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DIAL P FOR POPCORN

DIAL P FOR POPCORN

Ninho de Cucos (V)

A pluralidade de interpretações que o género cinematográfico é capaz de produzir faz parte das características que o tornam fascinante, muito embora não seja este aspecto suficiente para o demarcar de outras formas de arte. O que realmente o torna cativante é a possibilidade que proporciona de argumentação racional dessa ambiguidade de perspectiva, ao invés de outras em que a discussão assume critérios menos práticos. Aquilo que a tanto custo tento por em palavras é que enquanto na pintura, na música ou no bailado a discussão artística se fundamenta em argumentos baseados puramente na intuição pessoal, no cinema ou na literatura, pode-se discutir o impacto artístico sob a alçada de argumentos regidos menos pela sensação que pela razão. 
E é por causa de todo este fascínio que gosto de me perder a ler as críticas que os utilizadores fazem em sites como o IMDB, o Rottentomatoes, ou a fantástica blogosfera em que o Dial P for Popcorn se insere; e percebo que enquanto alguém acha grande piada à história, uma outra pessoa não gosta do filme por causa do trabalho de câmara ou da interpretação de certo actor. Assim, compreende-se de uma forma maior o cinema e as suas diferentes variáveis, e que leva, creio, a uma noção mais completa da experiência cinematográfica.


Tudo isto para dizer que no outro dia estive a ver o In Bruges e achei que se trata dos filmes mais bem estragados de que me recordo. De início foge bem ao típico filme de gangster, e dá a noção de ser um filme de qualidade ao introduzir subrepticiamente a situação que leva dois mobsters britânicos (interpretados de forma magnífica por Colin Farrel e Brendan Gleeson) a uma estadia, desejada de forma bem distinta por ambos, na cidade belga de Bruges. Os diálogos vão crescendo com o desenrolar do filme, com uma interessante intermitência entre o desconfortável e o engraçado, e chegam a atingir um nível em que o humor britânico se faz representar por brilhantes gracejos encobertos por um discurso mundano, em que são explorados estereótipos americanos, ou em que o conceito de purgatório é comparado ao Totenham. Não obstante tudo isto, o filme ainda coloca o espectador sob dilemas éticos incompreensíveis para qualquer indivíduo que nunca tenha enviado outro ser para o além, como espelha um dos momentos do filme em que o dever de matar e o direito à vida são reavaliadas pela personagem de Gleeson, quando a tentativa de suicídio do seu colega redefine os seus princípios. Na verdade, todo o filme transporta uma grande dose de expectativa até certo ponto, em que se torna numa desnecessária sucessão de idiotices técnicas que fazem de um grande filme, uma macacada ao género dos Looney Tunes.


- Tudo começa no momento em que, no comboio em que a personagem de Colin Farrel - Ray - viaja para abandonar Bruges, surge, vá-se lá saber como, um polícia que o detém, devido a uma agressão a um turista canadiano dias antes. Isto numa altura em que a carruagem atravessava uma vasta planície, sem sinais de urbanização próxima. De onde surgiu o polícia? E porque andaria ele especificamente naquela carruagem que nem Ray sabia para onde ia, só McDonagh saberá. Mas pronto toda a gente sabe que os omniscientes polícias belgas dominam a arte do teletransporte, por isso não façamos muito caso deste pequeno detalhe.

- Mais tarde o cúmplice de Ray - Ken - é confrontado pelo seu raivoso patrão - Harry (encarnado por Ralph Fiennes) - numa cena que decorre no interior de uma Torre com umas largas dezenas de metros de altura. Ora esta cena, carregada de grande dramatismo, resulta num combate do qual Ken, sai baleado por 2 vezes à queima-roupa, uma na perna, outra na região lateral do pescoço. E é aqui que esta história tão bem construída até então se transforma, de um momento para o outro, num conto do Buggs Bunny e amigos. Se bem que um tiro na perna, apesar de doloroso, possa não ser fatal ou até incapacitante, já o tiro que Ken leva no pescoço poderia levá-lo apenas para o Além ou para ou para os Jogos Paralímpicos. Contudo, no filme a personagem de Brendan Gleeson consegue estancar a hemorragia com a insuperável força dos pensamentos positivos, e atreve-se ainda a escalar alguns degraus até ao alto da torre, onde se decide a mergulhar violentamente para a calçada da cidade belga. E se pensam que nesta altura ele está definitivamente a caminho da outra vida, depois das duas balas e de ter distribuído as suas entranhas por toda a praça onde se esborrachou ao fim de 80m de queda livre, pois pensem outra vez porque estão enganados! Ken tem ainda tempo para um chit-chat com o seu colega Ray, que acorre a socorrê-lo infrutiferamente, já que depois de uns avisos, Ken anuncia que vai morrer. Mariquices se querem que vos diga... para um tipo que sobrevive aquilo tudo, custa-me a crer que não tivesse tempo para uma peladinha e uma jantarada antes de falecer, mas pronto, cada um tem as suas prioridades.


- Por último queria só destacar a conclusão do filme. A realização opta pelo clássico confronto entre o herói e o vilão num shootout à pistolada, em que a qualidade do discurso permanece avassaladora, mas que continua com momentos menos conseguidos, como a cena do barco, onde o perseguido Ray não tenta de modo algum evitar a bala que o acaba por atingir, e em que o condutor do barco não faz sequer caso da situação. Outro pormenor é o facto de depois de tanta eficácia na detenção de Ray, a polícia belga manter-se surpreendentemente alienada de todo o frenesim sanguinolento que agita as ruas de Bruges. Mas provavelmente estariam todos a treinar as suas capacidades de teletransporte em Hogwarts, ou coisa que o valha. O filme termina depois de forma não muito surpreendente mas bastante inteligente, com um forte tom de ironia que desafia derradeiramente os princípios deontológicos da conduta humana.

Terminada esta sangria de palavras contra o filme de Martin McDonagh, talvez seja importante esclarecer que não estou para aqui a exigir que um filme destes seja tão fidedigno como um documentário. O problema aqui é que a narrativa dispõe-se a contar uma história cuja relevância é veiculada unicamente pelos termos em que é contada, e no caso de algum desses termos estar em desacordo com o fio condutor, todo o trama desmorona qual castelo de cartas. A verdade é que um filme deste género, que tem por base uma realidade real, obriga-se a ser concordante em todos os momentos da sua rodagem. É que isto é chato. O filme é bom, muito bom mesmo, mas não é um filme sólido. É que para se por com estas coisas, mais valia introduzir uma realidade liberal, como naquelas comédias baratas tipo Ben Stiller ou Adam Sandler, em que se estabelece de início um acordo tácito, entre realização e audiência, e em que tudo é permitido. Ou até como fazem nos filmes de adolescente, onde qualquer tentativa de aproximação à realidade é sacrificada em prol do humor, ou mesmo em raridades como o Fear and Loathing in Las Vegas onde a temática da toxicodependência atropela qualquer lógica narrativa. Caramba há até quem o consiga fazer com classe e categoria, como atesta um dos mais recentes êxitos do sr. Woody Allen: Midnight in Paris.


Portanto não há desculpa! In Bruges podia ser um filmaço sem aquelas irritantes cenas, que podiam ter sido corrigidas, disfarçadas ou imersas numa realidade semi-imaginada, mas a verdade é que McDonagh consegue empregar com a mesma facilidade a sua brilhante capacidade, tanto para erigir uma inusitadamente interessante história, como para quase vulgarizar todo o esforço empregue nessa façanha. A verdade é que dá a ideia que quem dirigiu o filme não tinha bem noção de como as coisas se iam desenrolar. Não acho que isso seja dramático, porém. Eu próprio não faço ideia como vou acabar este parágrafo, mas parece-me razoável exigir ao tipo, que tem de orquestrar uma plêiade de recursos humanos, materiais e intelectuais, que tenha uma noção forte daquilo que está a fazer. Mas este é o sintoma exacto de que padece também o Mulholland Drive do David Lynch, que partilha ainda com o In Bruges o cariz autodestrutivo, se bem que devido a outros motivos. Não é boa arte iludir o auditório na expectativa da resolução de um enigma, resolvendo-o por meio de uma solução inventada. É a mesma coisa que marcar um golo com a mão, ou ir fazer o choradinho ao professor por causa da nota. Não é assim que é suposto as coisas funcionarem, e não é assim que se satisfaz um espectador. Não falta arrojo, não falta audácia, falta respeito pela narrativa.

E bem, já que estou farto de lançar achas para a fogueira, talvez seja, por fim, altura de endereçar os devidos elogios que Martin McDonagh merece. Para ser honesto, devo admitir que a razão para este rabugento cortejo de parágrafos se deve, em grande parte, a todo o potencial para o crime-comédia que o britânico mostra neste seu primeiro grande trabalho. Costuma-se dizer que no melhor pano cai a nódoa, e neste caso creio que a sapiência popular volta a bater a necessidade de eloquência do gastador de palavras. In Bruges, apesar de tudo o que foi dito, deixa água na boca e dá azo a grandes expectativas sobre se este senhor será capaz de trazer um daqueles filmes perfeitos que servem de culto a gerações. Ficamos à espera.

O Tarantino e o Ritchie que se cuidem!


Gustavo Santos

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