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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

MADE IN DAGENHAM (2010)

 

"That's how it should be!"


Como sabemos, as mulheres nunca tiveram vida fácil neste mundo. Tudo o que lhes foi concedido, até hoje, foi através de grande esforço, muitas vezes de grandes privações e sobretudo a partir de muita luta contra a desigualdade que existe - mesmo hoje - entre o sexo masculino e o sexo feminino. MADE IN DAGENHAM passa-se em 1968, numa altura em que as mulheres, felizmente, já podiam votar e tinham assegurados os principais direitos humanos mas onde, contudo, eram pagas muito menos em relação aos homens. Estas grandes mulheres, que trabalhavam mais e melhor que todos os homens que conheciam, eram tratadas como amadoras no seu trabalho para que pudessem ser mal pagas e poupar dinheiro às suas fábricas, dominadas todas na generalidade por homens que pouco ou nada tinham em consideração as mulheres trabalhadoras. Mal sabiam eles que tudo mudaria em pouco tempo.


As maquinistas costureiras da Ford de Dagenham iriam iniciar uma revolução a todos os níveis improvável mas com repercussões impressionantes: seriam elas as primeiras mulheres da história a fazer greve por uma melhoria de condições de trabalho e de salários e seriam elas as primeiras mulheres a conseguirem o que queriam. Reclamavam, sobretudo, igualdade. Uma vez que faziam exactamente o mesmo serviço e cumpriam as mesmas horas que os homens, por que razão não haveriam de ganhar o mesmo? Lideradas pela fantástica Rita O'Grady (Sally Hawkins), estas mulheres extraordinárias conseguiram o impossível naquele tempo: triunfar num mundo onde os homens tinham sempre a palavra final. Imensamente divertido e fácil de seguir, encantador e irreverente, descontraído e com uma mensagem importante, MADE IN DAGENHAM é um filme que promete entreter e fazer vibrar quem o vê enquanto passa, de forma grosseira, um olhar pela história da emancipação das mulheres.


É difícil caracterizar a prestação de Sally Hawkins, já o disse anteriormente - é uma actriz completa, uma pessoa cuidada e muito sóbria que quando mergulha na pele das personagens se transforma, tornando-se contagiante, extrovertida, irresistível e impossível de parar de ver. Um verdadeiro camaleão, por outras palavras. Em MADE IN DAGENHAM, mais uma vez, esta capacidade de dotar de um completo realismo as suas personagens volta a dar jeito, com Hawkins a dar ao cinema mais uma personagem inesquecível. Rita O'Grady, com todos os seus defeitos e virtudes, é uma personagem inolvidável. A forma sagaz como Hawkins alterna entre o alegre e divertido, o subtil e sério e o vulnerável e receoso é fabulosa. A viagem de Rita neste filme, passando de uma ordinária mulher, inteligente, que só quer viver o seu dia-a-dia em paz a uma negociadora nata, uma voz inesperada surge de dentro para vir inspirar e comandar estas mulheres a fazer o que é certo.


Felizmente, o elenco que a acompanha não se deixa ofuscar com a sua prestação gloriosa. Andrea Riseborough é deliciosa num papel pequeno mas memorável. Miranda Richardson é uma ameaça que todo o seu ministério já devia ter aprendido a não ignorar; pequena mas autoritária, uma mulher poderosa que usa tudo o que tiver ao seu dispor para vincar a sua opinião. Bob Hoskins é divertidíssimo como o representante de sindicato, inesperadamente do lado destas mulheres em vez de defender a classe masculina a que pertence, porque sabe o esforço que estas mulheres passam, desdobrando-se em múltiplas tarefas nunca sendo recompensadas devidamente. Rosamund Pike é luminosa nos momentos em que se encontra no ecrã. Daniel Mays faz um fantástico par com Hawkins, proporcionando-nos uma cara-metade digna de Rita.


No fim das contas, esta história resume-se a uma coisa apenas: igualdade. Se as mulheres trabalham o mesmo que os homens, cumprem as mesmas horas, realizam o mesmo trabalho, por que razão não haveriam de ganhar o mesmo? É assim mesmo que pensa Rita O'Grady - que sabe o trabalho que faz, sabe o quão bem o faz e sabe perfeitamente quanto recebe ela e quanto recebe o marido, em condições de trabalho semelhantes. E que portanto quer receber o que tem direito. Acompanhada por mulheres com muito fogo na alma e paixão no coração, viria instaurar uma revolução que iria mudar para sempre a forma como as mulheres viriam a ser consideradas no seu posto de trabalho. Depois da conquista de O'Grady e companhia, a grande maioria das empresas e fábricas do mundo inteiro reviu os seus estatutos do trabalhador e melhorou as condições salariais e de trabalho para as mulheres. Tudo partiu de uma pessoa, de uma voz improvável - mas era a voz que era preciso para ser dada razão às mulheres. "That's how it should be" - é bem verdade.

Nota Final:
B/B+

Informação Adicional:
Realização: Nigel Cole
Argumento: William Ivory
Elenco: Sally Hawkins, Andrea Riseborough, Rosamund Pike, Daniel Mays, Bob Hoskins, 
Banda Sonora: David Arnold
Fotografia: John de Borman
Ano: 2010

Trailer:




INSIDE JOB (2010)



Provavelmente, o melhor documentário de 2010. Seguramente, um dos melhores filmes de 2010.

Inside Job é o resultado de um longo e complexo trabalho de investigação, com uma construção de contra-argumentos brilhantes que conseguiram desarmar todos aqueles que se tentaram desculpabilizar dos resultados de uma crise que, resultado da ganância de uma centena de ladrões, se tornou num problema global, arrastando milhares para a desgraça e pobreza.


É triste perceber que a nossa sociedade se encontra tão capitalizada e corrompida, ao ponto dos verdadeiros culpados de toda a crise conseguirem sair desta história, não só inocentes como ridiculamente ricos. E o Mr. Obama, com todas as suas larachas de salvador da pátria, de "Yes We Can" e de galvanizador da prosperidade (que no final da história caíram todas em saco roto e se transformaram num dos grandes flops dos últimos anos), não teve qualquer problema em nomear para a sua direcção alguns dos principais responsáveis de toda esta desgraça. No seu lugar eu sentir-me-ia humilhado depois de ver este documentário.


Inside Job explica-nos como tudo começou. Aponta-nos os culpados, justifica as suas acusações e cala aqueles que tentam encontrar desculpas onde elas não existem. Infelizmente, o documentário peca pela falta de relatos na primeira pessoa, uma vez que a grande maioria dos culpados recusou ser entrevistado para o documentário (Já o povo dizia, Quem tem cu, tem medo!).


No entanto, Inside Job não se limita a explicar. Inside Job dá-nos o prazer de ridicularizar todos os responsáveis pela criação da enorme bolha que rebentou com o sistema económico americano e, consequentemente, com o sistema económico mundial. Narrado por Matt Damon, dirigido por Charles Ferguson e escrito por Chad Beck e Adam Bolt, Inside Job é um dos meus favoritos de 2010. É um documentário obrigatório, que não deixará ninguém indiferente. (Uma última referência para a Banda-Sonora: Excelente!)


Nota Final:
A-



Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Charles Ferguson
Argumento:
Chad Beck e Adam Bolt
Ano: 2010
Duração: 120 minutos

THE MECHANIC (2011)



"I'm going to put a price on your head so big, that when you look in the mirror your reflection's gonna want to shoot you in the face."


Arthur Bishop (Jason Statham) é um assassino perfeito: recebe fortunas para provocar mortes naturais, concebe-as de forma genial e ilude polícia, investigadores e inimigos. Um homem sem falhas, respeitado e temido.


Tudo corre bem, até Arthur ser contratado para o mais difícil de todos os trabalhos: Matar Harry McKenna (Donald Sutherland), seu mentor e orientador, cuja morte era necessária após a denuncia e a traição que Harry havia feito a Dean (Tony Goldwyn), seu sócio na empresa para a qual Arthur trabalha. Como profissional, Arthur cumpre a sua missão e Harry morre após um (aparente) ataque de car-jacking.


Após o funeral, Arthur conhece o filho de Harry, Steve McKenna (Ben Foster) que, entregue ao álcool e aos fúteis vícios de uma vida abastada, está decidido a vingar a morte do seu pai. Apercebendo-se do seu natural fracasso e sentindo-se culpado pelo infeliz rumo que a vida de Steve iria tomar devido à ausência do seu pai, Arthur acolhe-o, treina-o e prepara-o para ser seu parceiro de negócios.


The Mechanic estreou na passado dia 17 de Março nos cinemas portugueses e tem tudo para ser um bom sucesso de bilheteira: Acção, Emoção, Intensidade, Bons Actores (Jason Statham nasceu para fazer este tipo de papéis e Ben Foster é, para mim, um dos mais promissores actores do cinema actual). Pena é a sua história ser tão previsível, tão mastigada e tão repetida. Já vimos o argumento de The Mechanic em, pelo menos, 150 filmes. Mas não deixa de nos entreter e divertir durante um bom bocado.


Nota Final:
C

Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Simon West
Argumento: Richard Wenk e Lewis John Carlino
Ano: 2011
Duração: 93 minutos

A Morte da 7ª Arte (Variação Hooper)

"O Dial P For Popcorn tem o prazer de vos apresentar o nosso mais recente colaborador! Axel Ferreira, nosso colega e amigo, aceitou o convite para a elaboração de uma crónica quinzenal. Com uma visão peculiar e distinta da realidade cinematográfica, A Morte da 7.ª Arte deixa apenas uma promessa: Ninguém a poderá evitar."


Coitado do Sr. Wilde


Esta é uma crónica dedicada ao cinema e, por essa razão se torna um bocado degradante falar deste tema. Agora que o tema já passou de moda e já ninguém fala disto, tem um quê de mais interessante voltar à carga com ele. Eu sei que esta é uma crónica sobre a 7ª arte, mas nesta semana vou falar de algo que não lhe está muito ligado: os Oscars. E vocês perguntam, ou então pergunta o meu amigo imaginário se vocês não tiverem vontade de perguntar: e qual é o teu problema com os Oscars? Absolutamente nenhum, porque não lhes reconheço a mínima autoridade para avaliar seja o que for no mundo da arte de fazer cinema. Mas, se calhar, só para fins recreativos, vou reconstruir a minha experiência dos últimos Oscars. Em primeiro quero só dizer que como já tinha em perspectiva vir a falar disto e, como queria ver este acontecimento no seu pleno esplendor, comecei por ver aquilo que traduzido directamente do inglês se denomina “o tapete vermelho” num canal perdido algures e do qual já não me lembro do nome.

Então havia um gajo de cabelo em pé, que entrevistava uns tipos que aparecem nuns filmes quaisquer, uma anã e uma gaja maquilhada de vermelho que comentam o que as pessoas vestem. Pessoas estas subqualificadas para sem-abrigo. Desfilam então as senhoras e os senhores que muito entretêm o povo e por isso lhes devemos tanto. Como eu gosto de os ver falar, parece que não mas são pessoas que ainda têm muito que dizer e não só sobre o que vestem mas também para brincar com o apresentador e dizerem que estão muito excitadas (talvez a ordem em que disse isto não seja a mais indicada). Alguns destes personagens ainda, e veja-se a ousadia, dizem olá à anã (pensando certamente que ela era patrocinada pelo “Make a Wish Foundation”, sempre generosos estes homens de bem). Uns poucos deles não fizeram nenhum filme este ano, mas já são conhecidos pela sua boa obra de entretenimento (familiar ou não). Aparece o Steven Spielberg, enjoo e mudo de canal. Agora era a vez da TVI e dos seus eruditos comentadores. Um pouco mais de pessoas numa carpete e uma mulher preta maquilhada de laranja. O Steven Spielberg outra vez, aqui fechei os olhos e disse três vezes o nome dele ao contrário para o fazer desaparecer. A mulher laranja disse ao Inglês que ia apresentar os filmes que a cerimónia estava quase a começar, pois bem, fiquei mais descansado, “a pior parte já acabou” disse eu de mim para mim. De erros está feita a vida ou dito similar. Desfilam as piadas quase politicamente incorrectas, dão estátuas pequenas e douradas a algumas pessoas, elas agradecem, mais ou menos entusiasmadas, num tempo limite. Vim aos poucos a descobrir o quão brincalhões são estes homens. Além de todas as categorias terem a palavra “melhor” por trás, dão prémios a coisas como maquilhagem e edição de som e ainda mistura de som e sabendo que entre os membros da academia (que são afinal as pessoas que escolhem) estão personagens tão intelectualmente dotadas como Will Smith e Bruce Springsteen, sobre os quais me custa acreditar que sabem o que são ou que sequer as consigam distinguir, só me apetece abrir uma categoria chamada “melhor maior idiota que acha que escolhe o que de melhor se fez no cinema no último ano” ou alguma coisa mais curta. Pelo meio ainda houve um velho engraçado, uma rapariga que quando a vejo num filme (nua ou não) fujo, um travesti que mais mão menos mão já o vi em qualquer lado, actores (muitos… e diga-se que também foi uma experiência muito educativa, fiquei a saber o nome de muitos deles), directores e depois o resto-lho como escritores de guiões, produtores, tipos que fazem música (que têm muita sorte de os deixarem entrar e estar no meio de tais personalidades)… E parece que me esqueci de algo. Parece que premiavam filmes por lá, mas não fiquem espantados, muita gente gostava de ter um careca amarelo em miniatura em casa. Não me parece é que sejam grande indicativo de qualidade. Mas para isso tinha de falar dos filmes e não sei se está bem no espírito da noite falar deles ou continuar a fazer umas graçolas.

Bem, vou fazer uma curta adenda aos filmes. Primeiro queria manifestar a minha vontade de dar uma bofetada a quem escolheu a melhor mistura de som e melhor edição de som e elogiar todos os membros da academia que em esforço hercúleo conseguiram diferenciar as categorias. Para mim, e não sei se para mais alguém, o bom uso do som é também o bom uso do silêncio e Inception era um filme que não tinha um único momento de silêncio, era sempre saturado de uma banda sonora com excessivos violinos e vibratos nos supostos silêncios. Este filme não se calava um único segundo e é esta a melhor edição de som? Uma bela alternativa a Hollywood, não andam aos tiros na vida real, só o fazem em sonhos.

Em segundo queria falar dos dois concorrentes principais: “The King’s Speech” e “The Social Network”. Vi os dois com pouca vontade, mas para quem já viu a Pocahontas versão azul (“Avatar” para os mais esquecidos), qualquer coisa é visionável. “The Social Network” é um pequeno filme que se anuncia como algo novo e que quer quebra os cânones do cinema de Hollywood e se é preciso tão pouco para o fazer vou ali mas nem sequer volto. Não é um filme que eu chame de muito mau, mas tem tudo aquilo que me incomoda. Tem um cliché sobre um génio (têm todos de parecer autistas anti-sociais), que consegue fazer tudo com um computador, só faltava o gajo infiltrar-se no sistema informático de pentágono e começar a mandar uns mísseis (ele pode ser muito esperto mas de certeza que era um pouco mais lento a fazer certas coisas). Uma história que tenta representar um geração mas só consegue perpetuar preconceitos sobre ela, porque toda a nossa geração é devassa, especialmente as mulheres que agora se despem em todo o lado menos o quarto, sexo e drogas e pena não ter ouvido Rock’n’Roll (parecia a certos momentos um filme feito por uma pessoa idosa assustada pelo mundo moderno e os computadores). Foi um filme que eu consegui ver sem o odiar e que parecia ter intenções dizer muita coisa, mas deixou-me completamente indiferente no fim. “The King’s Speech” é doloroso de ver, muito doloroso. É uma epidemia daquilo que eu acho que está errado no cinema e como não me quero repetir é apenas isto que vou dizer.

Depois havia ainda o Black Swan, que era a tentativa hollywoodesca de fazer um filme conceptual. Mas com medo de as pessoas não perceberem o filme puseram um tipo a contar a história do “Lago dos Cisnes” sem grandes artifícios de argumento. Era um filme que poderia funcionar se fosse a preto e branco (a parte da discoteca podia ser a cores mas monocromáticas), mudo e durasse meia hora.

Havia lá filmes que não eram maus de todo. Havia lá até a pérola de Inãrritu (mas não a vou querer misturar com estes). Mesmo assim parece-me um insulto a academia achar que esta a fazer um grande favor ao filme só por estar nomeado a duas categorias e ser falado em espanhol. Havia “127 Hours” que é um filme bem conseguido, mas que para mim sobrevive apenas do fim, e o fim só é o que é por causa da música dos Sigur Rós (acho que se este filme tivesse ganho um Óscar devia ir para eles), se bem que Boyle exagerou o bastante com a cena em que o maneta está a nadar, já percebi ele está livre da pedra para sempre e finalmente pode viver a sua vida como nunca a viveu mas sempre a quis viver, que grande lição de vida. Havia também “The Fighter” que está filmado com um bom estilo, boas interpretações, bastante cru e com uma boa camada de ironia e que eu tive muita esperança que não acabasse numa cena de luta apoteótica. Acabou por se tornar numa versão intelectual do “Rocky”.


Sei que ainda faltam alguns filmes e com pena minha ainda não consegui ver o “True Grit” ou o “Blue Valentine” e não posso falar deles, mas o que eu quero dizer é que mesmo estes filmes, que eram uma suposta alternativa cinéfila não passam de estar entre o medíocre e o razoável. E é isto que para mim representam os Oscars, um bando de personagens que acha que percebe de cinema e que tem sorte quando premeia algo que consegue chegar à categoria de medíocre e chamar-lhe “melhor”.

PS: Mas quem são estes idiotas para separar melhor filme de melhor filme estrangeiro (e entenda-se estrangeiro por filmes que não estão em língua inglesa)? Será que por acaso acham que algo que não seja feito por lá não consegue chegar ao seu nível? É apenas um segredo que não gosto de confiar a muitas pessoa mas eu acho que é ao contrário.


Axel Ferreira

Personagens do Cinema - L.B. 'Jeff' Jeffries

"I've seen bickering and family quarrels and mysterious trips at night, and knives and saws and ropes, and now since last evening, not a sign of the wife. How do you explain that?"



Naquele que é o meu filme favorito de Hitchcock, Rear Window, a personagem interpretada por James Stewart (uma das mais importantes estrelas da história do cinema) transformou-se num dos grandes cultos da sétima arte.


L.B. 'Jeff' Jeffries
é um fotógrafo que, devido a uma lesão, se vê forçado a ficar em casa preso a uma cadeira de rodas. Para ocupar os seus dias decide aproveitar para observar os seus vizinhos: os seus hábitos, as suas rotinas, os seus passatempos, os seus gostos.


Com o desenrolar do filme, L.B. 'Jeff' Jeffries percebe que algo d e errado se está a passar no seu bairro. Algo de grave poderá acontecer e o único a aperceber-se disso é ele, preso a uma cadeira de rodas, fechado no seu apartamento, impotente perante tudo.


A forma como Hitchcock cria um conjunto de acasos e acontecimentos, os trabalha, associa e mistura de forma a criar um complexo crime que é resolvido graças à mestria de uma personagem que reflecte não só as grandiosas qualidades do grande criador que foi Hitchcock mas também as do grande interprete James Stewart, são uma prova cabal da importância que Rear Window e L.B. 'Jeff' Jeffries tiveram para a história do cinema.

FOUR LIONS (2010)



"They'll pump you full of Viagra. Make you fuck a dog!"


Há muito tempo que não ria com tanta vontade. Four Lions é absolutamente desconcertante, e ao conseguir ridicularizar alguns dos mais obscuros tabus sociais de uma forma tão simples e criativa, transformou-se, naturalmente, num dos melhores filmes de 2010.


O filme não é mais do que uma inteligente sátira sobre os ataques suicídas aos países do ocidente, desenvolvendo a sua história a partir das reuniões de um grupo de cinco amigos, liderado por Omar (claramente o mais perspicaz do gang) que começa por viajar juntamente com Waj até ao Afeganistão, local de onde fogem depois de um conjunto de problemas tão caricatos quanto ridículos. É impossível ficar indiferente.


Enquanto os dois estão ausentes de Inglaterra, Barry recruta Hassan, um promissor revolucionário, que simula um ataque suicida ao som de um RAP de Tupac num dos pontos altos do filme. Juntamente com Fessal, os três começam os preparativos para a grande missão das suas vidas.


Com o regresso de Omar e Waj, o grupo começa a delinear a estratégica a seguir e o alvo a atacar. Cedo se percebe que o plano tem tudo para correr mal mas, fintando os inúmeros contra-tempos que os próprios "bombistas" conseguem criar, o grupo chega, mal e porcamente, à última etapa da sua jornada. E a um passo da grande decisão, qual o caminho que estes fiéis revolucionários irão tomar? A resposta fica para o leitor descobrir.


É fantástico. É humor do mais negro e ácido que vi em 2010. Christopher Morris, vencedor do BAFTA em 2010 para "Outstanding Debut by a British Writer, Director or Producer" vai andar debaixo do meu olho. O do seu também, espero.

Nota Final:
A-



Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Christopher Morris
Argumento: Christopher Morris
Ano: 2010
Duração: 97 minutos

THE ADJUSTMENT BUREAU (2011)



"All I have are the choices I make"


Aparentemente, segundo os Agentes do Destino, não é bem assim. THE ADJUSTMENT BUREAU é a mais recente adaptação cinematográfica do legado de Philip K. Dick (baseado no seu conto "The Adjustment Team"), chegando-nos às mãos desta vez por George Nolfi, o argumentista de "Bourne Ultimatum". Narra a história do romance entre David Norris (Matt Damon), um político jovem com má fama que vê a sua campanha para o senado norte-americano ruir ao mesmo tempo que encontra o amor da sua vida, Elise Selas (Emily Blunt), uma bela e talentosa bailarina com um futuro risonho pela frente. Este romance, contudo, assume proporções de thriller de ficção científica quando entram em acção os Agentes do Destino, um grupo misterioso de homens cuja função é monitorizar certas pessoas a toda a hora e fazer pequenos "ajustes" na sua vida, para que esta decorra segundo o plano que nos é destinado. O que esta organização não esperava, no entanto, era que David e Elise se revoltassem contra o plano estabelecido e buscassem, contra tudo e contra tudos, ficar juntos. 


Um filme agradável, com dose moderada de suspense e romance, como se quer num filme mainstream de qualidade, engrandecido pela enorme química entre Matt Damon e Emily Blunt (já nem se fala do talento dos dois actores pois esse nem se põe em causa) e pela presença ameaçadora de John Slattery e Terrence Stamp, tem em Anthony Mackie a verdadeira estrela. Desempenhando o seu papel com total eficácia e capacidade, ainda tem tempo para lhe acrescentar uma profundidade emocional e ambiguidade que certamente não estava no argumento. E digo isto porque o argumento é a grande falha do filme. Tenta torná-lo naquilo que não é, por vezes, tenta inventar explicações e associações com base na religião que não eram de todo necessárias e acaba por retirar potência a algumas cenas que mereciam mais rasgo e risco por parte do argumentista e também realizador. Com alguém mais reputado e experienciado, esta ideia genial de Dick poderia ter sido melhor explorada e extrapolada. O risco poderia valer a pena; ou então talvez não. A fotografia de John Toll, impressionante, sai beneficiada pelo realismo, pois todas as cenas foram filmadas mesmo em Nova Iorque, o que se torna divertido de observar por entre o abrir e fechar de portas.


Inesperadamente, o que mais me fascinou no filme, tirando a realização muito cuidada de alguém que ainda se está a iniciar nestas andanças - e que promete - foi a banda sonora brilhante de Thomas Newman. Alguém que já escutou os seus trechos musicais para "American Beauty", "Wall-E" e "Angels in America" vai ficar deliciado com alguns sons que estas partilham com esta banda sonora. Uma sonoridade celestial, pura e bela, que complementa tão bem a acção no ecrã (um bom exemplo aqui).

Nada muito cerebral, complexo ou sofisticado, uma abordagem interessante às temáticas e ao estilo de cinema de suspense e ficção científica de hoje, este é sobretudo um bom filme, que proporciona entretenimento de boa qualidade. Inspiracional e triunfante q.b., THE ADJUSTMENT BUREAU passa-nos uma curiosa mensagem sobre a imprevisibilidade, o destino, a perseverança perante a inevitabilidade e o valor do amor sobre todas as outras coisas que a vida tem para oferecer.



Nota Final:

B/B+

Trailer:


Informação Adicional:

Realização: George Nolfi
Argumento: George Nolfi
Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Anthony Mackie, Terrence Stamp, John Slattery 
Fotografia: John Toll
Banda Sonora: Thomas Newman
Ano: 2011 

IN A BETTER WORLD / HAEVNEN (2010)



É muito bom. Haevnen é uma maravilhosa metáfora. Uma criação pensada com requinte, pormenor e inteligência.


Christian
é novo na escola. Vindo de Londres, ocupa o lugar vago na secretária onde está sentado Elias. "O Rato", como é gozado pelos mais velhos da escola, fica feliz por finalmente ter alguém com quem conversar. Ao ver a forma corajosa como Christian enfrenta Signe, quando este o tenta intimidar como o fazia diariamente com Elias, este automaticamente o toma como seu ídolo, e faz por tudo para o acompanhar.


Ao mesmo tempo, vamos conhecendo Anton, pai de Elias, que trabalha como médico voluntário no coração de África, onde as injustiças, os maus-tratos e a violência são um constante. Numa das visitas a casa, Anton (que se encontra divorciado da mãe de Elias), é agredido por um desconhecido após ter separado o seu filho mais novo de uma briga com um garoto da mesma idade.
A experiência obtida pela sua actividade em África, faz com que Anton se resigne e explique aos seus filhos que a violência e a agressão nunca são a solução. No entanto, Christian, que presencia a agressão, está disposto a fazer justiça pelas próprias mãos. E convence Elias a um acto louco.


Ao mesmo tempo que Christian e Elias vão criando o seu próprio plano, Anton é confrontado, em África, com a necessidade de tratar o vilão da zona onde trabalha, cujo fetiche é retirar a sangue frio os bebés das mulheres grávidas.

Com tantos acontecimentos, Anton pergunta-se a si mesmo de que lado está a justiça. O que é realmente correcto. A justiça popular é sempre uma solução controversa, muitas vezes socialmente reprovável, mas quase sempre um acto de desespero, perante a inoperância de quem realmente deve impôr a justiça e a ordem. Um riquíssimo argumento, num filme surpreendente.


Nota Final:
B+


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Susanne Bier
Argumento: Anders Thomas Jensen
Ano: 2010
Duração: 119 minutos

THE MAN FROM NOWHERE (2010)



O prazer de escrever sobre um grande filme é fantástico. O gozo de escolher as melhores palavras, de tentar não esquecer nenhum pormenor. Felizmente, depois da desilusão que Hereafter me deu ontem à noite, hoje pude recuperar o ânimo com um grande filme. E felizmente, desta vez acertei.

Já há algum tempo que The Man from Nowhere me intrigava. Em primeiro lugar, a sua capa. Em segundo lugar, a sua origem (Continuo a acreditar que, no drama puro e duro, ninguém é melhor do que os asiáticos. Nem existe comparação possível, sequer.). Em terceiro lugar, esta imagem:


Há imagens que valem mais do que umas quantas palavras e, neste caso particular, quase que conseguimos um resumo perfeito daquilo que é The Man from Nowhere: A história de um homem letal, ferido no seu orgulho, à procura de vingança. Um homem que faz justiça pelas próprias mãos, sem receio das consequências. E a sua pose nesta imagem é o espelho daquilo que Tae-Sik Cha (Bin Won) personifica durante todo o filme, da intensidade da sua personagem, do carisma que conseguiu colocar em toda a história.


The Man from Nowhere, um filme sobre o tráfico de droga e órgãos no Coreia do Sul, é quase que uma resposta que a Ásia dá ao muito bem sucedido "Taken" que em 2008 surpreendeu muitos dos fans dos thrillers de acção. Neste caso, Tae-Sik Cha é um agente dos serviços secretos, reformado desde o assassínio da sua mulher, que sofre em silêncio a sua ausência, trabalhando numa loja de penhoras. Com o passar dos anos afeiçoa-se a So Mi, uma jovem rapariga de oito anos, filha de uma prostituta que vive ao lado da sua loja.


Quando So Mi e a sua mãe são raptadas pelo bando dos irmãos Man-Sik e Jong-Suk, Tae-Sik Cha mostra as suas garras. Numa luta incansável contra um verdadeiro império de armas e assassinos sem escrúpulos, Tae-Sik Cha foge da polícia ao mesmo tempo que persegue os responsáveis pelo rapto das suas vizinhas.


Um thriller de cortar a respiração, intenso, cruel e dramático. The Man from Nowhere é tudo aquilo que eu venero no cinema asiático. Um filme obrigatório, que fará as delicias de admiradores e simpatizantes do cinema do oriente. E não só!

Nota Final:
B+


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Jeong-beom Lee
Argumento: Jeong-beom Lee
Ano: 2010
Duração: 119 minutos