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DIAL P FOR POPCORN

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Ninho de Cucos (VI)


Não sei como funciona com as outras pessoas quando têm de escrever sobre cinema, mas comigo a coisa às vezes é feia. A questão recai sobre o facto de, como qualquer outra pessoa, eu escolher os filmes que vejo com base nas expectativas que tenho deles, optando por aqueles que me parecem mais adequados ao meu gosto e assim ficar limitado a ver apenas alguns que me não irão agradar. E isto torna tudo mais difícil, porque num filme de que se não gosta é muito mais fácil objectivar as características que tornam a experiência desagradável, enquanto que num filme que nos deixa boa impressão não raras vezes torna-se difícil de articular em palavras aquele plasma de pensamentos que é responsável por essa positiva impressão. Prova disto é a facilidade com que uma pessoa atinge a típica expressão do "estou sem palavras" quando a força da circunstância exige um agradecimento ou elogio, mas quando o acaso requer uma crítica ou um insulto a torrente de vocábulos originada inunda a consciência de tal forma que a razão geralmente se afoga.


Assim decidi evitar aqui uma lamentação madalénica e aproveitar esta oportunidade para espalhar alguns elogios sobre algo que realmente aprecio. Portanto tendo em consideração o facto de as séries terem recomeçado, achei por bem tecer uns poucos de louvores à melhor série animada de que há memória: South Park! Sim os Simpsons também são porreiros sim senhor, mas não há nada melhor do que chegar a casa depois de um dia cheio de trabalho, depois de ter de aturar três ou quatro suplementos da dose diária recomendada de idiotas e ter um episódio novo de South Park à espera no computador. Não estou a exagerar. Para quem quer que tenha a mania que sabe mais que os outros, como eu, South Park é um refúgio divino, um idioma secreto que nenhum estranho pode compreender. 

Munidos de uma capacidade incrível de satirizar qualquer tema que lhes apareça pela frente, Trey Parker e Matt Stone, os criadores, argumentistas e responsáveis por quase todas as vozes do programa, redefiniram esta forma de paródia social, atingindo temas universais, sob a camuflagem de um grupo de miúdos do 4º ano representados através das formas mais primitivas que os meios de animação actuais têm para oferecer; o que por si só acaba por ser uma sátira ao fascínio pelo o belo e o perfeito que tantos cineastas idealizam como nirvana pessoal.


Tudo começou em 1995 com um orçamento de 2000 dólares para fazer um pequeno clip que servisse como cartão natalício, para enviar aos amigos e familiares. O que ninguém estava à espera é que a incapacidade de Parker e Stone obliterarem o seu génio criativo tivesse tamanha magnitude num short film com tão pouca exposição mediática. O que sucedeu foi que essa pequena animação (feita à moda da escola primária com uma câmara de filme 8mm, cartolina e cola UHU) originou um pequeno milagre através da redistribuição do filme de amigo para amigo, até ir parar aos executivos da Comedy Central que oportunamente resolveram assinar contrato com ambos para a realização daquela que é uma das mais bem sucedidas e duradouras séries animadas da televisão. Isto numa altura em que os computadores eram mais gordos que o John Goodman, e em que um download de 5mb demorava mais do que as temporadas todas do Serviço de Urgência. A verdade é que valia a pena ficar à espera para sacar o vídeo. Apesar de visualmente infantil e parco em qualidade cenográfica, "The Spirit of Christmas" exibe toda a capacidade artística dos seus criadores, num conto onde as 4 personagens principais de South Park (Stan, Kyle, Cartman e Kenny) se deparam com o dilema de "quem apoiar?" quando uma batalha entre Cristo e o Pai Natal, pela supremacia no respectivo feriado, toma lugar. Tudo isto polvilhado com miúdos esborrachados e trocas de insultos infantis entre Cartman e os seus colegas, formam uma história surpreendentemente cativante para o propósito a que estava destinada. E não deixam de acabar com uma lição final de conciliação (que aliás é uma constante na série televisiva), onde um dos rapazes, geralmente Stan ou Kyle, começa com a expressão "I've learned something today..." em que surge sempre um corolário daquilo que os rapazes aprenderam com os eventos do episódio, se bem que em "The Spirit of Christmas" não seja bem esse o caso...


Mas o que separa South Park de qualquer outra série animada não infantil é o facto de se tratar de um trabalho humorístico de opinião. Fazer comédia sem fins argumentativos é infinitamente mais fácil do que fazê-lo com capacidade crítica, e neste departamento ninguém o faz tão bem como estes senhores. Contudo, a forma como lançam as suas contundentes opiniões ou quais os temas que escolhem para alvejar, são completamente alheios às consequências que delas possam surgir. Recordo-me por exemplo do episódio em que Stan e amigos vão ver o filme do "Indiana Jones e a Caveira de Cristal" e ficam tão incomodados que resolvem dirigir-se a um advogado para apresentar queixa contra o Spielberg e o George Lucas por terem violado o Indiana. E não satisfeito com esta dura crítica, o episódio concretiza-a com desagradáveis imagens dos dois cineastas a sodomizarem positivamente o pobre arqueólogo. E como este há imensos outros exemplos da ferocidade dos criadores de South Park, especialmente nos vários episódios dedicados a criticar o fanatismo religioso e as suas ramificações. Decerto que haverá muita gente capaz de censurar este tipo de trabalho, mas com certeza também haveria quem considerasse os Monty Python um bando de palhaços espalhafatosos, e que da mesma maneira que eles se tornaram numa referência mundial, também South Park obterá o seu reconhecimento, mesmo vivendo sob a sombra do poderoso fenómeno "The Simpsons". É minha opinião, porém, que um trabalho humorístico que consegue levar à gargalhada de forma tão fácil e que é ainda capaz de imprimir um traço crítico tão forte e carismático, é digno de um estatuto tão ou mais elevado que os seus rivais da Fox.


Ainda assim, apesar de não beneficiar do mesmo reconhecimento e visibilidade de que os bonecos amarelos usufruem, South Park já teve também direito à sua saga cinematográfica, curiosamente lançada numa fase bem matinal da sua existência, mais concretamente em 1999, com boa aceitação por parte da crítica. A fita faz juz ao seu epíteto "Bigger, Longer and Uncut" pois na verdade parece muito mais tratar-se de um episódio maior e mais comprido, com um esquema narrativo em tudo idêntico ao da série, do que de uma nova vertente do franchising. Mas ao contrário do filme dos Simpsons que não retrata bem a qualidade da série, o filme de South Park traz consigo toda a irreverência e profanidade que caracteriza o estilo humorístico dos seus mentores. A história baseia-se num filme canadiano com linguagem abusiva, ao qual os 4 rapazes assistem, e cuja linguagem adoptam no seu dia-a-dia, até que os seus pais ficam chocados quando reparam. Entretanto conseguem convencer o governo a entrar em guerra com o Canadá, e quando dão por ela aparece Satanás com o seu amigo Saddam Hussein para se juntarem ao reboliço. No fim tudo termina de forma fantástica, mas o que fica do filme é a sátira à censura da liberdade de expressão e à intolerância das autoridades que categorizam os filmes, toda ela impregnada numa comédia animalescamente rude. Um filme que vale a pena ver, especialmente para quem não conhece o universo South Park.


E pronto, aqui fica a minha dose de bajulanço a Trey Parker e Matt Stone, dois tipos que fizeram a carreira apenas com os conhecimentos que obtiveram da congénere americana da nossa disciplina de EVT, e fizeram o favor de dar ao resto do planeta a satisfação de poder contar com a rude genialidade que caracteriza esta parelha. Dois colossos do género. Ao pé deles, Groening e Macfarlane são dois gaiatos...

Gustavo Santos