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DIAL P FOR POPCORN

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Ninho de Cucos (XI)


Depois de um interregno de quase três meses, o Gustavo está de volta com mais uma edição do "Ninho de Cucos". Disfrutem.


“Recordar é viver.” Excepto que não é. Viver é muito melhor do que recordar. Relembrar acontecimentos é uma actividade que o ser humano se dispõe a fazer simplesmente porque esses acontecimentos não podem ser repetidos. E mesmo quando ainda podem ser repetidos, justifica-se que apenas sejam recordados sob a punição de arruinar uma bela memória com uma traumática e mal sucedida repetição.


Mas divago. Recordar, a capacidade de relembrar situações passadas e desenvolver uma emoção consequente, é uma habilidade fantástica que separa o Homo Sapiens do resto dos reinos da taxonomia lineana. Nela podemos encontrar a razão que motiva a criação de sonetos, sinfonias, gravuras... em suma, de toda a arte! A saudade é a origem da criação artística.

O cinema, como o veículo sofisticado de expressão artística que é, não podia ser isento a este paradigma. Desde o diligente artista doméstico que cumpre a obrigação de documentar em formato analógico as festividades e desventuras da família, até ao dotado cineasta que transforma momentos históricos em magníficas obras de arte, toda a sétima arte é de alguma forma regida pelo dever emocional de esculpir sentimentos associados a acontecimentos antigos. De tal forma é isto verdadeiro, que os grandes eventos históricos não têm dificuldade em ver-se retratados nas salas de cinema. Experimentemos por exemplo a 2ª Guerra Mundial. À cabeça, salta logo o "Saving Private Ryan", um dos melhores esforços ocidentais sobre o tema, mas facilmente surgem outros bastiões como "Casablanca", "Judgement at Nurenberg" e "Schindler's List"; a oriente "Mai Wei", uma película coreana, dá uma perspectiva diferente do conflito, sob o pano de fundo de uma história épica; da Bielorrússia, "Idri i smotri", um hipererrealista e nauseabundo retrato da cruel vivência na Europa Oriental devastada pelo avanço nazi; ainda a minissérie americana "Band of Brothers", que relata os destinos de um pelotão desde o seu treino até ao fim da Guerra. Outros períodos de grande relevância, como o apogeu do Império Romano (com "Gladiator", "Ben-Hur", ...), a Guerra Civil Americana (com o recente "Lincoln"), entre outros, representam perfeitamente a preponderância que o filme histórico tem no mundo do cinema.


No entanto, apesar de a recordação ser o motivo primordial da necessidade artística, não é absolutamente correcto defini-la como o motor único de onde deriva toda a criação artística. Na verdade, o ser humano não é suficientemente desenvolvido para conseguir recordar eventos passados sem lhes acrescentar ou ocluir determinados pormenores. Daí que nenhuma recordação seja absolutamente pura - nenhuma memória é desprovida do julgamento subjectivo que o subconsciente individual de cada um faz sobre qualquer acontecimento vivenciado.


Conclui-se que, no fundo, a capacidade de fantasiar ocorrências transactas é inerente ao processo criativo, quer seja obtida de modo propositado ou involuntário. Mas, embora esta aptidão de inventar surja como que de um défice da espécie humana em conceptualizar o que a rodeia, impressiona pensar que esta deficiente e inadaptada estirpe de primatas bípedes consegue contornar esse obstáculo funcional e inclusivamente torná-lo numa vantagem imprescindível até à evolução da própria espécie. É esta habilidade de controlar o modo como fantasiamos que nos permite ter luz durante a noite ou ter calor quando está frio. E assim se justifica que, da mesma forma que temos propensão a reviver o passado, também tenhamos tendência para inventar futuros hipotéticos e fantasiosos, como nas produções de ficção científica como "Star Wars", "2001, A Space Odyssey" e "A Trip to the Moon"; como o cómico surrealismo dos Monty Python em "The Meaning of Life"; como o recorrente filme sobre viagens no tempo de "Back To The Future", "12 Monkeys" ou "The Butterfly Effect"; como a enigmática alegoria do fantástico "Holy Motors"; ou ainda a fusão do filme histórico com o filme de fantasia em "The Gold Rush", "Life of Brian" ou "El Labirinto del Fauno".


Seja qual for a origem da criação cinematográfica, cabe ao espectador tirar o melhor de cada faceta da sétima arte, quer seja um trabalho de índole histórica ou uma obra fantasiosa tal como esta, que me vê atirar esforçadas palavras para o ecrã. Compreender que um filme não se reduz a uma sequência de imagens animadas, mas ao produto de uma extensa actividade planificativa de encadeamento de ideias aglutinadas por um nexo causal, faz parte da obrigação de um espectador educado.


Gustavo Santos

Ninho de Cucos (X)

Por vezes, a motivação para ver cinema é distorcida pela contextualização que as últimas memórias são capazes de suscitar, nomeadamente quando são traumáticas o suficiente para condicionar um reflexo de repulsa por novas experiências que queiramos planear. Foi essa a impressão com que fiquei nos últimos tempos, depois de penitenciar os meus olhos com o desastre "2010, the Year we make contact", a infame sequela do clássico de Kubrick "2001, A Space Odyssey". Náusea está longe de ser uma sensação traumática, mas quando uma pessoa se dá ao luxo de habituar o espírito a ser mimado por grandes obras, é natural que uma mariquice destas seja conceptualizada como um rude golpe.

Contudo, o problema que surge quando um espectador se depara com um caso destes não necessita de todo de chegar a este ponto. Felizmente para a nossa espécie, o todo-poderoso dotou-nos da capacidade de abandonar uma sessão ao nosso critério e quando bem nos apetecer. E muitas vezes o que complica é perceber quando é que nos apetece. Perceber que um filme não nos agrada não é tarefa difícil, como é óbvio, mas decidir se estamos dispostos a prescindir do resto dele com base no que vimos até então é, sim, uma questão que pode parecer irresolúvel! 


Mas também pode não o ser. Obviamente que depende sempre da pessoa e do filme em questão, mas a regra de ouro é: numa situação em que um filme necessite de uma atenção forçada para o continuarmos a visionar, a probabilidade é que, independentemente da qualidade do desenrolar do mesmo, o desenlace dos acontecimentos não venha a compensar esse esforço que a paciência se vê obrigada a exercer, trazendo toda uma conotação negativa à conceptualização da experiência cinematográfica.

Por outro lado, há ainda uma outra dimensão que é fulcral na decisão: o tempo. É fácil compreender que quanto mais longo for o filme, mais hipóteses terá de ver abandonado o seu visionamento por um espectador insatisfeito, enquanto que, por contraposição, um filme com menos de 2 horas terá, teoricamente, muito menor dificuldade em manter um espectador cativado, evitando toda esta problemática. Como é lógico, não há um limite máximo de duração para uma longa-metragem; o problema é que a débil mente humana tem um "attention span" que não lhe permite manter a atenção por horas a fio. No entanto, a capacidade de síntese, embora muito estimulada no nosso sistema de ensino, não parece ser uma virtude muito distribuída nos meios cinematográficos, onde dá impressão de nem sequer ser considerada uma virtude.

Ainda assim, sendo o cinema uma máquina de milhões, há sempre alguém que tenha olho para o negócio. Um desses casos é o universo dos filmes Disney. "O Rei Leão", "Hercules", "Aladdin" são todos grandes exemplos que marcam gerações, todos sob a alçada da fórmula vencedora do filme de 90min. Evidentemente, não é a curta duração que torna estes filmes tão apetecíveis e intemporais, mas olhando para o público-alvo destes filmes como versões com maior capacidade de distração do que um adulto facilmente se percebe que este elemento é necessário. E, acrescentando ainda filmes mais recentes da era 3D como Toy Story, Nemo, Up, etc., não é difícil de concordar que esta fórmula do filme moralista, curto e de narrativa simples resulta tão bem no adulto como nos mais novos.


Mas, mesmo fora da animação, há bons exemplos. Juntar um grupo de grandes actores e fazê-los contracenar em meia dúzia de cenas é outra combinação de grande sucesso, como atestam "Reservoir Dogs" ou "12 Angry Men", cujo carácter marcante é atingido pelo poder do diálogo e do choque da circunstância criminal, empregues de forma sublime numa narrativa tão intensa e proeminente, que não necessitam de mais de 100min para completar a sua rodagem.

O documentário, que geralmente não precisa de tantos minutos como o resto dos filmes, é mais um dos que entram neste lote. Boas fitas dos últimos anos, como o multigalardoado documentário sobre a vida do campeão brasileiro de Fórmula 1 "Senna" ou o vencedor do Óscar de melhor documentário de 2011 "Inside Job", representam magnificamente a ideia de que temas mais complexos do que inicialmente parecem podem perfeitamente ser retratados de forma exímia, num período de visionamento que não exija ao espectador perder metade de uma tarde ou deitar-se às quinhentas.



Outros filmes menos convencionais, como "Waking Life" (um sumarento trabalho sobre o sonho), "Palombella Rossa" (onde o comunismo se funde com o Polo Aquático sob a hilariante alçada de Nanni Moretti) ou "The Big Lebowski" (onde o lunático Steve Buscemi é a única personagem normal do filme), podem servir ao meu exemplo e muitos outros ainda caberiam, lembrasse-me eu deles. Mas o argumento está feito: dado que a duração é uma importante variável para a decisão do espectador que não sabe se quer ver o filme até ao fim, seria agradavelmente útil que as longas-metragens deixassem de ser tão longas, ou pelo menos que o filme de 1h30-2h deixasse de ter tão pouca utilização. É óbvio que filmes como "The Godfather" ou "Django Unchained", grandes no sentido literal e simbólico, não poderão ser postos nesta discussão. A riqueza das histórias e, acima de tudo, o produto final com todas os seus pormenores e envolvência artística devem sobrepor-se a qualquer limite temporal, sem desprimor, contudo, da arte própria em que consiste o condensar de uma história.

Gustavo Santos

Ninho de Cucos (IX)

Como amante do cinema não podia estar mais contente por esta zaragata toda dos Óscares estar finalmente a assentar. Aquilo que me faz gostar de cinema é poder ver uma bela obra de arte quando o acaso mo permite e a vontade o deseja, não a necessidade imperiosa e urgente que o último filme da Universal ou da Paramount faz surgir nos pobres de nós que se deixam viciar pela indústria sediada nas colinas californianas. Mas esqueçamos essa efeméride, cuja esfera gravitacional de interesse suga até as palavras do cronista que a tenta infrutiferamente evitar. 

Em vez disso encaremos a 7ª arte pela perspectiva do covarde que evita qualquer confronto com o novo, na ânsia de assim poder evitar toda a aberração artística que, por meio de boa propaganda, consegue colocar-se nas bocas do mundo. Não se pode dizer que esse covarde seja uma fabricação artificial de um receio que não tem razão de existir, mas como o hipocondríaco que desorientado pela evolução médico-farmacêutica se acha portador de toda a maleita, é também o nosso atarantado cinéfilo um produto da radiação massiva a que a indústria cinematográfica o expõe. E não é falso que não hajam motivos para esta fobia: televisão, revistas, jornais, paragens de autocarros, etc. nada é deixado incólume pelos Donald Drapers do mundo ocidental, e verdade seja dita, é um trabalho incansável o destes senhores, se tivermos em conta que, mesmo no momento em que nos deixamos vencer pela sugestão do reclame e pomos os pés na sala de cinema, somos inundados com ainda mais slogans, trailers e outro arsenal publicitário!


Ainda assim este negócio, sendo por si só uma forma de arte, não deixa de ser em termos práticos uma questão de quantidades e alcances. Longe de ser um entendido na área, acredito que o sucesso de uma campanha depende muito mais da quantidade de vezes que ela é repetida perante o público-alvo do que propriamente da qualidade do seu conteúdo. Toda a gente se lembra de anúncios intemporais como o da Ferrero Roché ou de outras marcas que repetem os seus reclames há anos, mas se pensarem nisso ninguém consegue eleger o(s) melhor(es) anúncio(s) que viu na vida! Podemos pegar no fenómeno musical Justin Bieber e perceber que a reputação não serve de nada quando o alcance atinge semelhante magnitude. Com o cinema acontece o mesmo. Um filme fraquinho e ranhoso que seja produzido pelos grandes estúdios corre o risco de encontrar uma boa agência de publicidade, e ser inclusivamente confundido com um filme tolerável.

É disto que o nosso covarde tem medo. Mas este fictício amigo sabe bem que nem a melhor publicidade do mundo pode fazer um falhanço artístico ter um velório menos precoce, a não ser que se trate de uma daquelas magníficas histórias de fracasso colossal que ficam imortalizadas, que nem fábulas lafontaineanas. A crítica, e sobretudo a ausência dela, separa os trigo do joio e ao fim de algum tempo a consciência cultural do filme passa a ser muito mais fidedigna. E é assim que se constroem os clássicos. Aqueles que, por mais tempo que passe, nunca chegam verdadeiramente a passar de moda!

É óbvio que nem todos podemos ter a mesma opinião acerca de algo tão vago como um filme, porque afinal o cinema é uma arte e como tal tem um filtro de subjectividade associado a ele. Para além do mais a mente humana tem o terrível 'defeito' de não ser monovalente, ou melhor dito nas palavras de Balzac: "cada ideia tem o seu direito e o seu avesso. Tudo é bilateral no domínio do pensamento. As ideias são binárias". E é precisamente por isso que é perfeitamente impossível conseguir-se catalogar cinema por ordem de qualidade. Por mais peritos que se possam juntar, nunca se poderá encontrar um melhor filme de sempre! Da mesma forma, perceber se uma fita recém-lançada nas salas de cinema, poderá pertencer ao panteão dos filmes que glorificam esta arte que tanto prezamos não será concebível sem o período ruminatório que a nossa consciência artística global exige.


Dá a impressão que os receios do covarde até podem ter razão para existir. Mas vendo as coisas de um prisma mais abrangente, facilmente se percebe o quão egoísta e oportunista esta atitude é. Egoísta porque um indivíduo que não se permite a visionar filmes novos por medo da sua mediocridade é um voltar de costas à discussão que a internet, os media, e a blogosfera têm no sentido de trazer uma voz crítica e assim fazer evoluir o mundo do cinema. Oportunista porque se alimenta do trabalho de outros sem ter qualquer papel nessa demanda, da mesma maneira como o Cardozo consegue ser o melhor marcador da última década no Benfica, apesar de ser o homem mais descoordenado da América do Sul.

Contudo ao fim e ao cabo, o indivíduo que fica à espera dos experts para saber qual o melhor filme, corre o risco de ver a sua busca perdida numa opinião falaciosamente ditada por tendências que não correspondem às suas. E voltando ao tema das estatuetas douradas, é perturbador saber que pérolas da história do cinema como Citizen Kane, 12 Angry Men ou A Clockwork Orange nunca tenham sido propriamente distinguidas, e génios incontornáveis como Welles, Kubrick ou Kurosawa tenham sido tão hostilizados pela agremiação que supostamente lidera o mundo do cinema. A Academia é tão conhecida pelos prémios que atribui como pela barbaridade dos erros que comete!


Mas o que fica é a noção de que os inúmeros certames que celebram a arte do cinema funcionam como que guidelines para a comunidade cinéfila. Enquanto que esta atitude possa ser parcialmente justificável, há que manter a imparcialidade na escolha daquilo que vemos e não nos deixarmos assoberbar pela poderosa influência do mundo publicitário, sob pena de se cair no futilidade. Conhecer cinema não é ver um filme do Fellini e dizer que não se gosta do estilo, ou ver um filme taiwanês e resmungar contra o cinema asiático. Hoje em dia já há tanto filme como havia chapéus no tempo do Vasco Santana, mas dá-me a ideia que andamos todos a ir ao cinema no mesmo chapeleiro.

Há que saber ir à loja do fundo da rua perguntar se tem coisas novas!

Gustavo Santos

Ninho de Cucos (VIII)

Queira desculpar o fiel ou esporádico leitor a interrupção da cronicidade desta crónica, motivada em essência pelos penosos deveres académicos, dos quais felizmente me vejo agora livre. Encontro-me agora na feliz situação de poder aborrecer os meus dias a procrastinar e a recuperar o andamento com que o eixo do nosso planeta gira sobre si próprio. Não me surpreende, contudo, encontrar uma actualidade não muito distinta da que me lembrava, assombrada por expectativas cada vez mais cépticas num futuro menos castigador, histórias de corrupções, fraudes e aldrabices, que apesar de não incaracterísticas de outras épocas, se replicam abusivamente nesta.


Uma dessas histórias que não deve ter passado ao lado de muita gente foi a confissão de dopagem de Lance Armstrong, numa entrevista exclusiva com Oprah Winfrey. Ao fim de vários anos de fervorosa negação e de perseguição aos seus acusadores, o ex-ciclista saiu do armário, não tendo tido coragem porém para responder a nada que lhe pudesse trazer implicações judiciais ou para mostrar algum resquício de genuíno arrependimento. A entrevista em si não foi nada de extraordinário, mas ficou-me na retina uma das suas evasivas respostas em que o norte-americano refere ter ido ao dicionário pesquisar a definição da palavra "cheat". Achei curioso ver alguém com uma das carreiras mais bem sucedidas no desporto, puramente baseada na batota e no embuste, ter tido a necessidade de se socorrer do dicionário para alcançar o significado de tal vocábulo.

Mas aproveitemos a situação e façamos nós próprios a mesma reflexão. O dicionário de Lance definia "cheat" como "obter proveito através de algo que não esteja ao dispor dos outros". Sendo assim "cheat" (que vou traduzir como "corrupção" para efeitos de dramatismo) abrangeria um leque de circunstâncias muito maior do que se poderia pensar. Será o aluno que leva cábulas para o exame tão culpável como o ministro que se matricula com os exames já todos 'feitos'? Será o miúdo que faz batota no Monopólio tão desprezível como o professor que dá as notas sem permitir a revisão do exame? Ou será o médico que dá uma consulta extra ao cunhado do tio tão condenável como o dirigente da FIFA que faz leilões de Mundiais disfarçados de concursos imparciais? Sendo eu portista, e consequentemente, um perito em discussões sobre corrupção, acredito que a culpa desta ambiguidade não é dos dicionários, mas antes do nosso senso comum latino. Talvez quando nos assemelharmos mais com os povos nórdicos, com quem tanto nos gostamos de comparar, possamos ter uma melhor noção do que significa viver em comunidade e do verdadeiro significado de corrupção.


Contudo não me sai da cabeça que este tipo de situações, que privilegiam o bem-estar pessoal ao bem-estar geral numa proporção socialmente inaceitável, não deixam de ser um espelho do mundo em que vivemos. Correndo o risco de ser confundido com a opinião populista de que a sociedade tem culpa de tudo, julgo provável que esta era da informação e globalização contribua com a sua quota-parte para o problema. O universo cibernáutico veio proporcionar uma possibilidade infinita de igualdade, mas o preço pago por essa benesse pode ser medido, por exemplo, nas versões online de vários jornais, onde frequentemente se podem ler comentários brutalmente desadequados a notícias perfeitamente banais como "de certeza que é cigano" ou "havia de ser comigo, engolias esses dentes todos seu p****" e onde a correcção ortográfica é tão prevalecente como o Rinoceronte Negro no Pinhal de Leiria. Por outras palavras esta democratização do acesso à informação e do acesso ao comentário leva a que haja uma popularização da crítica. Hoje em dia saber estar calado deixou de ser uma virtude, porque o anonimato se tornou sinal de insucesso, e é por causa disso que temos canais de TV infestados com Casas dos Segredos e outras parvoíces. Tudo bem que esse parolos que aparecem na TVI não fazem mal a ninguém, mas não nos podemos esquecer que a idiotice é uma pré-requisito para a corrupção. Sim porque por muita fachada que um fato e uma gravata possam oferecer, não há pior idiota que o aristocrata que negligencia os direitos da comunidade!


Mas o que tem o cinema a ver com tudo isto? Já lá vamos. No outro dia quando estava a ler uns artigos sobre o nosso amigo ciclista tropecei numa notícia, já com alguns meses, que anunciava um filme baseado numa autobiografia do campeão americano, já com a Sony Pictures e o Jake Gyllenhaal envolvidos no projecto. É óbvio que, com o escândalo da batotice do homem, os responsáveis pela produção tiveram que deitar todo o planeamento já feito pela janela fora, ou pelo menos foi assim que pensei. Porém, não podia estar mais errado! Ao acabar de ler a notícia fiquei a saber que JJ Abrams (o produtor de Lost) garantiu já os direitos do livro de uma repórter do New York Times, acerca das falcatruas com que Armstrong fez a sua carreira, livro esse que ainda nem sequer foi lançado. Hollywood não se deixa deter por situações destas! Em vez disso atropela-as e saca-lhes mais dinheiro!

Mas veja-se o lado positivo da coisa: num mundo com tanta preguiça de se intelectualizar, em que se prefere sempre um filme de 2-3 horas a um livro de quinhentas páginas, por que não aproveitar esta extraordinária máquina de fazer filmes e distribuir cultura às massas? O problema da formação massiva de idiotas de que falamos anteriormente seria possivelmente colmatado se o cinema fosse integrado nos programas pedagógicos do nosso país. Imagine-se a dificuldade que há em fazer com que alunos adiram à leitura de obras icónicas da literatura e a contrastante adesão quando se substitui esse processo pelo visionamento de um filme. Agora adicione-se a esse aspecto a capacidade catártica que só a arte tem em conseguir mudar as pessoas. Quem nunca se perguntou a si mesmo se teria a mesma capacidade de altruísmo e benevolência que Liam Neeson protagoniza em "A lista de Schindler", onde perpetua a história verídica de um homem mundano, igual a todos nós, que muda à medida que testemunha os horrores do holocausto e se torna num verdadeiro filantropo? Ou quem nunca se sentiu fascinado com a deliciosa história de Salvatore Di Vita e Alfredo no "Cinema Paraíso", onde o fascínio pelo cinema se confunde com as comoventes paixões e nostalgias de um jovem Siciliano criado entre projectores e películas?


Não quero com isto dizer que o livro deva ser negligenciado face ao filme. Quem sabe desfrutar de um livro sabe que são raras as ocasiões em que a sétima arte faz jus à obra escrita. Mas em verdade vos digo que como aluno não havia dias mais felizes do que aqueles em que a funcionária da escola aparecia na sala de aula com o monitor e o leitor VHS/DVD. A nível pedagógico o cinema está para a obra literária como a Aspirina está para o chá de Camomila, e as suas potencialidades exigem ser exploradas, especialmente numa altura em que 'sacar' um filme é tão cómodo como tirar um café. É natural que esta utilização do cinema como instrumento de educação cultural e de intervenção social não fará jamais com que todos os campinos portugueses saibam dizer quem pintou a Capela Sistina (até porque a iliteracia é como aquelas comichões que por mais que se esfregue só aumenta a coceira), mas estou confiante que algum dia havia de estabilizar esta crescente praga de cretinos, corruptos e idiotas, que não deixam de parasitar a praça pública. Quem sabe um dia se possa mesmo fazer com que as decisões do nosso país passem por pessoas com o mínimo de formação intelectual e humana que todo o legislador deve possuir. 

Mas isso fica para quando houver Ministro tolo o suficiente para acreditar nestes devaneios.

Gustavo Santos

Por uma definição justa de pirataria



A pirataria é um mal que paira sobre a Humanidade. Todas as semanas, navios de praticamente todas as nacionalidades correm grandes riscos de serem abordados por piratas somalis nos Mares Arábico e Índico. Enquanto isso é um atentado à integridade física de pessoas e um roubo de produtos físicos - e a também antiga contrafacção de artigos coloca em risco a vida ou a saúde das pessoas - os governos e entidades mais ou menos oficiais preocupam-se principalmente com um tipo de pirataria bem mais ofensivo ou perigoso: a democratização do conhecimento cultural, através da partilha de conteúdos digitais.

Os conteúdos digitais foram uma invenção da indústria. Dando variedade de formatos e portabilidade, tencionavam vender mais, mais depressa e com maior lucro. E tal como no tempo dos gravadores de VHS, os consumidores contornaram as regras. Se há vinte anos as revistas apoiavam o consumidor fornecendo capas e códigos para gravar à hora certa, agora são os próprios fornecedores de serviços televisivos a permitir a gravação e visionamento posterior com um mínimo de esforço. E isso é legal porque, apesar de os fabricantes de conteúdo não gostarem, como são empresas que o fazem pagam impostos, continua a ser negócio. Os consumidores agradecem o serviço prestado. Vender DVD contrafeitos é ilegal. Porque nesse cenário não ganha quem faz o conteúdo, nem quem o vende paga impostos sobre o seu trabalho. O consumidor agradece pagar menos do que por um bilhete de cinema ou uma cópia oficial e, como os tempos estão difíceis, já sente que é justo cortar numa despesa “supérflua” como é o entretenimento.

Disponibilizar conteúdos online equivale ao anterior porque, atingindo determinada escala, começa a arrecadar quantias consideráveis de dinheiro com a publicidade. E se quem os coloca online não estiver a ter lucro, nem a roubar a ninguém? Esse era o caso do blog My One Thousand Movies. Os três mil filmes que tinha eram clássicos que não se encontram à venda nem passam na televisão. Pretendiam dar a conhecer o património cinematográfico da humanidade. Serviam para descobrir cineastas esquecidos e obras de culto, mas com pouca resolução para que ninguém se sentisse tentado a ficar com essa versão em vez de se dedicar a procurar no mercado convencional de importação uma versão melhor. Outra vantagem é que no My One Thousand Movies todos os filmes tinham legendas em português ou numa língua mais ou menos compreensível. Na importação não.

Dia 16 foi fechado pela Google sem qualquer aviso por incentivo à pirataria. Estamos a falar de filmes quase impossíveis de encontrar no mercado, que em nada rivalizavam com a versão comprada, se existisse uma, e que tinham no máximo uma centena de downloads provenientes de todo o mundo, não apenas de Portugal. O que o My One Thousand Movies fazia era complementar (ou substituir) a missão da deficiente televisão pública de educar cinéfilos. Muitos bloggers recorreram a este repositório para rever um título acarinhado, ou, a partir do filme e da pequena resenha que o acompanhava, fazerem publicações com as quais muitas outras centenas de pessoas ficaram com vontade de descobrir um cinema marginal e esquecido. Isto não é pirataria, é serviço público, e é preciso (re)definir o enquadramento legal adequado.

Se alguém errou no meio disto tudo foram as distribuidoras que não viram interesse em comercializar os filmes. Ninguém o pode ver porque não compensa comprar os direitos e fabricar para pouca gente? Sugeríamos que houvesse um videoclube online no qual, por um valor simbólico, se pudesse ver o filme contribuindo para a distribuidora. A distribuidora não teria encargos com a manufactura de cópias físicas que ficariam a ocupar espaço em armazém. Os consumidores exigentes encontrariam o que queriam imediatamente sem remexer em caixotes de promoções nas superfícies comerciais. Os retalhistas não estão interessados em ter uma cópia única de milhares de filmes que poderão nunca vir a comercializar, mas estariam interessados em vender cartões pré-pagos de acesso a esse serviço, como fazem para as consolas. Se o preço fosse suficientemente baixo toda a gente poderia espreitar e talvez descobrir algo único. Enquanto este tipo de serviço não existir, estaremos sempre dependentes da boa vontade, dedicação e cultura de pessoas como o autor do MOTM. Mesmo que achem que isso vai contra a lei. De todos nós, obrigado. 

Signatários
Ana Sofia Santos Cine31 / Girl on Film
André Marques Blockusters
António Tavares de Figueiredo Matinée Portuense
Armindo Paulo Ferreira Ecos Imprevistos
David Martins Cine31
Eduardo Luís Rodrigues EddyR Corner
Francisco Rocha My Two Thousand Movies
Gabriel Martins Alternative Prison
Inês Moreira Santos Hoje Vi(vi) um filme / Espalha-Factos
Jorge Rodrigues Dial P for Popcorn
Jorge Teixeira Caminho Largo
Luís Mendonça CINEdrio
Manuel Reis Cenas Aleatórias / TV Dependente
Miguel Reis Cinema Notebook
Miguel Lourenço Pereira Cinema
Nuno Reis Antestreia
Pedro Afonso Laxante Cultural
Rita Santos Not a Film Critic
Samuel Andrade Keyzer Soze's Place / O Síndroma do Vinagre
Victor Afonso O Homem que Sabia Demasiado

NINHO DE CUCOS (VII)

Novo mês, novo insurgimento social contras as velhas e austeras medidas que a Troika nos teima em oferecer como brinde natalício antecipado. Governo e sindicatos degladiam-se de forma cada vez menos figurada, numa luta entre pessoas cada vez menos interessadas em lutar. Assim se progride em Passos lentos no país pelo qual já ninguém dá Cavaco. Mas não sou eu, universitário sustentado pela família, que ainda me dou ao luxo de sofrer menos pelos sacrifícios financeiros, que pelo impacto psicossocial da crise, que vou juntar o meu latim à horda de bitaites que apesar de alheios à solução para a crise, são omniscientes relativamente ao facto da necessidade da guilhotina ter cabeças para separar do respectivo pescoço.


Não. Em vez disso deixem-me preocupar com as convocatórias da seleção ou com a mensagem de voz nos comboios da CP, enquanto escolho o país para onde vou emigrar. E se bem que as escolhas do mister Paulo Bento não têm volta a dar, já a robótica e feminina voz, que no final das viagens ferroviárias endereça uma agradecimento pela "preferência" dos seus utentes pela única empresa de comboios no nosso país, podia claramente beneficiar de uma completa remodelação. Sei bem que há alternativas ao transporte ferroviário, mas ter de ouvir uma barbaridade destas de uma operadora de transportes com um serviço tão ruinoso e tão pouco fiável como a CP torna-se tão agradável como ouvir a minha professora, que não chega à aula das 14h antes das 15h30, queixar-se da minha pontualidade. É sofrimento imerecido e numa época em que um noticiário é fonte suficiente de sofrimento para toda a semana revela-se cada vez mais premente suprimir estes desnecessários focos de angústia, para a população em geral, e para mim em concreto. Julgo mesmo oportuno revisitar a minha aula do meio-dia, em que um outro professor meu atentava na necessidade da precisão do discurso, citando Jô Soares com a feliz expressão: "Meça suas palavras!"

No nosso Portugal não impressiona que o efeito borboleta de uma má escolha de palavras em São Bento, seja razão suficiente para desencadear um ciclone de Bragança a Sagres. Por outro lado, não deixa de ser curioso o facto de se chutar uma pedra e aparecerem umas 10 pessoas capazes de identificar a mais ampla variedade de defeitos no novo acordo ortográfico, mas se sai uma notícia n'A Bola ou no Record a dizer que fulano vai ser "irradiado" do desporto, é rara a alma que reconhece a violência dos abusos a que a sua língua materna acabou de ser sujeita. Permitam-me portanto ser apologista do pedantismo, já que dele depende, não só a defesa da nossa cultura linguística, como também o bom funcionamento da nossa disfuncionante sociedade.

Mas quem vive também de uma boa escolha de palavras é o cinema. 


Costuma-se dizer que uma imagem vale mais que mil palavras, mas no fundo ninguém usa imagens para evidenciar a singularidade de uma circunstância. Uma citação, um título, uma discussão são, não raras vezes, exemplos máximos do expoente artístico que um bom filme pode oferecer. Pessoalmente admiro a arte de fazer funcionar um título. Pode não parecer tarefa digna de louvor, mas a congregação de um conjunto de palavras que sirva mais do que o simples propósito de rotular um filme comporta, por vezes, uma qualidade artística que muitas fitas não conseguem sequer aproximar nas suas centenas de minutos de rodagem. Mais do que isso, é difícil nos tempos que correm, encontrar um título que não denuncie metade da história da película, o que não deixa de ser sobejamente irritante, tendo em conta a quantidade de trailers e sinopses que surgem cedo demais e revelam mais do que devem.

A este ponto serve bem ao objectivo do meu argumento tirar "Good Bye Lenin", de Wolfgang Becker, da cartola, obra que representa exemplarmente a escassez de bons títulos a que me refiro. Esta película alemã, cujo nome nos transporta para um universo decerto comunista, oculta de forma encantadora a necessidade desta epígrafe. O filme desenrola-se na Alemanha dividida, mais concretamente do lado de lá do muro, numa altura em que o regime comunista parece prestes a dar os seus últimos suspiros de vida. Sucede então, que pouco antes da queda do muro, a mãe do protagonista entra em coma, e não acorda até que toda a evidência da sociedade em que sempre viveu seja substituída pela máquina capitalista, com rapidez e eficácia tais que a Blitzkrieg hitleriana se sentiria vexada perante tão descomplexada empresa. O desenlace do filme determina entretanto a dramática (porém cómica) tentativa do filho em proteger a ressuscitada mãe da invasão dos valores ocidentais de liberalização económica. Contudo, o pináculo da narrativa fica reservado para o momento em que a pobre mãe, vendo-se finalmente livre do hermético controlo da sua cria, se depara com a alienígena visão de uma Alemanha forrada a painéis publicitários, quando do céu surge, transportada por um helicóptero, uma estátua de Lenin de braço estendido em jeito de despedida. E é aí que o título do filme se desacorrenta da sua mera função de etiqueta, para fornecer àquela cena uma grandiosidade simbólica, de outra forma inatingível.


Este é o verdadeiro alcance que um perfeito uso da palavra é capaz de atingir. Enquanto que a necessidade básica do uso da palavra se confina à tradução de conceitos para linguagem comunicável e objectiva, a fim de fornecer informação para descobrir relatividade, o autor do filme contorna essa utilização comum atribuindo-lhe uma função que ultrapassa vastamente o seu valor concreto e fornece-lhe uma dimensão simbólica poucas vezes disponível fora da arte puramente literária. De qualquer das formas há-de sempre haver quem determine que o filme do Spiderman deva ser estandardizadamente chamado "Spiderman", e daí seja fácil perceber que a mestria do uso da palavra vá muito mais além do que saber juntar meia dúzia de vocábulos para simplesmente encontrar forma de denominar algo. 

Mas pronto isto tem o valor que tem quando é dito por alguém que encabeça os seus textos com números. 

Gustavo Santos

Ninho de Cucos (VI)


Não sei como funciona com as outras pessoas quando têm de escrever sobre cinema, mas comigo a coisa às vezes é feia. A questão recai sobre o facto de, como qualquer outra pessoa, eu escolher os filmes que vejo com base nas expectativas que tenho deles, optando por aqueles que me parecem mais adequados ao meu gosto e assim ficar limitado a ver apenas alguns que me não irão agradar. E isto torna tudo mais difícil, porque num filme de que se não gosta é muito mais fácil objectivar as características que tornam a experiência desagradável, enquanto que num filme que nos deixa boa impressão não raras vezes torna-se difícil de articular em palavras aquele plasma de pensamentos que é responsável por essa positiva impressão. Prova disto é a facilidade com que uma pessoa atinge a típica expressão do "estou sem palavras" quando a força da circunstância exige um agradecimento ou elogio, mas quando o acaso requer uma crítica ou um insulto a torrente de vocábulos originada inunda a consciência de tal forma que a razão geralmente se afoga.


Assim decidi evitar aqui uma lamentação madalénica e aproveitar esta oportunidade para espalhar alguns elogios sobre algo que realmente aprecio. Portanto tendo em consideração o facto de as séries terem recomeçado, achei por bem tecer uns poucos de louvores à melhor série animada de que há memória: South Park! Sim os Simpsons também são porreiros sim senhor, mas não há nada melhor do que chegar a casa depois de um dia cheio de trabalho, depois de ter de aturar três ou quatro suplementos da dose diária recomendada de idiotas e ter um episódio novo de South Park à espera no computador. Não estou a exagerar. Para quem quer que tenha a mania que sabe mais que os outros, como eu, South Park é um refúgio divino, um idioma secreto que nenhum estranho pode compreender. 

Munidos de uma capacidade incrível de satirizar qualquer tema que lhes apareça pela frente, Trey Parker e Matt Stone, os criadores, argumentistas e responsáveis por quase todas as vozes do programa, redefiniram esta forma de paródia social, atingindo temas universais, sob a camuflagem de um grupo de miúdos do 4º ano representados através das formas mais primitivas que os meios de animação actuais têm para oferecer; o que por si só acaba por ser uma sátira ao fascínio pelo o belo e o perfeito que tantos cineastas idealizam como nirvana pessoal.


Tudo começou em 1995 com um orçamento de 2000 dólares para fazer um pequeno clip que servisse como cartão natalício, para enviar aos amigos e familiares. O que ninguém estava à espera é que a incapacidade de Parker e Stone obliterarem o seu génio criativo tivesse tamanha magnitude num short film com tão pouca exposição mediática. O que sucedeu foi que essa pequena animação (feita à moda da escola primária com uma câmara de filme 8mm, cartolina e cola UHU) originou um pequeno milagre através da redistribuição do filme de amigo para amigo, até ir parar aos executivos da Comedy Central que oportunamente resolveram assinar contrato com ambos para a realização daquela que é uma das mais bem sucedidas e duradouras séries animadas da televisão. Isto numa altura em que os computadores eram mais gordos que o John Goodman, e em que um download de 5mb demorava mais do que as temporadas todas do Serviço de Urgência. A verdade é que valia a pena ficar à espera para sacar o vídeo. Apesar de visualmente infantil e parco em qualidade cenográfica, "The Spirit of Christmas" exibe toda a capacidade artística dos seus criadores, num conto onde as 4 personagens principais de South Park (Stan, Kyle, Cartman e Kenny) se deparam com o dilema de "quem apoiar?" quando uma batalha entre Cristo e o Pai Natal, pela supremacia no respectivo feriado, toma lugar. Tudo isto polvilhado com miúdos esborrachados e trocas de insultos infantis entre Cartman e os seus colegas, formam uma história surpreendentemente cativante para o propósito a que estava destinada. E não deixam de acabar com uma lição final de conciliação (que aliás é uma constante na série televisiva), onde um dos rapazes, geralmente Stan ou Kyle, começa com a expressão "I've learned something today..." em que surge sempre um corolário daquilo que os rapazes aprenderam com os eventos do episódio, se bem que em "The Spirit of Christmas" não seja bem esse o caso...


Mas o que separa South Park de qualquer outra série animada não infantil é o facto de se tratar de um trabalho humorístico de opinião. Fazer comédia sem fins argumentativos é infinitamente mais fácil do que fazê-lo com capacidade crítica, e neste departamento ninguém o faz tão bem como estes senhores. Contudo, a forma como lançam as suas contundentes opiniões ou quais os temas que escolhem para alvejar, são completamente alheios às consequências que delas possam surgir. Recordo-me por exemplo do episódio em que Stan e amigos vão ver o filme do "Indiana Jones e a Caveira de Cristal" e ficam tão incomodados que resolvem dirigir-se a um advogado para apresentar queixa contra o Spielberg e o George Lucas por terem violado o Indiana. E não satisfeito com esta dura crítica, o episódio concretiza-a com desagradáveis imagens dos dois cineastas a sodomizarem positivamente o pobre arqueólogo. E como este há imensos outros exemplos da ferocidade dos criadores de South Park, especialmente nos vários episódios dedicados a criticar o fanatismo religioso e as suas ramificações. Decerto que haverá muita gente capaz de censurar este tipo de trabalho, mas com certeza também haveria quem considerasse os Monty Python um bando de palhaços espalhafatosos, e que da mesma maneira que eles se tornaram numa referência mundial, também South Park obterá o seu reconhecimento, mesmo vivendo sob a sombra do poderoso fenómeno "The Simpsons". É minha opinião, porém, que um trabalho humorístico que consegue levar à gargalhada de forma tão fácil e que é ainda capaz de imprimir um traço crítico tão forte e carismático, é digno de um estatuto tão ou mais elevado que os seus rivais da Fox.


Ainda assim, apesar de não beneficiar do mesmo reconhecimento e visibilidade de que os bonecos amarelos usufruem, South Park já teve também direito à sua saga cinematográfica, curiosamente lançada numa fase bem matinal da sua existência, mais concretamente em 1999, com boa aceitação por parte da crítica. A fita faz juz ao seu epíteto "Bigger, Longer and Uncut" pois na verdade parece muito mais tratar-se de um episódio maior e mais comprido, com um esquema narrativo em tudo idêntico ao da série, do que de uma nova vertente do franchising. Mas ao contrário do filme dos Simpsons que não retrata bem a qualidade da série, o filme de South Park traz consigo toda a irreverência e profanidade que caracteriza o estilo humorístico dos seus mentores. A história baseia-se num filme canadiano com linguagem abusiva, ao qual os 4 rapazes assistem, e cuja linguagem adoptam no seu dia-a-dia, até que os seus pais ficam chocados quando reparam. Entretanto conseguem convencer o governo a entrar em guerra com o Canadá, e quando dão por ela aparece Satanás com o seu amigo Saddam Hussein para se juntarem ao reboliço. No fim tudo termina de forma fantástica, mas o que fica do filme é a sátira à censura da liberdade de expressão e à intolerância das autoridades que categorizam os filmes, toda ela impregnada numa comédia animalescamente rude. Um filme que vale a pena ver, especialmente para quem não conhece o universo South Park.


E pronto, aqui fica a minha dose de bajulanço a Trey Parker e Matt Stone, dois tipos que fizeram a carreira apenas com os conhecimentos que obtiveram da congénere americana da nossa disciplina de EVT, e fizeram o favor de dar ao resto do planeta a satisfação de poder contar com a rude genialidade que caracteriza esta parelha. Dois colossos do género. Ao pé deles, Groening e Macfarlane são dois gaiatos...

Gustavo Santos

Ninho de Cucos (V)

A pluralidade de interpretações que o género cinematográfico é capaz de produzir faz parte das características que o tornam fascinante, muito embora não seja este aspecto suficiente para o demarcar de outras formas de arte. O que realmente o torna cativante é a possibilidade que proporciona de argumentação racional dessa ambiguidade de perspectiva, ao invés de outras em que a discussão assume critérios menos práticos. Aquilo que a tanto custo tento por em palavras é que enquanto na pintura, na música ou no bailado a discussão artística se fundamenta em argumentos baseados puramente na intuição pessoal, no cinema ou na literatura, pode-se discutir o impacto artístico sob a alçada de argumentos regidos menos pela sensação que pela razão. 
E é por causa de todo este fascínio que gosto de me perder a ler as críticas que os utilizadores fazem em sites como o IMDB, o Rottentomatoes, ou a fantástica blogosfera em que o Dial P for Popcorn se insere; e percebo que enquanto alguém acha grande piada à história, uma outra pessoa não gosta do filme por causa do trabalho de câmara ou da interpretação de certo actor. Assim, compreende-se de uma forma maior o cinema e as suas diferentes variáveis, e que leva, creio, a uma noção mais completa da experiência cinematográfica.


Tudo isto para dizer que no outro dia estive a ver o In Bruges e achei que se trata dos filmes mais bem estragados de que me recordo. De início foge bem ao típico filme de gangster, e dá a noção de ser um filme de qualidade ao introduzir subrepticiamente a situação que leva dois mobsters britânicos (interpretados de forma magnífica por Colin Farrel e Brendan Gleeson) a uma estadia, desejada de forma bem distinta por ambos, na cidade belga de Bruges. Os diálogos vão crescendo com o desenrolar do filme, com uma interessante intermitência entre o desconfortável e o engraçado, e chegam a atingir um nível em que o humor britânico se faz representar por brilhantes gracejos encobertos por um discurso mundano, em que são explorados estereótipos americanos, ou em que o conceito de purgatório é comparado ao Totenham. Não obstante tudo isto, o filme ainda coloca o espectador sob dilemas éticos incompreensíveis para qualquer indivíduo que nunca tenha enviado outro ser para o além, como espelha um dos momentos do filme em que o dever de matar e o direito à vida são reavaliadas pela personagem de Gleeson, quando a tentativa de suicídio do seu colega redefine os seus princípios. Na verdade, todo o filme transporta uma grande dose de expectativa até certo ponto, em que se torna numa desnecessária sucessão de idiotices técnicas que fazem de um grande filme, uma macacada ao género dos Looney Tunes.


- Tudo começa no momento em que, no comboio em que a personagem de Colin Farrel - Ray - viaja para abandonar Bruges, surge, vá-se lá saber como, um polícia que o detém, devido a uma agressão a um turista canadiano dias antes. Isto numa altura em que a carruagem atravessava uma vasta planície, sem sinais de urbanização próxima. De onde surgiu o polícia? E porque andaria ele especificamente naquela carruagem que nem Ray sabia para onde ia, só McDonagh saberá. Mas pronto toda a gente sabe que os omniscientes polícias belgas dominam a arte do teletransporte, por isso não façamos muito caso deste pequeno detalhe.

- Mais tarde o cúmplice de Ray - Ken - é confrontado pelo seu raivoso patrão - Harry (encarnado por Ralph Fiennes) - numa cena que decorre no interior de uma Torre com umas largas dezenas de metros de altura. Ora esta cena, carregada de grande dramatismo, resulta num combate do qual Ken, sai baleado por 2 vezes à queima-roupa, uma na perna, outra na região lateral do pescoço. E é aqui que esta história tão bem construída até então se transforma, de um momento para o outro, num conto do Buggs Bunny e amigos. Se bem que um tiro na perna, apesar de doloroso, possa não ser fatal ou até incapacitante, já o tiro que Ken leva no pescoço poderia levá-lo apenas para o Além ou para ou para os Jogos Paralímpicos. Contudo, no filme a personagem de Brendan Gleeson consegue estancar a hemorragia com a insuperável força dos pensamentos positivos, e atreve-se ainda a escalar alguns degraus até ao alto da torre, onde se decide a mergulhar violentamente para a calçada da cidade belga. E se pensam que nesta altura ele está definitivamente a caminho da outra vida, depois das duas balas e de ter distribuído as suas entranhas por toda a praça onde se esborrachou ao fim de 80m de queda livre, pois pensem outra vez porque estão enganados! Ken tem ainda tempo para um chit-chat com o seu colega Ray, que acorre a socorrê-lo infrutiferamente, já que depois de uns avisos, Ken anuncia que vai morrer. Mariquices se querem que vos diga... para um tipo que sobrevive aquilo tudo, custa-me a crer que não tivesse tempo para uma peladinha e uma jantarada antes de falecer, mas pronto, cada um tem as suas prioridades.


- Por último queria só destacar a conclusão do filme. A realização opta pelo clássico confronto entre o herói e o vilão num shootout à pistolada, em que a qualidade do discurso permanece avassaladora, mas que continua com momentos menos conseguidos, como a cena do barco, onde o perseguido Ray não tenta de modo algum evitar a bala que o acaba por atingir, e em que o condutor do barco não faz sequer caso da situação. Outro pormenor é o facto de depois de tanta eficácia na detenção de Ray, a polícia belga manter-se surpreendentemente alienada de todo o frenesim sanguinolento que agita as ruas de Bruges. Mas provavelmente estariam todos a treinar as suas capacidades de teletransporte em Hogwarts, ou coisa que o valha. O filme termina depois de forma não muito surpreendente mas bastante inteligente, com um forte tom de ironia que desafia derradeiramente os princípios deontológicos da conduta humana.

Terminada esta sangria de palavras contra o filme de Martin McDonagh, talvez seja importante esclarecer que não estou para aqui a exigir que um filme destes seja tão fidedigno como um documentário. O problema aqui é que a narrativa dispõe-se a contar uma história cuja relevância é veiculada unicamente pelos termos em que é contada, e no caso de algum desses termos estar em desacordo com o fio condutor, todo o trama desmorona qual castelo de cartas. A verdade é que um filme deste género, que tem por base uma realidade real, obriga-se a ser concordante em todos os momentos da sua rodagem. É que isto é chato. O filme é bom, muito bom mesmo, mas não é um filme sólido. É que para se por com estas coisas, mais valia introduzir uma realidade liberal, como naquelas comédias baratas tipo Ben Stiller ou Adam Sandler, em que se estabelece de início um acordo tácito, entre realização e audiência, e em que tudo é permitido. Ou até como fazem nos filmes de adolescente, onde qualquer tentativa de aproximação à realidade é sacrificada em prol do humor, ou mesmo em raridades como o Fear and Loathing in Las Vegas onde a temática da toxicodependência atropela qualquer lógica narrativa. Caramba há até quem o consiga fazer com classe e categoria, como atesta um dos mais recentes êxitos do sr. Woody Allen: Midnight in Paris.


Portanto não há desculpa! In Bruges podia ser um filmaço sem aquelas irritantes cenas, que podiam ter sido corrigidas, disfarçadas ou imersas numa realidade semi-imaginada, mas a verdade é que McDonagh consegue empregar com a mesma facilidade a sua brilhante capacidade, tanto para erigir uma inusitadamente interessante história, como para quase vulgarizar todo o esforço empregue nessa façanha. A verdade é que dá a ideia que quem dirigiu o filme não tinha bem noção de como as coisas se iam desenrolar. Não acho que isso seja dramático, porém. Eu próprio não faço ideia como vou acabar este parágrafo, mas parece-me razoável exigir ao tipo, que tem de orquestrar uma plêiade de recursos humanos, materiais e intelectuais, que tenha uma noção forte daquilo que está a fazer. Mas este é o sintoma exacto de que padece também o Mulholland Drive do David Lynch, que partilha ainda com o In Bruges o cariz autodestrutivo, se bem que devido a outros motivos. Não é boa arte iludir o auditório na expectativa da resolução de um enigma, resolvendo-o por meio de uma solução inventada. É a mesma coisa que marcar um golo com a mão, ou ir fazer o choradinho ao professor por causa da nota. Não é assim que é suposto as coisas funcionarem, e não é assim que se satisfaz um espectador. Não falta arrojo, não falta audácia, falta respeito pela narrativa.

E bem, já que estou farto de lançar achas para a fogueira, talvez seja, por fim, altura de endereçar os devidos elogios que Martin McDonagh merece. Para ser honesto, devo admitir que a razão para este rabugento cortejo de parágrafos se deve, em grande parte, a todo o potencial para o crime-comédia que o britânico mostra neste seu primeiro grande trabalho. Costuma-se dizer que no melhor pano cai a nódoa, e neste caso creio que a sapiência popular volta a bater a necessidade de eloquência do gastador de palavras. In Bruges, apesar de tudo o que foi dito, deixa água na boca e dá azo a grandes expectativas sobre se este senhor será capaz de trazer um daqueles filmes perfeitos que servem de culto a gerações. Ficamos à espera.

O Tarantino e o Ritchie que se cuidem!


Gustavo Santos

Ninho de Cucos (IV)



Não estou certo de que exista alguma afinidade entre o mundo do cinema e do desporto, mas como adepto confesso desta última forma de entretenimento, não podia deixar passar em claro esse tão popular certame que são os Jogos Olímpicos. É óbvio que os dias em que a peregrina ideia do saudoso barão de Coubertin se conseguia traduzir numa fantástica reunião universal de competidores, vão longe. Ainda assim, apesar da inundação dos sponsors e da abertura ao profissionalismo que vieram desvirtuar os valores originais da competição, há que conceder que esta contenda se revela o evento mais globalizante e um dos mais apetecíveis do quadriénio, devido em grande parte à amplitude sócio-geográfica que consegue atingir. A verdade é que não é preciso perceber nada de desporto para se poder apreciar a beleza de momentos em que atletas de países de 3º mundo alcançam a possibilidade de partilhar os holofotes com as maiores estrelas do desporto mundial, e que em raras ocasiões se tornam até capazes de desafiar a lógica probabilística.

Contudo, a raridade dessas ocasiões é cada vez mais evidente. A sociedade consumista do sec. XXI exige grandes atletas e grandes façanhas, não há espaço a vitórias românticas. A atenção volta-se apenas para aqueles que conseguem fazer história, mas perde-se a noção de que conseguir resultados de gabarito não é tarefa tão banal como os superatletas de hoje, que batem recordes da era da guerra fria, o fazem parecer. A verdade é que hoje em dia o mundo precisa de Michael Phelps e Usain Bolts para satisfazer a necessidade estúpida de criar lendas, e toma-os como referências comuns, ao invés de os considerar anomalias fisiológicas ou hipérboles probabilísticas, como na verdade o são. E é daqui que surge a desproporcionada ideia de que qualquer atleta tem a obrigação de lutar por uma medalha, ou pelo menos bater um recorde. A conquista de um lugar no pódio deixou de ser uma tarefa excepcional para ser incluída na lista de obrigações.


Mas o que me impressiona nesta história toda é que nesta era de globalização, em que tão depressa se sabe qual a última contratação do Benfica como a marca da bolsa da primeira dama da Coreia do Norte, e em que se consegue obter informações de qualquer parte do mundo à distância de um clic, toda a gente distribua a atenção sobre o mesmo selecto grupo de indivíduos. Bem sei que esta coisa da aldeia global não está isenta da poderosa influência dos media, mas é com pena que vejo toda esta democratização do acesso à informação ser utilizada para a formação destes ícones mundiais, que para muitos, certamente assumem o papel de heróis.


E talvez seja por isso que o cinema de herói tem vindo a ganhar popularidade nos últimos tempos. Não é por acaso que na última década se têm multiplicado que nem coelhos, filmes baseados em personagens da Marvel, DC Comics e outras que tais. Hulks, Thors, Avengers e Capitães America têm vindo a assumir-se como o baluarte de um género que apesar de não ser novo, aproveita essa fraqueza humana que nos deixa hipnotizados por super-heróis, como quem quer ir para a cama dormir mas não consegue encontrar um parágrafo onde deixar a leitura. Não desafio a lógica de quem, por boa arte, consegue capturar a imaginação do comum cidadão, ao criar personagens que lançam teias do pulso ou desafiam as leis da gravidade; mas dá-me uma certa coceira intelectual perceber que o filme de herói se juntou ao policial, à comédia romântica e outros tantos, no lote dos géneros que compõem a sucata cinematográfica. Não que eu desgoste de super-heróis. Bem, pelo contrário. O que me desconcerta no panorama actual, é que esta vaga de filmes imprimiu a ingénua noção de que cada super-herói deve ter o seu filme! E isto é que estraga tudo. Um filme deve ser feito simplesmente se houver motivação artística para que seja feito, não por ser desprestigiante que o Silver Surfer não tenha o seu próprio filme, enquanto que o Iron Man tem já dois. 


Mas cinjo-me unicamente aos heróis de banda desenhada, quando não era de todo minha intenção. O tipo de filme que viso criticar é todo aquele em que o protagonista surge exclusivamente (ou quase) como um somatório de qualidades humanas, ou que pelo menos essas qualidades sejam o foco principal do filme. Não que haja algo de errado com o filme de herói. De facto, muitas das histórias que valem a pena serem postas em fita pertencem a este grupo. A minha ranhosice deve-se mais à escassez de tramas, em que o protagonista seja mais (ou menos se quiserem) que um mero herói.. Falo de filmes como o sr. Kubrick sabia fazer tão bem, em que o protagonista é muito mais imperfeito e humano, o que dá a impressão que anti-heróis como Redmond Barry (de "Barry Lyndon"), ou Alex Delarge (de "A Clockwork Orange") estejam próximos do risco de extinção. Claro que construir personagens destas dá muito mais trabalho do que contar uma história de sucesso estóico, e requer um nível de perícia que, por infortúnio da criação, não está disponível ao comum dos mortais. 


Há que perseverar, contudo. O anti-herói não está completamente morto. Ainda que as histórias de Kubrick estejam distantes no tempo, e não seja fácil encontrar pares no cinema actual, há ainda fogachos mais recentes que celebram este tipo de filme, como "Fight Club" ou "American Psycho" da transição de milénio, com os dissidentes Tyler Durden e Patrick Bateman, igualmente perturbadores e inquietantes, na sua própria maneira. Também o cinema asiático, com a sua característica capacidade de criar ambientes funestos, tem tido um papel importante com blockbusters como "Oldboy" ou mais recentemente "I Saw the Devil". Mas diz a voz do bom senso que parte do que faz este género tão aprazível é a sua raridade, pelo que acaba por não ser mau que se este se mantenha com este estatuto de underdog.


De qualquer das formas num mundo tão distorcido de prioridades e em que os teenagers levam iPads debaixo do braço em vez de livros aos quadradinhos, percebe-se que seja incomportável para um miúdo ter de continuar a ver o Homem-Aranha aprisionado em vinhetas. São as novas tecnologias diz o meu avô. E se calhar até são. Mas o que o meu avô não se lembra é que o materialismo e o capitalismo já existiam antes dos tablets invadirem o nosso bolso.


Gustavo Santos

Ninho de Cucos (III)

Por vezes, não ter nada que fazer torna-se numa boa oportunidade para pôr em dia certos desejos que, por sobrelotação horária ou por simples ócio, acabamos por erroneamente adiar. Foi com esta constatação que há coisa de mês, mês e meio, me resolvi a ver "O Planeta dos Macacos", uma marcante saga do final dos anos 60, com a qual tomei conhecimento pela primeira vez, através do remake de Tim Burton de 2001, ao qual a democracia do IMDB atribui um pragmático 5.6. Lembro-me de na altura o ter achado um filme desprovido de ritmo e perdido na simplicidade do heroísmo do protagonista, interpretado por Mark Wahlberg, cuja demanda permitiria ao espectador exigir uma dedicação mais emocional, e uma dramatização mais humana na envolvência da narrativa, que vai perdendo o interesse à medida que a história se desenrola, tal como uma pastilha vai perdendo o sabor à medida que a mascamos. Ainda assim, o desconcertante desenrolar dos acontecimentos foi viral o suficiente para me suscitar aquela necessidade (de espectador de novela brasileira) de ver todas as questões respondidas. Contudo, o desfecho final consegue ser ainda mais confuso e impossível que todo o resto do filme, sendo completamente desprovido de sentido, o que deixou com certeza muita gente a perguntar-se como é que ninguém, na linha de produção deste trabalho, se apercebeu que a maneira como acabam o raio do filme, não faz sentido algum!


Pois bem, ao fim de todos estes anos, resolvi então por os olhos no filme original, na ânsia de encontrar necessidade para a realização de um remake e qualidade que justificasse tal necessidade. E foi com bastante agrado que encontrei essa tal qualidade, que Tim Burton tanto se esforçou por esconder com espessas camadas de tretas. O Filme produzido por Arthur P. Jacobs é uma lufada de ar fresco para quem, como eu, teve o infortúnio de conhecer a história através da sua infeliz réplica. Esta obra, protagonizada por Charles Heston, explora as questões existencialistas levantadas por um ambiente em que o Homem não é o ser mais evoluído e integra-as num enredo em que a fuga é a única opção, terminando-a com um final arrebatador, capaz de sujar bem mais cuecas que muito filme de terror que por aí anda. Mas ao contrário do que possa dar a entender, o filme não se baseia tanto num confronto bélico entre duas civilizações rivais, mas antes num embate de consciências que coloca em perspectiva o modo como percebemos e aceitamos o mundo que nos rodeia. E não obstante os muitos anacronismos de que padece, "O Planeta dos Macacos" de 1968, tem todo o direito de ser considerado um clássico do cinema, ainda que as 4 sequelas que o sucederam entre 1970-1973, pouco tenham contribuído para esse estatuto (ao invés do mais recente "Rise of the Planet of the Apes" de 2011).


É portanto, com grande pena, que vejo um bom filme ser tão maltratado por um outro trabalho, que deveria, quando muito, servir para prestar tributo ao seu antecessor. Mas hoje em dia o cinema, como muitas outras artes, é uma indústria. Para quê honrar arte, quando se pode tão bem honrar o capitalismo, e espremer bem espremido um franchising tão promissor com um belo dum remake? Com 30 anos de avanço em meios técnicos e efeitos especiais nada poderia correr mal, certo? Bem pelo contrário. Um remake tem tudo para dar mal. Um remake é como seguir uma receita de culinária de um amigo: por um lado é preciso seguir os diferentes passos em concordância com o que está escrito, senão o provador vai dizer que a receita sabe diferente daquilo de deveria saber; por outro lado é preciso saber trazer algo de novo à receita, senão o provador vai dizer que o prato sabe igual ao do amigo. Sei que isto é um bocado "preso por ter cão, preso por não ter", mas aquilo que quero dizer é que como há bons e maus cozinheiros, também há bons e maus realizadores. É tudo uma questão de tempero.


Mas para mim, este nem é o principal problema dos remakes, porque por muito maus que possam ser, o original pode sempre ser revisitado, e apesar de tudo, há por aí filmes bons dentro do género. O principal pecado de um remake é o facto de este vir sempre depois do original e, como tal, condicionar o senso cultural das massas, (sobretudo os mais jovens) sob a enganosa premissa de que o remake não é um remake! Este é aliás um problema que é partilhado com a música, devido ao parente do remake: o cover. Pensem bem, quantas pessoas que conhecem não sabem de quem é o "Knockin on Heaven's Door", ou quantas acham que o "Somewhere over the Rainbow" é de um havaiano qualquer com obesidade mórbida? 


A verdade é que a tanto a música como o cinema são utilizadas cada vez mais como bens de consumo para simples entretenimento do seu utente, estando longe de serem vistas como peças de arte, não ostentando actualmente o mesmo estatuto cultural de um quadro ou de uma escultura, o que faz com que o último trabalho seja geralmente o mais reconhecido, independentemente da sua qualidade. Com a era da informação revela-se cada vez mais importante estar actualizado, passando para segundo plano o enriquecimento cultural. Por outras palavras, é mais útil conhecer o mais recente, do que o melhor. É aí que o remake triunfa!

Gustavo Santos