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DIAL P FOR POPCORN

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NINHO DE CUCOS (VII)

Novo mês, novo insurgimento social contras as velhas e austeras medidas que a Troika nos teima em oferecer como brinde natalício antecipado. Governo e sindicatos degladiam-se de forma cada vez menos figurada, numa luta entre pessoas cada vez menos interessadas em lutar. Assim se progride em Passos lentos no país pelo qual já ninguém dá Cavaco. Mas não sou eu, universitário sustentado pela família, que ainda me dou ao luxo de sofrer menos pelos sacrifícios financeiros, que pelo impacto psicossocial da crise, que vou juntar o meu latim à horda de bitaites que apesar de alheios à solução para a crise, são omniscientes relativamente ao facto da necessidade da guilhotina ter cabeças para separar do respectivo pescoço.


Não. Em vez disso deixem-me preocupar com as convocatórias da seleção ou com a mensagem de voz nos comboios da CP, enquanto escolho o país para onde vou emigrar. E se bem que as escolhas do mister Paulo Bento não têm volta a dar, já a robótica e feminina voz, que no final das viagens ferroviárias endereça uma agradecimento pela "preferência" dos seus utentes pela única empresa de comboios no nosso país, podia claramente beneficiar de uma completa remodelação. Sei bem que há alternativas ao transporte ferroviário, mas ter de ouvir uma barbaridade destas de uma operadora de transportes com um serviço tão ruinoso e tão pouco fiável como a CP torna-se tão agradável como ouvir a minha professora, que não chega à aula das 14h antes das 15h30, queixar-se da minha pontualidade. É sofrimento imerecido e numa época em que um noticiário é fonte suficiente de sofrimento para toda a semana revela-se cada vez mais premente suprimir estes desnecessários focos de angústia, para a população em geral, e para mim em concreto. Julgo mesmo oportuno revisitar a minha aula do meio-dia, em que um outro professor meu atentava na necessidade da precisão do discurso, citando Jô Soares com a feliz expressão: "Meça suas palavras!"

No nosso Portugal não impressiona que o efeito borboleta de uma má escolha de palavras em São Bento, seja razão suficiente para desencadear um ciclone de Bragança a Sagres. Por outro lado, não deixa de ser curioso o facto de se chutar uma pedra e aparecerem umas 10 pessoas capazes de identificar a mais ampla variedade de defeitos no novo acordo ortográfico, mas se sai uma notícia n'A Bola ou no Record a dizer que fulano vai ser "irradiado" do desporto, é rara a alma que reconhece a violência dos abusos a que a sua língua materna acabou de ser sujeita. Permitam-me portanto ser apologista do pedantismo, já que dele depende, não só a defesa da nossa cultura linguística, como também o bom funcionamento da nossa disfuncionante sociedade.

Mas quem vive também de uma boa escolha de palavras é o cinema. 


Costuma-se dizer que uma imagem vale mais que mil palavras, mas no fundo ninguém usa imagens para evidenciar a singularidade de uma circunstância. Uma citação, um título, uma discussão são, não raras vezes, exemplos máximos do expoente artístico que um bom filme pode oferecer. Pessoalmente admiro a arte de fazer funcionar um título. Pode não parecer tarefa digna de louvor, mas a congregação de um conjunto de palavras que sirva mais do que o simples propósito de rotular um filme comporta, por vezes, uma qualidade artística que muitas fitas não conseguem sequer aproximar nas suas centenas de minutos de rodagem. Mais do que isso, é difícil nos tempos que correm, encontrar um título que não denuncie metade da história da película, o que não deixa de ser sobejamente irritante, tendo em conta a quantidade de trailers e sinopses que surgem cedo demais e revelam mais do que devem.

A este ponto serve bem ao objectivo do meu argumento tirar "Good Bye Lenin", de Wolfgang Becker, da cartola, obra que representa exemplarmente a escassez de bons títulos a que me refiro. Esta película alemã, cujo nome nos transporta para um universo decerto comunista, oculta de forma encantadora a necessidade desta epígrafe. O filme desenrola-se na Alemanha dividida, mais concretamente do lado de lá do muro, numa altura em que o regime comunista parece prestes a dar os seus últimos suspiros de vida. Sucede então, que pouco antes da queda do muro, a mãe do protagonista entra em coma, e não acorda até que toda a evidência da sociedade em que sempre viveu seja substituída pela máquina capitalista, com rapidez e eficácia tais que a Blitzkrieg hitleriana se sentiria vexada perante tão descomplexada empresa. O desenlace do filme determina entretanto a dramática (porém cómica) tentativa do filho em proteger a ressuscitada mãe da invasão dos valores ocidentais de liberalização económica. Contudo, o pináculo da narrativa fica reservado para o momento em que a pobre mãe, vendo-se finalmente livre do hermético controlo da sua cria, se depara com a alienígena visão de uma Alemanha forrada a painéis publicitários, quando do céu surge, transportada por um helicóptero, uma estátua de Lenin de braço estendido em jeito de despedida. E é aí que o título do filme se desacorrenta da sua mera função de etiqueta, para fornecer àquela cena uma grandiosidade simbólica, de outra forma inatingível.


Este é o verdadeiro alcance que um perfeito uso da palavra é capaz de atingir. Enquanto que a necessidade básica do uso da palavra se confina à tradução de conceitos para linguagem comunicável e objectiva, a fim de fornecer informação para descobrir relatividade, o autor do filme contorna essa utilização comum atribuindo-lhe uma função que ultrapassa vastamente o seu valor concreto e fornece-lhe uma dimensão simbólica poucas vezes disponível fora da arte puramente literária. De qualquer das formas há-de sempre haver quem determine que o filme do Spiderman deva ser estandardizadamente chamado "Spiderman", e daí seja fácil perceber que a mestria do uso da palavra vá muito mais além do que saber juntar meia dúzia de vocábulos para simplesmente encontrar forma de denominar algo. 

Mas pronto isto tem o valor que tem quando é dito por alguém que encabeça os seus textos com números. 

Gustavo Santos