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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

50/50 (2011)


"A Tumor? Me? That doesn't make any sense though. I mean... I don't smoke, I don't drink... I recycle..."


Acabado de sair da sala de cinema, posso-vos dizer que gostei muito, diverti-me imenso e fiquei surpreendido com a qualidade cinematográfica de 50/50. Vamos por partes então.

Joseph Gordon-Levitt, no papel de Adam, interpreta o jovem querido e adorável que derrete o coração das espectadoras do sexo feminino. É impossível não apreciar a qualidade deste jovem actor, a consolidar a sua carreira já com uma mão cheia de papéis cativantes e muito bem recebidos pelo público. Adam, um jovem de vinte e sete anos que trabalha como jornalista numa rádio de Seattle, descobre que sofre de um raro cancro das células de Schwann, maligno e muito invasivo, que coloca a sua vida em risco. Decidido a curar-se, começa os tratamentos de quimioterapia, primeiro passo para a sua reabilitação.


Apoia-se no seu grande amigo Kyle, papel interpretado por Seth Rogen, do qual é impossível perceber o limite onde acaba a personagem e começa o actor. Ele nasceu para fazer o papel do tipo relaxado, consumidor de drogas leves e admirador do sexo feminino. Porque isso foi a imagem que Seth Rogen tão bem criou e cultivou em Hollywood. E neste papel, ele é garantidamente o melhor do mercado americano. Juntos, com a ajuda da terapeuta Katherine (Anna Kendrick), formam um elenco extremamente simpático e empático, do qual se gosta naturalmente.


50/50 é um filme feito para o grande público (ok, concordo que exista um certo limite para a sensibilidade e a capacidade de encaixe das piadas mais mórbidas e negras do filme, o que pode criar uma certa tensão numa sala onde os risos de uns se confundem com a indignação de outros), é um filme que vale mesmo a pena ver, que diverte e alegra o espectador, que transmite uma mensagem forte de uma forma tão natural quanto inteligente, com uma banda-sonora muito bem escolhida e um ambiente feliz. 50/50 é daqueles que se pode ver vezes sem conta. E que a televisão vai explorar até ao último cêntimo.

Nota Final:
B+



Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Jonathan Levine
Argumento: Will Reiser
Ano: 2011
Duração: 100 minutos

SECRETS AND LIES (1996)



"Life isn't fair then is it. Somebody always draws the short straw. "


São poucas, pouquíssimas, as pessoas que no cinema se podem gabar de saber contar uma história de forma tão realista, despretensiosa, (direi até) humanista, quanto Mike Leigh. Ele é um mestre quando nos fala sobre nós, sobre a nossa/sua sociedade, sobre as relações humanas, sobre as filosofias da vida. E é delicioso, fantástico e absolutamente comovente ver um filme com uma carga emocional como a de Secrets and Lies (tal como aconteceu com um dos melhores filmes de 2010, o super aclamado Another Year).


Porque o dinheiro empobrece o espírito das pessoas, corrói relações de carinho e amor, embrutece e estupidifica os mais vulneráveis, Mike Leigh resolveu falar-nos sobre ele. E sobre os efeitos catastróficos que a ganância e a inveja podem ter num ambiente familiar, já de si, pouco saudável. Falo-vos de Cynthia (Brenda Blethyn - Fantástica actriz, numa Fantástica Interpretação), mãe solteira de Roxanne, uma caprichosa, insurrecta e desconcertante jovem de dezoito anos, em completa ruptura com a sua mãe, cuja vida se limita aos cigarros que engole enquanto, sentada na poltrona da sala, espera a chegada do seu namorado. Cynthia tem uma vida triste, cinzenta, desoladora.


Até que a sua vida ganha uma nova e inesperada alegria. Hortense Cumberbatch (Marianne Jean-Baptiste) contacta-a e informa-a de que é sua filha. Cynthia, reprimindo o choque inicial (e recordando os dias em que se viu obrigada a entregar Marianne para adopção), aproxima-se da sua filha e, aos poucos, entrega-se a um carinho, a um amor e a uma alegria que nunca antes conheceu. Não posso terminar, sem vos falar de Maurice (Timothy Spall), irmão de Cynthia, que vive um casamento feliz com Monica (Phyllis Logan) e interpreta a única personagem mental e emocionalmente saudável deste filme. Maurice é um homem forte (em todos os sentidos) e é dele que partem as desesperadas tentativas de criar uma harmonia entre todos, é ele que tenta compreender os problemas da família, é ele quem coloca os outros à frente de si mesmo, e a sua alegria consegue contagiar, com facilidade, a empatia do espectador.


Tudo isto nos é contado como se se passasse na porta ao lado da nossa casa. Não há super-heróis. Não há mulheres bombásticas. Não há felizes acasos. Há vidas, tão reais, tão humanas, que não as conseguimos separar do mundo que nos rodeia.


Nota Final:
A-


Trailer:

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Informação Adicional:
Realização: Mike Leigh
Argumento: Mike Leigh
Ano: 1996
Duração: 142 minutos

Sons da Minha Vida: Melodias que marcam


Um dos mais galardoados compositores de sempre (só atrás de Alfred Newman, com oito vitórias) e actualmente a pessoa viva com maior número de estatuetas e nomeações (só Walt Disney tem mais nomeações que ele), o quase octogenário John Williams pode estar a preparar-se para receber este ano o seu sexto Óscar, quarenta anos depois de ter vencido o seu primeiro.


Foi em 1972 que John Williams foi apadrinhado pela Academia das Artes Cinematográficas pela sua belíssima banda sonora para o sucesso de 1971, "Fiddler on the Roof", numa altura em que ainda existiam duas categorias para bandas sonoras.



Foi então à sua quarta nomeação. John Williams faria a proeza de ser nomeado em todos os anos da década de 70 à excepção de 1971 e 1977, garantindo um número recorde de onze nomeações e duas vitórias, esta por "Fiddler on the Roof" e a primeira pela sua famosa colaboração com Steven Spielberg, por "Jaws" em 1976, e com George Lucas, por "Star Wars" em 1978 (aqui).


 

Estas duas bandas sonoras marcam a revolução da era moderna do uso da música nos filmes e fariam de John Williams imortal na memória de todos os cineastas e cinéfilos. Vence de novo em 1983 por colaborar com Spielberg em "E.T.", com mais uma banda sonora marcante e facilmente identificável (a sua imagem de marca) e, tal como Spielberg, teria de esperar mais dez anos para voltar a vencer, com "Schindler's List" em 1994. Pelo meio criou ainda mais duas brilhantes bandas sonoras também elas impregnadas na memória global, para a franchise "Indiana Jones" e "Jurassic Park". Em 2001 seria apresentado a uma nova geração de pequenos espectadores de cinema ao criar a clássica "Hedwig's Theme" da saga "Harry Potter".


2006 marca o último ano em que John Williams surgiu nos Óscares, duplamente nomeado por "Memoirs of a Geisha" and "Munich" (nova colaboração com Spielberg), perdendo pelas duas - Gustavo Santaolalla venceu por "Brokeback Mountain". Curiosamente, num ano em que Spielberg volta em grande aos épicos de aventura que tanta fama lhe trouxeram no início de carreira, também este seu grande colaborador, a entrar na casa dos 80 anos, volta jovialmente a dedicar-se aos grandes épicos.


Este ano traz-nos "The Adventures of Tintin" (já estreado em salas portuguesas) e "War Horse". Dois filmes grandes no sentido da palavra e da expectativa, um épico de aventura e um épico de guerra, um mais cómico e bem-humorado, o outro mais sério e dramático. Em ambos, Williams está muito bem. E não esqueçamos o grande projecto de Spielberg de 2012, para o qual Williams também fornece a música, "Lincoln".





Um compositor inolvidável por tudo o que significa para a história do cinema, o compositor mais reconhecido em todo o mundo pelas seus trechos facilmente reconhecíveis, embebidos na cultura popular das últimas décadas, o homem que treinou com o mestre Bernard Herrmann, que consegue variar sem qualquer esforço de peças fortes, barulhentas e poderosas para épicos de ficção científica e filmes de aventura para uma melodia mais suave, subtil, leve e mágica como aquela que serve de pano de fundo aos melhores dramas com assinatura de Spielberg (e não só), John Williams deixa um legado ímpar que importa preservar.

Tribute to John Williams, Steven Spielberg and George Lucas from whoispablo on Vimeo.

Agora vocês: vêem John Williams regressar aos Óscares este ano? Se sim, por qual (quais) das bandas sonoras?


Que dizer de Vivien Leigh?


Vivien Leigh é uma actriz muito especial. Não teve uma grande carreira (leia-se em volume, não em dimensão, claro está), não foi uma actriz convencional, mas quando estava inspirada, meu Deus, ela era brilhante. Vivien Leigh viveu durante 53 anos, sofreu imenso com a sua doença bipolar, com um casamento tempestuoso com o temperamental e polígamo Laurence Olivier e padeceu de tuberculose durante a última década da sua vida. A juntar a tudo isto há o facto de apesar de ter dois merecidíssimos Óscares por duas brilhantes interpretações e ser admirada pelo grande público da altura, nunca foi inteiramente amada pela crítica e nunca foi respeitada como uma actriz séria nos bastidores de Hollywood, sendo sempre rotulada como actriz de difícil feitio e complicada para se trabalhar. Uma actriz bastante versátil, como o demonstram as suas múltiplas aparições no teatro - uma delas viria a conferir-lhe a oportunidade de representar o segundo grande papel da sua vida na grande tela, em detrimento da actriz americana que desempenhou o papel na Broadway (Jessica Tandy) - e de uma beleza ímpar, é uma pena que Leigh tenha tido tantos obstáculos a opor-se à sua enorme qualidade enquanto actriz.


Como seu legado, Vivien Leigh deixou-nos dois papéis inseparáveis da história do cinema em si e duas interpretações de tal gabarito que a colocam logo nos lugares cimeiros do panteão do cinema: Scarlett O'Hara em "Gone With The Wind", o filme mais famoso de todo o sempre e Blanche DuBois em "A Streetcar Named Desire" (crítica do DPFP aqui).

Disse eu de Leigh em "A Streetcar Named Desire":

"Que Vivien Leigh tenha sido tão bem sucedida no papel (ainda para mais porque era a única dos quatro principais que não tinha ligação com o espectáculo na Broadway, tendo substituído Jessica Tandy na transformação da peça em filme) diz muito da sua verdadeira qualidade como actriz. Vivien incorpora a sua Blanche de tanta falsa felicidade (as cenas com Mitch (Karl Malden) são uma delícia, tal é  o desvario da sua cabeça), de tanta necessidade e urgência e desejo, balanceando-o com o graciosidade, charme e delicadeza, enquanto nos proporciona uma visão priveligiada da sua dor, da sua psique, que é fenomenal observar a sua abordagem muito única às suas personagens."



Hoje, 5 de Novembro, Vivien Leigh faria 98 anos e eu não posso deixar de pensar de quanto fomos nós privados por perdemos Leigh tão cedo (ela faleceu aos 53 anos). Quem dá duas interpretações assim ao mundo demonstra ter algo que pouquíssimas actrizes possuem: um potencial e um talento tremendo. É uma pena não ter surgido mais vezes e uma maior pena ainda ter desaparecido tão cedo.

Remember, remember, the 5th of November



"More than four hundred years ago a great citizen wished to embed the fifth of November forever in our memory. His hope was to remind the world that fairness, justice, and freedom are more than words, they are perspectives. So if you've seen nothing, if the crimes of this government remain unknown to you then I would suggest you allow the fifth of November to pass unmarked. But if you see what I see, if you feel as I feel, and if you would seek as I seek, then I ask you to stand beside me one year from tonight, outside the gates of Parliament, and together we shall give them a fifth of November that shall never, ever be forgot."

"V for Vendetta" (2006)


Como recriar algo perfeito?



Aparentemente Courteney Cox e David Arquette, que embora separados mantêm negócios juntos através da sua produtora Coquette, responsável por "Cougar Town", venderam um projecto-piloto de comédia sobre os altos e baixos de um grupo de amigos na casa dos trinta e que acompanha uma década das suas vidas, abordando as suas relações profissionais e pessoais e as interacções entre os diferentes membros do grupo, cada um peculiar à sua maneira. O projecto, intitulado provisoriamente "10 Years", foi adquirido pela NBC. Resta perguntar: tudo isto não vos soa a familiar?

E, já agora, resta dizer: não dá para repetir a magia do original. Nem vale a pena tentar.


Se alguém quiser uma série descontraída sobre um grupo de amigos fora do comum, sugiro que tentem esta: "Happy Endings". Não tem uma qualidade ao nível de "30 Rock" ou de "Modern Family" mas se o que querem é algo leve para se rirem um pouco, esta é a vossa melhor aposta. Renovada hoje para uma temporada inteira pela ABC.



E o red band trailer da 2ª temporada AQUI.

Entretanto, Cox e Arquette venderam mais uma das suas grandes apostas à ABC: de título provisório "Skinny Girl", trata-se de uma comédia sobre uma rapariga gorda que decide perder peso, tarefa essa que parece impossível dado o facto de trabalhar numa diner onde comidas gordurosas são o prato mais pedido. Acho muito bem que o ex-casal se dê muito bem e que a sua empresa esteja a florescer, mas no fim de contas, acho que é imperial dizer agora:

O que eu quero mesmo é que volte COUGAR TOWN. E essa... só em Janeiro de 2012. Infelizmente. O que me faz lembrar isto. Quem é que tem seguido atentamente esta brilhante ideia dos produtores da série em fazer aparecer os seus actores por breves momentos em outras séries, para criar buzz para o regresso da tão malograda sitcom (e digo malograda porque é assim que muita gente a vê, com muita pena minha, uma vez que é das melhores séries de comédia da televisão actual).

BAD TEACHER (2011)






"I don't give a fuck."

"BAD TEACHER" completa a tríade de comédias orientadas para adultos que estrearam este Verão com grande sucesso (ao lado de "Bridesmaids" e de "Horrible Bosses") mas, ao contrário das outras duas, esta não tem nada de particularmente especial com que venha contribuir para o género. Tem, todavia, uma interpretação que subsiste, que prevalece apesar de todas as falhas num argumento displicente e comprometedor, apoiada por um valente e enérgico elenco que compensa a falta de qualidade em vários quadrantes do filme. Cameron Diaz, no papel da titular 'bad teacher', volta em grande, transformando em ouro cómico toda e qualquer fala que a mandem disparar.


Diaz transcende-se como há muito não o fazia no papel de Elizabeth Halsey, uma professora para quem as boas maneiras não existem. Ela passa filmes nas aulas para que possa curar dormindo a ressaca do dia anterior, ela bebe, pragueja, insulta e critica sem dó nem apelo e é especialista em sair de situações bicudas graças à sua enorme capacidade de se desenrascar (quanto menos tem de fazer, melhor) e, sobretudo, graças à sua lata e auto-confiança. Rejeita os avanços do professor de ginástica, Russell Gettis (Jason Segel), na sua busca incessante por um marido rico que lhe dê tudo sem que ela tenha que se esforçar, tendo decidido angariar dinheiro para poder aumentar os seus seios, numa ridícula e fantasiosa tentativa de impressionar o potencial candidato Scott Delacorte (Justin Timberlake), professor substituto que entretanto a troca pela professora modelo da escola, Amy Squirrel (Lucy Punch), que despreza Elizabeth ao máximo.



Um filme fácil de odiar pelo elevado - e desnecessário - recurso a insultos e palavrões, ganhou a minha admiração por ter decidido desde muito cedo o que queria ser, caminhando uma linha muito ténue entre o humor negro e o humor desprezível, mantendo-se sempre engraçado e divertido e procurando não entrar em grande profundidade para não expor a sua fragilidade a nível da caracterização das personagens, quase todas unidimensionais. A verdade é que este filme tem uma história muito simples, uma premissa clara a que se propõe atirando lá para o meio uma espécie de romance para o pessoal se confundir e achar que está a ver uma comédia romântica. Contudo, na realidade, o filme é todo sobre Cameron Diaz. A actriz, que é obviamente muito talentosa, deixa aqui a melhor impressão dos últimos anos, mais enérgica, irresistível, convincente. Uma interpretação para nunca esquecer que, infelizmente, surge num dos filmes menores da sua carreira. Desde o momento em que entra em cena até que se despede de nós na cena final, Diaz faz-nos chorar a rir, aliando a sua imagem de marca de rapariga despreocupada e divertida a uma panóplia impressionante de expressões faciais e admirável entrega de falas, nunca fugindo aos aspectos mais negros e rudes da sua Elizabeth e transformando um personagem verdadeiramente desagradável numa rufia, numa rebelde que nos apetece apoiar e aplaudir. Uma performance de respeito.



O resto do elenco (Segel, Punch, Timberlake, Smith, Higgins, Shannon, Stonestreet) também dá tudo de si para não deixar o filme cair na mediocridade, com vários momentos inspirados de humor que são mais assinaturas de marca dos próprios actores (e portanto mérito próprio) do que do insípido argumento que, de um momento para o outro, há que dizê-lo, também tem grandes momentos.

Um filme que apesar de corajoso e aventureiro se perde por vezes no insulto fácil e em desprazíveis cenas onde o humor não abunda, "BAD TEACHER" tem em mim um admirador, sobretudo porque nunca abandona a sua real identidade e porque me trouxe de novo a alegria de ver Cameron Diaz, uma das melhores comediantes hoje em Hollywood, a contagiar-nos com felicidade que sente em fazer algo de gosta, mesmo que seja num filme que não a mereça.






Nota Final:
B-

Informação Adicional:
Realização: Jake Kasdan
Argumento: Lee Eisenberg, Gene Stupnitsky
Elenco: Cameron Diaz, Jason Segel, Justin Timberlake, Lucy Punch, Phyllis Smith, John Michael Higgins, Eric Stonestreet, Molly Shannon
Ano: 2011

Trailer:



THE HELP (2011)




"You is kind. You is smart. You is important."



Quando penso que "THE HELP" podia ter sido o típico filme inspirador e emocional sobre a luta entre raças na véspera do movimento dos direitos civis, que se podia ter contentado em ser um filme inofensivo, bonito e optimista sobre a vida das criadas de raça negra no Mississipi dos anos 60, aquele género de filme que põe o género feminino todo de lágrima ao olho e de coração cheio e o público masculino à beira de um ataque de nervos, tal o sentimentalismo ao qual não consegue escapar, dou um suspiro de alívio. O livro de Kathryn Stockett está longe de ser perfeito (aliás, tendo em conta as reacções bastante díspares que obteve da crítica, nem sequer se pode dizer que o filme reúne consenso) e o pedido à Disney que apostasse no inexperiente Tate Taylor podia ter corrido terrivelmente mal. Felizmente, tudo se conjugou na perfeição para nos proporcionar um dos melhores filmes deste Verão, que agrada a todos, que faz pensar sem ser rigoroso na análise que faz à sociedade (nem Taylor deixa, cobrindo o filme de uma fotografia colorida, bonita e superficial que se sobrepõe à necessidade que poderíamos ter de abordar assuntos sérios, revelando uma falta de panache impressionante - mas que se percebe) e que, acima de tudo, nos presenteou com aquele que terá forçosamente de ser o melhor elenco do ano e uma das melhores interpretações femininas do ano.


Que o filme traga em si tanta faísca, tanto poder, tanta pujança deve-se em grande parte à cintilante interpretação de Viola Davis, que alcançou proeminência há três anos com um papel secundário em "Doubt" e que lhe deu a sua primeira nomeação para os Óscares da Academia. Com uma introdução daquelas e vinda esta de uma grande senhora do teatro, era de esperar que quando chegasse a sua hora de brilhar, Viola Davis entrasse com tudo. E assim foi. A sua Aibileen é a força motriz do filme, íntegra e impassiva, fazendo-nos ao mesmo tempo admirar a sua personagem e preocuparmo-nos com o seu destino. Aibileen Clark é uma ama e empregada doméstica de raça negra que já cuidou de mais de dezassete crianças de famílias brancas mas que tragicamente ainda não superou a perda do seu próprio - e único - filho. A sua vida nunca mais é a mesma quando ela aceita o desafio de Eugenia "Skeeter" Phelan (Emma Stone, a emprestar autenticidade e cor a uma personagem algo banal e estereotipada) - uma recém-graduada de Ole Miss que pretende deixar a sua marca no mundo do jornalismo e que não compreende os preconceitos dos da sua espécie para com as mulheres que de facto os criaram - de relatar o seu dia-a-dia enquanto criada das famílias brancas de Jackson, Mississipi. A ela se junta a sua melhor amiga e confidente Minny Jackson (a revelação, Octavia Spencer) que, no desespero do desemprego após confrontar a sua patroa Hilly Holbrook (uma firme e cruel Bryce Dallas Howard), vê a esperança corresponder-lhe ao arranjar trabalho junto de Celia Foote (uma incandescente e hilariante - mas de coração limpo - Jessica Chastain), uma bombástica loura que foi rejeitada, algo inexplicavelmente, pela restante alta sociedade. A estas mulheres se juntam ainda Sissy Spacek, Allison Janney e Cicely Tyson em papéis menores mas todos importantes no desenrolar da história - o filme é especialmente sagaz em conferir vitalidade e frescura a todas estas mulheres, de modo a que nenhuma acaba por parecer uma caricatura barata.


Embora a interpretação de Viola Davis não nos encha de gargalhadas como cada vez que a igualmente genial Octavia Spencer abre a boca, é-lhe permitido aqui "abrir o livro", pese a expressão: histérica, calma, temerosa, divertida, irada, ela percorre toda a palete de emoções e transforma a história de Aibileen e da sua amizade com Minny e Skeeter em algo mais, como se a sua vida e o relato de Aibileen por vezes se fundissem e se tornasse difícil compreender se o que Davis nos deixava antever das suas expressões, da sua luminosa face, das palavras que pronunciava é fruto da profundidade da sua caracterização ou são mesmo resultado das mágoas bem reais que Davis conheceu quando era mais nova.


Um retrato íntimo, caloroso, empático e emotivo de uma mulher demasiado destemida para o seu tempo, uma mulher de coração cheio de alma e amor, trazida à vida por uma actriz que é uma verdadeira força da natureza, ladeada por um elenco de imenso talento e qualidade do qual se destaca a tremendamente versátil Jessica Chastain (que está a ter um 2011 épico) e a extraordinária comediante que é Octavia Spencer, que rouba todas as cenas em que surge, "THE HELP" não procura fazer-nos pensar nem busca culpados ou vítimas. Só se preocupa em contar a verdade. Um filme longe de ser perfeito, ainda assim merece ser visualizado, mais não seja pela imagem valente e corajosa que projecta de mulheres que mesmo subjugadas nos mostram que lá por não terem nascido da raça certa não quer dizer que a sua dignidade não seja igualmente importante. 
Nota Final:
B/B+

Informação Adicional:
Realização: Tate Taylor
Argumento: Tate Taylor
Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Bryce Dallas Howard, Allison Janney, Sissy Spacek, Cicely Tyson, Ahna O'Reilly
Banda Sonora: Thomas Newman
Fotografia: Stephen Goldblatt
Ano: 2011


ATTACK THE BLOCK (2011)




É o sucesso inglês do ano. O grande candidato aos BAFTA de 2011 mas que, curiosamente, não teve praticamente repercussão internacional. E, depois de ver o filme, é fácil perceber o porquê. Attack the Block é um filme mediano. E quando um filme é mediano, não aquece nem arrefece. Achei-o um pouco monótono, um pouco mortiço, um pouco sonolento. É uma ideia engraçada, não o nego. O oportunismo com que apareceu associado aos tumultos de Londres, fê-lo entrar num comboio de sucesso para o qual, à partida, não estaria preparado.


Tudo se passa num bairro social, onde um grupo de jovens utiliza os assaltos violentos para garantir a sua subsistência. Quando a jovem Sam regressa a casa e é atacada pelo gang liderado por Moses, um objecto estranho aparece do nada e cai em cima de um carro. O estrondo da queda permite a fuga de Sam e capta a atenção dos jovens que, ao perceberem que se trata de um alien, decidem mostrar a sua força e exercer a sua autoridade. A morte deste estranho animal traz consigo a desgraça do bairro social. O gang começa a ser perseguido por animais monstruosos e demolidores e vê-se a braços com uma guerra entre dois mundos, utilizando todos os artifícios à sua disposição para se defenderem.



Até podem achar o argumento interessante, mas eu considerei o filme bastante entediante e, até, medíocre. Não é o melhor do ano em Inglaterra. Nem estará certamente entre os cinco melhores.

Nota Final:

C+


Trailer:





Informação Adicional:

Realização:
Joe Cornish
Argumento: Joe Cornish
Ano: 2011
Duração: 88 minutos

THE ADVENTURES OF TINTIN (2011)



Tenho que ser sincero. Tintin é um filme realmente engraçado, divertido, empolgante e cativante. Um "Two Thumbs Up!". Um sucesso. Não esperava admiti-lo, principalmente depois de saber que era Spielberg quem o iria realizar e depois de um trailer tão pouco convincente.


Mas, paradoxalmente, sempre desconfiei que Tintin me poderia surpreender. Em primeiro lugar, o trio de argumentistas que adaptaram a história de Hergé é bastante bom. Steven Moffat? Criador de Coupling, Sherlock e Doctor Who. Edgar Wright? Criador de Spaced, Shaun of Dead, Hot Fuzz e Scott Pilgrim. Joe Cornish? Criador do grande sucesso inglês do ano, Attack the Block. Em segundo lugar, porque as histórias de Hergé são, por si só, dotadas de um enorme potencial que, embora precisem de ser exploradas com alguma inteligência e sagacidade, podem facilmente garantir o sucesso de um filme. E por último porque foi depositada em Peter Jackson a tarefa de "criar" Tintin. E, algo que quero salientar, é a qualidade das imagens (em 2D) do filme. Graças às potencialidades da equipa de Jackson, o espectador tem a oportunidade de entrar dentro do desenho animado, de ver uma banda desenhada, no seu verdadeiro signficado, projectada numa película de cinema.


Por fim, a história, emocionante, consegue cativar o espectador sem grandes dificuldades. A cumplicidade de Tintin (Jamie Bell) e Milu é muito bem explorada, a personagem do Capitão Haddock (Andy Serkis) completamente hilariante e só fiquei com uma pontinha de desilusão devido às parcas aparições dos sempre divertidos irmãos Dupond e Dupont. Tudo gira à volta da miniatura de um barco que Tintin adquire numa feira de antiquidades por mera curiosidade. O assalto à sua casa, onde o pequeno barco é roubado, e a insistência de um estranho coleccionador em o adquirir, são o ponto de partida para mais uma aventura perigosa e atribulada desta personagem e do seu eterno companheiro.




Se quiser, Spielberg tem aqui uma mina de ouro para se encher de dinheiro para si e para as suas próximas quatro ou cinco gerações. Representar Tintin no cinema, com esta qualidade de imagem e efeitos especiais, é um sucesso garantido.

Nota Final:
A-/B+



Trailer:





Informação Adicional:

Realização:
Steven Spielberg
Argumento: Joe Cornish, Edgar Wright, Steven Moffat
Elenco: Jamie Bell, Daniel Craig, Andy Serkis, Nick Frost, Simon Pegg
Fotografia: Janusz Kaminski
Banda Sonora: John Williams
Ano:
2011
Duração:
107 minutos

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