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DIAL P FOR POPCORN

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LINCOLN (2012)



Como retratar o homem sem sacrificar a lenda? Como pegar numa personagem que parece ao mesmo tempo tão familiar e desconhecida? Sobejamente elogiado pelos historiadores, emulado por tudo quanto é político moderno, amado pelo povo e ainda hoje considerado dos melhores - senão o melhor - presidente de sempre dos Estados Unidos da América. Como pegar em Lincoln e mostrar um homem diferente daquele que todos nos habituamos a conhecer? Pois bem, é simples. É dá-lo a Daniel Day-Lewis, o actor com mais versatilidade, carisma e talento do mundo. Aquele superior trabalho de caracterização ajuda a desaparecer na personagem, mas é a mudança de voz, a internalização, a solenidade, o peculiar sentido de humor e a gentileza de alma que ajudam Day-Lewis a verdadeiramente transformar-se em Abraham Lincoln - o homem, não a lenda. 


"Lincoln" vive sobretudo desta interpretação magnífica e reverente de Day-Lewis, que decide abordar o lendário advogado e político tornado Presidente pelo povo americano em 1861 através da sua figura pacata e simples, bondosa e amável, estimada por todos. E o filme realmente funciona assim que Day-Lewis floreia os belíssimos discursos e diálogos preparados com rigor e importância pelo inexcedível Tony Kushner, a real estrela da película. O seu argumento, pese uma ou outra linha de diálogo mais tormentosa e alguma desesperante e interminável necessidade de expor as situações na primeira hora, é um espectáculo. Dinâmico, dá cor e vida à política e passa uma lição importante sem parecer enfadonho e, sobretudo, arrogante e académico, como se estivesse em cima de um pedestal. Tal como faz na sua peça vencedora de Pulitzer posteriormente adaptada pelo próprio para minissérie da HBO realizada por Mike Nichols - "Angels in America", Kushner transmite-nos a verdade, o que é realmente pertinente e acima de tudo que a política é feita por pessoas e que a humanidade ultrapassa sempre o indivíduo. As cenas na Casa dos Representantes são especialmente inspiradas e apaixonantes.


Day-Lewis não é, contudo, o único actor a admirar no filme. Encabeça um enorme elenco, composto por grandes actores, de Jared Harris a Lee Pace, de David Costabile a Hal Holbrook, todos a trabalhar a alto nível e é brilhantemente auxiliado por interpretações igualmente espantosas de Sally Field (uma surpresa, de volta aos grandes papéis), David Strathairn (desde 2005 a trabalhar de forma variada e prolífica) e Tommy Lee Jones (igual a si mesmo, mas com uma faísca que há muito não se via - e em 2012 apareceu a dobrar, com isto e "Hope Springs").


Infelizmente, "Lincoln" é relativamente maçudo na primeira hora, com algumas cenas que não compensam de todo o investimento na história geral da película (uma segunda hora dinâmica e consistente perde valor com aquela interminável "introdução"), alguns actores estão claramente a mais (Joseph Gordon-Levitt é quem me salta logo à cabeça), a palete de cores de Kaminski é muito taciturna e cinzenta e até John Williams parece mais aborrecido que o habitual, com uma banda sonora reciclada e cansada. Steven Spielberg, apesar de merecer palmas pelo auto-controlo exercido (o quanto não sofreu "War Horse" de demasiado Spielberg), não consegue oferecer ao filme a magia de que outrora dispunha e deixa, mais vezes do que devia, o filme fugir para uma amálgama de melodrama absolutamente inapropriada. É uma pena que o filme alterne mais vezes do que devia a mediana com momentos de puro génio, mas é assim. Quando o elenco surge em conjunto no Congresso ou interage com Day-Lewis, o tempo voa e o filme brilha. É pena que viva de cenas, de momentos. Se todo o filme fosse composto com mais cuidado, melhor editado - e sim até o argumento merecia um polimento - teria saído bem melhor. Que esteja a receber os elogios que tem recebido só mostra que a lenda de Lincoln ainda importa a muitos americanos.



Nota:
B (7/10)

Realização: Steven Spielberg
Argumento: Tony Kushner
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, Lee Pace, David Costabile, David Strathairn, James Spader, John Hawkes, Jared Harris, Hal Holbrook, Joseph Gordon-Levitt, Tim Blake Nelson, Bruce McGill, Michael Stuhlbarg, Walton Goggins, Adam Driver, Jackie Earle Haley
Fotografia: Janusz Kaminski
Música: John Williams
Ano: 2012

WINTER'S BONE (2010)



A prova de que um bom filme não tem necessariamente que ter uma grande história. Sei que "Winter's Bone" colecciona fervorosos fãs por esse mundo fora, mas no meu entender a sua história é monótona. No entanto, Debra Granik transformou uma história simples, num belo filme, intenso e forte.

Começo por realçar aquilo de que mais gostei: Fotografia. Winter's Bone prima pela fantástica qualidade das suas imagens. Toda a atmosfera dramática da história é transportada para o ecrã, onde vemos retratada uma América triste, infeliz, fria e cinzenta. Não é, porém, um cinzento morto e sem vida. Por detrás de um aglomerado de árvores despidas pela invernia, vemos força e carácter em pequenos pormenores. Debra Granik retrata paisagens e momentos que marcam a diferença. Que tornam este filme, num filme que será recordado como um dos bons momentos de 2010.


Volto a referir que a história de Winter's Bone é, para mim, medíocre. Não quero com isto dizer que seja má ou não tenha qualidade. Apenas considero que está muito bem potenciada e aproveitada, já que a grande maioria dos realizadores não conseguiriam fazer disto um filme interessante. O filme conta-nos uma história triste. Jennifer Lawrence (numa grande prestação) é Ree Dolly, uma jovem de dezassete anos que, por doença da mãe e desaparecimento súbito do pai por problemas com a justiça, acaba por ter que cuidar dos seus dois irmãos mais novos, Ashlee e Sonny, tentando fazer de tudo para que nada lhes falte. Uma história, infelizmente, muitas vezes repetida e vivida nos mais diversos países que parte para a acção quando Ree é informada que, se o pai não comparecer no tribunal dentro de quinze dias, a casa e todos os seus bens serão utilizados para pagar a sua fiança.


Ree, com receio do que poderá acontecer aos seus irmãos, inicia então uma luta pela descoberta do paradeiro do seu pai. Terá que enfrentar muitos e difíceis obstáculos, já que todos os que a rodeiam (inclusivé o seu pai) estão envolvidos no tráfico de droga e aquilo que Ree procura é algo demasiado importante para lhe ser entregue de mão beijada. Contará, nesta longa caminhada, com a ajuda do seu tio Teardrop (John Hawkes), irmão mais velho do seu pai e a personagem de que mais gostei neste filme.



Nota Final:
B

Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Debra Granik
Argumento: Debra Granik, Anne Rossellini, adaptando o livro de Daniel Woodrell
Elenco: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Dale Dickey, Garret Dillahunt
Fotografia: Michael McDonough
Banda Sonora: Dickon Hinchliffe
Ano: 2010
Duração: 100 minutos