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DIAL P FOR POPCORN

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Mil e Uma Noites: O Inquieto, de Miguel Gomes

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É com pena que vejo este filme passar ao lado de Portugal.

É com pena que vejo que um filme como o Pátio das Cantigas eclipsa uma obra-prima do cinema português (o tempo tratará de dar o devido reconhecimento à omelete que Miguel Gomes conseguiu fazer sem ovos) como o Mil e Um Noites. Não se trata de menosprezar a galinha de ovos de ouro que Leonel Vieira descobriu - só o vê quem quer, só apoia o cinema baseado na reciclagem de titulos centenários quem quer. Aliás, a ideia é tão vencedora que se vai replicar em mais meia-dúzia de obras para encher a barriga de quem gostou da fórmula inicial. 

 

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O que mais me custa é que 8 em cada 10 portugueses (isto é uma estatística totalmente aleatória, baseada num censos feito por mim a pessoas que encontrei por aí) olharão para o título Mil e Uma Noites, para as 6 horas de filme e para o nome de Miguel Gomes e acabarão por desistir com a justificação, clássica, de se tratar de uma coisa para intelectuais.

 

Meus caros - estão redondamente enganados.

 

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Que se recusem a ver o Tabu até aceito (embora o faça com pena de quem não se digna a ler a sinopse ou a aguentar os dois minutos do trailer que estão no youtube) - é um filme a preto e branco, sobre o tempo colonial "e isso já não interessa". Mas em Mil e Uma Noites aquilo que vemos é um esforço nobre, valente e ousado de gritar aos sete ventos aquilo em que nos transformaram, aquilo em que nos deixámos transformar - o canto esquecido em que acabámos. Composto por um conjunto de quatro histórias bem-dispostas, que nos forçam a encarar com um sorriso as agruras do presente, as duas horas de O Inquieto, a primeira parte de Mil e Uma Noites, convencem o público a regressar - Dia 24 de Setembro estreará O Desolado e a 1 de Outubro a trilogia encerra-se com O Encantado.

 

Vão vê-lo, por favor. Porque é nosso, é sobre nós e está muito bem feito.

TABU (2012)



Foi o grande filme português de 2012. E numa época de balanços (em que finalmente livres de exames da faculdade estamos mais disponíveis para o cinema), Tabu não podia deixar de passar aqui pelo Dial P for Popcorn. Galardoado no Festival de Berlim, Nomeado pelos Críticos de Londres e de Toronto, elogiado pelos quatro cantos do mundo. É realmente um belo pedaço de arte. Um orgulhoso momento de cinema em português, sobre portugueses e sobre o nosso Portugal além fronteiras. Arrojado sem ser pretensioso,  consciente das suas naturais limitações de produção, Miguel Gomes consegue fazer uma omelete sem ovos, colocando de lado o depreciativo estereótipo do típico filme português que ora tenta levar ao ridículo e absurdo o cinema de autor, ora tenta americanizar uma cópia já de si americanizada de um argumento feito com base em filmes americanos.


O filme corre em dois espaços temporais. Inicialmente, o espectador entra nas casas de Aurora, uma mulher no final da sua vida, amargurada pela solidão e pela saudade da sua filha, e de Pilar, sua vizinha, cinquentona solteira que vive o drama do decrépito final de Aurora. O espaço citadino de uma Lisboa que se despede de 2010 cheia de incertezas, dá lugar ao calor da Angola colonial, onde Aurora, então uma jovem cheia de beleza, energia e inocência, vive os seus primeiros anos de um casamento de sonho com um jovem bonito e bem sucedido. Este idílico cenário, onde o sonho e a fantasia se confundem com a realidade, é abalado pela chegada de Gianluca Ventura, um italiano galante, que conquista os olhos, o coração e o corpo de Aurora.


A história de um amor nas quentes terras africanas, quando a guerra colonial era ainda um projecto e os portugueses viviam afortunados, abastados e felizes numa terra que tomaram como sua. Com requintados pormenores, uma marca própria vincada em todo o filme, um argumento rico e muitíssimo bem escrito, Tabu aparece em 2012 para provar que Sangue do Meu Sangue, em 2011, não foi um mero acaso. O Cinema Português pode muito bem estar a virar a mais importante página da sua história. Veremos o que 2013 nos reserva. Quanto a Tabu, é filme.

Nota Final: 
B+ (8/10)


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Miguel Gomes
Argumento: Miguel Gomes e Mariana Ricardo
Ano: 2012
Duração: 118 minutos