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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

TAXI, de Jafar Panahi

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Limitations often inspire filmmakers to storytellers to make better work, but sometimes those limitations can be so suffocating they destroy a project and often damage the soul of the artist. Instead of allowing his spirit to be crushed and giving up, instead of allowing himself to be filled with anger and frustration, Jafar Panahi created a love letter to cinema. His film is filled with love for his art, his community, his country and his audience

 

Darren Aronofsky, in Berlin Film Festival 2015

Este tipo de promoção não se compra




Estamos a falar de um dos melhores realizadores da actualidade (Darren Aronofsky) a elogiar o novo filme de outro, um dos meus favoritos, "Her" de Spike Jonze. Literalmente mal posso esperar.


PI (1998)


"There will be no order, only chaos."

E o melhor ficou reservado para o fim. Ou no caso da carreira de Aronofsky, para o princípio. Depois de ver Pi conclui que a carreira do (cada vez menos) brilhante Darren Aronofsky está em declínio. Não sei se foi Hollywood. Não sei se foi dinheiro a mais para ideias a menos. Não sei. Mas que o Aronofsky de agora não é o mesmo génio do final da década de 90, não é. Não que agora seja mau. Agora é bastante bom, igualmente consistente e perfeccionista. Mas a pessoa que escreveu e realizou Pi foi um Aronofsky brilhante, ímpar em criatividade, juntando a imprevisibilidade de um argumento arrojado, sensível e extremamente complexo a uma encenação diabólica, a fazer lembrar alguns dos ex-libris do cinema paranóico e psicótico.


Maximillian Cohen (Sean Gullette) é um matemático obcecado em perceber, explicar e racionalizar tudo o que o rodeia. Desde o início da criação até à evolução de Wall Street. Para ele, tudo é dedutível. Tudo se cria a partir de algo preconcebido, como uma espiral de acontecimentos de se sequenciam numa ordem lógica e natural. No entanto, uma obra tão magnânime traz consigo uma dura e penosa transformação nos hábitos de Cohen. Anti-social, deprimido, obcecado, apodera-se do trabalho e vive para a matemática. Astress que constantemente é abalado pelos fracassos da sua investigação junta um (cada vez mais) grave complexo psicótico, que se torna gradualmente incontrolável e indisfarçável.


Para os amantes da matemática, Pi é um delicioso pedaço de arte. É uma personificação de muitos dos sonhos e ambições que se constroem em inúmeras faculdades um pouco por todo o mundo. É um retrato cruel de uma realidade para a qual é atirado todo aquele que busca o impossível.

Para terminar, deixo apenas uma pergunta: O que é feito de Sean Gullette, o melhor do filme e responsável por uma estrondosa actuação?

Nota Final:
A-


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Darren Aronofsky
Argumento: Darren Aronofsky,
Ano: 1998
Duração: 84 minutos.

BLACK SWAN (2010)






"He picked me, Mommy!"


Depois de em The Wrestler o realizador Darren Aronofsky nos ter mostrado o dano físico e psicossocial que a devoção à arte podem causar a uma pessoa, eis que ele volta a terreno conhecido em Black Swan, arrancando uma interpretação memorável de Natalie Portman, daquelas feita para ganhar montanhas de prémios, na qual se vê todo o esforço que a actriz teve que exercer para conseguir interpretar convincentemente uma bailarina de uma companhia de dança com alta reputação e, em simultâneo, actuar ao longo do filme, mostrando  como tanto o desequilíbrio emocional como a obsessão inocente de Nina (em conjunto com outros factores), a nossa protagonista, contribuíram para agravar o complicado estado mental da personagem.


Um visionário inexcedível, Darren Aronofsky sucede em fugir a um argumento com uma história bastante óbvia, transformando o que poderia resumir-se à perda de lucidez de uma bailarina num estudo complexo e intenso sobre a fragilidade da psique de um bailarino, o artista que desempenha o papel principal naquela que é considerada, por muitos, a "arte maior" da dança, a que mais dada é a grandiosas e elaboradas coreografias, a que explora a musicalidade própria das composições clássicas e a usa para grande efeito. Nina Sayers é uma metáfora interessante para o que é ser uma bailarina: uma psique frágil, vulnerável, destruída pelas inúmeras rejeições, pelo esforço mental que requer, pela concentração e atenção ao detalhe e ao pormenor de uma performance imaculada, sem falhas, escondida por detrás de um corpo altamente muscular, que sofre dano ao mesmo tempo que a mente, dano este que pelo contrário é bastante visível. O perfeccionismo paga-se caro.


O filme reside em linhas narrativas muito simples: Nina Sayers (Natalie Portman) é uma das bailarinas mais antigas de uma renomada companhia de ballet norte-americana que vê a sua grande oportunidade chegar quando Thomas (Vincent Cassel), o excêntrico mas enormemente talentoso director da companhia, decide reformar a sua antiga prima ballerina, Beth (Wynona Ryder), e preparar o seu glorioso retorno à proeminência com o seu moderno remake do bailado mais famoso de Tchaikovsky, o Lago dos Cisnes. Nina, atormentada já por si só pelas expectativas ridiculamente elevadas que a sua mãe, Erica (Barbara Hershey), que outrora também fora bailarina, coloca nela, vê o seu estado mental deteriorar-se enquanto se perde numa competição, que até ao fim não sabemos bem se se passa verdadeiramente ou se é só apenas fruto da sua mente, com Lily (Mila Kunis), a nova bailarina da companhia.


Lily é tudo aquilo que Nina sonhava ser e não é; Nina é operática, perfeccionista e trabalhadora, com movimentos delicados e suaves, perfeitos para desempenhar o papel do Cisne Branco, que requer uma inocência e vulnerabilidade que Nina exuma naturalmente. Já o Cisne Negro, que se quer sensual, livre de movimento e mais descontraído, torna-se um desafio titânico para Nina superar. Na sua busca pela perfeição e ideal no que é, invariavelmente, o papel que definirá para sempre a sua carreira como bailarina, Nina perde-se na fina linha entre a realidade e o imaginário, conduzindo-nos com ela pelo mundo competitivo do ballet e pelas exigências físicas e psicológicas que este papel lhe vão impôr.

 
O elenco funciona de forma maravilhosa, com Wynona Ryder em pleno modo neurótico a proporcionar-nos pequenos momentos de prazer, ao vê-la assumidamente representar aquilo que é, hoje em dia, um espelho da sua vida enquanto actriz e Barbara Hershey a elevar o nível de cada cena que protagoniza. Vincent Cassel e Mila Kunis não têm muito mais que explorar fora das linhas de principais propulsores do desabrochar social e sexual de Nina. Sedutores e enigmáticos, contudo pouco mais que isso.

Weisblum e Libatique continuam a colaboração frutífera com Aronofsky, que tão bons resultados vem dando e que atinge um novo máximo em Black Swan, com ambos a realizar um excelente trabalho dando asas à criatividade do mestre e trabalhando em seu prol, com uma fotografia impecável e um trabalho de edição notável a serem os grandes destaques, em termos técnicos, desta película (uma nota de parabéns também à produção artística - o jogo de espelhos, as salas a meia-luz, a casa de Erica e Nina - cheia de pormenores deliciosos, com ar de cela mas também convidativo à intimidade e à relação estranhíssima que as duas possuem). Clint Mansell, o compositor de serviço de Aronofsky, também brilha aqui, com uma adaptação irreverente e irresistível da obra-prima de Tchaikovsky, explorando os mais finos detalhes e transformando-a quase num pesadelo que nos persegue muito depois de abandonarmos o cinema, convertendo o Lago dos Cisnes numa experiência selvagem, pesada, emocionante. E, no fim de contas, há que dar o braço a torcer a Aronofsky. Ninguém consegue revirar tanto o jogo como ele. Mantendo-nos sempre na beira do assento, excita-nos e maravilha-nos a cada minuto que passa, subindo-nos o nível de adrenalina até culminar naquele orgásmico final.

 
Neste pas de deux entre a dança e a vida, entre a realidade e o sonho,  entre a técnica e o talento, Nina (a pessoa) procura libertar-se do enjaulamento e repressão social que a sua mãe lhe impõe, enquanto Nina (a artista) procura libertar-se da perfeição técnica que tantos anos de rigoroso treino lhe impuseram para alcançar o próximo nível: a perfeição artística, capaz de nos ludibriar e encantar ao mesmo tempo. Conseguirá Nina lá chegar? E que preço terá de pagar? É o que Aronofsky nos tenta contar.



Nota Final:

 A-/B+


Informação Adicional:
Realizador: Darren Aronofsky
Argumento: Mark Heyman, Andrew Heinz, John McLaughlin
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Barbara Hershey, Wynona Ryder, Vincent Cassel
Fotografia: Matthew Libatique
Banda Sonora: Clint Mansell
Ano: 2010


Trailer: