do filme.


Em vez disto, em "The Descendants", o que temos é uma rábula de um homem de meia-idade - Matt King (Clooney) - em crise depois de ser informado que a sua mulher, em coma, será desligada das máquinas e que é obrigado a lidar com os diversos membros da família e providenciar suporte, de várias formas, a todos. Pelo meio, descobre a infidelidade da mulher através da filha mais velha, Alex (Woodley) e parte em busca do paradeiro do homem com quem a mulher o traiu, Brian Speer (Matthew Lillard), com a família toda atrás - a filha mais nova, Scotty (Amara Miller) e o abominável namorado da filha mais velha, Sid (Nick Krause). Consequentemente, arrasta para a confusão a mulher de Speer, Julie (Greer), tudo isto enquanto tenta resolver um negócio que tornará a sua família milionária.



A começar pela inglória e horrorosa narração de Clooney que empresta ao filme, logo nos minutos iniciais, toques de falsa emoção, continuando com o diálogo enfadonho e exageradamente melancólico ou irónico, consoante o caso, com personagens mal escritas que não parecem nunca pessoas verdadeiras, com problemas reais com os quais seja fácil criarmos empatia e familiaridade, com uma história que decide que o seu impacto emocional deve residir no desvendar da infidelidade e na forma como Matt lida com a situação, sem nunca nos dar qualquer hipótese de perceber como era o relacionamento dele com a mulher antes do coma, portanto nunca proporcionando forma de o espectador investir nessa relação, esperando somente que simpatize com o protagonista quando este, numa das últimas cenas, chora ao despedir-se da mulher e terminando na tentativa ridícula de santificação do protagonista ao longo de todo o filme através desta jornada de suposta auto-realização, luto e convalescença que este atravessa, nunca perdendo uma oportunidade de apontar todos os erros que a mulher cometeu mas esquecendo-se que na narração inicial Matt é o primeiro a admitir que cometeu muitos erros no seu casamento.


É realmente um testemunho à qualidade de Clooney como actor que ele saia deste filme intocável e com a melhor interpretação da carreira, cheia de nuance e personalidade, mesmo que não resista em imprimir o seu cunho pessoal na personagem (à semelhança do que fez em "Michael Clayton", "Up in the Air", "The Ides of March", "Ocean's Eleven" e muitas outras das suas personagens Clooneyescas), finalmente mostrando mais abertura e complexidade emocional do que é costume. Shailene Woodley deixou-me de água na boca, pois está muito bem, trazendo mais ao filme do que a sua personagem merecia, tal como Judy Greer, da qual sou enorme admirador há muitos anos (desde "15 Going on 30"), que arrasa a sua grande cena. Robert Forster e Nick Krause cumprem eximiamente os seus papéis de antagonistas do filme, um como o inexorável adolescente idiota e desbocado e outro como o velhote reformado, teimoso e de língua afiada.


Apesar de tudo, tal como o outro produto de George Clooney deste ano ("The Ides of March"), "THE DESCENDANTS" tem muito a recomendar. É um filme modesto e generoso sobre a fragmentação da família, sobre o valor do amor fraterno e paternal, sobre a forma como reagimos às adversidades na vida. É, no fundo, uma celebração da nossa humanidade, dos nossos erros e imperfeições. Se bem que as falhas o deixam, no fundo, saber a pouco, é um filme que em nada compromete a excelente carreira de Alexander Payne, um filme com alguns bons momentos e que, mais não seja, proporciona uma simpática sessão de cinema a quem o for ver.



Nota Final:
B-/C+

Informação Adicional:
Realização: Alexander Payne
Argumento: Jim Rash, Alexander Payne, Nat Faxon
Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Judy Greer, Robert Forster, Beau Bridges, Matthew Lillard, Amara Miller, Nick Krause
Ano: 2011