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DIAL P FOR POPCORN

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O factor Harvey Weinstein


A caminho da época dourada, lembrei-me de abordar este assunto que me deixa sempre apreensivo quando falamos em campanha para vencer Óscares: como é possível um homem deter tanto poder sobre a Academia, sobre as manobras publicitárias e sobre a produção de filmes em si? Sim, vou falar desse que muitos consideram ser o vilão da sétima arte, o produtor de cinema. Mais especificamente, o grande produtor dos últimos vinte anos e não, não é propriamente devido aos seus louros (senão escolheria Scott Rudin ou Graham King), mas sim pela forma arrasadora com que consegue nomeações e vitórias nas várias cerimónias para os seus filmes e pela forma mestra (alguns diriam desleal) como faz todo o mundo cinematográfico cair nas suas mãos.


"The Punisher", "God", "The Boss". Qualquer pessoa que segue minimamente os Óscares sabe da importância que tem ter Harvey Weinstein do seu lado e não é por acaso que todos os que ganham troféus pela sua produtora (antes Miramax, agora TWC) se lembram dele na hora dos agradecimentos. Desde sempre conhecido pela forma aguerrida e até bruta como trata igualmente produtores, realizadores, técnicos e actores, infame pelas inúmeras confusões em que já se viu envolvido e pelo terror que espalha em Hollywood. Harvey ri-se de tudo isto, porque ele no fim de contas só lá está por uma razão: para ganhar. E nisso, ele é o melhor.

Nos últimos vinte e cinco anos, Harvey Weinstein amealhou para os seus filmes um total ridiculamente bombástico de 303 nomeações aos Óscares, com cinco vitórias para Melhor Filme: "The English Patient" (1997), "Shakespeare in Love" (1998), "Chicago" (2002), "The King's Speech" (2010) e "The Artist" (2011) (e ainda colaborou na campanha de "Lord of the Rings: Return of the King" em 2003). Treze nomeações no total para "Shakespeare in Love" e "Chicago", doze para "The King's Speech" e "The English Patient", dez para "The Artist". Consegue nomeações imprevisíveis para filmes medíocres como "Cold Mountain", "Iris", "The Cider House Rules" ou "Chocolat". Conseguiu Óscares para Colin Firth, Kate Winslet, Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Roberto Benigni, Robin Williams, Gwyneth Paltrow, Michael Caine, Jim Broadbent, Judi Dench, Matt Damon e Ben Affleck, Renée Zellweger, Nicole Kidman, Holly Hunter e Anna Paquin. Garantiu o terceiro Óscar para Meryl Streep, numa corrida que muitos achavam perdida para Viola Davis. E fez o mesmo para Jean Dujardin ganhar o seu primeiro, batendo um George Clooney que há muito parecia ter o troféu assegurado. 


Como o consegue? Muito trabalho, muita publicidade e muita campanha. Muita mesmo. Muitos consideram que a falência da Miramax se deve aos gastos exorbitantes de Harvey Weinstein em prol dos seus filmes. Muitos actores o detestam porque os obriga a fazer campanha incessantemente. É o único grande produtor que insiste em publicitar e fazer passar certas mensagens com o intuito que manobrar a mente dos membros da Academia (desde "Nicole Kidman foi roubada de um Óscar" em 2002 a "Meryl Streep vai ter 17 nomeações, já não é altura de um terceiro troféu?").  A forma triunfante e espectacular como virou a corrida de 2010 a favor de "The King's Speech", depois de "The Social Network" martelar a concorrência nos primeiros prémios, é exemplo disso. No final, este foi o filme que a Academia preferiu. Por detrás da decisão, contudo, sabemos que há muito mais do que os votos. E é aí que Harvey faz o seu trabalho.

Todavia, nem tudo o que vem de Harvey Weinstein é mau. Foi ele que nos primórdios da Miramax, no final dos anos 80 e início dos anos 90, se tornou a maior força do cinema independente na América, com a produção e distribuição dos seguintes clássicos: "Sex, Lies and Videotape" "Reservoir Dogs" e "Pulp Fiction", "The Crying Game", "The Piano", "Good Will Hunting", "Heavenly Creatures", "Ata-me! Desata-me!", "Clerks", "My Left Foot", "Bullets over Broadway", "Cinema Paradiso", "La vitta é bella", "The Wings of the Dove" e "Il Postino", a juntar aos já mencionados "The English Patient" e "Shakespeare in Love". Conto ali um Almodovar, dois Tarantino, um Soderbergh, um Woody Allen, um Peter Jackson, um Jane Campion, um Gus Van Sant...  Sem os Weinstein, "In the Bedroom" (um dos melhores dramas da última década) nunca teria sido nomeado para quatro Óscares (Filme, Actriz, Actor e Actriz Secundária), "Amélie" não teria conseguido mais nenhuma nomeação além de Melhor Filme Estrangeiro e foram os Weinstein que garantiram uma distribuição tão extensa do filme - razão pela qual ele hoje é dos favoritos de muita gente. Também "Cidade de Deus" foi esquecido na hora de nomear em 2002 os Melhores Filmes Estrangeiros, mas Harvey Weinstein não desistiu e arrancou no ano seguinte quatro (!) nomeações. Coisa pouca, para quem tinha pouco mais de dez anos de vida. A Miramax era um sucesso e muito desse sucesso se devia a Harvey e Bob Weinstein, dois irmãos que acima de tudo amavam o cinema.


Como em todos os grandes casos de sucesso, há sempre um momento em que o poder sobe à cabeça: a Miramax cai em 2005 e os Weinstein abandonam o barco. Precisam de uns anos a restabelecer-se sob a alçada da sua nova produtora, a The Weinstein Company, mas aqui e ali vão recuperando, ganhando algumas nomeações e ressurgem em 2008 para mais um cheque-mate (aliás, um duplo cheque-mate): não só ganham a corrida a "The Dark Knight" para Melhor Filme (este suspiro ouviu-se bem para lá de Los Angeles) como ainda arranjam forma de Kate Winslet ser nomeada para Melhor Actriz por "The Reader" (e, ao eliminar a dupla nomeação que ela conseguiria com este filme e com "Revolutionary Road" - lembrem-se que ela vinha sendo nomeada como Actriz Secundária por "The Reader" - garantiam a vitória contra a até então favorita Meryl Streep). Em 2009 a TWC avisava que estava só a aquecer com as oito nomeações para "Inglorious Basterds", com duas avalanches nos dois anos que se seguiram: primeiro com "The King's Speech" em 2010, depois com "The Artist" em 2011. 


E eis que chegamos a 2012. Este ano os Weinstein apostaram forte no novo filme de Paul Thomas Anderson ("The Master"), no favorito de Toronto "Silver Linings Playbook" de David O'Russell e no novo Tarantino ("Django Unchained"), que chega em Dezembro. Além destes três gigantes, a TWC comprou "The Intouchables" (provável nomeado ao Óscar de Filme Estrangeiro), "Bully" (provável nomeado a Melhor Documentário nos Óscares), "Lawless" de John Hilcoat e "Quartet" de Dustin Hoffman. Se bem que estes dois não terão grande hipótese a não ser uma ou outra pequena nomeação, as três grandes peças a exibir pela TWC este ano serão muito provavelmente dos filmes mais falados do ano, o que deverá garantir mais um grande total de nomeações para os irmãos Weinstein e mais um ano de sucesso garantido. 


Bem, talvez não vença Melhor Filme pelo terceiro ano consecutivo, mas uma coisa é certa: ninguém joga o jogo tão bem como Harvey Weinstein. Just watch.



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