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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

LA GRANDE BELLEZZA, de Paolo Sorrentino

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"This is how it always ends, with death.

 

 

But first there was life. Hidden beneath the blah, blah, blah. It is all settled beneath the the chitter chatter and the noise. Silence and sentiment. Emotion and Fear. The haggard, inconstant flashes of beauty.

 

 

And then the wretched squalor and miserable humanity. All buried under the cover of the embarrassment of being in the world.

 

 

Beyond there is what lies beyond. I don't deal with what lies beyond.

 

 

Therefore, let this novel begin.

 

 

After all it's just a trick. Yes, just a trick."

SELMA, de Ava DuVernay

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É bom quando não se complica aquilo que tem tudo para correr bem. E um filme com Martin Luther King, sobre as suas causas, que reconstrói um momento importante da sua longa e fatal caminhada, tem os ingredientes necessários para começar com o pé direito. Se o embalarmos com um groove muito característico do soul americano, continuamos no caminho certo.

 

Mas só isso não chega.

 

Precisamos de um actor à altura de um personagem tão nobre e carismático como o foi Martin Luther King. E David Oyelowo cumpriu com aquilo que lhe era exigido. Precisamos de trabalhar o argumento e torná-lo apetecível ao ponto de um obstáculo, no meio da longa caminhada pela igualdade dos direitos dos americanos de raça negra, fosse mais do que uma mera ponte. E a caneta de Paul Webb encontrou a câmara de Ava DuVernay para juntos darem forma a Selma. Um episódio incrível da luta dos negros e dos brancos que viram para lá da densa cortina do racismo. Que tiveram forças para ultrapassar barreiras nunca antes importunadas. Selma é uma bonita homenagem aos mais corajosos.

SNIPER AMERICANO, de Clint Eastwood

Cada tiro, cada melro, diz-se no nosso quintal.

 

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E na realidade assim era o lendário disparo de Chris Kyle (Bradley Cooper), um sniper cuja pontaria lhe valeu o estatuto de herói americano e que desgraçadamente acabou morto por um "tiro perdido" de um veterano de guerra a poucos metros de sua casa. Um final inglório. Um spoiler desnecessário, talvez. Mas preciso de vos poupar o tempo precioso que eu perdi a ver este filme feito de tiros, patriotismo, tiros, patriotismo, tiros, América!!!, tiros, América!!!, tiros, tiros, bombas, tiros, America!!!. Em boa verdade, perdi a minha paciência para películas que se vendem aos fetiches do público americano e que esperam com isso sustentar o seu sucesso. Infelizmente, assim se resume o filme de Clint Eastwood. A interpretação de Bradley Cooper é engraçada (o melhor aspecto do filme), mas estive longe de sentir a tensão que, por exemplo, Kathryn Bigelow consegue emprestar em filmes deste género. A história de Sniper Americano contava-se em meia dúzia de minutos. E é por isso que não me vai tomar mais do que meia dúzia de palavras.

GONE GIRL, de David Fincher

No cinema há poucas coisas melhores do que um bom filho da mãe.

 

 

Gone Girl tem, muito provavelmente, o melhor argumento americano de 2014. Eu ainda não vi tudo o que anda por aí, ainda há algumas boas histórias por estrear, mas poucas vão desafiar tanto um espectador como o incrível romance de Gillian Flynn. Um sucesso nas livrarias que Fincher transportou para o cinema.

 

 

Uma relação apaixonante, ardente, um casal eletrizante, de uma cumplicidade hipnótica, magnética, deixa tudo para trás na cidade que os juntou, Nova Iorque, para se refugiar no esquecido Missouri, terra natal de Nick Dunne (Ben Affleck). O que para um foi um passo em frente, para outro foi o principio do fim. Amy Dunne (Rosamund Pike) contou cada segundo, conheceu cada recanto da sua nova casa e habituou-se a viver na solidão. Até ao dia em que se fartou de ser elemento de decoração.

 

 

Os problemas de Nick começam no momento em que se esquece da mulher por quem se apaixonou. No cinema há poucas coisas melhores do que um bom filha da mãe. E um filho da mãe não se deixa enganar. Quando Nick chega a casa e se apercebe que a sua mulher desapareceu não imagina o sarilho em que está metido. David Fincher brilha, Gillian Flynn (que adapta o seu romance à grande tela) brilha, Ben Affleck complementa Rosamund Pike (a única nomeação para Oscar que o filme conseguiu - triste academia).

Vertiginoso. Claustrofóbico. Em Gone Girl não existem limites.

BIRDMAN, de Alejandro González Iñárritu

Ainda ouço a contagiante e inebriante batida que marca o passo de Birdman. Uma bateria frenética que transborda as emoções das personagens, que nos coloca dentro do carrocel criado por Iñarritu para transportar para a grande tela o fernesim do teatro, o rebuliço das cenas, a troca constante de personagens e de sensações, o sobe e desce, os dias em que lutamos por mais, queremos mais e conseguimos mais.

 

 

Quando a câmara se liga em Birdman, não mais volta a parar. Está comprometida com a história, comprometida com Riggan (Michael Keaton) e com o seu sonho. Tal como Michael Keaton, Riggan é uma velha porcelana de Hollywood, eclipsada, ultrapassada e esquecida após a intrepertação de um super-herói no princípio da década de 90. Keaton foi Batman, Riggan foi Birdman. Uma personagem da qual nunca se conseguiu desfazer, que o acompanha e atormenta diariamente, que o inferioriza e reprime. Que o rotula. Que o incomoda. Que o deprime. Que o enloquece.

 

 

Ladeados de um excelente elenco, onde Edward Norton se destaca com uma eloquência e um carisma há muito perdidos, Iñarritu e Keaton inventam cinema. Keaton é assombroso, num déjà vu daquilo que vimos com Mickey Rourke em 2008 (terá sido, também para ele, um last goodbye?). Quanto a Iñarritu, depois de me ter oferecido o meu filme favorito de 2010, Biutiful, muitos anos após me ter surpreendido com a energia mágica de Amores Perros, volta a enfeiticar-me. É preciso ver Birdman para perceber o importante caminho que Iñarritu está a percorrer no cinema moderno. E é obrigatório fazê-lo numa grande sala. 

AMOUR (2012)




Atrevo-me a dizer-vos que, enquanto Michael Haneke produzir cinema, arrisca-se seriamente a conseguir títulos, honras e unânime reconhecimento por esse mundo fora. Onde o cinema chegar, a magia de Haneke vai chegar. Amour é a prova viva de que com dois acordes se faz uma canção de amor intemporal. É a prova viva de que com poucas palavras se consegue escrever uma obra-prima. Amour é a prova de que o verdadeiro amor tem pouco a justificar. É intrínseco e naturalmente perceptível por um público suficientemente maduro para o entender. Amour é uma jogada de Haneke que tem tanto de irreverente quanto de clássico.


Uma paradoxo baseado num eterno e profundo amor. Esta é a premissa do filme premiado com a Palma de Ouro de Cannes em 2012 (a segunda para a Haneke nas últimas quatro edições do festival). Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal octogenário que desfruta do prazer dos últimos anos de vida. Na Paris que nos habitou romântica e cultural, são um casal feliz com aquilo que a vida lhes deu. Tudo parece belo e idílico, até que um trágico acontecimento abala a homeostasia do casal. Anne sofre um acidente vascular cerebral que lhe paralisa metade do corpo e que a atira, de forma brutal e impiedosa, para a dependência do marido. A partir deste momento, que marca um volte-face em todo o filme, assistimos ao dia-a-dia de um casal que luta por se manter à tona da água. Assistimos à luta diária, estóica e silenciosa, de um homem a quem roubaram a felicidade e a companhia de uma vida. Assistimos à luta diária, estóica e dolorosa, de uma mulher atraiçoada pelo destino. 


Com uma brutal interpretação por parte dos dois protagonistas (em especial de Emmanuelle, com uma personagem assombrosa), todo o filme se passa num acolhedor e familiar apartamento parisiense, onde não se sente o realizador, onde o espectador faz parte da própria arquitectura do espaço físico do filme, vivendo e percebendo a história na primeira pessoa. É um dos melhores filmes deste ano. E (mais uma vez) a prova de que, na Europa, não há ninguém ao nível de Michael Haneke.

Nota Final: 
A


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Michael Haneke.
Argumento: Michael Haneke.
Ano: 2012
Duração: 127 minutos